O CEO que Eu Paguei
224 Nunca Foi Uma Opção
Heitor permaneceu sentado depois que Isaac se afastou.
Os dedos tamborilavam lentamente sobre a mesa de madeira escura. A música ambiente seguia suave, os garçons mantinham distância, tudo perfeitamente organizado.
Mas dentro dele não havia ordem alguma.
Ele estava com raiva e profundamente ofendido.
Olhou novamente na direção do corredor que levava ao banheiro.
Nada da Helena.
Queria buscá-la. Pegar o filho, colocá-la no carro e ir embora dali. Encerrar a noite antes que a situação se tornasse maior do que já tinha sido.
Porque, para ele, já tinha sido grande.
Como ela teve coragem?
No restaurante dele.
Com a família dele ali.
E, o pior é que Ana Alice sabia que ele está com a Helena, ele é o homem dela.
Heitor passou a língua pelo interior da bochecha, controlando a tensão no maxilar.
Chamou então o garçom e pediu para levarem o prato da Helena e prepararem um novo. Ela estava demorando demais, mas não podia ir atrás dela, estava tão irritado que ela com toda certeza perceberia e ele pretendia contar sobre o que aconteceu quando estivessem em casa. Não queria causar uma briga ali.
Isaac tinha chamado Ana Alice para conversar. E isso o deixou curioso.
Homens como eles não eram ingênuos. Isaac foi criado praticamente da mesma forma que ele, sobrenome forte, imagem pública e orgulho. Nenhum homem daquele meio fingia não perceber desrespeito.
A pergunta era outra:
Como Isaac irá prosseguir?
Ele queria descobrir quem estava dobrando quem ali.
Foi então que os dois reapareceram.
Isaac fez um sinal rápido com a cabeça em direção ao banheiro.
Heitor assentiu, neutro.
E então viu.
Ana Alice vinha sozinha na direção dele.
Ele a acompanhou com os olhos sem sequer mexer a cabeça.
O jeito de andar.
A postura teatral.
O sorriso preparado antes mesmo de chegar à mesa.
Era sempre igual.
Ele sempre achou curioso como mulheres interesseiras eram parecidas entre si. Não era só roupa e nem maquiagem.
Era postura, o jeito de caminhar, o sorriso polido e a confiança artificial.
Quando era mais novo, o pai o ensinou a identificar aquele tipo. Talvez Paulo não tivesse dado essa lição ao Isaac.
Ela parou diante da mesa.
— Posso?
Ele não respondeu de imediato.
Apenas olhou.
O silêncio já era resposta suficiente, mas ela sentou mesmo assim.
Heitor soltou um suspiro pesado pelo nariz e recostou-se na cadeira. O desconforto não foi escondido. Ele queria que fosse visto.
Ela deu um sorriso pequeno, quase frágil.
— Eu vim pedir desculpa… pelo que aconteceu.
Ele a observou por longos segundos.
— Não aceito as suas desculpas. Não foi um acidente — respondeu, calmo.
Ela engoliu seco.
— Foi sim… eu juro. Eu jamais faria algo pra desrespeitar o Isaac. Eu amo ele.
Ele inclinou a cabeça de leve.
— Você não acredita, né? — ela perguntou, quase sussurrando.
— Não.
Ela respirou fundo outra vez, insistindo.
— Eu quero ser boa pra ele. Quero que a família dele goste de mim.
Heitor cruzou os braços lentamente sobre a mesa.
— Então por que você se insinuou pra mim?
A pergunta caiu pesada.
Ela travou por um instante.
Não esperava ser confrontada assim diretamente.
Os olhos dela oscilaram, buscando uma saída.
— Eu só… — ela baixou um pouco a voz — queria saber se eu te encantava.
Heitor nem piscou.
— Não encanta. — respondeu de imediato.
O rosto dela endureceu por um segundo, um reflexo verdadeiro que escapou antes do controle voltar.
Então ela fez algo pior.
Levantou… e se sentou na cadeira de Helena.
Ao lado dele.
O corpo de Heitor reagiu antes da mente.
O maxilar travou.
O peito expandiu.
O olhar escureceu.
Ele virou devagar para ela.
— Levanta.
A voz saiu baixa, mas carregada.
— Heitor…
— Levanta da cadeira da minha noiva.
Agora não havia gentileza alguma.
— Eu não vou pedir outra vez.
Ela percebeu imediatamente pelo tom dele que estava falando sério. E então levantou.
— Eu não quero problema…
Ele a encarava.
— Então não cria.
O silêncio ficou pesado entre os dois.
Mas ela ainda precisava falar.
— Eu só quero entender… — disse, agora mais tensa — por que você se interessou pela Helena?
Ele não respondeu.
Ela continuou:
— Eu vi as mulheres que você já saiu. Pesquisei. Todas são completamente diferentes dela… Olha só para a Helena… Mais favelada impossível.
Por dentro, algo nele queimou em puro ódio.
Ele havia prometido à Helena que deixaria aquilo morrer depois que descobriu que Ana Alice tinha passado informações dela para Antônio. Helena acreditava que a história tinha acabado.
Ele tinha respeitado.
Até agora.
Ele se ajeitou lentamente na cadeira.
O olhar sobre ela ficou limpo… e duro.
— Tenho muito orgulho dela. E a Helena não é assunto seu.
Ela bateu o salto no chão.
— É sim. Eu preciso saber onde eu perdi pra ela.
— Em tudo.
O silêncio ficou mais pesado do que qualquer discussão.
Ana Alice não se afastou.
Ela permaneceu ali, parada ao lado da mesa, olhando para ele como se a resposta tivesse sido um insulto pessoal e tinha sido.
Mas o que a incomodava não era só a ofensa.
Era a certeza no tom dele.
