O CEO que Eu Paguei

184 O Começo de Tudo


Lorena Ribeiro, 15 anos — 1995


As férias tinham, enfim, chegado ao fim — para alívio de Lorena. O cheiro de esterco e terra molhada ainda impregnava suas roupas, mesmo após passar o dia anterior esfregando tudo, e ela mal podia esperar para deixar aquele lugar para trás. A carroceria da caminhonete já esperava por ela, com algumas malas surradas e a poeira vermelha começando a se levantar com a brisa da manhã.

Seus pais a envolviam num abraço apertado, típico de quem ama demais.

— Chega, mãe… — murmurou Lorena, tentando se soltar.

— Ô minha fia, estuda bastante lá, viu? Pra tê uma vida melhor que a nossa… — disse a mãe, a voz embargada, mas ainda doce, com aquele sotaque forte e familiar do interior de Minas.

Lorena revirou os olhos, impaciente. Claro que teria. Era só terminar os estudos e nunca mais pisar ali.

— Tá, tá… Já deu, né? Eu tenho que ir. Não posso deixar o senhor Inácio esperando.

O pai suspirou fundo, ajeitando o chapéu de palha na cabeça suada.

— Eu te amo, minha filha… A gente se vê no final do ano.

Essas palavras a travaram por um instante. O “final do ano” soou como uma sentença. Um lembrete incômodo de que, por mais que ela fugisse, ainda estava presa àquele pedaço de terra. Era só mais uma temporada. Ela nunca partia — apenas fazia pausas.

Baixou a cabeça, sentindo o aperto no peito.

— Marido… — disse a mãe, percebendo — não mexe com a menina não… Num tá vendo que ela tá triste? O ano passa rápido, Lorena. Num pisca e cê já tá aqui de volta.

Mas Lorena não queria estar de volta. Nem piscar. Nem lembrar daquele lugar.

Enquanto ela subia na carroceria, se equilibrando nas laterais, seu pai contornou o veículo e foi até o lado do motorista. Inácio esperava paciente, como sempre. Um homem bom.

— Não é muito, mas… é mais que o do ano passado. — disse o pai, entregando um maço de notas dobradas.

Inácio pegou com respeito, balançando a cabeça.

— A minha mulher e a minha filha adoram a Lorena. Cê sabe… pra nós ela é como da família. Me sinto até ruim de receber… mas isso aqui é pra inteirar as coisas. Lá não vai faltar nada pra ela, pode ficar tranquilo.

O pai assentiu, a mão calejada ainda estendida.

— Eu sei… Minha filha é muito inteligente. Vai ser professora… ou doutora, quem sabe. Se isso aqui for o preço pra ela ter uma vida melhor… então eu dou. Eu dou tudo.

Do alto da carroceria, Lorena se debruçou e gritou, vermelha de vergonha:

— Pai! PELAMOR, NÉ?!

Todos riram. Um riso leve, cansado, sincero. Lorena sentou-se, puxando os joelhos contra o peito, enquanto a caminhonete começava a se mover.

A poeira vermelha se ergueu atrás deles, como um rastro de lembranças. Os pais acenavam com força, ainda parados diante do portão de arame farpado da pequena fazenda. Ela acenava também — por educação. Ou talvez por um afeto que fingia não sentir.

Gostava de ir na carroceria, observando tudo ficando para trás. As galinhas soltas, o cachorro que sempre a seguia, o campo aberto, o cheiro da terra… Tudo que ela odiava, mas que fazia parte dela.

Talvez aquele fosse o começo.

Mas Lorena sabia — um dia, ela não voltaria. E ninguém a faria voltar.

Ela amava a cidade.

Mesmo pequena, mesmo sem cinema, sem shopping, sem muito o que fazer — ainda assim, era uma cidade. Com barulho de carros, vitrines iluminadas à noite, calçadas largas e ruas de paralelepípedo onde os passos ecoavam diferente. Lorena já vivia ali há cinco anos durante o ano letivo, hospedada na casa de Inácio. Dormia no mesmo quarto que Camila, a filha dele, num colchão no chão, perto da janela que deixava entrar o ar abafado das noites quentes de Minas.

Era uma casa boa — simples, mas limpa, cheirosa, viva. Melhor do que a fazenda em tudo.

Na cidade, Lorena era outra. Fingia ser filha de Inácio para evitar perguntas. Ninguém precisava saber da sua origem. Daquela fazenda perdida na zona rual. Da mãe de voz doce e mãos calejadas, do pai que a amava mais que a quantidade de estrelas no céu. Ali, ela era só Lorena — e era assim que gostava de ser. A versão dela mesma que ainda não existia, mas estava a caminho.

