O CEO que Eu Paguei
194 O Que Eu Não Tive
POV Helena
Eu estava saindo da consulta com a psicóloga perinatal quando passei a mão na barriga. Instintivo. Um gesto novo, mas que já parecia natural. Sorri.
Ontem, pela primeira vez, eu senti o bebê.
Foi uma sensação estranha… engraçada… mágica.
Como se bolhinhas de sabão estourassem dentro de mim. Uma coisa tão pequena, tão suave, tão… milagrosa… que eu chorei na hora.
A doula disse que logo ele vai chutar.
Que logo vou sentir ele o tempo inteiro.
E eu penso:
Meu Deus, eu vou ser mãe mesmo.
Ainda é estranho acreditar.
Ainda parece uma história que estou inventando para mim mesma.
Ainda não consigo imaginar o rostinho dele, mas o sinto. E o mais curioso é que eu o amo. Mesmo sem conhecê-lo. Mesmo sem nunca ter ouvido sua voz. Amo a ideia dele. O conceito dele.
Amo o Humberto.
É um amor estranho… novo.
Não é o amor que eu sentia pelo meu avô. Nem o que eu sentia pela minha avó.
Nem sequer o que sinto pelo Heitor — e olha que Heitor bagunça tudo em mim.
Esse amor é outro.
Eu sinto um amor que não sei explicar.
Um amor tão limpo, tão instintivo, tão absoluto…
que assusta..
A psicóloga disse que é assim mesmo.
A gravidez muda a gente.
Que os sentimentos vêm em camadas, e que não tem certo ou errado. Só tem o que é real.
E, bem… isso me fez pensar em outra coisa.
Ou melhor, em outra pessoa.
Lorena.
Minha mãe.
Será que ela nunca sentiu isso por mim?
É incabível — impensável — imaginar estar longe do meu filho. Eu penso nesse menino praticamente o tempo inteiro.
E mesmo assim... ela foi embora. Simplesmente me deixou.
Ela me deixou.
E às vezes, isso dói tanto que eu escondo minha dor no banheiro.
Finjo uma cólica. Finjo qualquer coisa.
Fecho a porta e choro em silêncio. Porque tem coisas que nem o Heitor entende.
Nem eu mesma entendo.
E talvez seja por isso que hoje eu esteja indo encontrá-la.
Eu preciso olhar nos olhos da mulher que me trouxe ao mundo e perguntar:
Por quê?
Por que você me abandonou?
Por que nunca me procurou?
E pior... se eu não tivesse passado mal aquele dia, se não tivesse ido parar na maldita casa dela com o Jonas… será que ela sequer teria me procurado?
Provavelmente não.
— Terminei aqui. Agora vou encontrar uma pessoa. — digo, entregando um dos suspiros em formato de Papai Noel que ganhei na clínica para o segurança que me esperava.
Oseias.
Carrancudo. Mal-humorado. Mas, de algum modo, até simpático. Do jeito dele.
Ele pega o doce franzindo a testa.
— Seu marido?
— Não. — suspiro, pela milésima vez — Heitor não é meu marido. Somos só namorados.
Só.
Como se esse "só" não me consumisse por dentro às vezes.
— Para onde?
— Na mansão do governador. Vou tentar... conversar com a Lorena.
Ele arqueia a sobrancelha, como se eu tivesse dito que ia pular de um penhasco.
— A senhora tem certeza? Digo… por conta do bebê.
— É claro que eu tenho. — respondo, firme. Talvez firme demais.
Ele abre a porta pra mim e, assim que entro, ele já se posiciona no banco da frente e pega o celular.
— Vou avisar seu marido.
Reviro os olhos.
— Oseias… você é meu segurança ou espião do Heitor? Porque se ele tá te pagando pra relatar a minha vida, vou ter uma conversa muito séria com ele.
Ele fica sem jeito e me olha se virando no banco.
— Desculpa, senhora. É que eu tô preocupado com o bebezinho também.
Suspiro cansada.
— Vamos recapitular: você se reporta a MIM. Não ao Heitor. Estamos entendido?
Ele engole seco.
— Sim, senhora.
Me ajeito no banco e entrego um saquinho com suspiro para o motorista.
— Carlos, pode seguir para a residência do governador?
— É pra já! — responde o motorista.
Enquanto o carro parte, olho pela janela.
É novidade para mim ser "cuidada" o tempo todo.