Ela puxou outra cadeira devagar e sentou, dessa vez de frente para ele, ignorando completamente o encerramento da conversa.
— Você é cruel… — disse, fazendo um pequeno bico.
Heitor não respondeu.
Ele estava esperando ela ir embora. Ela percebeu. E foi justamente por isso que não foi.
Ana Alice apoiou o cotovelo na mesa e inclinou o rosto na mão.
— Eu não acredito que você nunca teve curiosidade…
Ele respirou fundo pelo nariz.
— Não teste minha paciência.
Ela sorriu leve, como se aquilo fosse apenas provocação inocente.
— Eu só estou conversando.
— Não.
A resposta veio baixa.
— Você está ultrapassando o limite. De novo.
Ela inclinou o corpo um pouco mais para perto.
— Eu só queria entender… — falou quase num sussurro — o que ela tem que eu não tenho.
Heitor passou a mão pelo maxilar devagar, controlando o incômodo.
— Você realmente quer essa resposta?
Ela sustentou o olhar.
— Quero.
Ele apoiou as mãos sobre a mesa.
— Ela não precisa provar nada.
Ana Alice franziu a testa.
— Eu também não.
— Precisa. — respondeu calmo.
O silêncio a irritou.
— Você nem me conhece direito.
— Conheço o suficiente pra saber que você está competindo com alguém que não está competindo com você.
Aquilo a acertou em cheio.
Ela se mexeu na cadeira.
— Você acha que eu quero você?
Ele respondeu imediatamente:
— Não. Você quer vencer a Helena.
Os olhos dela endureceram.
— Você se acha importante demais.
— Não é sobre mim.
Ele inclinou levemente o corpo para frente.
— É sobre ela.
Ela cruzou os braços.
— Ela não é tudo isso.
A mudança no olhar dele foi imediata.
— Cuidado com o que você vai falar agora.
A voz saiu baixa e firme.
Ana Alice sentiu.
Mas não recuou.
— Eu só estou sendo sincera. — disse, amarga. — Você trata ela como se fosse perfeita.
Ele respondeu sem alterar o tom:
— Eu trato ela com respeito.
Ela riu baixo.
— Então você nunca olhou pra mim de verdade.
Silêncio.
Ela se levantou e deu meio passo mais perto da mesa.
— Porque homem nenhum fica completamente indiferente. E eu sei que você sente algum desejo por mim.
Foi nesse momento que Heitor levantou.
Devagar.
A cadeira não fez barulho. Mas a postura dele mudou o ar do ambiente.
Ele não se aproximou dela. Apenas ficou de pé.
— Eu estou sendo educado por dois motivos — disse com calma. — Primeiro: porque o Isaac confia em mim. Segundo: porque a Helena me pediu pra não criar problema com você.
Ela piscou.
Ele continuou:
— Não confunda isso com abertura.
— Eu não quero problema com você — ela respondeu, mais baixa.
— Então pare.
Ele a encarou diretamente.
— Você encostou em mim na frente da minha família. Tentou denegrir a imagem da minha mulher.
A última frase saiu pesada.
— Isso foi desrespeito.
Ela tentou sustentar:
— Foi um acidente.
— Não foi.
Silêncio.
Ela desviou o olhar pela primeira vez.
— Eu amo o Isaac.
Ele respondeu:
— Então comece respeitando o noivo da irmã dele.
Ela respirou fundo.
— Eu só queria saber se eu conseguia…
— Não consegue.
Ela ergueu o queixo.
— Você nunca ficaria comigo.
— Nunca.
Ele respondeu sem hesitação.
— Nem se não tivesse a Helena?
Ele deu um passo para trás, encerrando definitivamente.
— Eu escolhi a Helena, ela sempre seria e sempre será a minha escolha. Você nunca foi uma opção.
Agora não havia mais espaço para jogo.
Ele apontou discretamente para a direção dos banheiros.
— Volta pro Isaac.
E completou, baixo:
— E não me coloca de novo numa situação dessas.
Ana Alice não parecia disposta à ir atrás do namorado. Então Heitor se virou e seguiu rumo onde sua família estava.
Enquanto isso, Helena terminava de trocar a fralda de Humberto.
Ou melhor… tentava.
Ele se mexia o tempo inteiro. As perninhas chutavam o ar sem coordenação, o quadril virava de lado como se estivesse tentando escapar, e a cada vez que ela o reposicionava, ele já estava olhando para outro ponto do quarto, curioso e atento a tudo. De repente, virava para ela, abria a boquinha redonda como se fosse falar algo muito importante… e soltava um balbucio animado.
Helena riu baixinho.
— Ah é? Tá me contando o quê?
Ela inclinava o rosto perto do dele, fazia caretas e soprava levemente a barriguinha. Humberto respondia com um sorriso largo e era exatamente nesses segundos de distração que ela aproveitava para fechar a fralda. Mas bastava um instante: o pezinho entrava onde não devia, ele erguia as duas pernas ao mesmo tempo, e em seguida vinha um chute forte que quase desmanchava tudo.
— Meu Deus… — murmurou entre risos, segurando os tornozelinhos dele com delicadeza. — Você não para quieto nem um minuto.
Enquanto tentava ajeitar a fita adesiva, um pensamento surgiu, automático. Helena imaginou Humberto correndo, maiorzinho, atrás de uma bola num campinho ensolarado, camiseta suja de terra e rindo alto. O coração dela apertou de um jeito bom e caloroso. Ela queria ver tudo. Cada fase. Cada descoberta. Cada primeiro momento.
Quando finalmente conseguiu fechar a fralda, suspirou vitoriosa.
E então sentiu.
Umidade morna no tecido do vestido.
Ela abaixou o olhar imediatamente para o seio esquerdo e fechou os olhos por um segundo.
