O CEO que Eu Paguei

39 O Tribunal de Dona Olívia


Helena estava inquieta no banco do carona, os olhos grudados no celular, que já não apitava — só tremia. Heitor dirigia com a calma de quem tinha acabado de ganhar na loteria, uma das mãos no volante, a outra ainda repousando na coxa dela, como se estivesse ali por instinto. Mas ele não se dava por satisfeito só por isso, apertava de leve a coxa e acariciava, Heitor adorava aquele coxa grossa e era todinha dele.

— Você tá muito tranquilo pra quem pode ser preso por cárcere privado — ela resmungou, mexendo nos cabelos, o rosto mulato ainda vermelho.

— Relaxa, Helena — ele disse com a voz arrastada, aquele sotaque carioca derretendo as sílabas. — Tá tudo certo. Você só passou a noite com um homem incrível, em um carro confortável, tendo as melhores horas da sua vida. Isso não é crime. É sorte.

— Ai, Heitor... — Ela não sabia se ria ou batia a cabeça no vidro.

Quando o carro parou na porta da casa dela, ela quase pulou. Destravou o cinto com pressa, tentando pensar no que diria para a avó.

— Obrigada pela carona... e... pela noite — ela murmurou, puxando a bolsa.

Mas antes que abrisse a porta, ele a segurou com gentileza pelo braço e a puxou devagar. O beijo veio quente, gostoso, roubando dela o fôlego e a coerência. Um daqueles beijos que bagunçam até o pensamento. Uma das mãos dele estava ao redor do rosto dela e a outra subindo pela coxa.

Quando ele afastou os lábios, encostou a testa na dela e fez carinho com o polegar na bochecha dela.

— Tô feliz pra caralho — sussurrou, com um sorriso genuíno. — E é por sua causa.

Helena ficou muda por um instante. Ele afastou um pouco o rosto e pegou o celular.

Ela viu a tela de bloqueio: uma foto da cachorra dourada deitada no colo dele, a Mel.

Ele destravou: o papel de parede era ele mesmo, de uniforme, camisa do Fluminense, segurando uma bola com cara de quem tinha acabado de sair de um jogo suado.

— Me passa seu número — disse ele, já abrindo a agenda de contatos.

— Sério? Agora?

— Ué. Quer que eu te perca assim? Depois de tudo isso?

Ela, sem graça, ditou os números. Ele digitou e salvou com o nome “Helena ❤️❤️”. Ela viu. E ficou corada.

— Pra quê esses corações? — murmurou.

— Ué. Tu não gostou do meu pacote completo? É o mínimo. — Ele piscou e abriu o WhatsApp. Mandou um simples:

“Chegou bem, meu amor?”

Ela riu com o celular na mão.

— Nem entrei em casa ainda...

— Mas agora já entrou na minha vida. Vale.

Ele apagou a tela e virou pra ela com aquele sorrisinho safado.

— Agora tu me salva também. E me aceita no Instagram. Eu vi que tu viu meu story, hein. Não é justo só tu ver meu perfil. Quero ver o seu também.

— Tá bom, vou aceitar... — ela disse, envergonhada, sorrindo de lado.

— Boa. — Ele esticou a mão. — Me dá um beijo de despedida.

— Ai, não começa. — Ela bufou, mas já se inclinava.

— Anda logo, vai que sua avó apareça armada. — Ele riu.

Ela o beijou de novo, mais rápido dessa vez. E saiu do carro. Ele continuou ali, apoiado no volante, observando enquanto ela se dirigia ao portão.

Foi então que ouviu a porta da frente da casa bater com força.

— HELENA RIBEIRO CAMPOS!

O grito fez Heitor se encolher no banco.

Dona Olívia surgiu, vestida com a camisola estampada e um chinelo de tiras. Os cabelos soltos como uma leoa, os olhos faiscando.

— ONDE É QUE VOCÊ TAVA?! EU QUASE CHAMEI A POLÍCIA!

