O CEO que Eu Paguei
202 O Natal Que Faltava
A música ambiente era uma versão instrumental de "Noite Feliz", mas para Jonas, não havia nada de “feliz” naquela noite. A decoração luxuosa refletia dourado e vermelho em cada canto da mansão dos Medeiros, e todos os convidados sorriam, brindavam, posavam para fotos e trocavam beijos no rosto como se o mundo estivesse em perfeito equilíbrio.
Mas havia uma cadeira vazia na sala.
Ninguém mais percebia, talvez porque nunca esperaram alguém ali. Mas Jonas esperava. Esperou desde o instante em que soube da existência dela. E agora, mais do que nunca, queria Helena ao lado dele.
Ela era sangue dele. E sangue se honra. E se espera.
Jonas passou o polegar pela borda do copo de whisky, já pela metade, e fingia prestar atenção no que o primo estava contando, algo sobre um projeto social ou uma viagem de última hora para Trancoso. Tudo virava um zumbido.
O sorriso de Jonas era forçado, os olhos dispersos. Ele ria com atraso, dava respostas secas. O primo nem parecia notar.
Mas Jonas notava. E sentia. Sentia uma pontada no peito que misturava decepção com frustração.
Ela devia estar aqui.
Desculpas ou não, Jonas sentia que alguém tinha roubado o direito dele de ter sua irmã no primeiro Natal dos dois juntos.
Ele queria ver ela sorrindo e com as roupas natalinas, com aquele perfume que ele já conseguia reconhecer. Queria que ela estivesse rindo das piadas do tio que ninguém achava graça, revirando os olhos para a ostentação de tudo, falando da comida como se fosse crítica gastronômica. Queria vê-la dizendo que a árvore estava brega — mas bonita — e depois indo ver o presente com o nome dela, embrulhado com um laço verde escuro.
Ele comprou esse presente com gosto. E ainda fez questão de escolher um segundo, para o sobrinho.
Helena tinha que estar aqui.
Jonas apertou os lábios. Tirou o celular do bolso, se afastando do burburinho. Encostou na parede de mármore próxima à escada e abriu a conversa fixada.
Leu de novo. Leu tudo de novo. Procurando alguma falha que justifique. Como quem não acredita que aquilo seja definitivo.
Ele digitou, hesitou. Apagou. Digitou de novo:
Jonas:
Aqui tá bem maneiro. Nosso primo é engraçadão, vai adorar conhecer ele e todo o resto. Quer que eu te busque? Dá tempo ainda.
A mensagem ficou ali, marcada como entregue. Mas sem resposta. Ele suspirou com força.
Sentiu uma onda de raiva subir quente no peito.
— Que porra, cara… — sussurrou, para ninguém.
Que direito aquela velha tinha de deixar ele sem a irmã dele no Natal?
Ela já teve a Helena a vida toda. Criou. Cuidou. Beleza, ponto pra ela. Mas agora era diferente. Agora Helena tinha irmãos. Tinha família. Tinha ele.
Jonas sentiu o maxilar travar.
Ele queria ser o irmão dela. Queria estar. Queria fazer parte. Queria ter a Helena perto. Queria poder contar piada e ver ela irritada. Queria vê-la encher o saco do Isaac por alguma besteira. Queria protegê-la, zoá-la e cuidar dela.
Ele queria ela ali.
— Jonas? — A voz do pai o chamou da porta da sala. Paulo estava com um copo de vinho, a postura elegante de sempre. — Está tudo bem?
Jonas forçou um meio sorriso, aquele que ele sempre usava no gabinete quando precisava dizer que estava tudo sob controle. E ele era excelente naquilo.
— Tudo certo. Só tomando um ar.
Paulo assentiu. Se aproximou, deu um tapinha de leve nas costas do filho.
— Ela não pôde vir, né?
Jonas demorou dois segundos a mais para responder.
— Isso...
— Ela vai vir. Um dia. Vai estar aqui com a gente. Com você. É só o primeiro Natal, filho. As coisas ainda estão... se ajeitando.
Jonas olhou para frente, para a sala onde a árvore acendia e apagava em ciclos.
— É, pai. Mas… eu tava pronto.
Paulo sorriu com pesar.
— Ela não é o tipo de pessoa que se entrega de primeira. Talvez ela precise mais de tempo do que você imaginava.
Jonas assentiu devagar. Mas lá dentro, no fundo de tudo, doía.
Ele tirou o presente do bolso do blazer. A caixa fina e alongada, embrulhada com fita verde. O nome dela escrito com a letra dele no adesivo: “Para Helena.”
Segurou o presente por alguns segundos antes de colocá-lo de volta no bolso. Depois puxou o celular de novo, e escreveu:
Jonas:
Feliz Natal, maninha. Aqui tá tudo lindo. Mas ia ser mais ainda com você aqui. Eu tô aqui. Sempre vou estar. Você sabe, né?
Mensagem enviada.
Mas ele esperaria.
Como quem espera alguém da família voltar pra casa.
Como quem ama sem pedir nada em troca.
Como um irmão espera por sua irmã no Natal.
O Natal não era sua data favorita, mas por algum motivo, talvez ele quisesse que fosse.
Já Isaac sempre amou o Natal. Desde criança, era a época do ano que o deixava mais animado: as luzes, os cheiros, os filmes repetidos passando na TV e o clima de esperança meio melancólico que pairava no ar. Mas, naquele ano, tudo estava diferente. Pela primeira vez, ele não sentia aquela alegria habitual — sentia falta.
Falta dela.
Fazia semanas que não via Helena pessoalmente. A irmã estava ocupada com a nova vida, com a gravidez, com aquele mundo novo que agora girava ao redor de nomes e compromissos que ele não fazia parte. Mesmo assim, Isaac insistia. Depois do estágio, fingia ter outros motivos para passar no shopping do Leblon, mas a verdade é que ficava ali, dando voltas sem destino, esperando que uma notificação qualquer surgisse no celular:
“Zac, vem aqui em casa.”
Ou
“Quer continuar o episódio do Tiger King?”
Mas essas mensagens nunca vinham.
