Era sábado quando Heitor entrou na Monteiro Inc. e, logo nos primeiros passos pelo hall, percebeu que o ambiente estava diferente. Não era nada exagerado, mas o suficiente para chamar a atenção de quem conhecia cada detalhe daquele lugar. A decoração estava mais cuidada, alguns elementos estratégicos, discretos, mas bem posicionados… e então ele se deu conta.

Era Agosto, o mês dos pais.

Um leve sorriso surgiu enquanto ele caminhava em direção ao elevador, porque aquilo trouxe de volta, quase que instantaneamente, a lembrança da foto institucional que haviam tirado dias atrás. Seu avô, seu pai, ele… e agora Humberto. Quatro gerações reunidas, lado a lado, como se o tempo tivesse se organizado só para aquele momento existir.

Aquilo tinha mexido com ele.

Mais do que esperava.

Porque, pela primeira vez, não era sobre seus antepassados. Era sobre ele estar no meio daquilo tudo… ocupando o lugar de pai, de homem da casa, de quem agora também era responsável por manter aquela história viva.

Quando entrou no elevador, enfiou as mãos nos bolsos, mantendo a postura naturalmente firme, mas a cabeça já estava longe dali.

Helena.

Era inevitável. A licença maternidade dela uma hora ia acabar, e essa conversa ainda não tinha sido enfrentada de verdade. Ele sabia que ia chegar… e, quando chegasse, não seria simples.

Se ela quisesse voltar a trabalhar, ele não ia impedir. A verdade é que ele queria ela perto. Dentro do mundo dele. Participando daquilo que ele construiu.

Só que existia um problema.

Um problema que ele conhecia bem.

Heitor soltou um suspiro baixo, quase imperceptível.

Ele não conseguiria se concentrar com Helena na sala dele.

Não mesmo.

Já havia sido difícil o suficiente manter o foco a observando através do vidro lá em Minas Gerais. Já exigia esforço para não arrumar desculpas idiotas para ir até ela — qualquer coisa servia, qualquer assunto virava motivo.

Agora… na mesma sala?

Era pedir pra não trabalhar.

Passou a língua discretamente pelos lábios, desviando o pensamento com um leve balançar de cabeça. Não era o momento de se perder nisso.

Naquela manhã, inclusive, ele tinha conseguido convencer Helena a sair um pouco de casa. Não foi fácil — ela sempre colocava Humberto na frente de tudo — mas ele insistiu. Insistiu porque sabia que ela precisava. As noites com um bebê eram intensas, desgastantes, e Helena se entregava por inteiro, sem economizar energia.

Ele via.

E justamente por ver, queria que ela tivesse um respiro.

Que saísse, que se divertisse, que gastasse sem pensar, que se permitisse ser mulher além de mãe.

E, no fundo, ele gostava de imaginar isso também.

Helena se arrumando, sendo cuidada, escolhendo coisas bonitas… pensando nele.

O elevador abriu e ele retomou o ritmo natural, atravessando o corredor com aquela presença que já era dele — segura, firme e sem esforço.

Mas a mente continuava trabalhando.

Pensou então em Jonas.

Heitor percebeu, nos últimos dias, que ele estava sumido mais do que o normal. Poderia ser a campanha eleitoral… mas ele conhecia bem demais aquele padrão.

Era mulher.

Quase certeza.

Um meio sorriso surgiu com o pensamento, mas não ficou só nisso. Porque ele também tinha notado outra coisa: Jonas tinha mudado. Desde que descobriu sobre Helena, algo nele tinha se ajustado. Ele estava mais presente, mais atento, mais… irmão.

E aquilo significava muito para Helena, afinal, ela nunca antes teve irmãos de verdade.

Agora tinha Jonas.

Tinha Isaac.

Uma construção tardia, meio desajeitada, mas real.

E aquilo mexia com Heitor. Porque ele sabia exatamente o que era crescer sem isso.

Casa cheia, gente ao redor… mas nenhum igual a você. Nenhum pra dividir. Nenhum pra crescer junto.

Ele não teve e nem Helena.

E por isso, dentro dele, aquilo já era decisão:

Humberto não ia crescer sozinho.

Já estava na hora de conversar com Helena para planejarem os futuros irmãozinhos.

Quando ele entrou no escritório e viu uma caixa sobre a mesa, a atenção mudou. Parou por um instante, observando, tentando identificar de onde vinha. Era comum receber presentes de clientes, fornecedores… fazia parte.

Mas, ao se aproximar, o sorriso veio fácil.

“Kit Dia dos Pais.”

Ele soltou uma risada baixa, genuína, passando a mão pela caixa antes de abri-la com calma.

Era o primeiro.

O primeiro de todos os que ainda viriam.

Abriu e começou a olhar o conteúdo com atenção, até que encontrou o convite.

Um dia para levar o filho ao trabalho.

Os olhos dele foram direto para a data.

Batia exatamente depois da vacina dos três meses.

Perfeito.

A imagem veio na cabeça quase instantânea: ele entrando com Humberto nos braços, todos olhando, comentando e admirando.

Não era vaidade. Era orgulho. Era mostrar, sem precisar dizer nada, tudo o que ele tinha construído.

O humor dele mudou completamente depois daquilo. Trabalhou com mais leveza, resolveu documentos, participou de reuniões, lidou com clientes… tudo no ritmo que já era natural dele, mas com uma satisfação constante ali, silenciosa.

Até que o celular vibrou.

Helena.

Ele abriu a mensagem na hora, o canto da boca levantando automaticamente.

Amor ❤️❤️:

“Vermelho ou preto?”

Heitor encostou na cadeira, olhando a tela por alguns segundos, imaginando a cena. Ela ali, escolhendo o esmalte, indecisa… pensando nele.

— Escolha difícil, Dona Helena… — murmurou baixo, quase divertido.

Mas respondeu.

Preto.

Garras de pantera.

Porque combinava com ela.

Com o jeito dela.

Com o jeito que ele via ela.

E com o jeito que ela era dele.

Ainda assim, mesmo com o dia fluindo bem, com o humor leve, com tudo sob controle…

tinha algo que ele precisava resolver.

E aquilo não era o tipo de coisa que ele deixava para depois.

Heitor não se apressou.

Ficou alguns segundos parado diante da janela do escritório, uma mão no bolso, a outra segurando o celular. A cidade se estendia abaixo dele — viva, barulhenta… completamente alheia ao fato de que, naquele momento, ele estava prestes a decidir o destino de algumas pessoas.

Ele respirou fundo.

E então ligou.

— Senhor Monteiro, bom dia — a voz do outro lado veio imediata, respeitosa.

Heitor sorriu de leve.

— Bom dia, Diego. Tudo certo por aí?