As aulas haviam começado e, como sempre, o dia tinha sido um saco. Lorena detestava a escola. A estrutura, os professores, o uniforme estranho. Estudava só porque precisava — porque o colégio era logo ali. E quando terminasse o colégio, então o mundo finalmente começaria.

Caminhava pela calçada de pedras ao lado de Camila, com os livros abraçados contra o peito, quando algo — ou alguém — fez seus olhos pararem.

Um policial estava encostado perto do muro da escola, observando os arredores. Lorena o olhou de relance… depois com mais atenção.

O rosto dele parecia feito pra prender o olhar. A pele negra tinha um brilho bonito sob a luz quente da tarde, revelando um contorno firme, uma mandíbula desenhada que fazia sombra no pescoço. O cabelo — curto, bem encaracolado e aparado — moldava o topo da cabeça como se fosse parte do uniforme. Não havia barba.

Os olhos… escuros, atentos, mas distantes. Como se estivessem em outro lugar mesmo enquanto observavam tudo. O nariz reto, os lábios cheios… havia uma calma ali que sugeria força. Elegância que não precisava chamar atenção. Ele era alto, com um corpo atlético bem preenchido no uniforme, e uma postura que gritava disciplina. Postura de homem.

Lorena parou no meio da calçada.

— Uau… quem é aquele ali? — perguntou, encantada, com o tom animado de quem acabou de ver um galã de novela.

Camila olhou com desinteresse.

— Ah, é o sargento Campos.

— Nossa… ele é uma gracinha, né?

Camila riu.

— Lôlô… ele não é pro nosso bico.

Lorena ergueu uma sobrancelha.

— Pro seu, não é mesmo. Agora pro meu...

— Amiga… cê é linda, eu sei. Mas ele é muito sério. Nas férias, um monte de menina tentou dar em cima, e ele ignorou geral.

— Ele não é daqui, né? Nunca vi ele no ano passado e nem no retrasado.

— Estava na capital, fazendo curso. Voltou agora, pediu transferência pra cidade natal. Disse que queria ficar perto da família.

Lorena o observava com um sorriso nos lábios. Era o homem mais bonito que já tinha visto na vida. Másculo. Um tipo de realeza fardada. O tipo de homem que parecia inalcançável — e por isso mesmo, irresistível.

— Eu vou lá. — disse, ajeitando o cabelo.

— O quê?! Lôlô, não faz isso!

Mas era tarde demais. Lorena já atravessava a rua, passos firmes, expressão decidida. O policial virou o rosto ao notar sua aproximação. O olhar sério e direto dela se encontrou com o dele — e pela primeira vez em muito tempo, Lorena sentiu o rosto esquentar e o coração disparar.

— Boa tarde, policial. — disse, com um sorriso atrevido.

— Boa tarde, senhoritas. — respondeu ele, com uma voz grave e serena.

— Eu me chamo Lorena. É um prazer te conhecer. — estendeu a mão.

Ele não a cumprimentou. Apenas a olhou com aquele ar altivo e profissional.

— No que posso ajudar?

Lorena sorriu de lado, desafiadora.

— Eu queria saber o seu nome.

— Sargento Campos.

— Não, o seu nome.

Ele a encarou, sério.

— Se não há nenhuma ocorrência, por favor… se retirem.

Camila tentou pegar a mão de Lorena e puxá-la de volta, mas Lorena se desvencilhou com um movimento ágil.

— Qual é… me fala, vai. — disse, fazendo charme.

Antes que ele respondesse, outro policial mais velho se aproximou segurando um saquinho cheio de pão de queijo.

— Que que cê tá aprontando, novato? O que tá acontecendo aqui?

— Nada. Elas estavam se retirando. — disse Henrique, seco.

Lorena tomou a palavra com teatralidade:

— Na verdade, tem sim. Eu tava me apresentando, mas o sargento se recusou a falar o nome dele.

O outro policial arqueou as sobrancelhas.

— Não é possível! — disse com a voz afetada — Esse Henrique é uma piada… não devia fazer isso com as mocinhas.

Lorena sorriu enorme, vitoriosa.

— Então é Henrique? É um prazer te conhecer, viu?

Henrique não disse nada. Apenas fez um leve gesto com a cabeça e virou de costas, voltando ao seu posto. Mas Lorena saiu sorrindo, com o coração acelerado e os olhos brilhando.

— Nos vemos amanhã, tá bem? — disse alto, antes de se afastar.

O outro policial olhou Henrique com deboche e deu um tapinha no colete dele.

— Não seja mau. O povo daqui não é que nem na capital, cê sabe disso. Cê cresceu aqui.