Sentado na poltrona da sala, ele esfregou as têmporas com força e soltou um grunhido frustrado, como se tentasse espantar uma onda de pensamentos que insistiam em apertar seu peito. Jonas não parecia sentir tanto a ausência da irmã. Será que Isaac era exagerado? Será que era carente demais?
Abriu o WhatsApp. Parou na conversa com ela.
Digitou algo. Apagou. Reescreveu. Apagou de novo. Até que, enfim, mandou um simples:
“Feliz Natal, Helena!🎄❤️”
E mesmo assim, a insegurança não passou.
Isaac não costumava se sentir assim — inseguro. Mas quando se tratava de Helena… tudo era diferente. Não era como ser irmão do Jonas, nem como ter sido quase um irmão do Heitor. Aquilo era novo. E ele não fazia ideia do que estava fazendo.
Talvez devesse procurar uma psicóloga. Talvez estivesse pirando. Talvez Helena o achasse insuportável.
Ou pior… talvez ela estivesse se arrependendo de tê-los acolhido.
Mas ele não podia deixar que aquele pensamento virasse realidade.
Levantou de súbito, subiu as escadas, atravessou o corredor e entrou no quarto. Ajoelhou-se diante do armário e puxou uma caixa embrulhada com papel azul metálico — o presente que comprou para Helena. Ao lado, um embrulho dourado, mais clássico, com laço vermelho, que ele havia escolhido para a avó dela, Dona Olívia. Que agora também era avó dele, mesmo que de consideração.
Sem pensar duas vezes, correu até a garagem, pegou a chave do carro no chaveiro e colocou os presentes cuidadosamente no banco de trás. Respirou fundo, ligou o motor e, já com o carro pronto para sair, pegou o celular e discou.
— Porra, Isaac, o que foi? — atendeu Jonas, com a voz impaciente e irritada.
— Vou ver a Helena.
— O QUÊ?!
— Quer vir junto?
Houve um silêncio dramático. Depois, um estalo de empolgação do outro lado da linha.
— Mas é claro que quero! Onde tu tá?
— Vou te esperar na porta. Tô na Porsche.
— Caralho, tô chegando!
Enquanto aguardava, Isaac olhou o próprio reflexo no retrovisor. Estava com uma camisa social branca de listras vermelhas verticais, meio justa no ombro e ridiculamente natalina. Parecia uma bengala doce.
Sorriu de lado.
— Pelo menos, espírito natalino eu tenho. — murmurou para si mesmo.
Minutos depois, a porta do carona foi aberta com tudo e Jonas entrou com aquele jeito escandaloso de sempre. Jogando devagar uma caixa de presente no banco de trás.
— Porra, Zac! Tu é macho demais, irmão!
Isaac riu com um meio sorrisinho, balançando a cabeça.
— Vamos lá ver a nossa irmã.
— Isso merece trilha sonora. Natal raiz, meu parceiro. Confia no pai.
Jonas começou a mexer no celular, conectando no bluetooth e espelhando no painel do carro. Isaac nem teve tempo de reagir.
O som começou a ecoar alto, e no lugar de um clássico natalino, uma batida forte preencheu o ambiente. Isaac arregalou os olhos, imediatamente corando.
— Jonas, que porra é essa?!
— Sente o clima, irmão. Natal da quebrada. Vai dirigindo aí, papai noel da zona sul.
Isaac enfiou o rosto nas mãos, morrendo de vergonha. Mas no fundo, estava rindo.
Seguiram, ele, ao volante da Porsche, com os presentes no banco de trás e o rosto vermelho de constrangimento… e Jonas, batucando no painel, cantando alto a letra absurdamente inadequada:
“Bom dia, princesa
Por favor, sente na Glock
Todos seus desejo eu realizo, a firma é forte
Sei que tu se amarra quando vê o ninja de porte
Até perguntou quem é o dono da Porsche...”
A verdade é que Isaac ainda estava confuso. Ainda sentia o peito apertado. Mas pelo menos, com o irmão ao lado e aquela música ridícula no som, por alguns minutos, era como se tudo ficasse mais leve. E talvez, só talvez, aquele Natal ainda pudesse ser especial.
Enquanto isso, o Natal na mansão dos Monteiro parecia saído de um daqueles comerciais clássicos da Coca-Cola: luzes quentes iluminavam cada canto, laços vermelhos envolviam as colunas, a árvore de natal era imensa e completamente enfeitada, cheiro de cravo e canela pairava no ar e o som suave de um coral instrumental ao fundo. Era quase cinematográfico.
E mesmo assim, naquela noite de 24 de dezembro, Helena se sentia... dividida.
Helena estava um encanto com seu conjunto natalino digno de editorial de revista chique: seus cabelos castanhos estavam mais ondulados com um prendedor de cabelo que o separava em duas camadas, uma camisa de tom vermelho bordô combinada com um vestido jardineira de tecido nobre em verde escuro. Tudo milimetricamente pensado — superstição ou não, toda mulher que passa o Natal de verde engravida, e bom... com a barriga já redondinha e alta, a missão estava claramente em curso. Dra. Ana Flávia dizia que agora era ladeira acima, ou melhor, barriga pra frente.
Mas nada, absolutamente nada, prepararia o coração de Helena para o que Heitor aprontou.
Ele apareceu ao seu lado usando uma calça bordô e... uma camisa polo verde, com detalhes grená (ele fazia questão de corrigir toda vez que ela falava “bordô”), e um detalhe nada sutil no peito: o escudo do Fluminense. ISSO MESMO. O homem apareceu no Natal com camisa de time.
Helena quis morrer. Ali estava ela, uma grávida bem vestida, prestes a dar à luz ao herdeiro Monteiro, e o pai da criança, CEO da empresa, milionário, com um currículo de dar inveja à Faria Lima inteira... usando CAMISA DE TIME no Natal.
“Isso aqui não é só uma camisa, Helê. É o manto sagrado, a armadura de guerra. Edição especial de 2024”, ele disse com aquele orgulho típico masculino.
E como se não bastasse o vexame, ele ainda apareceu com um pacote aveludado e um sorriso cheio de segundas intenções. Dentro, uma camisa grená com detalhes dourados — do Fluminense. Para ela. Para combinar. E Helena? Helena usou. Não sabe até agora como isso aconteceu. Alguma fraqueza hormonal, talvez. Ou a parte do cérebro que regula o amor cego.