O tom era cordial. Quase leve.

— Tudo sim, senhor. Em que posso ajudar?

Heitor caminhou devagar pelo escritório, como quem conversa sem pressa… mas cada passo carregava intenção.

— Eu estava revisando alguns contratos da Fort Group… — disse, casual — e me deparei com o da Plano & Forma.

— Sim, claro. Projeto de controle interno. Está em andamento com a Ana Alice Correia. Inclusive, eu estava pensando—

— Em trazer ela pra dentro, né? — Heitor interrompeu com suavidade.

— Exatamente, senhor. Ela entrega bem. A médio prazo—

Heitor soltou um sopro baixo, quase um riso discreto.

— Diego… você é bom. Eu gosto disso. Mas você ainda está olhando pequeno.

Heitor parou diante da mesa, apoiando a ponta dos dedos nela.

— A gente não vai internalizar ninguém.

A voz continuava calma e educada.

— Na verdade… — ele inclinou levemente a cabeça — vamos encerrar esse contrato.

— Encerrar? — Diego se ajustou — Podemos avaliar, mas existe multa contratual—

— Já avaliei. É baixa. Irrelevante, considerando o tipo de vínculo que eu não tenho interesse em manter.

A frase foi dita com uma tranquilidade que tornava tudo pior. Heitor pegou um copo de água, girando-o lentamente entre os dedos.

— E sobre a Ana Alice… Não faça proposta.

Do outro lado, o CEO hesitou.

— Senhor… ela é uma boa profissional. Talvez estejamos perdendo—

Heitor sorriu, o mesmo sorriso que seu avô tinha.

— Diego… — a voz veio mais baixa — você ainda está achando que isso aqui é sobre desempenho. Não é.

Ele bebeu um gole de água, com calma.

— O projeto que ela está executando… — ele fez uma pausa curta — não é dela. Foi desenvolvido pela minha noiva. Então não faz sentido nenhum eu pagar uma empresa terceirizada… pra alguém aplicar algo que já é meu.

Heitor caminhou até a janela novamente.

— A gente encerra com a Plano & Forma. Hoje.

— Certo…

— Comunicação institucional, limpa. Sem ruído. E Diego…

— Sim, senhor.

Heitor inclinou levemente a cabeça, observando a cidade como se estivesse escolhendo onde pisaria.

— Não abre espaço pra conversa. Não negocia. Não estende prazo. Só resolve.

— Entendido.

Heitor ficou em silêncio por um segundo.

E então finalizou, no mesmo tom educado com que começou:

— Obrigado.

— À disposição, senhor Monteiro.

A ligação foi encerrada.

Heitor abaixou o telefone devagar.

O reflexo dele no vidro mostrava um homem impecável — elegante, controlado… quase agradável.

Mas nos olhos…

Havia algo mais antigo.

Mais escuro.

Algo que não precisava ser ensinado porque já vinha no sangue.

Depois da conversa, seguiu para o almoço com o prefeito, Heitor deixou o restaurante com a sensação rara de um acordo bem fechado. Não tinha sido fácil, mas ele soube conduzir e saiu com condições melhores do que esperava. Era assim que ele gostava de trabalhar: resolvendo, avançando e sem deixar pontas soltas.

Entrou no carro já com a cabeça no próximo compromisso.

Paulo.

O celular vibrou no painel, e ele aproveitou um semáforo para dar uma olhada rápida. Helena havia mandando algumas fotos.

Ela estava no shopping com as amigas, rindo, leve, se divertindo — exatamente como ele queria que ela estivesse. Aquela imagem fez um sorriso surgir sem esforço. Ele reagiu a todas as fotos, uma por uma, e em seguida gravou um áudio.

— Nesse ritmo aí… dá tempo de eu chegar pra carregar suas sacolas, hein. Aproveita o seu dia minha gostosa!

A voz saiu com aquele tom natural dele, meio divertido, meio provocador, mas com um fundo claro de cuidado. Ele gostava de saber que ela estava bem. Gostava mais ainda de participar da rotina dela, mesmo que à distância.

Quando estacionou em frente ao casarão, já viu o carro de Paulo parado ali. Pontual, como sempre. Heitor desceu ajustando discretamente o paletó, não por vaidade, mas por hábito.

Poucos segundos depois, Paulo também desceu do carro, e os dois se encontraram no meio do caminho. O cumprimento veio firme, direto, com aquele aperto de mão sólido seguido de uma batida leve nas costas. Não precisava de mais nada. Ali já estava tudo dito.

Eles se respeitavam.

E se gostavam.

Mas não era mais a mesma dinâmica de antes.

Antes, Paulo era apenas o seu padrinho, o amigo do pai. Agora… era o pai da mulher dele.

Sem perder tempo, Paulo pegou uma sacola rosa no banco de trás e entregou a ele.

— O Francisco teve uma filha. Ela tem seis meses. Se chama Stella. Entrega isso pra ele.

Heitor olhou a sacola, depois voltou os olhos para Paulo, entendendo imediatamente o que estava por trás do gesto.

— Vai causar uma boa impressão — completou Paulo, com naturalidade.

Heitor pegou a sacola, soltando um leve suspiro pelo nariz.

— Certo… espero que funcione.

Paulo deu um meio sorriso, tranquilo, quase seguro demais.

— Vai dar. Francisco é um bom amigo.

Heitor assentiu, mas, por dentro, sabia que aquilo não era só sobre amizade. Era estratégia. Era leitura de cenário. Era saber exatamente onde tocar para abrir caminho.

Enquanto caminhavam em direção à entrada, o pensamento voltou com mais força.

Antônio.

A mandíbula de Heitor travou de leve, e ele desviou o olhar por um segundo, respirando fundo. Aquilo o incomodava mais do que ele demonstrava. Não era só sobre burocracia ou sistema lento — era sobre justiça. Sobre tempo. Sobre o fato de alguém que tinha passado dos limites ainda não ter recebido a consequência devida.

Em outro país, aquilo já estaria resolvido. Sem esse arrastar que parecia não ter fim.

E, mesmo com tudo que ele tinha — dinheiro, influência, acesso — ainda assim… demorava.

— Tá demorando demais… — ele disse, mais baixo, sem esconder o incômodo.

Paulo ouviu, claro.

— Eu sei. — respondeu, no mesmo tom — e é por isso que a gente tá aqui.

Heitor assentiu.

Francisco de Assis Albuquerque não era qualquer juiz. Era um desembargador respeitado, conhecido por ser correto, firme e tradicional — o tipo de homem que não se deixava levar por pressão barata. E talvez fosse justamente por isso que aquela visita fazia sentido.

Não era sobre forçar.

Era sobre se fazer presente.

Sobre deixar claro, com educação e elegância, o peso da situação.