— Estamos a trabalho, sargento Silva. — respondeu Henrique, sério.

— Aproveita sua juventude, homem! Daqui a pouco tá casado e gordo, ninguém mais vai te querer! Aproveita que as menininhas te admiram agora.

Henrique não respondeu. Mas, por dentro, talvez… só talvez… estivesse tentando não sorrir.

E Lorena? Voltou para casa de alma inflamada.

Aquele homem ainda não sabia…

Mas ela já tinha decidido: um dia ele seria dela.

Desde aquele primeiro encontro, Lorena teve uma nova missão de vida: conquistar o Sargento Campos.

E, como tudo na vida, ela não fazia nada pela metade.

Na semana seguinte, Henrique passou a ser visto com frequência nas proximidades da escola. Segundo ele, era apenas patrulhamento de rotina. Mas para Lorena, aquilo era destino conspirando a seu favor.

Todos os dias, sem falhar, ela dava um jeito de estar por ali. Cabelos penteados com capricho, o uniforme mais justo que tinha e o batom — um vermelho forte, pego ‘emprestado’ da mãe de Camila — sempre reaplicado antes da saída.

E todos os dias, lá estava ele. Alto, impecável, com aquela farda alinhada que parecia feita sob medida. Postura reta, semblante fechado, olhar sério. Uma fortaleza impenetrável.

Lorena, no entanto, não era de se intimidar por fortalezas. Ela as escalava.

— Boa tarde, sargento… — dizia, com o sorrisinho de canto que já era sua marca registrada.

— Boa tarde. — ele respondia, breve.

— Hoje o senhor tá ainda mais bonito, hein?

— Mantenha distância, senhorita.

— Ai, que chato. Não posso nem elogiar o policial da cidade?

Henrique não respondia. Apenas olhava para frente, fingindo que ela era ar e poeira.

No outro dia, ela apareceu segurando um pacotinho.

— Trouxe pão de queijo. Quentinho. Eu mesma que comprei. Quer?

— Estou em serviço.

— E eu estou sendo gentil. Aceita, vai…

— Não posso aceitar agrados enquanto trabalho.

— Então tá me dizendo que fora do expediente eu posso te agradar?

Henrique lançou um olhar. Sério. Profundo. Quase perigoso.

— Vá pra casa, senhorita Lorena.

No outro, Lorena deixou um bilhetinho dentro de um envelope vermelho e jogou discretamente no jipe da polícia. Camila surtou.

— Você tá doida, mulher? Isso dá cadeia!

— Só se ele for fraco de espírito… — respondeu Lorena com um sorrisinho maroto.

No bilhete, estava escrito:

"Um homem como você devia ser proibido de andar armado e bonito do jeito que anda."

Na semana seguinte, ela já nem disfarçava mais.

— Henrique… — chamava com a voz manhosa — já decidi o que vou ser quando crescer.

— Espero que não seja encrenca.

— Vou ser sua esposa.

Ele sequer desviava o olhar.

— Prefiro enfrentar ladrão de banco.

Camila assistia a tudo com as mãos na cabeça.

— Lorena… isso já passou de teimosia, virou obsessão.

— Obsessão não, Camila. Isso é destino. Ele que ainda não entendeu.

E o mais impressionante era que Lorena não se magoava. Cada “não”, cada silêncio, cada olhar frio, só pareciam aumentar sua vontade. Era como se ela soubesse — soubesse mesmo — que por trás daquela armadura havia um coração esperando por ela.

Ele só precisava de tempo.

E ela tinha o ano inteiro.

Havia passado uma semana, a chuva caía pesada, grossa como cortina. O barulho era ensurdecedor, tamborilando nos telhados de zinco e transformando a rua de paralelepípedos num rio barrento. Nem a sombrinha velha que Lorena trazia ajudava — o vento rasgava por baixo, e a água parecia brotar do chão. Os tênis já faziam chlop-chlop a cada passo, e a barra da calça jeans colava na pele gelada.

Camila estava doente em casa. E Lorena, teimosa como sempre, tinha ido sozinha à escola. Agora estava ali, encolhida sob a estreita fachada de uma casa, tentando escapar da tempestade como podia.

Estava tremendo — de frio e de frustração — quando um carro deu ré e estacionou bem à sua frente. A porta do carona se abriu sem que ninguém dissesse nada.

Instinto.

Lorena correu e entrou.

O calor do carro a envolveu de imediato… mas o choque veio em seguida.

— Sargento? Você??

Henrique estava ali, com uma mochila no colo. Nem olhou de imediato. Estava revirando o zíper da bolsa até encontrar o que queria. Tirou uma toalha escura, dobrada com cuidado, e estendeu para ela.