Ando me sentindo uma esposa-troféu. E, sim, isso me incomoda — embora menos do que me incomodava antes. Talvez porque, pela primeira vez na vida, eu possa focar em mim de verdade. Na minha gravidez.
E isso… isso não tem preço.
Na verdade, tem. E ainda bem que o pai do meu filho consegue proporcionar para a gente. Nem acredito que estou concordando com isso…
Bom, pelo menos agora eu faço o básico do meu trabalho. O suficiente para o gerente não chamar a minha atenção novamente e nem levar outra correção… levo meu dedo indicador para roçar nos meus lábios, foi uma ótima correção diga-se de passagem.
Mas o meu foco agora…
O foco é ele.
O menino que se mexe dentro de mim e me faz acreditar, dia após dia, que eu vou ser mãe.
E que talvez — só talvez — eu consiga ser a mãe que eu nunca tive.
Penso na minha infância enquanto o carro se desloca.
E dói. Dói como uma ferida antiga que nunca cicatriza. Porque é justamente isso que ela é.
Os meus avós me deram tudo… tudo o que podiam.
Comida, casa, roupa limpa, uma educação decente.
Mas carinho… aquele carinho de mãe… aquele toque cheio de ternura…
Esse eu nunca tive.
E lembro.
Lembro exatamente o momento em que percebi isso pela primeira vez.
Quando eu era pequena, minha professora tinha um filho na minha turma.
E às vezes ela passava a mão no cabelo dele com um carinho tão natural, tão… tão cheio de amor, era diferente do carinho dos meus avós.
Lembro de como a mão dela pousava no ombro dele: como se ele fosse o lugar favorito dela no mundo.
Eu arrancava o elástico do meu cabelo só pra fingir que precisava de ajuda.
Só pra talvez sentir um toque que lembrasse aquele tipo de amor.
Mas o toque…
O toque não era o mesmo.
Nunca foi.
Eu só queria saber como era aquele toque.
O toque de uma mãe que ama o filho.
Uma mãe que me amasse.
— Chegamos, dona Helena.
A voz do Carlos me arranca dos pensamentos.
Nem percebi que já estávamos aqui.
— Esperem aqui. Inclusive você, Oseias.
Ele me olha com aquela cara indignada, como se eu estivesse cometendo a maior injustiça do mundo .
— Senhora, eu sou discreto.
Eu seguro o riso, mas meu sorriso escapa.
— Você é tudo menos discreto.
Ele abaixa a cabeça como um gato emburrado e apoia o braço na janela do carro. Esse cara é uma piada.
Saio do carro, dou dois passos em direção à porta.
Só que…
Minhas pernas travam.
Meu peito aperta.
Um medo infantil, instintivo, vergonhoso… toma conta de mim.
E se ela me machucar ainda mais?
E se eu nunca tiver as respostas?
E se eu nunca tiver sido suficiente para ela?
Respiro fundo, prendo o ar, solto devagar.
Pego o celular para ter um motivo pra adiar mais alguns segundos.
Ele está intacto, novo… mesmo depois de eu ter arremessado ele na parede.
Apple realmente sabe o que faz.
Apple né… tem cara é de Heitor Monteiro. Isso sim.
Abro as mensagens.
Jonas.
De novo.
Esse garoto é um poço de carência.
Desde que descobri que somos irmãos, ele me manda mensagem por qualquer coisa, seja para ver a camisa que ele escolhe para sair, do armário que ele vai mudar de lugar no quarto, até prints de conversas com as garotas que ele sai para depois comentar comigo. Desnecessário, mas confesso que mesmo sendo irritante, faz parte da minha rotina ler e ouvir os áudios dele contando sobre as suas aventuras.
“Me deseja sorte aí, irmãzinha.
O irmão mais forte, mais bonito e claramente mais sensato está indo resolver uma certa situação.
Considere sua honra oficialmente sob minha proteção.”
Reviro os olhos.
Que honra eu perdi?
Eu só fui abandonada.
Digito:
“Como assim? Eu não perdi minha honra em lugar nenhum.”
Ele responde em dois segundos, provavelmente sem pensar, como sempre:
“Lena… respira.
Eu sou o SEU irmão. Eu resolvo as coisas.
É assim que funciona.
Só confia.”
Saio da conversa antes que eu me arrependa de descobrir do que ele está falando.
Abro a conversa com o Heitor.
E aí meu peito relaxa sem eu querer.