Sobre mostrar que aquilo não era só mais um processo perdido em uma pilha.

Era pessoal.

Muito pessoal.

Heitor apertou levemente a sacola que ainda segurava, consciente de como, naquele mundo, pequenos gestos podiam abrir portas que discursos inteiros não conseguiam.

Assim que entrou no casarão, Heitor sentiu que aquele não era um ambiente comum. Não era só a arquitetura clássica, nem os móveis impecáveis ou o silêncio esmagador, era a sensação de ordem absoluta, de um lugar onde tudo funcionava dentro de limites bem definidos. Aquilo não era uma casa feita para receber… era uma casa feita para manter controle.

Ele já tinha lidado com homens assim.

E, ainda assim, quando os passos surgiram no corredor, seu corpo respondeu antes mesmo da mente — postura alinhada, atenção focada e presença firme.

Francisco de Assis Albuquerque apareceu sem pressa, como alguém que não precisava acelerar para ser notado. Era mais baixo que ele e que Paulo, o corpo mais cheio, mas a presença compensava qualquer diferença física. Os cabelos ruivos já mais discretos com o tempo, o rosto salpicado de sardas e a barba cheia davam a ele uma aparência forte, quase rústica… mas o que realmente dominava o ambiente era o olhar.

Era do tipo que não fazia esforço para agradar ninguém.

E, no instante em que passou por Heitor, ficou claro que ele sabia exatamente quem estava ali.

Paulo se adiantou.

— Francisco.

O cumprimento veio firme, acompanhado de um leve toque no braço, natural, quase cordial demais para alguém que estava prestes a entrar em uma conversa delicada. Francisco respondeu no mesmo nível, sem exagero, sem sorriso aberto, mas com respeito suficiente para mostrar que havia história ali.

— Paulo.

Nada além disso.

Então o olhar dele foi para Heitor.

Heitor deu um passo à frente, sustentando a postura com segurança.

— Desembargador.

A mão foi estendida, firme, como sempre era. O aperto veio de volta… mas sem calor algum. Rápido, direto, quase protocolar.

Francisco soltou primeiro. E nada disse.

O silêncio que se formou em seguida não era desconfortável… era avaliativo. E Heitor conhecia bem aquele tipo de momento — era quando o outro decidia, em segundos, qual seria o lugar dele naquela sala.

Sem recuar, ele levantou levemente a sacola que trazia.

— Trouxe um presente para sua filhinha, Stella é um lindo nome.

Não houve reação exagerada, mas o olhar de Francisco mudou. Ficou mais fechado, mais duro, como se aquela simples menção tivesse atravessado uma linha invisível.

Ele olhou primeiro para a sacola.

Depois voltou para Heitor.

E então falou, sem pressa, sem elevar a voz:

— Eu sempre mantive distância dos Monteiro. E faço questão de continuar mantendo. Ainda mais quando se trata do filho do Renato… e principalmente neto do Afonso.

O nome do avô não era neutro em lugar nenhum — e ali, especialmente, vinha carregado de julgamento.

Por um segundo, o impulso veio. Ele não era homem de aceitar aquilo em silêncio, não quando envolvia a própria história, a própria família. O orgulho subiu fácil, direto, como sempre subia.

— Com todo respeito… — começou, a voz firme — o senhor pode ter seus motivos, mas—

Paulo entrou antes que ele terminasse.

— Francisco, fui eu que pedi para ele trazer.

O tom dele não mudou muito, mas a presença sim. Era o tipo de intervenção que não criava conflito, mas também não deixava espaço para que a situação escalasse.

— Não tem relação com intrigas do passado. Tem relação com cordialidade.

Francisco observou os dois por alguns segundos, como se pesasse não apenas as palavras, mas a intenção por trás delas. Então pegou a sacola, sem pressa, analisando de forma rápida.

— Não precisava.

Mas não devolveu.

E aquilo, por si só, já dizia alguma coisa.

O olhar voltou para Paulo.

— Desde que você se aproximou do Renato Monteiro… — disse, com a mesma calma controlada — você passou a lidar com problemas que antes não existiam.

Heitor sentiu a mandíbula tensionar, mas permaneceu em silêncio. Não por falta de resposta — mas porque entendeu que aquele não era o momento de reagir por impulso.

Paulo, por outro lado, respondeu exatamente como se esperava dele.

— Ou talvez eu tenha passado a olhar com mais atenção para o que já estava lá.

Ele inclinou levemente a cabeça, como quem organiza a própria linha de pensamento antes de continuar.

— Afonso é Afonso, Renato é Renato e o Heitor é o Heitor. — o olhar dele passou rapidamente pelo genro antes de voltar para Francisco. — E nós dois sabemos fazer essa diferenciação.

Francisco indicou os assentos com um gesto breve, sem cerimônia, e se acomodou primeiro, como quem não apenas recebia, mas comandava aquele espaço. Heitor se sentou ao lado de Paulo, mantendo a postura firme, sem relaxar o corpo. Aquela não era uma conversa casual, e ele não trataria como se fosse.

O desembargador cruzou as mãos sobre a perna, observando os dois por alguns segundos antes de falar.

— Eu sei exatamente por que vocês estão aqui.

Paulo inclinou levemente a cabeça, aceitando.

— Isso simplifica as coisas.

Francisco soltou um leve ar pelo nariz, quase um riso contido, e então fixou o olhar nele.

— Simplifica… mas não muda nada. — fez uma pausa curta — Você pode ser candidato à presidência, Paulo… mas isso não te coloca acima da lei.

O tom não subiu.

Mas endureceu.

— E me surpreende que esteja aqui tentando fazer exatamente isso… por causa de uma enteada.

O sangue de Heitor subiu na hora. Mas Paulo respondeu antes, sem alterar o tom, sem perder a elegância — e, ainda assim, corrigindo.

— Não é por uma enteada. — A voz dele veio mais firme agora. — É pela minha filha.

Francisco sustentou o olhar por um instante, como se reavaliasse aquela colocação… mas não recuou.

— Ainda assim, isso não muda o fato de que você está tentando interferir em um processo.

Heitor entrou na conversa, dessa vez, sem esperar. O corpo levemente inclinado para frente, o olhar direto.

— Não estamos tentando interferir.

Francisco virou o rosto para ele lentamente.

— Não?

Heitor sustentou.

— Eu sei que o senhor não gosta de mim. Nem da minha família. Mas o Antônio Fortenelle infringiu a lei. E isso não é uma opinião. É um fato.

Francisco estreitou levemente os olhos, mas não interrompeu.

Heitor continuou, sem elevar o tom, mas deixando claro que não recuaria.