— Toma. Se enxuga.

Lorena aceitou, surpresa. A toalha estava quente, como se tivesse sido deixada sobre o motor.

— Obrigada… — disse, encolhida no banco.

Henrique sorriu de lado, sem virar totalmente o rosto.

— Você parecia um gato escaldado. Estava engraçada.

Lorena sorriu de volta, mesmo com o nariz pingando.

— Engraçada, não. Resgatada. Vai me levar pra sua casa agora?

Ele riu, uma risada breve e desacreditada, como quem já esperava aquilo.

— Você é mesmo insistente.

— É que eu tô muito apaixonada, sabe?

Henrique virou o rosto para encará-la. Pela primeira vez, seus olhos se encontraram de verdade.

— Você nem me conhece, Lorena.

— Claro que não. Você não deixa.

Ele suspirou, longo. Passou a mão no queixo e falou num tom mais sério.

— Lorena… você parece uma garota de família. Bonita, esperta, com um futuro enorme na frente. Eu entendo que esteja atraída, mas… isso não é saudável pra você. Você ainda é uma criança e eu sou um homem. É hora de parar com isso. Estamos entendidos?

Por um segundo, o carro ficou em silêncio.

Até os olhos dela brilharem — e o sorriso surgir.

— Então você me acha bonita?

Henrique ergueu a sobrancelha, incrédulo.

— Foi só isso que você ouviu?

— E que tal a gente namorar? — insistiu, atrevida.

— Não.

Ela cruzou os braços, emburrada, com o rosto colado na toalha.

Henrique balançou a cabeça, lutando contra um sorriso.

Ele ligou o carro e começou a dar voltas no quarteirão.

— Vai me dizer seu endereço ou vamos andar em círculos até a chuva virar enchente?

— Me leva pra sua casa.

— Lorena.

Ela bufou e, com má vontade, falou o nome da rua.

Henrique parou diante da casa de Inácio, mas não desligou o motor. A chuva continuava firme, batendo com força nos vidros. Ele desligou a viatura depois de um momento e cruzou os braços, olhando para a frente.

— Vamos esperar estiar um pouco. Senão você vai se encharcar de novo.

Lorena o olhou de lado.

O banco estava molhado, os cabelos dela desgrenhados e as bochechas ainda quentes… ela sentiu que talvez, só talvez, o coração dele estivesse começando a ceder.

Porque ela sabia: chuva forte amolece até pedra.

E o sargento Campos… era só questão de tempo.

As semanas se arrastaram, como sempre fazem quando se tem um objetivo à frente e o obstáculo se recusa a desviar. Lorena seguia insistente. Henrique, firme. Mas havia algo diferente nos últimos dias… um olhar mais longo, um silêncio menos frio, uma resposta menos áspera.

Ela percebia. Ele não dizia, mas o corpo já começava a denunciar o que a boca se recusava a admitir.

E então, numa sexta-feira de céu nublado e calor abafado, tudo mudou.

Lorena estava sentada sozinha no coreto da praça central, esperando Camila sair da farmácia. Tinha ido direto da escola, com os livros no colo e a cabeça cheia. Aquela sexta tinha sido particularmente ruim. Tinha tirado nota baixa numa prova e escutado da professora que era "inteligente, mas desatenta". Tudo o que ela odiava ouvir. Ela sabia que não era desatenta. Só estava cansada. Só queria sair dali. Só queria ser alguém.

Ficou ali, mexendo na pontinha da blusa, olhando os carros passarem, até ouvir o som conhecido do motor da viatura. Reconheceu de imediato — e não se virou. Não queria dar o braço a torcer naquele dia. Mas ouviu os passos se aproximando, e uma sombra se projetou à sua frente.

— A praça não é lugar seguro quando começa a escurecer.

Ela levantou o olhar. Henrique.

— E a viatura não é lugar de refúgio pra mocinhas teimosas, lembra?

Ele sorriu de leve.

— Lembro.

Ela suspirou, olhando para frente. Henrique se sentou ao lado dela, com certo cuidado. Manteve as mãos sobre os joelhos e o olhar firme, como se ainda estivesse de serviço.

— O que aconteceu hoje?

— Por que tá perguntando?

— Porque você não falou nada de atrevido desde que eu cheguei.

Ela deu uma risadinha sem graça, mexendo na gola do uniforme.

— Só um dia ruim.

Henrique ficou em silêncio. Depois de um tempo, tirou algo do bolso da calça: uma balinha de banana, embalada em papel fino, com uma fita enrolada no topo.

— É de um armazém lá perto do batalhão. Eu gosto.

Lorena olhou a bala. Depois olhou para ele.