Helena congelou no meio da calçada.

— Vó, calma. Eu só...

— CALA A BOCA ! SÓ ENTRA

E então, Dona Olívia olhou para o carro.

O olhar dela bateu direto em Heitor, que ainda estava no banco do motorista, parado, com cara de adolescente pego no flagra.

— E VOCÊ! — ela gritou, apontando o dedo. — DESCE DESSE CARRO AGORA! VAI ENTRAR AQUI E ME EXPLICAR O QUE FEZ COM A MINHA NETA!

Heitor engoliu seco.

— Vó... não precisa disso, não... — tentou Helena, mas a voz saiu baixa.

— TÔ FALANDO COM ELE!

Heitor abaixou a cabeça, suspirou, passou a mão no cabelo como quem aceitava o próprio destino, abriu a porta e saiu.

— Pronto — murmurou pra si mesmo. — Agora fodeu.

E foi andando, devagar, como quem vai pro próprio julgamento.

Helena o olhou com os olhos arregalados.

— Você não devia ter descido!

— Você acha mesmo que eu ia te deixar sozinha nessa? — respondeu ele, com um sorriso torto.

Ela suspirou. E pensou, sem querer pensar:

"Esse homem só pode estar doido... por mim."

Assim que atravessaram a porta da casa, Totó veio todo animado, correndo na direção de Helena com o rabinho abanando e a língua pra fora. Helena se abaixou com um sorriso cansado, pronta para o afago, mas o momento foi interrompido.

— TOTÓ, CASINHA! — esbravejou Dona Olívia da sala, de braços cruzados e olhar de fogo.

O cachorro deu um pulo, encolheu o rabo entre as pernas e correu pro canto como se entendesse que a dona estava possuída por sete entidades da fúria.

Helena engoliu seco. Heitor ajeitou a gola da camisa e entrou com a serenidade de quem sabia que estava prestes a enfrentar uma reunião de diretoria com gente que odeia o nome da sua família há três gerações.

— Os dois pro sofá. AGORA!

Eles obedeceram. Helena com o passo rápido e irritado, Heitor com o andar calmo, quase elegante, como se estivesse entrando em uma coletiva de imprensa e não no epicentro do apocalipse.

— Que roupa é essa, Helena?! — gritou Dona Olívia, apontando indignada. — Que horas são essas?! Por que não atendeu o telefone? O que foi fazer na rua vestida assim? JUSTAMENTE ASSIM!

— Eu ia avisar, mas…

— Eu te liguei VÁRIAS vezes! Você quer me enterrar, Helena?

— Vó, me escuta, por favor…

— E VOCÊ?! — agora o dedo apontava para Heitor. — Quem é você? É do tráfico? É cantor de pagode?

Helena já ia falar, mas foi Heitor quem abriu um sorriso calmo, uma leve inclinação de cabeça, e colocou as mãos no colo com pose de bom moço arrependido.

— Dona Olívia, né? Eu sou Heitor. Trabalho com a Helena… e agora… a gente tem... uma proximidade — disse com a voz baixa e medida. O tipo de tom que dizia tudo sem precisar dizer nada.

Dona Olívia e Helena arregalaram os olhos ao mesmo tempo.

— COMO É QUE É?! — exclamou Olívia.

— Como assim?! — rebateu Helena, cutucando o ombro dele com força. — Que história você tá inventando?

Heitor suspirou com o peso de um homem injustiçado e largou um olhar triste para a velha senhora.

— Foi exatamente isso que tentei falar pra ela. Eu fiquei sabendo que a Helena tinha saído pra uma boate, naquele ambiente… perigoso… com essa roupa... — olhou devagar para Helena, fingindo uma decepção profunda — e eu fui atrás. Pra cuidar. Pra tirar ela daquele lugar.

— Você foi O QUÊ?! — Helena gritou, atônita.