Um sorriso bobo invade meu rosto.
“Amor… você vai vir pra empresa hoje?
Tô aqui todo bonzinho, comprei lanche pro prédio inteiro… mas quem eu queria mesmo que aparecesse, não apareceu ainda.
Fica me deixando com saudade à toa.
Já saiu da psicóloga, neném?”
Heitor tem mania de me paparicar como se eu fosse a melhor parte do dia dele.
E eu amo isso.
Eu o amo.
Hoje em dia, eu sou quem eu sempre julguei. Uma mulher completamente apaixonada.
Heitor é a melhor parte do meu dia. Estar com ele, não importa o que estamos fazendo, é meu momento favorito.
Digito:
“Pra ser lanchada de novo? Não. Tenho outros planos.”
Logo já chega a mensagem dele, uma atrás da outra.
“Planos melhores que sentar no colo do homem da sua vida no meio do expediente?
Duvido, amor.
Tô aqui te imaginando desde cedo… e ficando com vontade de repetir tudo que fizemos ontem.
Não faz isso comigo.😫”
Sorrio ainda mais.
“Sinceramente? Não consigo imaginar nada melhor mesmo.”
“Também… depois de mim, qualquer coisa parece sem graça mesmo.😎 ”
Reviro os olhos enquanto levo a mão no rosto. Esse homem é muito convencido e o pior é que eu dou moral, corda e tudo mais que ele quiser.
“Vou falar com a Lorena. Falo com você depois.”
Bloqueio a tela antes de ver a resposta dele.
Não quero que nada mais me distraia agora.
Respiro fundo.
Entro.
Lorena está lá.
Sorrindo.
Um sorriso grande, esperançoso… que me irrita, porque eu não sei o que fazer com ele.
E isso me destrói por dentro.
Porque eu não sei lidar com essa pessoa que sorri assim.
Que se parece tanto comigo.
Que me olha como se eu fosse desejo e remorso ao mesmo tempo.
Ela se aproxima para me abraçar — eu não correspondo.
Vejo a maneira como ela congela.
O sorriso dela quase despenca… mas ela mantém a postura.
— Oi Helena! — A voz dela é gentil.
— Oi. — falo firme.
Ela se encolhe um pouco.
Vejo como ela estala os dedos.
Ela parece fazer isso quando está desconfortável.
Engraçado como eu conheço um tique de alguém que nem conheço.
— E o bebê? Você está indo às consultas?
— Ele está crescendo bem. Já está grandinho.
Ela sorri, orgulhosa. Orgulhosa de um bebê que ela não carrega.
Orgulhosa da filha que ela não criou.
— Eu comprei uns presentinhos pra ele. E pensei que… se um dia você quiser… podemos ir juntas fazer as primeiras comprinhas. Eu tive dois meninos, sei bem do que se precisa.
Dois meninos.
Não deveria doer.
Mas dói.
Como tudo o que envolve ela.
— É… apenas dois meninos. — digo, seca.
O rosto dela se contrai.
Ela engole em seco.
— Digo… filhos homens. Eu tenho dois filhos e uma filha.
Meu estômago dá um nó.
Três?
Mas só dois ela criou.
— Podemos nos sentar? — pergunto, massageando as têmporas.
Preciso sentar. Preciso respirar. Preciso me conter…
Prometi a mim mesmo que daria uma chance a essa conversa.
— Claro! — diz ela rápido demais. — Vamos para o jardim interno.
Caminhamos e vejo a poltrona. Uma poltrona bonita, grande e confortável.
— O Paulo comprou pra você. Disse que queria que você se sentisse bem aqui.
Me sento sem cerimônia.
— Ele é muito gentil.
— Ele é sim… — ela se senta devagar em uma cadeira à minha frente. — Helena… pode me perguntar o que quiser.
Ah, eu vou perguntar.
— Lorena… me conta o que aconteceu. — digo sem rodeios.
Vejo o olhar dela vacilar.
Vejo ela tentar fugir pra dentro de si mesma.
— Direta… como seu pai.
Eu aperto os dentes.
Ela sempre se esconde atrás dele.
Sempre o usa como escudo.
— Você podia começar a ser também.
Ela se assusta com minha franqueza.
Mas continuam, após inspirar fundo.
— Eu era muito nova…
— Isso eu já sei.
Ela aperta as mãos no colo.
— Eu era uma adolescente cheia de sonhos. A gravidez veio de repente…
Eu espero.