— Isso é um agrado?

— Não. É um consolo.

Ela pegou a bala, rindo baixo. Ficaram em silêncio por um tempo. O tipo de silêncio que só acontece entre duas pessoas que já se olharam demais para fingir que não sentem nada.

— Lorena… — ele disse, sem encará-la — você é diferente.

— Diferente como?

— Inquieta. Viva. Às vezes, insuportável. — ele sorriu com a boca, mas os olhos estavam sérios — Mas você me tira do eixo. E isso é um problema pra mim.

Ela o observou, segurando a bala na mão fechada, como se fosse algo precioso.

— Eu posso ser seu problema favorito.

Henrique riu pelo nariz. Depois ficou sério de novo. Olhou para ela. De verdade.

Então, sem aviso, ele estendeu a mão, devagar, e tocou o rosto dela. O polegar quente roçou sua bochecha — um gesto simples, mas cheio de significado. Lorena sentiu a pele arder sob o toque. Era a primeira vez que ele a tocava. A primeira vez que ele permitia algo.

O coração dela quase explodiu no peito.

— Sabe o que isso significa, né? — ela sussurrou, quase sem ar.

Henrique se inclinou um pouco, a voz mais baixa, como se falasse só pra ela.

— Que eu tô ferrado?

Ela sorriu. Um sorriso largo, vitorioso, doce e elétrico.

— Completamente.

Henrique soltou o ar, balançou a cabeça e deixou a mão cair de novo para o colo.

— Vai com calma, Lorena.

— Nunca soube o que é isso.

— É… eu já percebi.

E ficaram ali. Ele, sério como sempre. Ela, explodindo por dentro. O muro tinha rachado.

Lorena descobriu, sem querer, enquanto conversava com a esposa de um comerciante da cidade, que sargento ganhava bem. Bem mesmo. Henrique era respeitado, tinha bom salário, plano de carreira, estabilidade. Na capital, com o adicional de risco e os plantões, vivia como gente grande. Não era um desses policiais que ficava mofando no interior, não. Ele tinha prestígio.

Quando ouviu aquilo, o coração dela bateu mais forte.

Ela não ia mais precisar se espremer entre colchões e esperança. Não ia mais fingir que era filha dos outros, não ia mais sonhar em ganhar pouco e viver muito. Ela seria alguém. A mulher de um homem bonito, decente, com uma profissão de prestígio e salário bom. O tipo de mulher que entraria num carro pela porta da frente, de salto alto e roupas caras. O tipo de mulher que a cidade inteira respeitaria.

Rio de Janeiro…

Ela sorriu só de imaginar.

Desde as aulas de geografia, Lorena se encantava com a cidade maravilhosa. Pensava em morar lá, em ser garçonete, secretária, o que fosse. Trabalhar duro, subir na vida, achar um homem bonito e rico — e pronto, sua história mudaria. Só que agora… ela já tinha encontrado o homem. E ele era ainda melhor do que imaginava. Ela nem precisou ir para tão longe.

Henrique não tinha ideia, mas estava prestes a ser o capítulo mais importante da vida dela.

Foi numa noite morna que tudo aconteceu. A praça estava vazia, e a lua se escondia atrás das nuvens. Lorena saíra para tomar ar. Estava inquieta. Tinha ouvido de Inácio que Henrique talvez fosse transferido no ano seguinte. Aquilo doeu mais do que gostaria de admitir.

Estava sentada no banco perto da fonte seca, com o casaco fechado e os braços cruzados, quando ouviu passos se aproximando. Reconheceu o caminhar. Firme, compassado, seguro.

Henrique.

— Tá sozinha? — ele perguntou.

— Tô.

— À noite, nessa praça, de novo?

— Ué, achei que você gostasse de me vigiar.

Ele riu com o nariz e se sentou ao lado dela, mantendo distância.

— Vai sentir falta de mim quando eu for embora?

Ela o olhou de lado, séria.

— Vai mesmo?

— Estão falando em realocar pra capital. Mas não é certeza. Eu havia pedido para vir para cá por conta dos meus pais. Meus irmãos moram em outras localidades e eles ficam sozinhos aqui.

Ela abaixou os olhos, mordendo o lábio.

— Sempre sonhei em morar no Rio…

Henrique a observou.

— Sonhava ir sozinha?

— Antes… sim. Agora? Não mais.

O silêncio entre os dois ficou denso. Um tipo de silêncio que pesa, mas não sufoca. Que diz mais do que qualquer conversa.

Lorena virou o corpo um pouco, ficando de frente pra ele. A luz do poste fazia sombras suaves no rosto de Henrique, e os olhos dele estavam calmos. Quase doces.