— Ah, não…
O leite havia vazado.
Frustração misturada com cansaço passou pelo rosto dela. Na pressa de se arrumar de novo, tinha esquecido o absorvente de seio. Revirou os olhos para si mesma enquanto procurava na bolsa.
Foi quando olhou para o trocador outra vez.
Humberto a encarava… com o sorriso mais sapeca que ela já tinha visto.
Helena simplesmente derreteu.
— Pelo jeito está da forma que você gosta, né?
Ela se aproximou sorrindo. O bebê soltou uma risadinha gostosa, levantando as mãozinhas diante do próprio rosto. De repente, ficou completamente concentrado nelas, como se tivesse acabado de descobri-las. Abriu e fechou os dedinhos, observando fascinado.
Helena ficou parada por um instante só olhando.
A cada dia ele aprendia algo novo. E, para ela, cada pequena descoberta dele parecia um acontecimento gigantesco.
Ela limpou o vazamento rapidamente com uma fralda de pano, então o pegou no colo. Humberto se agitava, animado, reconhecendo o colo da mãe. Quando ela falava com ele, ele sorria ainda mais e Helena pensou, com um aperto doce no peito, que nunca imaginou que um bebê banguela pudesse ser tão fofo.
Sentou-se na poltrona de amamentação e o posicionou contra o corpo.
Ele percebeu imediatamente.
O corpinho relaxou. O sorriso permaneceu pequeno, satisfeito, e quando ela o encostou no peito, Humberto pegou rápido, instintivo. A mãozinha dele pousou sobre o seio dela, abrindo e fechando sem coordenação. Helena sentia os dedinhos mornos tocando sua pele, e aquilo a emocionava de um jeito quase inexplicável.
— Tá gostoso, meu amor? — ela murmurou numa voz baixa, só para ele.
Observou os olhinhos grandes e azuis fixos nela enquanto mamava. Passou a mão devagar pelos cabelinhos escuros e deu um beijo demorado no topo da cabeça.
Ela o amava com uma intensidade que ainda a surpreendia.
— O leite da mamãe tava esperando você… você tava com fome, né? — sussurrou. — Seu papai fez esse banheiro só pra gente ficar confortável aqui… viu que chique?
Ela continuava falando, sem nem perceber que não precisava de resposta. Apenas queria que ele ouvisse sua voz, que soubesse que ela estava ali.
Mesmo com Humberto aconchegado contra o peito, ela mantinha o olhar preso na entrada do banheiro. Desde o episódio com Antônio, havia algo dentro dela que não desligava completamente. Já não eram as crises de pânico do começo — aquelas mãos geladas, o ar faltando, o coração disparado —, ela tinha aprendido a respirar, a se manter firme. Precisou. Por ela… e principalmente pelo filho.
Mas ainda havia aquele incômodo.
Um estado de alerta silencioso.
Os olhos voltavam, vez após vez, para a entrada do banheiro. O lugar era seguro, ela sabia. O Oséias, os seguranças do local, os policiais à paisana que Paulo enviou estavam todos pelos arredores. Mesmo assim, o pensamento escapou involuntário:
Talvez eu devesse ter deixado o Heitor vir comigo.
Um som baixinho a arrancou do próprio pensamento.
— eehh…
Helena piscou e abaixou o olhar.
Humberto ainda mamava… e tentava conversar ao mesmo tempo. O leite escorria pelo cantinho da boca enquanto ele fazia barulhinhos concentrados, como se estivesse explicando algo muito importante.
Ela arqueou uma sobrancelha, segurando um sorriso.
— O que você está fazendo?
Como se tivesse entendido perfeitamente, ele soltou o peito e abriu um sorriso enorme, satisfeito consigo mesmo.
Helena pegou o paninho ao lado e limpou a boquinha dele com cuidado.
— Humberto Campos Monteiro… — disse em tom solene, mas doce. — Sem gracinhas. Hora do mama.
O bebê respondeu com uma risadinha gostosa, os olhinhos brilhando. Helena não resistiu; o sorriso surgiu automático. Encostou o dedo no queixinho dele e o puxou devagar.
— Eu sei que você quer mais…
Humberto começou a balbuciar animado, olhando fixo para ela. Helena repetia os sons, imitando-o como se conversassem de verdade. Ele pareceu satisfeito com a resposta e voltou a boquinha para o peito, retomando a mamada.
De repente, a mãozinha inquieta dele se perdeu nos fios do cabelo dela… e puxou.
— Ei! Esse cabelo é meu!
Helena fez uma falsa expressão de reprovação, e Humberto imediatamente soltou o peito apenas para sorrir, orgulhoso do efeito causado.
— Você é impossível… igualzinho ao seu pai.
Ela delicadamente desenrolou os dedinhos dos fios e beijou a mãozinha dele.
— Vai ter que aprender a controlar essas mãozinhas… — suspirou, olhando para baixo. — Olha só, molhou a roupinha toda!
Ele voltou a balbuciar enquanto mamava, agora claramente tentando chamar a atenção dela a cada segundo. Pequenos barulhos, pausas e olhares — como se estivesse checando se ela ainda o observava.
E ela observava.
Sempre.
Helena acariciou de leve as costas do filho, lembrando do que a pediatra disse: era normal. Alguns bebês se distraíam muito nessa fase. E Humberto… bom, Humberto nunca foi calmo. Nem na barriga. Chutes fortes, movimentos constantes, noites inteiras em que ela apenas deitava sentindo-o vivo dentro de si, sem conseguir dormir.
“Faz parte da personalidade dele”, a pediatra havia explicado.
Helena olhou para o rostinho concentrado contra o peito e sentiu o coração aquecer.
— Eu já sabia… — sussurrou. — Você sempre foi assim, desde aqui dentro.