Espero as respostas que esperei por VINTE E NOVE anos.
— … Eu lia sobre o Rio nos livros de história. Via nas novelas. Sempre sonhei em morar em Copacabana. E o Henrique… seu pai… era um bom homem. Eu pensei que ele podia cuidar de você enquanto eu realizava meus sonhos.
Meu coração se parte.
Ela diz isso como se tivesse sido uma escolha simples.
— Não doeu me deixar? — pergunto, a voz trêmula.
Ela fecha os olhos.
— Doeu. Doeu muito. Você era o meu bebê. Mas, filha… mesmo uma mulher sendo mãe, ela ainda é ela. E eu tinha desejos, vontades…
— E isso justifica abandonar a família?
— Não! Eu ia voltar… — ela vacila. — E eu voltei. Eu… sentia falta de você. Do Henrique.
— Mas?
Ela engole seco.
— Quando voltei… descobri que seu pai tinha partido. Foi… difícil demais.
Eu penso na morte do meu avô.
Na dor.
Na perda.
— É verdade que meu pai se matou por sua causa? — pergunto sem respirar.
O pânico surge nos olhos dela.
Ela quer fugir.
Ela sempre quer fugir.
— Não! Claro que não!
— Não foi o que minha avó disse.
— Com todo respeito… dona Olívia nunca gostou de mim. Não me surpreende que ela falasse isso.
— Não foi só ela. A cidade inteira dizia.
Ela respira fundo, os olhos marejando.
— Henrique era policial. Ele estava sendo pressionado. Você sabe como essas coisas são. Eu nunca… nunca teria culpa disso.
— Foi muito difícil crescer sem mãe. E sem pai. — digo, e minha voz falha.
Ela desaba.
Chora de um jeito silencioso, doído e sufocado.
E dói ver.
Dói porque eu queria que tivesse doído antes.
Quando eu ainda precisava dela.
— Helena… eu realmente voltei para vocês. Um tempo depois. Você já estava grandinha… e estava tão apegada aos seus avós… que eu achei melhor te deixar com eles.
Meu mundo para.
Meu coração… quebra.
Ela voltou.
Ela… voltou…
E escolheu ir embora de novo.
— Você voltou… e me deixou. De novo?
O choro dela sai mais desesperado, ela leva as mãos no rosto tentando se esconder. Como sempre.
É estranho.
Porque eu não sinto vontade nenhuma de consolar.
Só sinto uma dor profunda, antiga, ardida e sufocante.
Uma dor que até algum tempo atrás eu não sabia nomear.
Mas… agora eu sei. Essa dor se chama abandono.
— Helena… eu não sabia como voltar depois disso. Eu tinha medo. Vergonha. Eu estraguei tudo.
Ela chorava como quem sente pena de si mesma — e talvez sentisse. Porque pra gente como ela, a dor só dói quando o mundo devolve o espelho. E hoje, pela primeira vez, ela estava olhando para ele. E o espelho tinha meu rosto.
Eu respiro fundo.
Eu não quero brigar.
Eu não tenho energia para isso.
Estou grávida, cansada e emocionalmente exausta.
Eu só quero respostas.
Quero saber se existe alguma lógica capaz de costurar essa ferida que me acompanha há vinte e nove anos.
— Lorena… você voltou. Me viu. E decidiu ir embora de novo.
Minha voz sai baixa, quase um sussurro.
— …Você nunca pensou em… me conhecer? De verdade?
Ela aperta as mãos no colo, os dedos repetindo um padrão nervoso — como se tentassem tecer uma desculpa que não existe.
— Helena… você estava tão bem… tão feliz com seus avós… Eu pensei que eu iria te confundir. Que eu iria… piorar as coisas.
Sua voz treme.
— Eu… pensei em você, claro que pensei…
— Então por que não veio?
— Porque… porque eu achei que te faria mal…
— Ou te faria mal, Lorena?
O silêncio dela respondeu por ela.
A desculpa dela é simples.
É limpa.
É confortável.
Mas dói.
Dói porque eu sei que ela acredita nisso.
Dói porque, no fundo, talvez ela realmente tenha usado essa narrativa para dormir tranquila por quase três décadas.
— Você teve medo de quê?
Minha voz não subia.
Ela mergulhava ainda mais fundo.