— Você gosta de mim? — ela perguntou, de repente.

Henrique demorou para responder.

— Gosto.

Ela sorriu. Um sorriso pequeno, mas inteiro.

— Então me beija.

— Lorena…

— Por favor.

Henrique olhou pra ela como quem olha pra uma tempestade chegando. E então, pela primeira vez, ele parou de fugir. Parou de fingir. Parou de resistir.

Levantou a mão e segurou o rosto dela com cuidado — os dedos quentes, firmes, a palma encaixando como se tivesse sido feita pra ela. Lorena prendeu a respiração, e foi nesse exato segundo que ele se aproximou.

O beijo veio calmo no começo. Um toque suave, como se testasse terreno. Mas logo ganhou força. Os lábios dele eram quentes, decididos, cheios de uma vontade contida por tempo demais. Lorena respondeu com a paixão de quem esperou aquele momento desde o dia em que o viu pela primeira vez.

As mãos dela subiram até o uniforme, apertando levemente a gola da camisa dele. Henrique a puxou mais perto.

Aquilo era o começo de tudo.

Seu primeiro beijo. Seu primeiro amor.

E o primeiro passo para a vida que ela tanto sonhou.

No dia seguinte, Lorena estava uma pilha de nervos.

Era como se o mundo tivesse ganhado cor depois daquele beijo, mas agora… tudo parecia em preto e branco de novo. Henrique não estava lá. Não estava no posto na esquina da escola, nem no jipe, nem no caminho de sempre. Nada.

Ele havia sumido.

E ela, com o orgulho ferido e o coração em chamas, voltou para casa chutando pedrinhas no caminho.

— Ele só queria me usar, Camila! Acha que pode beijar a gente e depois sumir!

— Ele deve estar trabalhando, Lorena…

— E não podia me avisar? E se ele morreu? E se fugiu? E se achou outra?

— Meu Deus…

Quando chegaram à rua de casa, Lorena parou de falar. Os olhos arregalaram no mesmo instante em que ela viu a viatura parada diante do portão. O coração deu um salto. O sangue subiu.

— Ai meu Deus, é sobre mim! — exclamou, já correndo.

— Lorena, espera! — gritou Camila, tentando alcançá-la.

Lorena abriu o portão com brutalidade, empurrou a porta da sala e congelou.

Henrique estava sentado no sofá. Fardado. Postura impecável. Os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos unidas. Sério, mas tranquilo. De frente para ele, estavam Inácio e a esposa, com expressões indecifráveis.

Lorena arfava de tanto correr.

— O que tá acontecendo aqui?

Henrique se levantou ao vê-la. Os olhos encontraram os dela, e havia algo diferente ali. Uma firmeza. Uma intenção.

— Senta aqui comigo, Lorena.

Ela hesitou, ainda em pé. Estava com raiva. Confusa. Mas obedeceu. Sentou ao lado dele, mas não muito perto. Os braços cruzados.

Henrique então olhou para Inácio com respeito e voltou a falar.

— Senhor Inácio… como o senhor sabe, eu e a Lorena temos nos aproximado. Ela é uma moça de valor, determinada… e me sinto honrado de estar ao lado dela. Então, vim pedir sua permissão para que a gente possa namorar de forma correta.

Lorena ficou em choque. O olhar arregalado. A boca entreaberta.

— O quê?

Inácio ajeitou-se na poltrona. Suspirou fundo.

— Pois bem… — disse, olhando para Henrique — Primeiro, eu não sou pai da Lorena. Ela só mora com a gente durante o ano letivo. Mas a gente cuida dela como se fosse nossa, então… se é assim que cê quer, e sendo o homem direito que é, eu dou a minha permissão.

A esposa de Inácio sorriu, emocionada.

Henrique agradeceu com um aceno respeitoso, e então… estendeu a mão, devagar, até tocar a de Lorena.

Ela deixou que ele a segurasse, ainda em choque.

— Você enlouqueceu? — sussurrou entre os dentes.

— Só tô tentando fazer certo.

— Mas… mas você sumiu!

— Tava arrumando isso. — ele sorriu de canto — Não vou te tratar com menos do que você merece.

Ela piscou, o coração disparado. Foi só então que se deu conta do que estava acontecendo.

Henrique estava mesmo ali.

Henrique, o homem que ela provocou, perseguiu, implorou.

O homem que agora segurava sua mão, de frente para um casal que a amava como filha, pedindo permissão para torná-la oficialmente sua.

Lorena mordeu o lábio para não sorrir, mas era inútil. Um sorriso enorme escapou antes mesmo que ela pudesse controlar.

— E você acha que eu vou namorar alguém que me faz passar raiva?