— Eu sou pai. E o senhor também é. — o olhar dele ficou ainda mais firme. — E, como desembargador… o mínimo que se espera é respeito por uma mulher. — Heitor fez uma pausa antes de continuar — Principalmente quando se tem uma filha.

Francisco não se moveu de imediato. Apenas o encarou, medindo, avaliando… e então perguntou, com a mesma calma controlada de antes:

— Isso é uma ameaça?

Heitor soltou um leve ar pelo nariz, quase um riso sem humor.

— Claro que não. É só a realidade. Helena é minha noiva. E filha dele. — indicou Paulo com um movimento sutil. — A gente só quer justiça.

Francisco recostou levemente na poltrona, os olhos ainda presos em Heitor, como se estivesse recalculando o espaço que ele ocupava naquela conversa.

— Justiça… — repetiu, baixo — é uma palavra interessante quando vem de um Monteiro.

Aquilo foi dito sem agressividade. Mas com desprezo suficiente para ser sentido.

Paulo entrou de novo, dessa vez com mais presença.

— Francisco. Você me conhece há tempo suficiente para saber que eu não pisaria aqui para pedir algo fora da lei.

O tom dele continuava controlado, mas havia uma linha mais pessoal agora.

— Mas também me conhece o bastante para saber que eu não ignoro quando alguém ultrapassa limites com a minha família. — a palavra “família” ficou mais carregada do que o resto. — E foi isso que aconteceu.

Francisco olhou para ele, dessa vez com menos resistência e mais atenção. Mas, ainda firme.

— E o que você espera de mim?

Paulo respondeu sem hesitar.

— Que trate esse caso com a prioridade que ele merece. Sem influência. Mas, também sem negligência.

Francisco não respondeu de imediato. Ele manteve o olhar firme nos dois por alguns segundos, como se organizasse mentalmente cada peça antes de falar, e então se recostou na poltrona com a mesma calma de antes.

— Eu já analisei o caso. O Antônio não pega menos de vinte anos.

Heitor soltou um riso curto, sem humor algum.

— No máximo trinta. — a resposta veio imediata, seca, como se já estivesse pronta dentro dele. — Com tudo que ele fez… é isso. Cumpre uma parte, bom comportamento… e volta pra rua.

Ele passou a mão pelo rosto, agora sem tentar esconder a irritação.

— É esse o resultado?

Francisco não mudou a expressão.

— É o que a lei determina. Helena pode pedir uma medida protetiva — continuou ele, no mesmo tom técnico, distante — o que aconteceu com ela é grave, e ele vai pagar por isso. E, por consideração a você, Paulo, eu posso revisar o caso mais uma vez e trabalhar para alcançar a pena máxima possível. — ele parou por um momento para fazer as contas mentalmente — Trinta anos.

Paulo absorveu, mas não se deu por satisfeito.

— Não existe nenhuma forma de aumentar isso? — perguntou, controlado, mas com intenção — o que ele fez foi muito grave.

Francisco inclinou levemente a cabeça, quase em compreensão… mas negou.

— Eu gostaria que fosse diferente. — a voz dele veio mais carregada dessa vez — mas não é. Essa é a pena máxima que ele vai receber dentro do que pode ser aplicado. E isso é muita coisa.

O olhar dele passou por Heitor.

— A vida dele já está arruinada.

Heitor se levantou.

Não foi um movimento brusco… mas foi firme, definitivo. O tipo de gesto que quebra qualquer tentativa de manter a conversa no mesmo tom.

— Arruinada? — a palavra saiu com incredulidade, quase um escárnio. — Isso é muito pouco.

Agora a voz já não estava mais contida. Ele deu um passo à frente, o corpo inteiro tenso.

— Você tem ideia do que ela passou? Do terror que ela viveu?

Paulo já se movia ao lado, percebendo o rumo.

— Heitor—

Mas ele não parou.

— Trinta anos não paga isso!

Francisco observava tudo. Sem pressa. Sem levantar a voz. E então respondeu.

— É exatamente por isso que vocês não entendem o que é lei. Os Monteiro nunca entenderam. Sempre resolveram as coisas pelas sombras… pelas surdinas.

Heitor travou o olhar nele.

Francisco continuou, como se estivesse apenas organizando fatos antigos.

— Afonso Monteiro não saiu da violência. Ele era a violência. Denúncias que desapareciam, testemunhas que sumiam, corpos que apareciam… muita coincidência. — um meio sorriso sem humor apareceu. — E você não é diferente. Eu sei o que você fez com o Antônio Fortenelle quando era adolescente.

O olhar desceu e subiu novamente.

— Um delinquente. Deveria ter passado pela Fundação CASA.

A tensão subiu de forma quase palpável.

Paulo tentou intervir.

— Francisco, isso já—

Mas Heitor já estava completamente tomado.

— Você mede muito bem as suas palavras quando fala da minha família. — a voz saiu baixa. Ele avançou mais um passo. — Porque nada disso pode ser provado. Porque não é verdade.

O olhar dele não se movia.

— Meu pai é um homem íntegro. Sempre foi. — a mandíbula estava travada. — O meu avô podia ser mais duro, mais bruto… mas isso não faz dele um criminoso como você está tentando pintar.

Francisco então se inclinou levemente para frente, apoiando os braços nas pernas, olhando diretamente para Heitor.

E perguntou, com uma calma quase provocativa:

— E agora… é nesse momento que você vai me bater?

Heitor ficou um segundo em silêncio, olhando para ele, claramente incrédulo.

— Você tá falando sério? — a voz dele veio mais grave. — Eu não sou violento. E a minha família também não é!

Paulo entrou, mais firme dessa vez.

— Francisco, você está exagerando. — disse, olhando direto para ele — você me conhece e eu conheço a família Monteiro de perto.

Francisco recostou na poltrona, soltando um sorriso pequeno, sem calor algum.

— O fruto não cai longe do pé.

Aquilo foi o suficiente para Heitor, não iria discutir mais, não valia. Ele deu um passo para trás, o olhar ainda duro.

— Eu não vou ficar aqui ouvindo esse tipo de desrespeito. — virou o corpo em direção a saída — Pra mim, chega.

Paulo se levantou na mesma hora.

— Heitor, espera—

Mas ele não esperou.

Não olhou para trás.

Quando a porta do carro se fechou, o som ecoou mais alto do que deveria. Heitor ficou alguns segundos parado, as mãos ainda no volante, puxando o ar fundo como se conseguisse organizar o que estava sentindo só com isso.

Era um absurdo.

Depois de tudo, depois do que Helena tinha passado… Antônio podia pegar, no máximo, trinta anos. E ainda assim, cumprir uma parte, ter benefício, sair antes. A conta simplesmente não fechava na cabeça dele.

E o pior… ele não confiava no Francisco.