Sim, era oficial: estavam os dois de camisa de time no Natal.
Essa era a verdade sobre a camisa bordô que Helena usava com o vestido estilo jardineira.
E pensar que ela precisou ameaçar não sair de casa quando ele cogitou aparecer com aquela versão listrada em verde, grená e branco. Listras verticais. Um verdadeiro atentado à qualquer evento social. Um trauma coletivo que toda mulher tem que passar alguma vez na vida, Helena sabia que um dia aconteceria, mas não imaginava que seria agora e no Natal.
Mas, ele estava tão feliz, tão radiante e carinhoso. Que Helena não tinha escolha a não ser estar feliz também. E por mais incrível que pareça ele estava especialmente bonito naquela noite. Ela estava feliz por estar ali ao lado dele, mesmo com a camisa do Fluminense.
Durante o evento, mesmo cercada de enfeites, sorrisos e pessoas especiais, Helena se sentia... incompleta. Havia um buraco emocional ali que nem a fartura da ceia, nem os mimos de Celina, nem os olhos orgulhosos de Afonso eram capazes de preencher. Faltava algo.
Melhor dizendo... faltavam alguns “alguéns”.
Faltavam os irmãos. Meios-irmãos na verdade.
Sentia falta dos meninos. Jonas com suas piadas sem noção, sempre a importunando por quase todas as 24 horas do dia. Isaac, com aquela doçura desajeitada que fazia questão de demonstrar todos os dias. A agenda dela estava lotada. Os dias passavam correndo, e ela mal percebia o tempo escorrendo entre compromissos, exames, o novo cargo na Monteiro Inc., e toda uma avalanche emocional que se chamava “gravidez”. Mesmo assim, doía.
Doía mais do que ela esperava.
Helena havia deixado o celular sobre a bancada da cozinha. Não queria olhar. Tinha deixado mensagens não respondidas para trás. Mesmo com tudo tão bonito, seu coração carregava uma saudade abafada. Além dos meninos, sentia falta de Paulo e mesmo de Lorena. Ela sabia que tudo ainda era recente, e que não dava para unir todas as partes como num enfeite de guirlanda. Mas queria. Queria que todos eles estivessem ali. Mas não dava. Lorena e avó no mesmo ambiente não era algo possível, pelo menos neste momento. Ela não quis expor sua avó àquele desconforto. Preferiu assumir a culpa. E engolir a saudade.
No canto da sala, viu a avó conversando animadamente com Renato. Sorriu. Tinha feito a escolha certa ao protegê-la daquela situação incômoda que seria a presença de Lorena. Dona Olívia merecia uma noite tranquila. E, mesmo com a falta que Helena sentia dos outros, ver a felicidade da avó aquecia algo dentro dela.
Foi quando Heitor surgiu no meio da sala, controle da TV na mão, e sua voz clara e animada tomou conta do ambiente:
— Família, um minuto de silêncio por favor. Hora de conhecer oficialmente o novo membro do clã. — O sorriso dele era daqueles que não cabiam no rosto. — Olhem só esse garoto...
Na televisão, a imagem 4D do ultrassom preencheu a tela. O salão, antes ruidoso com conversas, se calou num instante.
Helena virou de leve o rosto, como se quisesse se esconder da própria emoção. Ver Humberto ali, tão nítido, tão formado... era como ver um sonho se concretizando. Como se ela pudesse finalmente tocar o que por meses foi apenas uma conversa. Não era um surto coletivo, o bebê dela realmente existia.
— A médica disse que ele estava tão calmo, que ela estranhou. — Heitor comentou com os olhos brilhando. — Nosso Humbertinho, sempre um showman, resolveu se fazer difícil.
Olívia inclinou-se para frente, olhos marejados:
— Esse é o meu bisneto mesmo? — perguntou, num sussurro reverente.
— Sim, vó. Esse é ele.
— Parece um milagre... Ele é bonitinho demais da conta. — A voz da idosa tremeu.
Celina riu:
— Esse nariz é da Helena. Inconfundível.
— A médica falou isso também. — Helena respondeu, agora com o sorriso escancarado.
Heitor com o rosto todo iluminado de orgulho, piscou o olho para Helena.
— Eu digo com autoridade: é o nariz mais lindo do mundo.
Helena deu um tapa leve no braço dele:
— Para de ser idiota.
Heitor só riu, feliz como uma criança.
Renato estreitou os olhos:
— Esse maxilar... é dos Monteiro. Com toda certeza.
Celina pegou o álbum de fotos que pediu à funcionária e abriu numa página específica. Mostrou a foto de Heitor bebê:
— Olhe aqui Helena. A boquinha é igual. O formato do olho também. Humberto é a cara do pai, tirando esse nariz lindo da mamãe.
Helena olhou e suspirou. Era real. Ela teria um mini-Heitor. Um garotinho com aquele mesmo olhar firme e doce, o mesmo sorriso largo.
— Eu sempre fui artilheiro, amor. Pediu um Heitorzinho e eu fiz. — Heitor disse olhando para ela, com aquele orgulho cafajeste e encantador.
Todos riram. Helena corou.
— O sangue Monteiro não falha. Finalmente essa família está crescendo.
Afonso fungou, puxando o lenço do bolso:
— Maldita gripe... — murmurou, mas ninguém acreditou na desculpa.
O bebê, no vídeo, virou-se de lado e levou o dedinho até a boquinha. Um coro coletivo de "ownnnn" preencheu a sala. Em seguida, passou a mão na cabecinha, como se ajeitasse os cabelos.
— Olha aí — Heitor riu, encantado. — Eu também faço muito isso.
Renato assentiu:
— Isso é um tique hereditário. O menino é um Monteiro mesmo.
Celina pigarreou, tentando não chorar.
O bebê se moveu mais, e a imagem 4D ficou instável. Heitor trocou para a versão 2D.
— Ele acordou. Ficou super agitado. A médica nem conseguiu finalizar as medidas.
Na tela, Humberto se esticava, virava e rolava. As pernas chutavam. As mãozinhas iam da boca ao rosto e depois puxavam o cordão umbilical. Ele estava cheio de energia.
Renato riu:
— Heitor foi agitado, mas esse aqui superou.