— Eu era só uma menina, Helena… eu não tinha estrutura, não tinha apoio… Eu fui abandonada pelo seu pai, todos me odiavam, você era tão pequena, eu…
Ela se interrompe. Esperava que eu dissesse alguma coisa.
Não, eu não vou te consolar. Estou aqui pela verdade e nada a mais.
Eu fecho os olhos por alguns segundos.
— E quando eu cresci? — pergunto, abrindo os olhos, olhando direto para ela. — Quando eu fiquei adulta?
Lorena parece murchar.
— Ficou mais fácil, não ficou? Não tinha mais criança pra confundir.
Ela olha para o chão.
Para as mãos.
Para qualquer lugar onde eu não esteja.
— Por que você não me procurou? Nem uma vez?
— Eu… achava que você não ia me querer.
A voz dela é baixa.
Vitimista.
Convenientemente quebrada.
— Você tinha sua vida… seu trabalho… seus avós… Eu… eu fiz tanta coisa errada… que achei que… que seria melhor assim.
Eu sinto uma raiva amarga subir na garganta — mas ela morre, fraca, antes de chegar aos lábios.
Porque a verdade é uma só:
Eu não quero uma discussão. Eu quero justificativas. Mesmo que frágeis. Mesmo que tortas. Se forem verdadeiras, já me bastam.
— Você viveu sua vida inteira, Lorena. Conheceu outro homem. Teve outros filhos. Trabalhou. Morou em outro estado. Viajou. Fez tudo que quis fazer.
Engulo seco.
— E me deixou para trás. E nunca mais olhou.
As palavras doem quando saem.
— Como você simplesmente… esqueceu que tinha uma filha? Como se vive com isso? — A última pergunta sai mais amarga do que eu gostaria, é difícil me segurar.
Ela começa a chorar de novo — um choro teatral, emocional, mas que parece vir mais do medo do que da culpa.
— Eu nunca te esqueci, Helena.
Ela coloca a mão no peito.
— Nunca. Mas cada ano que passava… ficava mais difícil voltar. Eu tinha medo… medo do julgamento… medo da vergonha… medo de você me odiar…
— E você achou que sumir era melhor? — pergunto, cansada.— É isso?
Ela respira fundo, soluçando.
— Eu achei que… se eu desaparecesse… você poderia me perdoar um dia. Que talvez… você entendesse.
— E achou que sumir faria eu te amar?
Ela fica quieta.
Porque nada disso faz sentido.
E, ao mesmo tempo, faz, para ela, do jeito torto de alguém que fugiu a vida inteira.
Eu olho para ela.
Para os olhos que são os meus.
Para o nariz que parece com o meu.
Para o cabelo que tem o mesmo tom que meu tinha quando eu era criança.
E penso:
Como é possível sermos tão parecidas por fora e tão estranhas por dentro?
— Eu não estou aqui pra brigar, Lorena.
Minha voz sai num fio, sincera, frágil de um jeito que eu quase não reconheço.
— Eu só queria… entender.
Não é meu coração, mas algo dentro de mim pulsa uma dor quase insuportável.
— Só queria saber se existe alguma explicação que… tampe esse buraco. — digo gesticulando as minhas mãos, tentando mostrar essa dor, mas não consigo.
— Porque eu estou cansada. E eu vou ser mãe. E eu preciso saber… como você conseguiu ir embora. Porque eu não consigo nem imaginar isso.
Ela abre a boca, a voz falhando:
— Helena… eu… Eu era só uma menina. Eu fiz escolhas erradas. Eu tive medo. E eu não sou tão forte quanto você.
Eu sinto uma lágrima quente escorrer — silenciosa, irritante e involuntária.
A primeira desde que entrei nessa casa.
E, pela primeira vez, Lorena para de falar.
Ela só me olha.
Porque percebe que a minha ferida sangrou.
Eu limpo o rosto rápido, quase brava comigo mesma por permitir.
— Eu só… queria que você tivesse tentado. Uma vez. Uma única vez. Era o mínimo.
Lorena leva a mão à boca, como se minhas palavras fossem as maiores atrocidades.
E talvez sejam.
Porque são a verdade.
Antes de eu abrir a boca novamente, senti meu coração bater de forma estranha.
Como se ele soubesse que estava prestes a escutar algo que não queria.
— Se a vida não tivesse empurrado a gente uma pra outra… — engoli seco — você teria vivido até o fim dos seus dias sem me conhecer?
Ela arregalou os olhos.