A mão dela pousou sobre as costinhas dele com carinho protetor. E, quase sem perceber, o olhar dela voltou mais uma vez para a porta.
O silêncio do lado de fora pareceu maior do que deveria.
O corpo dela enrijeceu por um segundo, a respiração ficando mais curta.
Então ela apertou Humberto um pouco mais contra si.
O peso morno do filho, a respiração tranquila, o barulhinho suave da sucção… tudo a trouxe de volta. A tensão não desapareceu completamente, mas diminuiu o suficiente para que ela fechasse os olhos por um instante.
— Helena?
A voz veio abafada pela parede, mas ainda assim ela reconheceu imediatamente. Isaac.
Helena ajeitou o corpo instintivamente, puxando a manta macia para cobrir o ombro exposto e também parte de Humberto, que ainda mamava tranquilo.
— Ah… um momento! — disse mais alto. — Pode entrar.
Isaac apareceu com um sorriso tímido e as mãos enfiadas no bolso da calça. Helena o observou por um segundo mais longo do que o normal.
Ela não tinha crescido com ele. Não tinha memórias de infância dividida, brigas bobas ou segredos adolescentes. Mas, mesmo assim, existia um reconhecimento imediato, quase instintivo. Era estranho… e ao mesmo tempo confortável. Como se o coração tivesse simplesmente aceitado: é meu irmão.
E ele também parecia diferente agora.
Isaac sempre foi mais retraído. Discreto nas roupas, nos gestos e na forma de falar. Mas, naquele momento, havia algo mais firme na postura dele. O jeito de ficar em pé, de sustentar o olhar — uma confiança que ele não tinha antes. Seria a nova posição no banco ou talvez… bem, Helena não queria pensar na outra alternativa.
— Você tava demorando… — disse ele, aproximando-se com cuidado. — Vim ver se tá tudo bem.
Helena sorriu, olhando para o bebê.
— O Humbertinho tá fazendo o showzinho dele. — acariciou levemente a cabeça do filho. — Só falta virar um engraçadinho quando crescer.
Isaac riu baixo, encostando-se na parede, de frente para os dois.
— Outro Jonas? Como a gente impede isso?
Ela riu junto.
— Só pode existir um Jonas no mundo. É regra do universo.
Helena deu uma espiada no filho. A sucção havia diminuído, mais lenta. O corpinho começava a amolecer e os olhinhos azuis piscavam pesados, lutando contra o sono.
— Verdade… — Isaac observou com um sorriso pequeno. — Esse aí tá mais pra um Heitorzinho mesmo.
Então ele ergueu o olhar para ela.
— E você… tá tudo bem?
A pergunta veio suave, mas direta.
Helena piscou, surpresa. Por um instante pensou em desconversar automaticamente, mas o olhar dele não era curioso e sim cuidadoso.
Ela entendeu o que ele não disse.
Não precisavam mencionar Antônio. Só o silêncio entre as palavras já dizia tudo.
— Tem muita coisa acontecendo… — respondeu, mais baixa. — Mas eu tô bem.
Isaac hesitou um segundo, depois sustentou o olhar dela.
— Quer falar sobre isso? O pai tá preocupado com você… — fez uma pequena pausa — todos estamos.
Helena suspirou, sentindo o peso da preocupação dele.
— Não é nada demais… cuidar de um bebê é difícil. Ele é perfeito, mas dá trabalho. — sorriu de canto. — Ele acorda várias vezes de madrugada e eu não durmo bem.
Isaac franziu levemente a testa.
— O Heitor não te ajuda?
— Ajuda… — respondeu rápido — mas ele tá trabalhando tanto. Eu evito chamar na maioria das vezes.
— Mas tem que chamar. Faz parte do pacote de ser pai.
Ela ergueu uma sobrancelha, divertida.
— Imagina você trabalhando no banco e ainda acordando de madrugada por causa de um bebê… os correntistas iam sofrer.
Isaac soltou uma risada baixa. Tirou as mãos do bolso e, com um suspiro quase feliz, disse:
— Eu ainda não contei pra Ana Alice… mas eu quero ter cinco filhos.
Ergueu a mão aberta, mostrando os cinco dedos.
Helena arregalou os olhos e riu alto — um riso espontâneo que vibrou no peito. Humberto, quase dormindo, abriu os olhinhos pesados ao ouvir a voz dela. A mãozinha bateu no queixo da mãe enquanto ele ainda mamava, e um sorriso sonolento surgiu no rostinho dele.
Helena beijou a mãozinha do filho e voltou o olhar para Isaac.
— Cinco?! São muitos filhos! — então, com mais cuidado — Você realmente quer ir tão longe com a Ana Alice?
O sorriso dele foi imediato.
— Quero. Você conhece ela… não tem como não querer construir uma família com ela.
O coração de Helena apertou de um jeito ruim.
Ela conhecia.
E era exatamente por isso.
Engoliu seco. Por um momento pensou em deixar passar. Proteger o brilho no olhar dele. Fingir não saber. Mas o instinto falou mais alto.
— Zac… — começou, com cuidado — a verdade é que eu e a Ana Alice nunca fomos amigas.
Isaac franziu a testa, surpreso.
— Como assim? Ela disse que vocês eram.
— Não éramos… — a voz saiu mais baixa — Já aconteceu muita coisa entre a gente… e não foram coisas boas. Eu não sei se ela vai ser boa pra você.
A expressão dele mudou. Pequena. Contida. Mas ela viu.
— Ela… me contou que cometeu erros no passado — coçou a nuca, forçando um sorriso — deve ser isso.
— As coisas estão rápidas demais… conhece ela melhor.
— Eu conheço ela. — a resposta saiu mais ríspida.
Helena sentiu o peito apertar.
— Eu só tô dizendo que ela não é tudo isso que parece pra você.