Afonso cruzou os braços:
— Finalmente alguém puxou meu temperamento.
Olhares se entrecruzaram. Helena, disse firme:
— Ele é só um Heitor agitado.
— E se for parecido comigo, qual o problema? — Afonso rebateu.
— Não tem. — Heitor respondeu com um sorriso de canto. — Mas o senhor é único, vovô. Sem cópias.
Afonso deu uma risadinha orgulhosa.
— Deixo ele puxar um pouquinho, mas só um pouquinho.
Foi quando Heitor se aproximou da televisão:
— Espera. Essa parte é minha favorita.
Na tela, o bebê se virou bruscamente. Esticou as mãozinhas como se empurrasse a placenta. Heitor levou a mão ao rosto, emocionado.
— Eu falei com ele... e ele respondeu assim.
Renato, num gesto silencioso, colocou a mão no ombro do filho. Puxou-o para um breve, mas apertado, abraço.
Helena sentiu os olhos embaçarem. Disse baixinho:
— A médica explicou que bebês mais ativos reagem ao som. Voz da mãe, do pai... barulhos altos, e até aos alimentos que como... Às vezes parece como borboletas, mas lá dentro ele está todo agitado.
Olívia enxugou os olhos.
— Esse menino é um milagre. Vai nascer muito amado. Que o Menino Jesus abençoe cada batida desse coraçãozinho.
Celina se aproximou do ouvido da nora:
— A boca ele puxou da minha família. Mas o formato dos olhos... igualzinho à mãe do Renato.
Helena assentiu com um sorriso suave. Passou a mão na barriga com carinho, olhando a tela. A médica havia dito que com 36 semanas daria para ver exatamente o rostinho, mas agora já dava para ter uma ideia. Mas ela já sabia: o filho era a cara do pai.
E ela gostava disso. Queria que fosse assim. Heitor era o homem mais bonito que já vira. E agora, carregar uma versão dele... era uma verdadeira sorte.
“Se ele tivesse ido embora antes, e eu me descobrisse grávida depois... ainda assim todo mundo saberia que é dele. É impossível esse menino ser de outro.” pensou.
Dona Olívia pousou a mão na barriga da neta:
— Ele é lindo. E ocê vai ser uma mãe maravilhosa.
Helena sorriu, com brilho nos olhos:
— Eu só quero segurá-lo e dizer: "Oi, Humberto… eu sou sua mamãe."
Olívia beijou sua bochecha com ternura.
O telefone de Renato tocou. Ele saiu da sala, chamando Heitor com um gesto discreto.
Enquanto isso, Olívia comentava:
— Meus filhos foram tranquilos. Mas a azia no fim da gravidez... ah, essa me derrubava.
— Nem me fale. — Celina fez uma careta de dor. — Horrível mesmo.
— Sério que é tão ruim assim? — Helena perguntou.
— Demais. Mas hoje em dia tem de tudo para aliviar. — Celina respondeu, tentando confortar.
— As náuseas foram as piores até agora. Mas estou fazendo acupuntura. Tem ajudado.
Uma funcionária passou com um carrinho de aperitivos. Helena pegou alguns e seus olhos brilhavam.
— A ceia foi incrível, mas eu não consigo me controlar.
Olívia riu:
— É assim mesmo. E o Humbertinho agradece.
Afonso se aproximou:
— No próximo Natal, a árvore vai estar cheia de presentes para ele.
Celina completou:
— Vou contratar uma especialista em festas com crianças. Vai ser o evento pro meu netinho.
Helena suspirou:
— Eu queria tanto ter feito um chá revelado... mas ele foi mais rápido.
— Isso se resolve. — Celina garantiu. — Façamos um chá de fraldas inesquecível.
Dona Olívia, com o álbum nas mãos, observou o ultrassom na Tv:
— Esse menino parece um príncipe mesmo.
Helena riu:
— Parece sim.
Afonso ergueu o queixo:
— Ele é um príncipe. Herdeiro da Monteiro Inc. E do sobrenome mais respeitado desse país. É quase a realeza.
A conversa virou lembranças de gravidez. Olívia falava das suas, Celina contava as histórias de Heitor e dos sustos. As duas riam juntas, trocando memórias e conselhos.
Tudo parecia perfeito, mas ela ainda sentia a dor da ausência. Helena se levantou devagar, alisando a jardineira com as palmas das mãos. Não queria atrapalhar a alegria ao redor, não queria que ninguém percebesse a tristeza que rastejava sutil. Apenas precisava ouvir a voz deles. Um "feliz Natal", mesmo que breve. Era Natal, afinal. Um fio de ligação precisava ser mantido.
— Vou ali na cozinha fazer uma ligação — avisou, com a voz baixa. — Já volto.
Ela caminhou pelo corredor da casa com passos lentos, tentando se convencer de que estava tudo certo. Que era só mais uma data. Que em outro momento todos estariam juntos. Mas no fundo, a saudade batia com força.
E então, antes mesmo de alcançar a cozinha, ela ouviu vozes. Reconheceu uma em especial primeiro. Depois outra. Vozes que o coração dela identificou antes mesmo do cérebro conseguir processar.
Ela parou no meio do corredor.
Os olhos se arregalaram como se, por um segundo, o tempo tivesse sido interrompido.
Lá estavam eles.
Renato, ao lado de Heitor, conversava animadamente, rindo com algo que Jonas havia dito. Heitor gesticulava com uma das mãos, e Jonas ao lado dele. E ao lado dos dois, Isaac… com aquele ar tímido, olhar atento e um sorriso que se acendia quando via algo que amava.
Isaac a viu primeiro.
Parou no mesmo instante.
O rosto dele se iluminou como se todas as luzes do Natal tivessem se acendido por dentro.
— Oi! — disse, com aquele entusiasmo sincero, um pouco envergonhado, um pouco emocionado.
Helena sorriu de volta, o sorriso nascendo devagar, se abrindo com afeto.
— Oi, Isaac…
Ele se aproximou rápido, como se não pudesse esperar mais nenhum segundo. O olhar dele percorreu a irmã de cima a baixo, se fixando na barriga redonda e no rosto corado dela.
— Você tá… muito bonita, o manto combinou com você. — disse, quase sussurrando, como se a beleza dela naquela noite o deixasse meio sem ar.
