O CEO que Eu Paguei

209 Mamãe e Papai


POV HEITOR MONTEIRO


Assim que a Helena adormece, eu fico só olhando.

Ela tá tão quietinha agora. E tão quente. O rosto corado, o corpo ainda tenso mesmo dormindo. Eu passo a mão de leve pelos cabelos dela, com cuidado pra não acordar. Quero que ela sinta que vou estar aqui pra ela. Sempre.

Dou um beijo calmo na bochecha dela, e ela faz aquele barulhinho que só ela sabe fazer. Se mexe, se ajeita mais perto, estica a mão pro lado da cama onde eu costumo dormir.

Fico sorrindo que nem um bobo apaixonado, talvez porque eu seja.

Parece que o corpo dela me procura até dormindo.

Eu me levanto, vou até o Moisés.

O Humberto tá ali. Nosso filho.

Meu filho.

O garoto parece tão cansado quanto ela.

Meu Deus… que molequinho lindo. A pele ainda rosada, o nariz igual ao da mãe, a boquinha se mexendo enquanto dorme. Meu sorriso se alarga ainda mais.

Me aproximo e o beijo a testinha dele, o vejo mexer e penso que o acordei, mas ele dá mais um golpe no meu coração, se mexe igualzinho a Helena, aquele jeito fofo dela que tanto gosto, aquele que ela tinha acabado de fazer.

Fecho os olhos. Rindo sozinho.

Esse garoto é o maior presente da minha vida.

Ele e a mãe dele.

Não resisto e passo a ponta do meu dedo pela bochechinha dele e vejo a boquinha se mexendo, acho que fiquei alguns minutos maravilhado vendo o nosso filho. Olho novamente para Helena, ainda está apagada.

Desde que viemos para o quarto, de tempo em tempo, a enfermeira do hospital e a nossa particular vinha checar a Helena e o Humberto.

Já fazia um tempinho que elas tinham aparecido, era a minha oportunidade. Apertei no botão de enfermeira, mas quem aparece é a doutora Ana Flávia abrindo a porta devagar, faço sinal para ela fazer silêncio e então me aproximo sem fazer barulho.

A gente se afasta do leito. Não saímos do quarto, mas estão longe o bastante para não atrapalhar os dois a dormirem.

Ela fala baixo. Eu também.

— Doutora… — começo, a voz quase falha. — Ela tá muito quente.

Ela não responde na hora.

— Eu vi — diz, calma. — Tá tudo sob controle. Estamos monitorando.

Não me sinto satisfeito com a resposta

— Não é febre?

Ela balança a cabeça.

— Não. É cansaço.

Passo a mão no rosto.

— Ela sentiu muita dor.

— Sentiu — confirma, sem suavizar demais. — Porque foi rápido. Porque foi intenso. Porque ela não teve anestesia para amortecer nada.

Fico irritado e a minha raiva sobe.

— Porque não aplicaram anestesia nela? Combinamos até um anestesista reserva para que nada desse errado. — minha voz sai como um rosnado.

— A dilatação já estava muito avançada, havia risco de evoluir para uma cesaria.

— Não é você quem decide o que é o melhor para ela. — digo me controlando para não me alterar.

— Heitor, eu sou a médica dela, eu sei o que é o melhor. E naquele nível, a anestesia podia ser um risco maior.

— Se você diz, vou ter que acreditar — falo contrariado, mas sei que ela é a melhor ginecologista e obstetra da região, tenho que confiar nela. — Eu achei que parto rápido fosse… melhor.

Ela suspira de leve.

— É diferente. O corpo dela não teve transição. Foi direto do zero ao tudo.

Olho pra Helena de novo.

— Isso… isso passa?

— Passa — a doutora diz, firme. — O corpo vai esfriar. A adrenalina cai. Ela dorme, e isso ajuda mais do que qualquer remédio agora. Porém, mesmo assim ela já tomou os analgésicos para que a recuperação seja mais tranquila ainda.

— Não teve nenhuma complicação? — pergunto, quase num sussurro.

— Nenhuma — ela responde na mesma hora. — Nenhuma mesmo. O parto foi lindo, Heitor. Só… exigiu tudo dela.

Fico quieto. O coração aperta.

Não tem nada que doa mais do que ver ela sofrer.

— Eu acompanho a Helena desde a sétima semana — ela continua, mais baixa ainda. — Eu sei quando algo não tá certo. E neste momento, está tudo muito certo.

Levanto os olhos pra ela.

— E agora?

— Agora ela tá exausta. Só isso. O corpo trabalhou como nunca. A mente também.

Minha voz sai rouca:

— Eu odeio ver ela assim.

Ana Flávia inclina um pouco a cabeça.

— Eu sei. Mas hoje ela foi incrível e tudo graças a todo o preparo que fizeram até esse momento.

O silêncio se estende.