Para Heitor, a justiça podia — e devia — ir mais longe. Existiam caminhos, interpretações, agravantes… alguma coisa. Mas o homem parecia mais interessado em se manter impecável do que em fazer aquilo doer de verdade em quem merecia.

Ele passou a mão pelos cabelos, puxando de leve, e soltou o ar com força.

— Que merda…

Ficou ali, dentro do carro, esperando. Talvez Paulo saísse, talvez ainda conseguisse ajustar alguma coisa, conduzir melhor a situação, desfazer o estrago que ele tinha feito lá dentro. Mas o tempo foi passando e nada.

Provavelmente ainda estavam conversando.

Tentando ajudar o caso.

Coisa que ele não tinha conseguido fazer.

Heitor recostou a cabeça no banco por um segundo, os olhos fechando. Tinha sido um vexame da parte dele. Sabia que não devia ter perdido a cabeça daquele jeito, não com um desembargador, não em um momento como aquele. Sabia que precisava ter sido mais frio, mais estratégico… mais parecido com o próprio pai.

Ele levou as mãos até as têmporas, pressionando, tentando aliviar a pressão que crescia ali.

— Eu preciso me controlar…

Os olhos abriram devagar e, como sempre, Helena veio primeiro. Ele queria ser um homem melhor pra ela. Queria ser firme, presente, seguro… mas não frouxo.

A mandíbula travou.

O que ela pensaria dele? Que ele deixou Antônio continuar por aí? Que ele não fez o suficiente?

O pensamento veio pesado, e junto com ele veio a lembrança do momento em que ele poderia ter acabado com aquilo com aquele tiro. Talvez fosse legítima defesa. Talvez resolvesse tudo.

Heitor fechou os olhos por um segundo, engolindo seco.

— Merda…

Mas não fez.

Ele pegou o celular.

Ainda tinha compromissos, mas a verdade era que nada daquilo importava mais do que resolver aquilo.

Ligou.

A voz veio do outro lado antes mesmo de qualquer cumprimento.

— Acho que a conversinha não foi tão boa.

O tom debochado de Afonso veio sutil.

Heitor soltou um suspiro pesado.

— Oi, vô… — passou a mão no rosto — por que você não me contou sobre o Albuquerque?

A risada grave veio do outro lado.

— Perderia toda a graça.

Heitor balançou a cabeça, olhando para o nada.

— Por que esse cara odeia tanto a gente? Especialmente o senhor?

Do outro lado, houve um pequeno silêncio, seguido de um suspiro.

— O pai dele também era desembargador… tentou me prender algumas vezes. Tudo com prova furada. — Afonso falou com naturalidade, como se estivesse contando uma história qualquer — cresceu ouvindo que eu era um monstro. Nunca fui.

Heitor não respondeu.

— Mas acho que o que pegou mesmo foi outra coisa… — continuou o avô — o Paulo sempre foi mais próximo do Renato do que dele. E você sabe como esse tipo de coisa mexe com a cabeça. — Afonso deu um leve riso — Mas também… quem ia querer ser amigo de um garoto tão chato?

Heitor soltou o ar, cansado. Aquilo explicava, mas não resolvia.

— Enfim… — Afonso voltou ao tom de sempre — eu já sabia que esse pau mole do Albuquerque não ia resolver nada. Já estou no lugar que combinamos. Você vem? — a voz dele começou a se alterar — E anda logo. Você sabe que eu odeio esperar.

— Tô indo. Me dá uns minutos.

Desligou.

Ficou alguns segundos olhando o celular, parado. O motor ainda desligado e a cabeça cheia.

Depois do que aconteceu com Antônio, Afonso tinha chamado ele pra conversar. E não foi uma conversa leve. Foi direta, pesada, do tipo que ficava na cabeça mesmo depois que terminava.

Homem protege a família.

Homem não espera.

Homem resolve.

Heitor tinha feito tudo certo.

Ou pelo menos o que era correto.

O processo estava andando, as audiências iam ser marcadas, tudo dentro da lei, dentro do caminho que deveria ser seguido.

Mas aquilo… não parecia suficiente.

E encontrar o Francisco só deixou isso mais claro.

Mesmo que ele tivesse ficado calmo, mesmo que tivesse conduzido melhor… nada mudaria. O homem era duro, fechado, preso ao próprio código.

Uma mula.

Heitor subiu o Vidigal com o peito ainda pesado da conversa que acabara de ter. O carro avançava pelas curvas, e a cidade ia se abrindo aos poucos, bonita demais para combinar com o gosto amargo que ele levava na boca. Quando chegou ao mirante, viu o avô de longe, sentado no banco como se fosse dono não só daquele pedaço da vista, mas da própria cidade inteira. Afonso vestia roupas leves, claras, adequadas ao calor, e ainda assim havia alguma coisa nele que nunca parecia arejada.

Por alguns segundos, Heitor não se aproximou. Ficou parado, olhando o mar, o recorte das montanhas, o desenho do Rio lá embaixo. Tinha uma lembrança boa daquele lugar. Helena ao lado dele, o sol descendo, o vento bagunçando o cabelo dela, os dois em paz. Aquilo apertou mais do que deveria, porque agora a mesma paisagem parecia contaminada. Como se até a beleza tivesse sido atravessada pela sensação de ameaça que ele não conseguia mais arrancar do corpo.

Quando finalmente caminhou até o banco, Afonso nem virou de imediato. Continuou olhando para frente, como se já soubesse o horário exato em que o neto pisaria ali.

— Porra, eu já estava indo embora — resmungou, com a irritação impaciente de sempre.

Heitor soltou um meio sorriso, sem energia de verdade para sustentar qualquer ironia.

— Desculpa. Foi o trânsito.

Era mentira, e os dois sabiam. Afonso lançou um olhar rápido para ele, daqueles que deixavam claro que tinha percebido, mas não se deu ao trabalho de apontar. Tornou a encarar a paisagem.

— Sabe, moleque… eu tenho me sentido feliz ultimamente.

Aquilo, saindo da boca de Afonso, já era estranho o suficiente para obrigar Heitor a prestar atenção.

— Com o nascimento do Humberto, pelo menos minha linhagem vai continuar. E talvez o menino não cresça molenga como você e seu pai.

Heitor sentou-se ao lado dele, apoiando os braços nas pernas por um instante antes de se recostar. Já estava acostumado. Aquilo, vindo do avô, era quase uma forma torta de afeto.

— Todos estamos felizes que o senhor esteja lá conosco, vô. Eu gosto da casa cheia. Sempre gostei.

Afonso soltou um resmungo pelo nariz, algo entre aprovação e desprezo.

— Você tem uma bela família. Mas ainda faltam mais filhos. Eu te disse para não deixar ela tomar anticoncepcional.