— Você também tá, adorei o novo corte, ficou ótimo! — Helena respondeu, sentindo o coração bater mais quente, mais completo.
Isaac baixou os olhos, nervoso como sempre ficava quando os sentimentos passavam da garganta. Depois os ergueu, decidido.
— Senti sua falta. Por isso eu vim. Já fazia muito tempo…
Helena não disse nada. Só abriu os braços. Ele entendeu o convite e caminhou até ela. O abraço foi apertado. Demorado. Isaac arregalou os olhos no começo, surpreso pela força suave com que ela o envolveu. A barriga o pressionava, o perfume suave de Helena preenchia o espaço, e as mãos delicadas dela pareciam segurar as costas dele.
Isaac respirou fundo. Tentou devolver o gesto com a mesma intensidade, com a mesma ternura. Ele queria que aquele abraço dissesse tudo que a voz nunca saberia explicar: “Estou aqui. Sou seu irmão. Sempre serei.”
— Opa, opa, opa! — a voz zombeteira de Jonas ecoou pelo corredor, fazendo os dois se virarem ao mesmo tempo.
Jonas vinha caminhando rápido, olhos semicerrados e uma expressão fingidamente séria.
— Parou! O mais velho abraça primeiro. É a ordem natural das coisas!
Isaac riu, Helena riu mais ainda. Jonas se aproximou, envolveu os dois e os puxou com força para um abraço triplo.
— Vocês são ridículos — murmurou Helena, com os olhos marejando.
— E você é nossa irmã. E é ridícula também, então somos três — Jonas respondeu, afagando o topo da cabeça dela.
Eles se afastaram com relutância, e Helena olhou para os dois, como se precisasse registrar aquele momento em algum lugar eterno. Jonas, com sua insolência charmosa, o brilho sempre provocador nos olhos, e Isaac, com sua doçura inquieta, a voz sempre tremendo entre o afeto e a insegurança.
— Eu tô muito feliz que vocês vieram — ela disse, a voz embargada.
— Acha mesmo que a gente ia passar o primeiro Natal com a nossa irmã longe dela? — Jonas rebateu. — Tá maluca? Isso não ia acontecer nunca.
— É, o Natal não tem graça se a gente não estiver junto — Isaac completou, tímido, mas convicto.
Helena engoliu em seco. A saudade parecia menor agora.
— E… a Lorena e o Paulo? — perguntou, a voz baixa, quase pedindo desculpas pela ausência deles.
Isaac trocou um olhar com Jonas e sorriu de lado.
— A casa tá cheia lá. Eles não tão sozinhos… e provavelmente, nessa hora, nem notaram nossa ausência ainda.
Jonas deu de ombros, como se aquilo não importasse.
— Viemos ficar com você. Com a outra parte da nossa família.
Helena respirou fundo, o coração pulsando como se fosse grato. A mão pousou instintivamente sobre a barriga.
— Eu não queria causar problemas. Mas… quero muito que fiquem. Comigo. Com todos. O Humberto vai gostar de ter os tios por aqui.
Jonas sorriu largo. Isaac assentiu com os olhos brilhando.
— A gente já tá aqui. E não vamos sair tão cedo.
Helena sentiu que, pela primeira vez, todos os pedaços do coração dela estavam no mesmo lugar.
Ela sorriu. E o Natal, enfim, estava completo.
Não perdeu tempo, Helena segurou o punho de cada um dos irmãos — um em cada mão. Seus olhos brilhavam com a luz do Natal e com algo ainda mais raro: orgulho. O coração parecia pequeno demais para caber tanta emoção.
— Quero apresentar alguém muito importante pra mim. — disse ela, com um sorriso que se abria devagar, como um presente sendo desembrulhado.
Isaac a olhou de lado, sorrindo contido, ainda levemente desconcertado por estar invadindo a festa. Jonas, por outro lado, girou os ombros como quem estava prestes a entrar no próprio palco. Os dois a seguiram em direção à sala principal, onde o som de risadas preenchiam o ambiente.
Na sala, Celina ria de algo que Afonso havia acabado de dizer, e Olívia observava atenta, sentada com as mãos sobre o colo.
Assim que os três surgiram na porta, Afonso os viu de relance, ergueu uma sobrancelha e resmungou, com aquele sarcasmo que só ele sabia usar:
— Ah, pronto. Acho que posso devolver esse projetinho de neto falso, então. Não preciso mais dele. — disse se referindo à Jonas.
Jonas entrou com o andar confiante de sempre, e disse:
— Ho ho ho, feliz Natal a todos os presentes e aos que ainda não sabiam da minha existência brilhante.
Olívia levantou os olhos. Primeiro curiosos. Depois arregalados. O ar pareceu congelar no tempo. Ela segurou a respiração por alguns instantes, como se o mundo tivesse parado só para que ela pudesse processar aquela imagem. Helena, no centro, de braços dados com dois rapazes — um com ombros mais largos, cabelos castanhos claros e uma expressão debochada; o outro mais alto, magro e tímido.
Era como olhar para versões desalinhadas de sua neta, como espelhos distorcidos da menina que criou com tanto amor e dor. E ao mesmo tempo… era ver nela um reflexo de algo mais: a mãe. E isso doía.
Ela se levantou, sem dizer nada, olhos marejados, coração apertado de lembranças que não pediu para reviver. Helena, com a voz suave e feliz, foi a primeira a quebrar o silêncio:
— Vó… esses são meus irmãos. — Ela olhou para os dois com orgulho e completou com um sorriso travesso: — O baixinho é o Jonas, e o mais alto é o Isaac.
— Baixinho?! — Jonas franziu o nariz, ofendido de brincadeira. — A culpa é do Isaac, que cresceu demais. Eu não sou baixo, ele que é muito alto.
Isaac soltou uma risada abafada. Ele então deu um passo à frente, olhando com respeito para Dona Olívia.
— Prazer, Dona Olívia. Ouvi muito falar da senhora. — disse ele com a calma gentil que o definia. — Sou o Isaac. O caçula.
Olívia olhou para ele com atenção. Aquele olhar de quem observa mais do que enxerga. E então falou, num tom que misturava emoção e surpresa:
— São parecidos com a Helena… o nariz é igualzinho.