Isaac desviou o olhar.
— Você fala igual o Jonas… — a voz dele saiu mais baixa — É tão difícil acreditar que uma mulher bonita pode me amar de verdade? Pelo que eu sou… não pelo que eu represento?
— Não! — respondeu na hora, mais firme — Você é incrível, Isaac. Esforçado, inteligente, bonito… — suavizou a voz — Eu só me preocupo. Eu sou sua irmã.
Ele respirou fundo e caminhou até a bolsa em cima do trocador, mexendo distraidamente na alça.
— A Ana Alice é uma boa pessoa. Eu amo ela. Vou me casar com ela… ter meus filhos com ela. Não agora… futuramente.
Helena sentiu o coração ficar pesado.
Nesse momento, Humberto soltou o seio. Ela olhou para baixo, ele estava adormecido. Um suspiro silencioso escapou. Ajustou o sutiã e o vestido; a mancha de leite ainda estava ali. Não importava mais.
Ergueu o bebê com cuidado e o apoiou no ombro para arrotar, fazendo batidas leves nas costas.
— Se você diz… — falou com suavidade — só toma cuidado. Eu tô aqui. Sempre vou estar. Se precisar de qualquer coisa… a gente resolve junto.
Fez uma pequena pausa.
— A Ana Alice teve uma vida difícil… eu sei disso. Talvez ela possa mudar. Ser melhor… — o olhar caiu no filho dormindo — eu só não sei se é agora.
Isaac ficou em silêncio por alguns segundos. O olhar dele não era mais defensivo e sim incerto. Ele respirou fundo e voltou a encará-la, um pouco corado, claramente sem saber direito como colocar em palavras.
— Você pode… me contar mais sobre a Ana Alice que você conheceu? — disse baixo. — Não é que eu não confie nela… eu só quero entender por que você se preocupa tanto.
Helena observou o irmão com atenção. O jeito que ele evitava sustentar o olhar por muito tempo, a ponta das orelhas avermelhada… ele estava constrangido. E apaixonado. Muito.
Ela não gostava de Ana Alice. Nem um pouco. Mas gostava dele e isso pesava muito mais.
— A Ana Alice sempre foi… inconveniente — começou com cuidado. — Entrava onde não era chamada. Falava coisas para diminuir os outros… principalmente eu.
Isaac abaixou os olhos devagar.
— Ela fazia bullying com você?
Helena pensou um instante. Não queria transformar aquilo numa acusação que o colocasse contra a namorada, mas também não podia mentir.
— Eu acho que ela queria atenção. Não sei se chamaria de bullying… era o jeito dela de tentar se destacar.
Ele assentiu, absorvendo.
Depois se aproximou alguns passos e estendeu os braços, olhando para o sobrinho.
— Posso segurar ele enquanto você me conta?
Helena sorriu levemente.
— Claro… — então notou a roupinha úmida — mas ele molhou tudo. — E, de repente, teve uma ideia. — Já que ele tá dormindo… que tal você trocar?
Isaac arregalou os olhos.
— Eu?!
Ela riu baixinho.
— Tem que treinar pro primeiro filho, não quer cinco?
A tensão no rosto dele quebrou. Um sorriso tímido surgiu.
— Posso mesmo?
— Pode. Eu te ajudo.
Foram até o trocador. Helena deitou Humberto com cuidado. O bebê, ainda sonolento, mexeu a boquinha procurando algo. Ela pegou a chupeta e colocou delicadamente entre os lábios dele. Ele se acalmou imediatamente.
Enquanto Isaac abria o macacão com atenção exagerada, ela continuou:
— Eu sei que a mãe dela ficou doente uma época… e o pai dela é muito rígido. Eu o vi uma vez com a Ana Alice. Foi… desconfortável.
Isaac limpava com o lenço, concentrado demais na tarefa para perceber que estava franzindo a testa.
— Ele machucava ela?
— Eu não sei — respondeu sincera — mas ela tinha medo dele.
Os dois trocaram um olhar silencioso. O tipo de olhar de quem tenta montar um quebra-cabeça com poucas peças.
Helena respirou devagar antes de continuar.
— Ela gosta muito de atenção masculina… e é por isso que eu me preocupo com você.
Ela não falava em um tom acusatório.
— Se fosse uma história… talvez eu apostasse que ela poderia mudar. Mas isso é vida real… e eu não quero te ver machucado.
Quando terminou, viu os olhos de Isaac encherem de água. Os dela também ficaram úmidos.
Ele respirou fundo, tentando segurar.
— Você acha… que ela não pode ter mudado? Nem um pouco?
A voz saiu mais fraca do que ele queria.
— Vamos dar uma chance — disse suavemente. — Eu vou conversar mais com ela… observar melhor. Talvez ela tenha mudado, sim.
Isaac terminou de fechar o macacão de Humberto, cuidadoso como se fosse algo muito frágil. Helena então se aproximou e o abraçou.
— Ela teria que ser muito boba pra perder um homem como você — sussurrou, segurando as lágrimas. — Você é um partidão, Zac.
Ele a abraçou forte de volta. Não desabou, mas ela sentiu no aperto dos braços o quanto ele precisava daquilo. Isaac não queria parecer fraco. Não queria virar motivo de piada. Só queria — desesperadamente — que o amor dele fosse real.
— Obrigado… — disse, afastando-se e fazendo um carinho leve no braço dela.
Helena percebeu.
A decepção ainda estava ali, escondida atrás da esperança.
E naquele momento nasceu uma certeza silenciosa dentro dela: ela não permitiria que o irmão fosse destruído.
De um jeito ou de outro, ela resolveria aquilo com Ana Alice.
— Só não conta isso pra ninguém — pediu ele, mais baixo. — Não quero que riam de mim… se ela não for a pessoa certa, eu mesmo termino.