Dessa vez Heitor precisou conter o riso de verdade. Balançou a cabeça, olhando para frente.

— Vamos ter mais filhos no momento certo. Não se preocupe, eu não pretendo parar no Humberto.

— Heitor…

Ele virou o rosto para o avô. Afonso continuava olhando a vista, mas havia alguma coisa mais dura na linha da boca dele.

— Você deixou o Antônio desrespeitar você de um jeito que só seria pior se você fosse um corno manso. Ele tentou sequestrar a sua mulher. Quase machucou o seu filho. E está impune. Quer saber que mensagem isso passa? — agora Afonso virou o rosto, encarando o neto — Passa a mensagem de que podem fazer o que quiserem com a sua família, e você não faz nada. Que é um homem fraco.

Heitor sentiu a mandíbula travar.

A vergonha e a raiva se misturaram de um jeito perigoso, porque a parte mais racional dele sabia que aquilo era uma provocação — mas a outra parte, a parte ferida, a parte masculina, a parte que já vinha moída pela conversa com Francisco, ouviu exatamente onde doía.

— Isso não é verdade — rebateu, mais sério. — Eu tirei tudo do Fortenelle. Ele está em prisão preventiva, e é questão de tempo para isso virar definitiva. Arranquei a empresa dele, ele não tem mais nenhuma ação na FORT GROUP, afastei a Viviane, deixei ele sozinho. Tão podre quanto o pai.

Afonso o encarou com atenção, e então disse, com uma calma quase ofensiva:

— O fruto não cai longe do pé.

Heitor soltou um ar pelo nariz, sem humor nenhum. Era a segunda vez que ouvia aquilo no mesmo dia.

— Isso é verdade. Mas agora o fruto e o pé vão ficar na jaula onde merecem estar.

Afonso arqueou a sobrancelha, sem se impressionar.

— Jaula? — repetiu. — Jaulas nunca duram para sempre.

A frase ficou no ar por um segundo, até ele completar:

— Gregório sai no ano que vem.

Heitor virou o rosto para ele.

— Depois de tudo que ele fez com a Viviane, ainda vai ter a chance de fazer de novo. É isso que eu estou tentando te explicar.

— Ela está protegida — Heitor respondeu, com mais firmeza do que convicção. — A mansão dela é uma fortaleza.

Afonso soltou um sorriso curto, sem calor.

— Ou uma prisão.

Aquela resposta fez Heitor olhar de verdade para o avô. Afonso suspirou, e dessa vez pousou a mão no ombro do neto com uma estranha mistura de dureza e compaixão.

— Com Gregório solto por aí, o único lugar seguro para a Viviane é dentro da própria casa. Ela não viaja. Não sai. Não vive. Porque sabe que ele pode estar esperando por ela. É isso que você quer para a Helena também?

Heitor ficou em silêncio.

Porque era exatamente esse o medo que ele carregava e não conseguia dizer em voz alta.

Afonso percebeu. E foi justamente por perceber que continuou.

— Você sabe que eu estou certo.

Heitor abaixou a cabeça, passou a mão pelo rosto e soltou um ar frustrado.

— Eu não entendo por que esses lixos são soltos tão rápido. Deviam apodrecer na cadeia.

Afonso o observou por um momento, e houve algo quase paternal no modo como respondeu:

— Infelizmente, a justiça não é assim.

Aquilo doeu porque era verdade. Porque vinha depois de um dia inteiro ouvindo limites, prazos, tipificações, possibilidades. Porque era insuficiente. Porque tudo parecia insuficiente.

Heitor abaixou mais o rosto por um instante, sentindo o próprio fracasso latejar.

Então Afonso falou de novo.

— Mas a justiça tem muitas vertentes.

Heitor levantou o olhar na mesma hora.

— O que quer dizer com isso?

Afonso demorou um segundo antes de responder, como se saboreasse a própria frase.

— Que a melhor prisão é a morte. Ninguém sai dela.

O vento bateu mais forte no mirante naquele instante, e Heitor sentiu o corpo inteiro arrepiar. Não por surpresa, mas pelo jeito simples com que o avô dizia aquilo. Como se estivesse falando de chuva.

— Quer que eu mate o Fortenelle? — perguntou, cínico, quase agressivo, mais para testar o limite daquilo do que por acreditar de fato que ouviria um “sim”.

Afonso soltou um pequeno riso.

— Não, é claro que não. Você tem uma mulher, um filho, uma vida. Tem que aproveitar isso.

A resposta teria sido quase tranquilizadora… se não fosse o Afonso.

— Sim — Heitor disse, seco. — E, mesmo merecendo, o Antônio não vai morrer.

Afonso virou o rosto devagar, e o olhar dele tinha aquele brilho frio, perigoso, que sempre fazia Heitor lembrar por que tantos homens ainda baixavam a voz perto dele.

— Ou talvez vá.

A frase saiu quase macia.

— O engraçado da morte, Heitor, é que ela costuma vir dos lugares mais improváveis. Certas lições precisam ser dadas quando alguém mexe com a família dos outros.

Heitor sentiu o estômago retesar.

— Daqui a alguns anos — continuou Afonso — a Helena vai viver do mesmo jeito que a Viviane. Dentro de uma casa, cercada, protegida… e prisioneira.

Heitor odiava o fato de aquela imagem fazer sentido demais.

Odiava porque doía.

Porque era possível.

Porque a mera possibilidade de ver Helena limitada pelo medo bastava para arrancar qualquer resto de paz dele.

— O que o senhor sugere? — perguntou por fim, a voz mais baixa.

Afonso recostou no banco, satisfeito por ter chegado exatamente onde queria.

— Sugiro que, quando o Antônio for preso… seria lamentável se um acidente acontecesse lá dentro.

Heitor abriu a boca para responder, mas Afonso o cortou com um simples erguer de mão.

— Não precisa me responder agora. Pense. — a voz dele saiu calma, elegante e mortal. — Você tem tempo. E eu tenho favores para cobrar em muitos lugares.

Ele então voltou os olhos para a cidade, como se a conversa já estivesse encerrada, como se o peso agora pertencesse unicamente ao neto.

E pertencia.

Heitor ficou sentado ao lado dele, sentindo a revolta latejar, o medo apertar, a culpa corroer e a tentação — a pior parte de todas — se instalar devagar dentro do peito.

Porque ele queria justiça.

Mas, naquele momento, já não sabia mais se ainda estava pensando na mesma coisa que o resto do mundo chamava por esse nome.