— Não é só o nariz, vó. — Jonas interveio com aquele charme zombeteiro de sempre. — A Helena é tipo a versão feminina de mim. Por isso é tão gata, né? Genética abençoada.
Heitor, que observava tudo com uma expressão entre protetora e ciumenta, sentiu um arrepio desconfortável subindo pela espinha. E antes que alguém concordasse com Jonas, ele rebateu, firme:
— Helena tem… traços parecidos, sim. Mas ela é totalmente diferente. Nada a ver, na verdade.
Celina riu, balançando a cabeça como quem já sabia que Heitor perderia a compostura em algum momento.
— E o Humberto puxou esse mesmo nariz de vocês três — comentou, jogando mais lenha no fogo do ciúme discreto de Heitor.
Jonas então deu dois passos à frente, se colocando bem diante de Dona Olívia. Seu olhar era o de sempre — seguro, meio atrevido, mas havia também ali uma pontinha de nervosismo disfarçado.
— Sou o Jonas, prazer. E ó — disse, piscando um olho com malícia — a senhora quase perdeu a oportunidade de estar na presença desse encanto aqui.
— Jonas! — Isaac ralhou, dando um leve empurrão no ombro do irmão. — Não amola a Dona Olívia, cara.
Dona Olívia, por fim, sorriu. Foi um sorriso pequeno, mas verdadeiro. O tipo de sorriso que só quem viu o pior e ainda assim escolheu amar consegue dar. Foi menos doloroso do que ela imaginou, os rapazes tinham traços semelhantes aos de Helena, nariz e ao jeito de olhar, Isaac até tinha as mesma sardas da neta, mas mesmo assim, eles pareciam se parecer com outra pessoa...
Ela olhou para os dois rapazes, depois para Helena, e disse com a voz embargada:
— É um prazer conhecer ocês, meninos.
Era só o começo daquela nova conexão. Mas, para Helena, aquele momento era tudo. Os dois mundos que ela sempre achou que jamais se encontrariam… finalmente estavam sob o mesmo teto. E com um pouco de sorte — e muito amor —, talvez começassem a se reconhecer como parte de um mesmo coração.
Heitor se aproximou por trás, a presença dele chegando antes mesmo do toque, era forte, calorosa e inconfundível. Helena sorriu quando sentiu os braços dele a envolvê-la com familiaridade. O beijo que ele depositou em sua bochecha a fez corar, como se eles não compartilhassem há meses a mesma cama, os mesmos momentos e as mesmas pequenas felicidades. Ela ainda se sentia tímida quando ele a tocava assim diante dos outros. Mas nunca deixava de gostar.
Jonas revirou os olhos e Isaac deu alguns passos para o lado.
A mão de Heitor desceu naturalmente pela curva da barriga dela, agora mais saliente do que nunca, e acariciou com carinho, os dedos traçando linhas invisíveis de puro afeto.
— Agora que tá todo mundo aqui… — ele disse com aquele tom leve e rouco que só ele tinha — é hora dos presentes.
Helena ia responder, mas um movimento repentino a interrompeu. Uma batida firme e certeira na parte de baixo da barriga. Um chute.
Ela prendeu o ar e soltou um "Ai!" agudo de surpresa.
Heitor também congelou.
O corpo dele atrás dela ficou rígido, a respiração suspensa. Helena arregalou os olhos e levou a mão sobre a dele, como se tentasse confirmar o que ambos sabiam: havia sido real. O bebê chutou — e chutou onde a mão de Heitor estava.
— O que foi isso?! — Dona Olívia se alarmou, endireitando-se na poltrona.
Helena virou o rosto para ele, os olhos marejados, a voz saindo fraca e embargada..
— Heitor… ele chutou.
Por um momento, ele pareceu nem respirar. Depois, soltou o ar devagar, como se só então voltasse a viver.
— Eu senti. — ele murmurou, a voz rouca, quase falhando. — Helena… eu senti o nosso filho.
Ela sorriu, com os olhos úmidos. Queria dizer tantas coisas, mas só conseguiu:
— Eu tô a cada dia mais grávida…
Heitor soltou uma risada incrédula, passada no coração.
— Você tá grávida faz tempo, amor.
Celina levou as mãos à boca, os olhos marejados.
Olívia sorriu, balançando a cabeça.
— Esse bebêzinho é aparecido demais... já querendo presente antes da hora.
Jonas deu um passo à frente, com a voz embargada.
— Foi… foi ele mesmo?
Helena assentiu, pressionando os lábios num sorriso emocionado.
Heitor estava inflado de orgulho, como se tivesse acabado de presenciar um milagre — e era exatamente assim que ele se sentia.
— Foi sim. Um chutão! Vai ser jogador. Artilheiro igual ao pai. Pode anotar.
Jonas se virou bruscamente para um dos funcionários na sala.
— Traz as caixas. Rápido! A hora é agora!
Um dos empregados retornou com uma caixa branca com laço azul e a palavra “BOSS” em alto relevo. Jonas pegou, agachou-se em frente à barriga de Helena como se estivesse diante de um rei.
— Oi, Humbertinho! Aqui é o tio Jonas, o favorito da casa. Por isso você ficou todo animado, né?
Isaac chegou rindo, sacudindo a cabeça.
— Ei, ei, ei! Nada disso. Eu sou o favorito. Ele ficou agitado foi quando sentiu que eu tava perto.
— Favorito? — Jonas arqueou a sobrancelha. — Tu nem trouxe presente, Isaac. Que tio é esse?
— Eu ia dar depois! — Isaac ficou todo vermelho.
— Vê e aprende. — Jonas disse, debochado, entregando a caixa para Helena.
Renato se aproximou, sorridente.
— Celina e eu também trouxemos um presente. Mas... acho que o Jonas chegou primeiro.
Afonso, com as mãos nos bolsos e um sorriso amolecido no rosto, completou:
— O meu vai ser o melhor. Mas vai ser no dia em que esse moleque nascer. Tenho planos.
Helena olhou para todos com um sorriso bobo e uma emoção mal contida… até que outro chute veio, tão forte quanto o anterior. Ela soltou um novo "Ai!".