Helena segurou a mão dele.
— Eu prometo.
— Mas… o que é isso aqui no seu pescoço?
Isaac se aproximou um pouco demais enquanto perguntava, inclinando o rosto para enxergar melhor.
Helena sentiu o sangue subir imediatamente para o rosto.
Instintivamente levou a mão ao pescoço. Ela sabia exatamente o que era. Sabia desde a hora em que tinha se olhado no espelho antes de sair de casa… e sabia também quantas vezes já tinha pedido a Heitor, em vão, para não deixar marcas ali.
Abriu um sorriso sem graça, procurando alguma explicação rápida que não piorasse a situação.
— Eu… isso aqui—
— Helena? Ainda está aí?
A voz masculina surgiu na entrada antes que ela pudesse terminar.
Ela virou o rosto rapidamente e viu Heitor com a mão encostada no batente. Ele a olhou… e o canto da boca dele subiu num sorriso lateral lento, aquele sorriso específico que sempre a deixava sem reação.
Salva.
Ela nem tentou disfarçar o alívio.
Isaac se afastou um pouco, recobrando a postura, ainda com as orelhas vermelhas.
— Eu tava ajudando a Helena a trocar o Humberto — explicou.
Heitor caminhou até eles sem pressa. Parou ao lado dela e, naturalmente, pousou a mão na cintura de Helena, trazendo-a meio passo para perto do próprio corpo.
— Então era isso… — disse com um sorriso cordial demais para ser completamente sincero. Helena já conhecia aquele tom.
O sorriso social dele.
— A Ana Alice tá super entediada… eu disse que vinha te avisar.
Isaac respirou fundo, como se tivesse lembrado de algo importante.
— Verdade, eu sumi. Vou indo na frente. Encontro vocês lá.
Ele fez um carinho no pezinho de Humberto antes de sair, e Helena acompanhou o movimento com os olhos, sentindo o coração se encher de alegria ao ver o cuidado dele com o sobrinho.
Assim que Isaac saiu, ela se virou para Heitor.
— Por que você tá com essa cara?
Heitor a olhou e, de repente, fez uma expressão quase ofendida.
— Você sumiu. Me deixou sozinho.
O bico que ele fez foi tão infantil que Helena teve que morder o lábio para não rir.
— Você não tava sozinho — respondeu divertida. Depois suavizou o olhar. — Mas eu queria que você estivesse aqui comigo… senti sua falta.
Ela o abraçou.
E, como sempre, o corpo dela relaxou assim que encostou nele. Era quase automático. Como se a tensão que ela nem percebia carregar se dissolvesse ali.
Heitor a envolveu e beijou o topo da cabeça dela.
— Na próxima eu venho junto e em todas as outras vezes.
Ela apoiou a cabeça no peito dele.
— Foi ruim?
— Foi péssimo.
Ela riu baixo.
— Dramático… eu tava literalmente do lado.
— Eu te conto no carro. Só saiba de uma coisa — ele murmurou perto do ouvido dela — agora, onde você for, eu vou atrás.
— Preciso de espaço, Monteiro.
— Só me avisar que eu aumento o lugar. Mulher do dono da construtora não passa aperto, gatinha. — ele disse e ela acabou rindo do trocadilho.
Ela arrepiou quando ele passou os dedos pelos cabelos dela.
— O Isaac tá bem? — perguntou então, mudando o tom. — Ele parecia triste.
— Ele tá apaixonado… — respondeu baixo — e a Ana Alice não é uma pessoa confiável.
— Nem um pouco.
Helena ergueu o rosto e o puxou para um beijo. Foi rápido, mas cheio. Quando se afastou, finalmente sorriu de verdade.
— Vamos voltar. Eu tô com fome.
Ela ajeitou o paletó dele por reflexo.
— Minha comida já deve ter esfriado.
— Eu mandei fazer outra. Vai estar quente quando você chegar.
— Oba! — disse num tom animado. — Pode levar o Humbertinho?
Heitor olhou o filho dormindo profundamente no trocador, esticado e tranquilo.
— Ele sujou muito?
— De leite.
Heitor então olhou para o vestido dela… e o olhar dele mudou. O canto da boca subiu devagar.
— Você também se sujou…
A mão dele subiu até ao seio dela, passando os dedos de leve.
— Quer ajuda?
Helena revirou os olhos, mas o sorriso escapou.
— Para. Alguém pode entrar.
— Só quero ajudar. E se vazar mais? O Humberto dormiu… só sobrou eu.
Ela o encarou, divertida.
— Você chegou todo abatido e já voltou ao normal. Vamos terminar a noite e ir pra casa… quem sabe você ganha alguma coisa.
Os olhos dele brilharam imediatamente.
— Negócio fechado.
Ele tirou o paletó e colocou sobre os ombros dela.
— Melhor cobrir. Não quero ninguém olhando.
Ela então ajeitou a camisa dele, alisando o tecido e arrumando a gola.
— E eu não quero ninguém te olhando desarrumado.
Puxou de leve a bochecha dele. Ele segurou a mão dela.
— Que tal a gente fugir daqui?
— Fugir? — ela riu. — Com um bebê?
Ele beijou a mão dela.
— Eu dou um jeito.
— Só se tiver comida no caminho.
Ele a olhou de cima a baixo.
Ela o empurrou de leve.
— Heitor!
Ele pegou Humberto com extremo cuidado, cheirando o topo da cabeça do filho antes de colocá-lo no colo. Helena pegou a bolsa e, juntos, saíram.
O jantar seguiu tranquilo… aparentemente.
Ana Alice não tentou mais se aproximar de Heitor. Estava mais quieta que o normal, quase apagada. Disse que estava cansada.
Helena não acreditou.