E quando demorou mais de três segundos para responder… eu já sabia.
— Helena… — ela começou, a voz falhando — eu acho que… você teria ficado melhor sem mim.
O mundo ficou silencioso.
Absurda e brutalmente silencioso.
Eu já passei por muita coisa.
A morte do meu avô.
O suicídio do meu pai.
Vivi sendo comparada a pior pessoa que diziam ter pisado na terra.
Ser criada sentindo que os outros tinham algo que eu não tinha.
Mas aquilo…
Aquilo atravessou meu peito de uma forma tão fácil, como uma pedra sendo solta devagar em um lago.
E o pior?
Eu fiquei quieta.
Não chorei.
Não tremi.
Só senti um vazio tão grande que parecia que alguém tinha aberto um buraco dentro de mim com as próprias mãos.
Era horrível descobrir assim, desse jeito simples, seco, leve na boca de quem fala, mas pesado demais para quem escuta…
que a minha mãe teria passado a vida inteira sem me querer por perto.
Eu respirei.
Ou tentei.
Não sei.
— Então… — minha voz saiu rasgada, como se tivesse passado por agulhas — me diz uma coisa.
Parede imaginária nenhuma entre nós duas. Nada de desculpa, nada de história triste.
Só… isso.
Parei.
Olhei direto nos olhos dela.
— Alguma vez você já me quis?
O rosto dela deformou.
De culpa, eu acho.
Ou dor.
Ou vergonha.
Ou medo.
Não sei.
Ela levou a mão ao peito, como se tivesse algo preso ali, sufocando.
— Sempre — ela disse. — Eu sempre quis você.
E foi aí que doeu de verdade.
Porque eu senti nos ossos, no estômago, no coração e na pele que aquilo não era verdade.
E mesmo assim… eu queria que fosse.
Queria tanto, tanto, que parecia que minha própria alma estava sendo arrancada pelas extremidades.
A sensação era de ficar nua por dentro.
Como se tivessem tirado minha pele e deixado só o que existe por baixo — carne viva, sem proteção nenhuma.
Eu esperei quase trinta anos por essas respostas.
E agora que eu tinha… eu percebia:
Não existia justificativa.
Não existia arrependimento.
Não existia amor escondido.
Não existia história heroica de mãe perdida que volta.
Lorena viveu a vida dela.
E me deixou fora dela.
Ponto.
A psicóloga perinatal estava errada:
nem toda mãe “nasce com o filho”.
Algumas simplesmente… não nascem.
Eu?
Eu era uma filha sem mãe.
E isso… dói num lugar do corpo que eu nem sabia que existia.
Eu passei a mão no rosto, escondendo a vontade absurda de desabar ali mesmo.
Mas antes que qualquer lágrima viesse, senti aquela sensação de antes — suave, como se uma pena passasse por dentro de mim.
Humberto.
Meu filho.
O meu pequeno.
O único ser no mundo que me ama sem me conhecer.
Que me quer sem esforço.
Sem escolha.
Sem justificativa.
Ele estava ali comigo.
E isso me sustentou.
Eu levantei devagar.
— Eu tive o suficiente por hoje.
Lorena se levantou também, desesperada.
— Helena, espera… você entendeu o que eu quis dizer?
— Não. — respondi, sem raiva. — Eu ouvi. Mas não entendi. Nada justifica o vazio que eu carreguei. Nada apaga o dia em que me contaram que minha mãe tinha ido embora. Nada muda o fato de que eu esperei por você em todo aniversário, em toda apresentação da escola, em toda reunião dos pais. — tentei sorrir, mas não consegui — Eu me esforçava para tirar as melhores notas, sabe? Pensei que se eu fosse a melhor, você voltaria por mim.
— Eu… eu era uma menina.
A voz dela falhou.
E eu encarei de novo.
— Eu também. A diferença é que você escolheu ir. E eu não tive escolha nenhuma. Nem de ter mãe, nem de entender por que a minha me deixou.
Continuei.
— Você é mãe dos meus irmãos. Esposa do Paulo. Eu respeito isso. E você é parte da família Medeiros. A Monteiro e a Medeiros convivem. Então nós também vamos conviver… de vez em quando.
— O que você quer dizer? — ela perguntou, a voz trêmula.
— Que por enquanto… é isso que você vai ter de mim.
Ela caiu de joelhos.
Literalmente.
O som da pele tocando o chão ecoou no jardim interno.