— Ué, claro — respondeu ele, com a cara mais lavada do mundo. — Eu jamais deixaria uma mulher como ela sozinha numa situação daquelas. Não foi fácil. Mas eu consegui convencê-la a sair. — Olhou para Olívia com dor nos olhos. — Só Deus sabe o que teria acontecido se ela continuasse lá.

Helena abriu a boca, mas nenhum som saiu.

— Você é um fingido! — ela finalmente explodiu.

— A senhora tá vendo? — disse Heitor, olhando pra Dona Olívia e apontando discretamente pra Helena. — Ela me trata assim sempre. Eu só quero o bem dela.

— Você é um mentiroso! — ela se virou pra avó, irritada. — Vó, ele tava na boate! Com DUAS mulheres! Rindo, dançando, pegando...

— Calma, Helena — ele interrompeu, levantando a mão com um ar piedoso. — Eu tava tentando esquecer a dor de ver você se esfregando naquele tatuado. Mas não consegui. Porque o que eu sinto é maior.

Dona Olívia arregalou os olhos.

— Se esfregando? — ela repetiu em choque.

— ELE TAMBÉM TAVA SE ESFREGANDO! — Helena gritou.

— Eu?! — Heitor piscou com inocência. — Helena, pelo amor de Deus, eu tava tentando te esquecer! É diferente! — e depois virou pra Dona Olívia. — E mesmo assim, não consegui. Porque desde o primeiro dia que conheci sua neta… eu sabia que ela era especial.

— Ah, não! — Helena levantou do sofá. — Eu não vou escutar isso!

— A senhora tá vendo? — Heitor apontou pra ela, o olhar dramático. — É assim todo dia. Eu tento, juro que tento. Mas ela é muito brava. Maltrata meu coração.

— SEU CORAÇÃO?! — Helena gritou. — FOI VOCÊ QUE INVENTOU ESSA CENA TODA!

— Eu só queria te proteger — respondeu ele, tão convincente que Helena quase acreditou por um segundo.

— PROTEGER UMA OVA, HEITOR! Você me levou pro carro como um cavalo de Tróia e agora tá aqui pagando de príncipe encantado?!

— É só a verdade, né, Helena? Eu tô tentando!

— Tá tentando é me deixar maluca!

— Tô tentando te conquistar, porra!

Silêncio.

Dona Olívia arregalou os olhos. Helena congelou. Heitor travou a mandíbula e abaixou um pouco a cabeça. O clima na sala mudou de confusão pra constrangimento num piscar.

Totó latiu da casinha, talvez para aliviar a tensão.

Dona Olívia cruzou os braços, ainda processando tudo.

— Escuta aqui, seu Heitor...

— Sim, senhora. — Ele endireitou a coluna.

— O senhor tá dizendo então que... gosta mesmo da minha neta?

Heitor olhou para Helena, depois para Dona Olívia. O sorriso dele foi pequeno, mas sincero.

— Dona Olívia... se a senhora soubesse o que essa mulher faz comigo… — e olhou de novo pra Helena com o tipo de brilho que derretia defesas.

— Vó... — Helena começou, corando. — Ele tá só brincando.

— Eu nunca falo brincando quando é sobre você — Heitor rebateu, firme, ainda sem tirar os olhos dela.

— Hmpf... — Dona Olívia fungou. — Pois eu ainda vou decidir se você presta ou não, seu Heitor. Mas hoje… cês vão almoçar comigo. Os dois. Agora senta direito e para de fazer cena pros vizinhos!

Helena desabou no sofá, totalmente desarmada. Heitor escondeu um sorrisinho vitorioso, ajeitou o colarinho da camisa e respondeu:

— Vai ser um prazer, Dona Olívia.

Totó latiu de novo.

E ali, no meio do caos, da mentira cínica e da confusão sem sentido… Helena percebeu que estava envolvida demais. E que Heitor Monteiro — o canalha mais convincente que ela já conheceu — estava mesmo decidido a virar parte da vida dela.