Heitor respirou fundo, o maxilar travado, e voltou os olhos para a cidade lá embaixo. Dali do alto, o Rio parecia pequeno. Distante. Controlável. Mas a vida real não era assim. A vida real era Helena olhando por cima do ombro quando entrava em casa. Era o corpo dela tenso em ambientes fechados. Era o modo como ela ainda se encolhia por um segundo quando era surpreendida. Era o filho deles dormindo no berço ao lado enquanto ele tentava convencer a si mesmo de que tudo ficaria bem.

Não ficaria.

Não completamente.

E aquela era justamente a revolta que o consumia.

Porque ele tinha dinheiro. Tinha nome. Tinha influência. Tinha a porra de um império nas mãos. E, ainda assim, não conseguia entregar para a mulher que amava a única coisa que importava de verdade: paz.

— O senhor fala disso com uma facilidade do caralho — ele disse por fim, a voz baixa, mais cansada do que agressiva. — Como se fosse simples.

Afonso soltou um leve resmungo pelo nariz, um som quase divertido.

— E é simples, moleque. O problema é que você insiste em complicar o que os homens de verdade sempre souberam resolver.

Heitor virou o rosto para encará-lo de verdade. O avô estava sereno, com a camisa leve balançando com o vento, as mãos apoiadas no joelho, o perfil marcado contra a luz. Havia algo quase aristocrático nele, pensou Heitor, e era justamente isso que tornava tudo mais sombrio.

— Eu não quero virar isso — Heitor falou, mais para si mesmo do que para ele. — Não quero que a Helena olhe pra mim e veja um homem capaz de…

Ele não terminou.

Afonso virou o rosto devagar e finalmente o encarou, e naquele olhar Heitor viu algo que o irritou ainda mais: uma espécie de piedade. Como se o neto fosse forte demais para ser fraco, mas ainda jovem o bastante para não entender.

— Você ainda está pensando como marido apaixonado — disse Afonso, num tom quase macio, o que nele era sempre mais perigoso. — E isso é bonito. Muito bonito. Sua avó adoraria esse seu olhar de cachorro leal. Mas eu não estou falando do que você quer ser aos olhos da Helena. Estou falando do que precisa ser para garantir que ninguém mais encoste um dedo nela.

A mão de Heitor fechou em punho sobre o banco.

Porque era aí que doía.

Seu avô sempre encontrava o ponto.

Não o orgulho. Nem a raiva. Era o medo.

O medo de falhar.

O medo de um dia Helena precisar dele e ele não conseguir ajudar.

O medo de ver Humberto crescer dentro de uma casa protegida por grades invisíveis.

Afonso percebeu. Claro que percebeu. E, como um predador que fareja sangue, recostou-se um pouco mais, dono absoluto do momento.

— Você acha que eu estou sendo cruel — continuou ele. — Mas cruel foi o que fizeram com a sua mulher. Cruel é o que a justiça faz quando chama de suficiente uma pena que não devolve a paz de ninguém. Cruel é uma mãe viver trancada, um filho crescer cercado de cuidado, e um homem como Antônio ainda respirar no mesmo mundo que eles.

Heitor abaixou a cabeça por um instante. Passou a mão pelo rosto, devagar, tentando segurar a própria respiração.

A imagem de Helena veio outra vez. Não a Helena do shopping, rindo com as amigas. Não a Helena da cama, do filho, dos olhos doces. Veio a outra. A assustada. A esgotada. A que tentava ser forte porque não tinha escolha.

Aquilo o partia.

E seu avô sabia.

— Daqui a alguns anos — Afonso prosseguiu, e agora a voz estava mais baixa, quase íntima — você vai ver o que eu quero dizer. Vai ver a Helena deixar de fazer coisas que ama por medo. Vai ver ela pensar duas vezes antes de sair. Vai ver sua vida inteira se organizar em torno da ameaça de um homem que devia ter deixado de existir no dia em que mexeu com a sua casa.

Heitor ergueu os olhos de novo.

Havia revolta neles agora. Revolta de verdade. Não só contra Antônio. Não só contra Francisco. Contra tudo. Contra o sistema, contra a impotência, contra o próprio fato de estar ali ouvindo aquilo e, no fundo, entendendo exatamente por que aquelas palavras seduziam tanto a parte mais escura de um homem.

— O senhor fala como se já tivesse decidido — ele disse, a voz mais rouca.

Afonso sorriu. Não um sorriso aberto. Apenas aquela curva lenta e quase bonita, mas sem qualquer calor.

— Eu decido muitas coisas, Heitor. A diferença é que nem todas precisam sair da minha boca.

Heitor sentiu um arrepio de puro incômodo subir pela nuca. Porque conhecia aquele tom. Conhecia desde criança. Era o tom que o avô usava quando queria dizer que o mundo já estava se movendo antes mesmo dos outros perceberem.

— Eu não quero isso nas minhas mãos.

Afonso inclinou levemente a cabeça.

— E quem disse que estaria?

Heitor ficou olhando para ele, sem conseguir responder de imediato. Havia algo profundamente vergonhoso naquela conversa. Vergonhoso porque parte dele queria levantar, mandar o avô para o inferno e ir embora. Mas outra parte — a parte furiosa, exausta, masculina, a parte que queria arrancar o medo do corpo de Helena nem que fosse à força — continuava sentada ali.

E isso o enojava.

Afonso viu.

Mais uma vez, viu.

E colocou a mão no ombro dele, firme, pesada, quase paternal.

— Você não precisa decidir nada hoje — disse. — Só precisa parar de fingir que o mundo vai proteger a sua família melhor do que você.

Heitor fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu os olhos de novo, o Rio continuava lindo lá embaixo, como se nada naquele mundo fosse realmente podre. Heitor soltou o ar devagar, apoiou os cotovelos nos joelhos e passou as mãos pelos cabelos mais uma vez.

Estava cansado.

Cansado de tentar ser o homem certo num mundo que premiava os errados. Cansado de levar Helena no colo por dentro e não conseguir arrancar de vez o que tinham deixado nela. Cansado de sentir que, por mais dinheiro e poder que tivesse, ainda dependia de outros homens decidirem até onde sua família merecia ser protegida.

— Eu vou pensar — ele disse, sem olhar para o avô.

Afonso retirou a mão do ombro dele com a satisfação silenciosa de quem já esperava exatamente isso.

— Pense.

E então ficou de pé, ajeitando a roupa com aquela elegância quase irritante.

— Mas não pense por tempo demais. Homens como o Fortenelle sobrevivem da hesitação dos outros.

Heitor levantou em seguida, mais lento, sentindo o peso daquela tarde nas costas. Quando olhou de novo para a paisagem, já não viu o mesmo mirante de antes, nem a lembrança boa de Helena ao pôr do sol.

Viu uma cidade bonita demais para esconder tanta coisa feia.

E, pela primeira vez em muito tempo, já não tinha certeza de onde terminava a justiça… e onde começava algo muito mais perigoso.