— Com certeza. — ele respondeu, tranquilo.

Ela riu, e sem se importar com ninguém na sala, encostou a cabeça no ombro dele.

— Então tá. Mas você que lute.

Henrique entrelaçou os dedos aos dela, apertando com firmeza.

— Eu luto. Todo dia, se for por você.

Naquele instante, Lorena soube.

Ela não precisaria mais sonhar com um bom marido no futuro.

Ela já tinha encontrado o seu.

Uma semana passou, Lorena estava em seu melhor momento.

Henrique agora a buscava todos os dias. De jipe, fardado, impecável. Ela fazia questão de sair cinco minutos depois de ele chegar, só para que todos na rua pudessem vê-la entrar naquele carro como uma princesa moderna — a realeza da cidadezinha. As moças olhavam com inveja. Os rapazes nem tentavam mais. Ela era a garota que tinha conquistado o policial mais cobiçado da região. O homem sério. O homem que dizia “não” para todas… menos para ela.

Camila até brincava:

— Vai acabar precisando de escolta pra ir até a padaria.

Lorena adorava.

Mas, com o tempo, outra preocupação começou a crescer em seu peito — silenciosa, mas constante.

Henrique queria apresentá-la aos pais. Disse que a mãe estava curiosa, que o pai perguntava por ela. Lorena congelou.

Ela lembrava da própria infância com cheiro de esterco e da areia vermelha. Das roupas de terceira mão que ela usava, do sotaque forte que se esforçava para esconder. Imaginava a mãe dele como uma mulher fina, talvez cheia de joias, cheia de livros na estante e um perfume que não vendia na farmácia da cidade.

O que pensariam de uma garota da zona rural? Que só estudava ali porque morava de favor? Que sonhava em sair dali não por ter para onde ir, mas porque precisava sair?

Engoliu seco. E mentiu.

Disse que estava sem tempo. Que as provas estavam chegando. Que precisava ajudar Camila em casa. Henrique não insistiu. Mas ela sabia que ele notou.

Henrique paparicava Lorena, toda semana dava dinheiro para ela usar como bem entendesse, seja comprar algo que estava precisando, uma roupa, se cuidar ou fazer qualquer coisa que ela quisesse.

Naquela tarde em específico, Lorena estava no salão. Tinha decidido que precisava estar cada vez mais bonita — o tipo de mulher que ninguém nunca duvidaria ser digna de um homem como ele.

Estava de cabeça baixa, com os cabelos sendo escovados, quando o assunto começou:

— … eu disse pra ele: “você quer outra? Então vai. Mas saiba que ninguém vai fazer com você o que eu faço, não.”

— E ele ficou? — perguntou outra, rindo.

— Tá lá em casa até hoje! Dormindo no meu colo, feito cachorro satisfeito.

Risos.

Lorena levantou os olhos. Não entendeu de primeira. Mas a curiosidade veio.

— Que que cês tão falando?

— De como segurar homem, ué. — disse uma das clientes mais velhas — Homem bom só fica quando a gente mostra serviço.

— Serviço?

— Sexo, menina! — outra riu alto — Tu é inocente ou tá se fazendo?

Lorena arregalou os olhos, vermelha.

— Não liga para ela, sexo é ótimo, é quando você se entrega para um homem.

— E o que acontece?

— Ele enfia o pênis dentro de você.

Lorena abaixou o rosto, constrangida.

— Qual é mocinha, você não está namorando com o policial? Ele te deu até aliança de namoro. Vai dizer que vocês nunca foram para os finalmentes?

— Mas… isso aí… a gente só namora no sofá lá de casa.

— E tu acha que vai segurar o sargento bonitão assim? — perguntou uma, passando batom no espelho — Amor é bom, minha filha, mas homem quer é cama.

— Mas e casamento?

— Certeza que casa! — disse a mais velha — Depois que a gente faz ele viciar, casamento é só questão de tempo.

— E se ele cansar?

— Cansar? Só se você for ruim! — mais risos.

— Se não tem lugar, só ir num motel.

— Já foram? Como é? — ela perguntou curiosa.

— Claro! — disseram em coro — É chique. Tem espelho, ar-condicionado, hidromassagem… melhor que sofá de sala.

Lorena saiu do salão com o cabelo liso, brilhando, mas com a cabeça pegando fogo. Aquelas mulheres falavam com tanta naturalidade… tanto poder.

Ela não queria apenas amar Henrique. Ela queria segurá-lo. Garantir. Amarrar. Nunca mais ter medo de perdê-lo. Se sexo era o caminho… então era hora de mudar de tática.

E ela mudou.

No dia seguinte, entrou na viatura com um sorriso de canto.