— O que eu faço agora? — pergunto, sem saber mais nada. — De verdade.

Ela pensa um segundo.

— Você fica com ela. Não deixa ninguém acordar ela à toa. Ajuda quando ela levantar. Lembra ela de beber água quando acordar. Seja o pai do filho dela e o noivo que ela merece.

Dou um meio sorriso torto.

— Isso eu sei fazer muito bem.

Ela sorri.

— Sei que você sabe. E ela também.

Respiro fundo.

— Se alguma coisa sair do normal…

— Você me chama — ela interrompe. — Mesmo que seja só um pressentimento.

Assinto.

— Obrigado por estar aqui.

Ela sorri, dá mais uma olhada para os dois.

— Agora vai. Senta com ela. Ela pode acordar confusa.

— Certo, qualquer coisa eu te chamo.

E eu volto pra ela que está dormindo profundamente.

O rosto tá tranquilo, mas sei que doeu. Sei que foi mais do que ela esperava — foi rápido, mas foi forte demais. Mexeu com ela inteira. E mesmo assim… ela ficou ali. Firme. Lutando. Incrível.

Me aproximo devagar, sem querer acordar, e puxo o lençol só um pouquinho. Achei os pés dela. Começo a massagear de leve, só com os dedos. Tadinha do meu amor… aguentou tudo por esse menino. E dizem que parto normal é o mais saudável… se for isso mesmo, imagina a cesariana. Acho que vou ter que rever minha vontade de ter um monte de filho, porque se ela passar por isso de novo, acho que vou ter que ser internado junto, que vergonha.

Ouvindo um resmungo baixinho, viro o rosto. E lá está ele. Humberto estava acordado, se mexendo devagar, as perninhas todas elétricas — descoordenadas ainda, como se não tivessem decidido pra onde ir. Então eram essas belezinhas que chutavam tanto?

Me aproximo e ponho uma mão em cada pezinho dele, sinto elas se mexendo, não faço força para segurar, só vou acompanho o seu movimento.

— Oi meu filho, dormiu bem? — falo baixo só para ele ouvir — Como foi a primeira soneca?

Ele me encara com aqueles olhinhos azuis, meio abertos ainda. Um olhar molinho, meio perdido. Mas direto pra mim. Não resisto a sorrir para ele.

— Acho que sim, né? Você apagou depois de mamar.

Ele esfrega a mãozinha no rosto e solta um resmunguinho gostoso. Hora do pai entrar em ação.

Tento pegar ele no colo do jeito que a doula ensinou. É mais difícil do que parece, viu? A cabeça é leve demais, o pescoço todo mole… parece que ele vai desmontar nos meus braços. Mas eu consigo. Seguro certinho, apoiando tudo.

E ele… vira o rosto, parece estar procurando com os olhos. Sei quem ele quer. Mas agora é comigo.

— Calma, campeão. Agora é o papai que tá aqui. E o papai também é bom nisso, sabia?

Humberto pisca, fecha e abre os olhos com dificuldade. E boceja. Ah, não… não dá. Esse garoto vai me transformar em uma manteiga derretida.

Eu beijo a testa dele, com cuidado, e vou até a janela do quarto — aquela com a vista linda da cidade.

— Olha isso aqui, Humberto… — falo, virando o rostinho dele de leve — Tá vendo essa bagunça lá fora? Esse barulho todo? Isso aqui é o Rio de Janeiro. Sua cidade agora. E sua mãe… sua mãe vai se derreter quando você começar a falar com o sotaque carioca. Esse é o nosso primeiro segredo de homens, sua mãe não resiste ao nosso sotaque.

Ele se mexe nos meus braços e faz um biquinho. Tá confortável, tá no colo. Tá comigo.

Tive uma ideia — queria ligar pros meus pais, mostrar logo. Queria gritar pro mundo. Mas aí percebo que meu celular não tá no bolso e também não tá no outro. Nem as chaves. Deve ter ficado no paletó, ou no carro.

Humberto começa a resmungar. O bico cresce, um choro vem aí.

— Ih… calma aí, calma… o papai tá aqui, filho. Tá tudo tranquilo.

Balanço ele devagar. Faço um barulhinho bobo com a boca. Ele vai acalmando, de novo, e eu também.

— Quer ouvir uma história? — pergunto, com um tom travesso.

Ele faz o mesmo biquinho de antes. Vou considerar que é um “sim”.

Dou um sorriso largo, já imaginando a reação da Helena se ouvisse o que tô prestes a falar.

— Então escuta só. Era uma vez um cara… bonitão, responsável e trabalhador. Tava viajando a trabalho. Muito sério, focado, não queria saber de namorar. E aí, no meio de uma cidade do interior… aparece a mulher mais linda do mundo. Cabelos soltos, andar firme e cara de brava… a sua mãe.

Faço uma pausa dramática.