Ela chorou, um choro horrível, doloroso, como se tivesse perdido alguém importante..
Chorou curvada, como alguém que sente um desespero que chegou tarde demais.
— Me perdoa, por favor… Helena… minha filha… por favor…
Eu dei dois passos para trás, surpresa. Não esperava aquela cena.
— Levanta, Lorena. — eu disse baixinho. — Eu não preciso disso. Lágrimas não consertam uma vida inteira de ausência.
— O que eu faço? — ela implorou, as mãos estendidas.
Eu sorri de um jeito triste.
Não por ela.
Por mim.
Por aquela menina que dormia encolhida na cama esperando a mãe se deitar ao lado.
A mesma que aprendeu o seu endereço bem novinha e pediu na cartinha para o papai noel entregar a sua mãe.
E que foi picada por várias formigas por um bom tempo porque guardava um pedaço de tudo que comia debaixo do colchão para a mãe provar.
Sabe, mocinha, você vai ter que ser forte, a sua mãe nunca vai voltar. Ela nunca voltou. Nem por você e nem por ninguém.
— Você já fez o suficiente.
E então virei as costas.
Caminhei em direção à saída sentindo o ar doer por dentro do meu corpo.
Eu sei que ela sabe que nós duas nunca seremos mãe e filha.
Não tem final feliz pra tudo.
Eu sempre esperei pela minha mãe.
Mas descobri que nunca precisei dela.
E ainda bem.
Porque se eu tivesse precisado…
a dor seria maior do que o que eu sou capaz de carregar.
Levei a mão até a barriga e acariciei devagar.
Com delicadeza.
Como se minha pele estivesse fina demais, como se o meu toque pudesse tocar diretamente o meu filho..
— Está tudo bem, filho… — murmurei baixinho, a voz embargada. — Eu te preocupei?
Não veio resposta, claro.
Mas, o meu coração se esquentou. Não sei se é invenção da minha cabeça, mas eu sinto levemente meu bebê se movimentar. É tão sutil, que com certeza é apenas fruto da minha carência.
Dei mais um passo e empurrei o portão de saída.
A luz do entardecer já tinha mudado, o céu dourado começava a se perder no azul escuro.
Do lado de fora, vi Oseias fechando o celular no bolso. Ele se apressou quando me viu, abrindo a porta do carro com um gesto firme.
— A senhora está bem? — a voz dele soava carregada, como se fumasse cinco maços de cigarro por dia.
— Sim. Já posso voltar para o apartamento.
Entrei no banco de trás, sem pressa. Estava exausta.
Não fisicamente — era outro tipo de cansaço.
Mas Oseias demorou a fechar a porta. Ficou ali, meio escorado na porta, a balançando como um menino, meio observando.
— Senhora… coma isso.
Virei o rosto.
Na mão dele, um chocolate. Ouro Branco.
Arqueei uma sobrancelha.
— Então é isso que você carrega por aí?
Ele pigarreou, claramente sem saber onde enfiar os olhos.
— É… é pro bebêzinho. Seu marido disse que ele gosta de doces.
Fiquei encarando o chocolate por um segundo a mais.
Não pelo doce em si… mas pelo gesto.
Pela delicadeza não esperada daquele brutamontes.
Peguei o bombom.
Segurei com a ponta dos dedos.
— Pela última vez… — suspirei, com um sorriso cansado — ele não é o meu marido.
Oseias não respondeu.
Mas não parecia convencido.
Fechou a porta com um cuidado surpreendente. Ainda bem, acho que se ele tivesse batido a porta, eu poderia ter desabado ali mesmo com o som da batida.
— Dirige devagar, por favor…
Carlos faz que sim com a cabeça e vejo que ele coloca baixinho, Hello da Adele.
Cara… não tinha música mais triste? Inacreditável.
Encaro a paisagem fora do carro com dificuldade, as lágrimas estão tão distorcendo toda a minha visão.
Abro o ouro branco e coloco na boca. E à medida que a música vai subindo o tom para o refrão, eu não aguento. Levo uma mão no rosto e choro baixinho.
Eu fui apenas o resultado da escolha de outras pessoas.
Mas, agora… eu sou a continuação das minhas próprias escolhas.
E eu escolho ter a minha família, Heitor, Humberto e todos os outros que agora a compõem.
Eu não escolhi não ter mãe, mas eu escolho não ficar sozinha.
Nunca mais.
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