Heitor saiu do mirante com a sensação de que tinha deixado uma parte de si mesmo para trás… e levado outra, muito mais pesada, no lugar. A conversa com o avô não tinha terminado ali. Ela seguia com ele, insistente, viva, como se cada palavra ainda estivesse sendo dita dentro da cabeça dele.

Enquanto dirigia, o Rio se abria à frente, bonito como sempre, indiferente ao que ele carregava por dentro. O trânsito fluía, as pessoas seguiam suas rotinas, e tudo parecia normal demais para o tipo de coisa que tinha sido colocada sobre a mesa. A justiça tinha limites — ele tinha visto isso com os próprios olhos naquele dia —, mas Afonso não. E a pior parte não era essa diferença. Era o fato de que, pela primeira vez, Heitor tinha entendido por que alguém cruzava essa linha.

Porque resolvia.

Simples assim.

Ele apertou o volante com mais força, soltando o ar devagar, como se precisasse se conter fisicamente. Aquilo não era só uma ideia absurda. Era uma solução prática para um problema que, até agora, ninguém parecia realmente resolver.

E ele odiava isso.

Odiava o quanto fazia sentido.

Quando entrou na academia, já estava cansado de pensar. Precisava mover o corpo, precisava transformar aquilo em esforço físico, precisava se desgastar até a cabeça acompanhar o cansaço. Começou o treino com intensidade, sem medir muito, só indo. Mas, mesmo assim, os pensamentos voltavam, teimosos.

Francisco, com sua frieza e sua confiança inabalável na lei.

Afonso, com aquela calma perigosa e a forma quase elegante de oferecer algo que não devia nem ser considerado.

E ele, no meio.

Heitor parou por um momento, apoiando as mãos no equipamento, respirando mais pesado. E, dessa vez, não fugiu.

Talvez existisse verdade no que diziam sobre o avô.

Não toda.

Mas parte.

E admitir isso não fazia dele igual.

Heitor Monteiro não era um homem violento. Não era um homem que resolvia tudo na força ou na sombra. Ele era um homem que construía, que protegia, que enfrentava as coisas de frente. Um homem que voltava para casa e encontrava sentido ali. Um homem que amava.

E foi exatamente nesse momento que Helena atravessou os pensamentos dele.

A voz dela, leve, nos áudios.

O jeito como ela falava com ele.

O carinho que vinha sem esforço.

Ele pegou o celular no meio do treino e ouviu de novo os últimos áudios.

Ela perguntando que horas ele chegaria.

Dizendo que estava preparando uma surpresa.

Ele respondeu dizendo que ia treinar e que em uma hora estaria em casa. E quando ela respondeu pedindo para ele não demorar, dizendo que estava com saudade, que estava esperando… Heitor sentiu um peso sair das costas.

Era naquele tipo de momento que ele sabia quem era.

Não era o homem do avô.

Não era o homem da solução fácil.

Era o homem que voltava para casa.

Que queria ver a mulher sorrir.

Que queria deitar ao lado dela e sentir que estava tudo bem, mesmo quando não estava.

Que queria segurar o filho no braços.

Ele não podia manchar aquilo.

Não podia cruzar uma linha que mudaria quem ele era.

E, principalmente, não podia olhar para Helena depois sabendo que tinha se tornado algo que ela um dia teve medo que ele fosse.

Terminou o treino mais leve, não porque os problemas tinham sumido, mas porque ele tinha se encontrado de novo no meio deles.

Heitor entrou no vestiário ainda carregando o peso do dia, o corpo cansado do esforço, mas a mente ainda acelerada demais. Precisava de um banho, de silêncio… precisava de Helena.

E foi como se ela soubesse.

O celular vibrou na mão dele.

Mensagem dela.

“Tira umas fotos pra mim 🫣🍆”

Ele soltou um riso baixo, passando a mão pelo rosto ainda quente do treino, o canto da boca puxando daquele jeito típico dele, meio safado, meio satisfeito.

— Seu desejo é uma ordem…

Murmurou sozinho, já sentindo a mudança de chave acontecer.

Ele olhou ao redor, esperou alguns caras saírem, e foi até o espelho, ainda com o corpo aquecido, a respiração mais lenta agora. Passou a toalha pelo pescoço, ajeitou o cabelo com a mão e pegou o celular.

Sabia exatamente o que ela queria.

E sabia exatamente como entregar.

Com naturalidade, mandou algumas fotos de visualização única mais provocantes, do jeito que sabia que ela gostava. Nada exagerado, mas o suficiente para provocar, para brincar, para manter aquele clima entre eles.

Ela mal recebeu as mensagens e já visualizou.

E ele ficou imaginando Helena parada com o celular na mão, talvez mordendo o lábio, talvez sorrindo daquele jeito meio tímido que ela ainda tinha às vezes, mesmo depois de tudo que eles já tinham vivido.

O celular vibrou de novo.

Ela enviou uma foto de visualização única.

Heitor travou por um segundo antes de abrir. Sentiu o sangue descer e a bermuda da academia já estava esticando antes mesmo dele ver a imagem.

— Essa mulher… — murmurou, baixo, passando a língua nos lábios.

Mas o telefone tocou.

Era seu amigo americano, James.

Ele fechou os olhos, irritado.

— Caralho…

Atendeu rápido, já querendo se livrar.

— James… péssima hora—

— Monteiro, espera—

— Depois eu te ligo.

Desligou.

Voltou direto pra conversa com Helena.

Abriu a foto e ficou hipnotizado.

Era provocação na medida certa, daquele jeito que só Helena sabia fazer, sem esforço, sem exagero, mas o suficiente pra deixar ele completamente focado nela.

— Porra, Helena… — saiu baixo, rouco, quase sem pensar.

Ele passou a mão pelo abdômen, descendo devagar. A cabeça começou a viajar na mesma hora — imaginando ela, imaginando o cheiro, o toque, o corpo dela reagindo do jeito que ele conhecia.

— Como é que eu saio daqui agora…

Murmurou, mais para si mesmo do que qualquer outra coisa.

Mas o telefone tocou de novo, James. Heitor recusou.

E a foto sumiu.

— Ah não… não, não, não…

Agora já era irritação de verdade.

Mas o telefone continuava.

Chamando.

Chamando.

Chamando.

E ele já estava ficando puto.

Atendeu.

— Porra, o que é, cara?!

— O Augusto nasceu.

Heitor ficou imóvel, ainda com o celular na mão, o corpo reagindo a uma coisa e a mente sendo atropelada por outra completamente diferente.

— Augusto? Quem…?

— O filho do Fortenelle.

A respiração dele travou por um segundo, o olhar perdendo o foco, a mente tentando acompanhar o que aquilo significaria dali em diante.