— Oi, meu amor… — disse, afivelando o cinto — sonhei com você essa noite.

— É mesmo?

— Aham. E a gente tava fazendo coisas que nem sei se posso contar.

Henrique tossiu. Acelerou.

Dois dias depois, enquanto ele a levava para comprar pastel:

— Tem motel nessa cidade?

— Lorena…

— Ué. Tô perguntando. Vai me levar um dia?

— A gente tá bem assim, né?

— “Bem” é muito pouco pra mim.

No final de semana, ela apareceu com um vestido novo. Apertado. Comprado com o dinheiro que ele mesmo deu.

— Vai me buscar mais tarde?

— Claro.

— Quero fazer algo diferente hoje…

Henrique arqueou a sobrancelha.

— Diferente como?

— Você vai ver.

No caminho, ela passou a mão na coxa dele. Devagar.

— A gente podia sair só nós dois, ir pra algum lugar longe… se conhecer melhor, né?

— Lorena… a gente já se conhece.

— Não. De verdade.

Henrique bufava, desviava, mudava de assunto. Mas ela insistia. Sempre com aquele olhar atrevido e a boca pronta para o ataque. Ele era forte, mas ela era teimosa.

E Lorena já tinha vencido uma vez.

Sabia que cedo ou tarde… venceria de novo.

Era uma noite quente, abafada. As janelas da cidade vizinha estavam embaçadas pelo vapor da chuva que havia caído mais cedo, deixando o ar com cheiro de terra molhada e asfalto.

Henrique a buscou de carro. Estava bonito — bonito de um jeito que deixava Lorena sem ar. Camisa escura de botão, mangas dobradas nos antebraços fortes, perfume discreto que ela já reconhecia de longe. Nem farda ele usava, e mesmo assim carregava a mesma postura — aquele ar de segurança, de autoridade, de homem.

Ela não perguntou para onde iam. Apenas entrou no carro com um sorriso travesso.

Quando o letreiro iluminado do Motel Brisas surgiu na beira da estrada, o coração de Lorena disparou. A entrada era discreta, o portão de ferro abriu-se devagar, e os dois passaram como quem atravessa uma fronteira invisível. Para ela, era outro mundo. Outro universo.

A suíte tinha uma cama redonda no centro, lençóis brancos esticados perfeitamente. O colchão d’água balançava levemente com qualquer movimento. Espelho no teto, luz âmbar, uma TV velha num canto que estava passando um casal se beijando. Era brega. Mas para Lorena, era o palácio da sua estreia. Um lugar quase mítico — onde o amor se transformava em algo mais.

Ela girou o corpo observando tudo com olhos curiosos, até sentir as mãos de Henrique segurarem as suas com firmeza.

Ele a puxou com suavidade.

— Lorena… antes de qualquer coisa… — ele disse, olhando nos olhos dela — você tem certeza?

Ela piscou.

— Tenho.

— Eu posso esperar. Até o casamento. Não me importo.

Ela franziu o cenho, brava.

— Eu não quero esperar. Eu quero agora.

Henrique sorriu. Um sorriso que dizia mais que palavras. Ele se aproximou, encostou a testa na dela, e os dois fecharam os olhos. O beijo veio devagar, cheio de cuidado e ainda assim acendeu nela algo que ela nunca havia sentido antes. O calor do corpo dele, a firmeza das mãos que deslizavam por sua cintura, o toque no pescoço, nos ombros, no quadril…

Ela sentiu.

Sentiu mesmo.

Sentiu ele a pressionando na coxa.

E soube que não havia volta.

A primeira vez foi estranha. Tensa. O corpo não sabia direito o que fazer, o coração estava ansioso demais, e a dor veio rápida. Ela fez uma careta. Ele parou na hora.

— Tá tudo bem? — sussurrou ele, enxugando o suor da testa dela com os dedos.

Ela apenas assentiu.

Henrique foi paciente. E carinhoso. A segunda vez veio com mais calma. E então, sim… veio o prazer. Veio o toque certo. A troca. O olhar firme dele dizendo que ela era desejada. Amada. Respeitada. Ela se sentiu mulher ali, pela primeira vez. Inteira. Escolhida.

Depois, deitada no peito dele, com os lençóis desorganizados e o colchão ainda se mexendo sob os corpos, Lorena olhou para cima. O espelho mostrava os dois — entrelaçados, suados, sorrindo como se tivessem feito algo proibido… e precioso.

Henrique a olhou de volta. Como se ela fosse o centro de tudo.

E Lorena soube com todas as certezas que tinha:

Não havia mais risco.

Não havia mais dúvida.

Ela nunca perderia Henrique.