Heitor deu um passo para o lado e colocou a mão sobre a barriga, completamente entregue ao momento.
— De novo! — ele riu, os olhos brilhando. — Nosso filho é animado. Vai jogar no Flamengo, amor, só pode.
Ele afastou-se um pouco de Helena, com gentileza, e levantou a mão como um maestro disciplinando a orquestra.
— Pessoal… calma aí. Vocês vão agitar a mamãe demais, estão todos muito em cima.
Helena riu baixinho, limpando os olhos com a ponta dos dedos.
— Tá tudo bem. Vamos ver o que o bebê ganhou.
Ela esticou a mão e pegou a caixa. Heitor se aproximou, pegando a tampa. Ela retirou a primeira peça: uma camisetinha branca com detalhes azul-marinho e a logo BOSS bordada, acompanhada de uma jardineira igualmente estilosa.
— É muito fofo… ele vai usar recém nascido ainda.
— Meu neto já é cheio de estilo. — disse Celina.
Jonas ajeitou o colarinho com fingida arrogância.
— Óbvio que é. Vai puxar isso de mim. Tem mais, tira o resto!
A funcionária recolheu a peça enquanto Helena tirava outro conjuntinho semelhante, dessa vez bege.
— Esse também tá lindo. — Heitor comentou. — Já consigo ver ele usando.
O último era o mais inusitado: um macacão estilo terno, com corte de blazer e bolso estilizado.
— Pronto, virou o chefe da casa. — Helena riu. — Igual ao Poderoso Chefinho.
— Eu pensei a mesma coisa! — Jonas falou alto, orgulhoso.
— Já pode assumir o império. — Renato disse. — Herdeiro Monteiro de primeira linha.
Jonas então tirou outro embrulho do bolso e entregou a Helena.
— Esse aqui é seu. O melhor presente da noite. Pode preparar o coração.
Helena riu, surpresa.
— O que é?
— Um presente que o Heitor vai querer esconder de tanta vergonha.
— Ah é? — Heitor provocou, cruzando os braços e rindo. — Eu duvido.
Helena abriu a caixinha e viu o Apple Watch, com a pulseira vermelha. Jonas começou a se exibir.
— Última geração. Tem tudo: sensor de queda, emergência, localização em tempo real. A Apple fez a pulseira nessa cor para combinar com o iPhone vermelho, claro que foi à meu pedido.
— É lindo! Coloca em mim?
— É pra já.
Ele colocou, ajustando com delicadeza.
— Vou te ajudar a configurar depois. Vai amar.
Isaac pigarreou.
— Agora é minha vez.
— Espera aí. — Helena sorriu, já pegando o próximo presente. — Agora sou eu.
Ela olhou para Heitor, com os olhos brilhando.
— Ivone, pode pegar a caixinha verde com a etiqueta “Heitor”?
Todos fizeram o tradicional “ihhhh”.
Helena olhou para a barriga e disse com carinho:
— Vamos dar o presente do papai?
— O papai adora os presentes da mamãe. — Heitor sussurrou, piscando.
— Esse é só meu. O Humbertinho não participou. É nosso primeiro Natal. Eu… me esforcei. Não sei se vai gostar. Mas escolhi de coração. — disse, envergonhada.
— Eu sempre gosto. — Ele respondeu, pegando a caixa com um sorriso largo.
Ao abrir e ver o Rolex, Heitor arregalou os olhos e soltou um assovio baixo.
— Amor da minha vida me deu um Rolex. Helena…e desse modelo eu ainda não tenho.
— Vira ele. — ela disse, mordendo o lábio.
Heitor virou. E leu.
"Heitor, é você. Foi você. Sempre será você.
Eu te amo mais do que eu sei dizer… mas mesmo assim eu quero dizer.
Eu amo você.
– Helena"
Heitor travou. O sorriso vacilou e os olhos começaram a brilhar. O homem seguro virou um homem totalmente rendido.
— Helena… — ele segurou a mão dela, ainda com o relógio na outra. — Você sabe o que isso significa pra mim?
Ele engoliu em seco.
— Você não fala assim… não entrega o coração fácil. Mas escreveu isso.
Ele beijou a mão dela, devagar, sem tirar os olhos dos dela.
— Você não tem ideia do quanto isso me atinge.
Encostou a testa na dela.
— Eu sempre soube que você me amava… mas ler que "sempre será eu"? Isso me quebra inteiro.
O silêncio ao redor era reverente. Todos sentiam.
— Eu te amo, Helena. Mais do que cabe em palavras. E você… — ele passou o polegar pela bochecha dela, com aquele gesto que a desmontava — acabou de me dar a prova mais bonita disso.
— Sempre vai ser eu. E você... sempre vai ser você. Até depois da minha vida.
E ele a beijou. Não com pressa. Mas com alma. Amor. Com verdade.
— Opa, opa! — Jonas quebrou o clima. — Na frente do tio Jonas?! Ai não né.
Heitor riu baixinho.
— Vamos ver o presente do papai agora? — ele disse, olhando nos olhos dela, ainda segurando sua mão.
Afonso murmurou:
— Deixa a Helena terminar de dar os dela primeiro…
Mas Heitor nem ouviu. Os olhos dele só viam Helena.
— Vem. Não vai ser tão incrível quanto o seu… mas acho que você vai gostar.
Helena, ainda toda boba, apertou a mão dele.
— Se for seu… eu já adoro.
Saíram juntos da sala com os dedos entrelaçados enquanto todos os outros assistiam.
Andaram pelo corredor, Heitor abriu a porta da sala lateral, meio escondida no fundo. Puxou Helena com cuidado pela mão, o polegar roçando o dorso da pele dela com carinho. Ao entrarem, ele fechou a porta e encostou, meio vermelho, meio sem jeito. O típico homem seguro de tudo — menos dela.
— Eu tava feliz com o presente, sabia? Orgulhoso mesmo. Mas agora… — ele coçou a nuca, os olhos azuis evitando os dela por um segundo — …depois do seu presente, não sei se você vai achar isso aqui tão especial.
Helena franziu o nariz, desconfiada. A sala estava vazia, não havia nenhuma caixa, nenhum embrulho.
— O que você tá aprontando, Monteiro? Tem dois dias que você tá esquisito. — Ela estreitou os olhos. — Fica me olhando e rindo sozinho. Tá me deixando nervosa.