Isaac também não — ela percebeu pelo jeito que ele a observava discretamente —, mas ele não insistiu. Preferia respeitar.
Heitor também estava estranho. Calmo demais.
Helena percebeu.
Alguma coisa tinha acontecido ali fora. E ela conhecia o marido o suficiente para saber: ele estava guardando para contar depois.
Durante a mesa, conversaram sobre Humberto, sobre futebol, sobre a Copa, e sobre a pelada de domingo com os amigos de Heitor. Isaac aceitou participar — claramente mais para impressionar Ana Alice do que por habilidade.
Helena notou.
E decidiu silenciosamente: seria uma ótima oportunidade para observar melhor.
Ao final, se despediram.
Cada casal seguiu seu caminho… mas Helena entrou no carro com a sensação clara de que aquela noite ainda não tinha terminado.
Heitor deu a partida e o motor do carro preencheu o silêncio. Durante alguns segundos, Helena apenas observou a rua pela janela. As luzes dos postes passavam devagar pelo vidro, refletindo no rosto dela, mas a cabeça estava longe dali.
Ela sabia que alguma coisa tinha acontecido.
Virou-se então para ele.
— Certo, Monteiro… o que aconteceu?
O tom saiu sério demais. Heitor percebeu na hora.
Ele não respondeu imediatamente.
— Você primeiro.
Helena juntou as próprias mãos no colo, entrelaçando os dedos, como fazia sempre que precisava organizar pensamentos difíceis.
— Eu contei um pouco da verdadeira Ana Alice pro Isaac… não tudo. Mas o suficiente.
Heitor lançou um olhar rápido para ela.
— E como ele reagiu?
— Tentou defender… — ela respirou — depois ficou triste.
O peito dela apertou só de lembrar da expressão do irmão.
— Eu odeio ver ele assim, Heitor.
— Eu sei.
Ela ficou quieta por um instante.
— Eu tava pensando em me aproximar dela. Ver se realmente mudou.
Heitor soltou uma pequena risada nasal, involuntária. Levou a mão à boca imediatamente.
— Desculpa… reflexo.
Helena estreitou os olhos.
— Eu tô falando sério.
— Eu sei, amor… mas “mudou” é uma palavra forte.
— Pessoas podem melhorar.
Ele virou o volante devagar numa esquina, depois falou, casual demais:
— Você considera melhora dar em cima do noivo da irmã do namorado dela no meio do jantar?
Helena virou o rosto lentamente.
— Isso não seria melhora… espera.
Piscou.
Uma.
Duas.
— COMO ASSIM, HEITOR?!
A voz saiu mais alta do que pretendia.
No banco de trás, Humberto acordou assustado e chorou imediatamente.
— Ai, meu amor! — ela girou o corpo para trás — desculpa, desculpa… a mamãe assustou você…
Heitor reduziu a velocidade do carro.
— Ei… tá tudo bem.
Helena inclinou o corpo o máximo que o cinto permitia, fazendo carinho na barriguinha do bebê e falando baixinho até ele se acalmar. Quando o choro virou soluço e depois silêncio, ela voltou devagar para o banco, ainda com o coração acelerado.
Os olhos dela estavam úmidos agora.
— Me conta direito.
Heitor respirou fundo e contou tudo.
Os elogios disfarçados. A aproximação. As tentativas físicas. O momento em que ela o confrontou.
Quando terminou, olhou firme para ela.
— Eu não dei espaço. Nenhum.
Helena ficou quieta.
— Eu sei que você não daria… — disse baixo.
Mas a mão dela já estava fechada sobre o próprio colo.
Ele percebeu imediatamente.
— Helê… olha pra mim.
Ela olhou.
— Eu não correspondi. Cortei todas as vezes. — fez uma pausa — Eu sou seu. Você sabe.
Os olhos dela encheram.
— Eu sei… é só que… — respirou cansada — eu tô sensível. Eu não durmo direito. Meu corpo ainda não voltou ao normal… aí aparece uma mulher dessas…
Ele pegou a mão dela e beijou os dedos.
— Amor… não existe outra mulher pra mim. Eu te amo. Mesmo se você fosse uma minhoca.
Helena franziu a testa.
— Como assim uma minhoca?
— Achou romântico, aposto que sim. Vi no Instagram.
Ela o encarou.
— Monteiro… você precisa sair das redes sociais.
— Você adora as coisas que eu te mando.
— Igual aquele vídeo dizendo que o homem precisa gozar 21 vezes por mês?
— Não fui eu quem disse, foi a ciência.
— Meu Deus…
Ela acabou rindo. E ele riu junto.
A tensão diminuiu.
Mas não sumiu completamente.
Ela ficou séria de novo.
— Você precisa falar com ele.
Heitor passou a mão pelo cabelo.
— Justamente por eu ser homem que eu sei que não vai adiantar. Homem apaixonado não escuta ninguém. — olhou pra frente — Lembra quantos falaram pra eu não ficar com você?
Ela suspirou.
— Você não ouviu.
— Exato.
Ela apertou a mão dele sobre a própria coxa.
— Então o que a gente faz?
Ele pensou alguns segundos.
— A gente não fala. A gente mostra. Ele precisa perceber sozinho.
— Um plano?
— Um plano.
O carro ficou silencioso por alguns instantes.
Ele apertou a mão dela de leve.
— Helê… nós vamos resolver. Só não cai na provocação dela. Isso foi de propósito só para te tirar do foco.
— E funcionou…
— Não funcionou nada. Você só tá cansada. Esqueceu quem você é? — olhou para ela rapidamente — E uma coisa não muda nunca: eu te amo.
Ela apoiou a cabeça no ombro dele enquanto ele dirigia.
— Eu também te amo, Monteiro.
— Eu sei.
— Convencido.
Ele pigarreou, teatral.
— Apenas o seu futuro marido, pai do seu filho, melhor amigo, motorista particular, degustador oficial da sua comida, carregador de sacolas, segurança 24 horas…
Ela começou a sorrir.
— Quer que eu continue? A lista é grande.
Ela riu baixinho.
— Quero.
E ele continuou. Inventando cargos absurdos, cada vez mais sério, como se fosse um currículo importante.
Helena nunca tinha imaginado que ele pudesse ser tão criativo.
Em outra estrada, o carro de Isaac avançava pela avenida iluminada, o som baixo do rádio preenchendo o silêncio que ela não queria quebrar.
Ana Alice mantinha o queixo erguido, o olhar fixo no reflexo da própria imagem no vidro. A cidade passava atrás dela, mas ela só via a própria silhueta — o contorno do rosto, o cabelo escovado e o batom ainda intacto.
Ela estava linda.
Sempre estava.
E mesmo assim…
“Você nunca foi uma opção.”
Ela sentiu o estômago revirar outra vez.
Nunca.
Nem por um segundo.
Nem curiosidade.
Ela passou a língua lentamente pelos dentes, controlando a respiração.
Não fazia sentido.
Ela sabia o efeito que causava. Sabia desde muito nova. Homens olhavam. Sempre olhavam. No culto, no mercado e na faculdade. Olhares demorados, disfarçados e culpados. Ela aprendia rápido. Sabia como sorrir, como baixar os olhos e como usar as pernas na hora certa.
Ela se cuidava. Academia todo dia. Dieta. Corpo firme. Cintura marcada. Pernas que chamavam atenção mesmo quando ela fingia que não percebia.
E percebia. Sempre percebia.
E o mais revoltante era que Heitor também percebia.
Ele não era cego.
Ele simplesmente… não reagia.
Não havia tesão escondido. Não havia aquele segundo de silêncio masculino antes de desviar o olhar.
Nada.
Como se ela fosse neutra.
Neutra.
A palavra ardeu.
Helena não era neutra.
Helena era comum. Comum demais.
Pele escura demais para os padrões que sempre foram exaltados ao redor dela. Cabelo bagunçado. Às vezes ondulado, às vezes cacheados. Roupa simples, mesmo tendo tanto dinheiro agora. Sem esforço.
E ainda tinha aquele jeito difícil. Sério. Ranzinza.
Helena não fazia charme, não competia, não parecia precisar ser desejada e mesmo assim… era.
Ana Alice apertou os dedos contra o banco.
Ela foi criada para ser escolhida.
Na igreja ensinaram virtude, postura e valor. Ela aprendeu que uma mulher direita, bonita e bem comportada era prêmio. E ela era tudo isso. Bonita. Elegante. Capaz. Profissionalmente competente. Sabia se posicionar.
Helena… não tinha metade desse conjunto.
E ainda assim conquistava espaço.
No trabalho as pessoas ouviam Helena. Respeitavam. Admiravam.
Não era só o Heitor.
Era todo mundo.
Por quê?
O que havia nela que não precisava ser exibido?
Ela fechou os olhos por um instante.
Talvez o problema fosse esse.
Helena não precisava provar nada.
Ana Alice sempre precisou.
Ela abriu os olhos rápido, irritada com o próprio pensamento.
Não.
Não era insegurança.
Ela era melhor preparada. Melhor apresentada. Mais adequada.
E mesmo assim o homem mais poderoso da mesa olhou para a Helena como se o resto do mundo não existisse.
Era uma escolha definitiva.
Isso era o que doía.
Isaac a amava. Ela sabia. Via no olhar dele. Ele a admirava. Queria casar, ter filhos e construir tudo ao lado dela.
E ela gostava disso.
Gostava de ser prioridade.
Mas Isaac não era o maior prêmio da sala.
Heitor era.
E o maior prêmio precisava, ao menos uma vez, olhar para ela como os outros olhavam.
Não para ficar.
Mas para confirmar. Confirmar que ela ainda era capaz. Que ainda era irresistível. Que ainda era superior.
Porque se existisse um homem completamente imune a ela…
Então talvez ela não fosse tudo aquilo que sempre acreditou ser.
Ela sentiu algo apertar no peito — não era amor pelo Heitor. Não era exatamente desejo.
Era necessidade.
Necessidade de não perder.
Necessidade de não ficar em segundo lugar.
Ela não queria tirar o Heitor da Helena.
Queria quebrar a certeza dele.
Queria ver, nem que fosse por um segundo, aquele olhar firme vacilar.
Queria que Helena deixasse de parecer intocável.
Porque enquanto Helena fosse suficiente…
Ela seria a que não foi escolhida.
E isso ela não aceitava.
— Você ficou quieta — Isaac disse, olhando rápido para ela.
Ana Alice virou o rosto devagar e sorriu.
— Só tô pensando na gente.
Ele apertou a mão dela, satisfeito.
Ela apertou de volta.
— O que está pensando amor? Ficou animada com a ideia de um bebê? — ele falou com um sorriso bonito.
Ana Alice odiava a ideia de ser mãe, de estragar o corpo assim como pensava que Helena estragou o dela. Mas, ela deveria considerar talvez engravidar para ter para sempre um laço com aquela família, independente do que acontecesse.
— Ele é uma graça. Estou ansiosa para termos o nosso. Espero que nasça com seus olhos, eu amo eles.
Ele segurou a mão dela e apertou com carinho.
Ela apertou de volta.
Mas agora seus pensamentos já estavam organizados.
Porque nenhum homem devia ser completamente imune a ela.
E, se era a Helena que fazia isso acontecer…
Então talvez o problema não fosse o Heitor.
Talvez fosse a Helena.
E ela sabia exatamente como se aproximar dela.
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