Heitor riu, aquele riso rouco e bonito.
— Esquisito não. Eu sou um homem apaixonado. E você é a mulher mais linda do universo. Fico olhando pra ver se é real mesmo que você é minha.
Helena revirou os olhos com um sorrisinho.
— Tô esperando.
— Então tá — ele deu um passo pra trás, levantando a camisa polo devagar, como se fosse uma cena ensaiada e realmente era. — Espero que goste.
Helena, que já estava ruborizando, arregalou os olhos.
— Heitor?! — Ela se virou, indo correndo até a porta. — Tá maluco? A casa tá cheia! Cadê a chave dessa porta? E se alguém entra?
Ele se aproximou, colando o corpo atrás do dela, e passou os braços ao redor dos dela. O beijo no ombro fez Helena estremecer. Quando sentiu a pele nua dele encostar, congelou.
— Você já tá sem a camisa?! — sussurrou, olhando para o nada, sem coragem de virar. — Se alguém entra aqui…
— Ué, mas você que ficou toda animadinha. — A voz dele descia quente pelo pescoço dela, e logo veio a língua, lenta, maliciosa, marcando presença no ponto exato entre a nuca e o ombro.
Helena soltou um suspiro incontrolável, os olhos se fechando sozinhos.
— Não era esse o presente, mas se for o que a mamãe do meu filho quer…
— Para de ser idiota — ela murmurou, se virando devagar. O rosto dela estava em chamas, mas o olhar... curioso.
Então, abaixou o olhar — e congelou.
Na lateral direita da barriga dele, acima da linha da cintura havia uma tatuagem: um “H” grande, desenhado com a caligrafia dele. Ao lado do “H”, estava escrito menor e na parte de cima com a caligrafia dela, em letra cursiva e delicada: elena.
Helena levou a mão à boca.
— HEITOR?! Você tatuou meu nome?!
Ele estufou o peito, orgulhoso como um pavão.
— Pode falar. Você amou.
Helena piscou várias vezes. Não estava preparada para aquilo. Nunca, nem nos maiores devaneios, imaginou que Heitor Monteiro — CEO, poderoso e todo cheio de marra — tatuaria o nome dela na própria pele.
— Você não tem medo que zoem você?
— Eu só me importo com o que você pensa. — Ele deu de ombros. — E se quiser, posso escrever no pescoço também. Só falar.
Ela riu, balançando a cabeça, embaraçada até os ossos.
— E aí, gostou?
— Muito… — Ela respondeu, tocando a tatuagem com os dedos gelados, como se tentasse confirmar que era real. — Ficou… sexy.
Heitor sorriu tão largo daquele jeito totalmente entregue.
— Isso foi só o começo. Você quer saber como eu tive a ideia?
Helena assentiu, ainda olhando para o nome.
— Tava passando pelo jurídico lá na empresa, e uma mulher colou um post-it com o nome dela na cadeira. Outra perguntou por quê, e ela respondeu: “tudo que é meu tem meu nome”. Aí, pronto. Minha cabeça explodiu. Eu sou seu Helê. Faz todo o sentido ter seu nome em mim.
Helena riu.
— Mas… por que deixou tanto espaço abaixo? Escreveu o “elena” muito para cima, parece que pegou 1/5 do espaço do H.
Heitor sorriu com malícia, os olhos brilhando.
— Pedi pro tatuador fazer o “H” com a minha letra. E peguei uma assinatura sua, pedi pra ele tirar o H e escrever do lado em cima. Aí pensei: e o nome do nosso filho? Quando o Humbertinho aprender a escrever, vou pedir pra ele assinar o nome dele e tatuo embaixo.
Helena olhou com um sorriso, fazia sentido todo aquele espaço abaixo, ainda mais com a letra de uma criança. Ela sentiu o coração esquentar, não era qualquer criança era a criança deles.
Heitor continuou:
— E pensei: se a gente tiver mais filhos, os outros vão ficar chateados. Então já pedi pra deixar espaço pra mais quatro nomes.
— QUATRO FILHOS?! — Ela gritou, dando um tapa no peito dele.
Heitor encostou na parede, com aquele sorriso canalha e charmoso, marra total.
— Se você quiser mais de quatro, eu puxo o H pra baixo. Faço um testamento na coxa só com nome de filho nosso.
— RIDÍCULO! — Ela disse chocada. — No máximo dois!
— Eu só tô avisando que espaço tem. Tô pronto.
— Depois que o Humberto nascer, a gente só transa de camisinha!
Heitor quase caiu para trás.
— Amor… não faz isso comigo. Camisinha é antinatural! — Ele fez bico. — Poxa amor…
— Nada de “pooxa amor”! Se comporta! Acha que eu sou o quê?!
— Você é minha. Minha mulher linda, gostosa, cheirosa… que tá me deixando maluco com esse vestido e esse seu cheiro... Mal estou me segurando, parece até que você tá no cio, não tô resistindo, olha só como já subiu.
Helena bufou, tentando esconder o quanto estava sorrindo.
— Para de ser babaca.
Mas Heitor não parava. Estava com os olhos fixos nela.
— Rebola aí vai… bem na minha frente que eu te lembro por que valeu a pena escrever seu nome em mim. — A voz dele estava rouca, baixa e cheia de desejo.
Helena ficou alguns segundos parada. Depois deu um sorriso de canto e segurou a mão dele.
— Vem. Vamos ver se esse seu presente vale tanto quanto você diz.
E foi andando na frente, rebolando com naturalidade e malícia. Heitor soltou um gemido baixo e apertou os dedos ao redor da mão dela.
— Puta que pariu… essa mulher vai me matar de tesão.
— Cala a boca, Monteiro.
— Só se for com a boca na sua, meu amor…
A noite de natal ainda prometia muito à toda família, mas naquele momento era apenas dos dois. Helena falou para ele ser rápido, Heitor se recusou, mas ela sabia como fazer ser rápido.
Enquanto ele se vestia deprimido com a rápida performance, Helena admirava a tatuagem que ele havia feito, a ideia foi excelente, ela adorou ver o nome eternizado nele e estava ansiosa para ver dos filhos, quer dizer, do filho.
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