— E adivinha? Ela se apaixonou perdidamente. Me viu e já era. Se jogou. Me chamou pra conversar, mudou até de sala no trabalho só pra me ver. Me perseguiu um pouquinho, confesso. Queria me conquistar a todo custo.

Dou uma risada abafada, tentando não sacudir demais o menino.

— Mas eu? Eu era difícil, né? Tava na missão. Focadão no profissional. Mas aí… ela me ganhou. Com aquele jeito brava-e-doce dela. Me pegou de jeito.

Olho pro Humberto. Ele boceja de novo. Pisca. Tá quase dormindo.

— E aí, um dia, ela me pediu você. Disse: “Quero um filho seu.” E eu… fui falar com o Papai do Céu. Falei sério com Ele. Pedi o menino mais bonito, mais forte e mais querido que já nasceu nesse mundo. E Ele caprichou. Mandou você. Perfeito.

Beijo o topo da cabeça dele mais uma vez. E sorrio.

— E essa é a história, tá? Depois, quando a gente contar pra sua mãe, você faz cara de que acredita. Combinado?

Ele não responde. Já tá apagando nos meus braços.

Enquanto ele dorme no meu colo, do jeito mais folgado do mundo, vejo o cantinho da boquinha dele levantar. Um sorrisinho de canto.

Pronto.

Tô feito.

Sou oficialmente o melhor pai do mundo. Aposto que já tá sonhando comigo.

A porta do quarto se abre devagar, e a doula entra. Tá com meu paletó na mão. Ela olha pra Helena, que ainda tá dormindo toda aninhada na cama, e vem direto na minha direção.

— Heitor! — ela diz num sussurro animado. — A Helena foi incrível. E você também fez a sua parte tão bem! Estou muito orgulhosa.

Eu inflo. Sério. Viro um pavão em plena primavera.

— Bom... a gente treinou bastante pra isso, né?

Ela sorri e se aproxima do Humberto, que nem se mexe.

— Ele adorou o colo do papai. E ele é tão lindinho! Parabéns, viu? Um meninão de 3,480 kg!

Dou aquele sorriso de canto, todo me achando.

— Pois é! Puxou o pai, né? Mas o nariz... olha o nariz dele! Igualzinho o da Helena. Um charme, não acha?

Ela ri.

— Vi sim. E olha, você está segurando ele direitinho. Por isso, parabéns. Ganhou seu certificado de pai dourado!

— Bom, minha noiva e meu filho merecem o melhor. E isso, claro, me inclui.

Ela dá uma risadinha sincera, e eu fico ali todo exibido, feito criança quando ganha estrela dourada da professora.

— Já avisei os seus familiares que a Helena e o Humberto estão bem. Estão todos na sala anexa aguardando a liberação. — ela continua.

— Quando a Helena acordar, e se ela estiver se sentindo bem, a gente libera. Só entra quem ela quiser ver.

— Seus pais estavam muito preocupados com você.

Franzo a testa.

— Preocupados... comigo?

— Aham. Disseram que você sumiu no meio de uma reunião com seu pai...

Dou uma risada seca e passo a mão no cabelo.

— É, é verdade. Ele tava lá. Acho que na hora eu nem lembrei disso. Minha cabeça tava… só nela.

— Tá tudo bem. O importante é que vocês estão bem. Me entregaram seu paletó, seu celular e a chave do carro. Guarde direitinho, tá?

— Pode deixar comigo. Obrigado por tudo, mesmo.

— Imagina! Vou voltar depois pra ver a Helena quando ela acordar, mas qualquer coisa me chamem. Tô por aqui.

Ela sorri, se despede tocando de leve a luvinha minúscula do Humberto.

— Tchau, fofinho...

E sai, deixando minhas coisas na mesinha.

Vou até lá com meu garotinho ainda nos braços. Pego o celular — um monte de notificações. Ligações perdidas dos meus pais, do mundo inteiro, parece. Apago os alertas e abro o WhatsApp.

Criaram um grupo: “Bem-vindo, Humberto 💙”.

Clico. Tem mensagem de todo tipo: gente perguntando o endereço do hospital, avisando que tá a caminho, mandando figurinha, coração, emoji de choro… e depois tudo parou. Devem estar todos ali na sala, esperando.

Volto pra minha poltrona, me afundo com cuidado, ajeito o Humberto de novo no colo. Acho que ele pode ser meu novo adereço, ficamos muito bem juntos assim.

Tiro com delicadeza uma das luvinhas dele, expondo aquela mãozinha que parece uma miniatura de porcelana. Fotografo. Mando no grupo com a legenda:

“Muito obrigado, famííííliaaa!”

Do nada, o grupo explode.

Figurinhas.

Áudios.

Sorrio e dou um beijinho leve na mãozinha dele. Passo o dedo ali, fazendo carinho… e então, sem aviso, o Humberto fecha os dedinhos no meu.

Ele segura firme.

Eu congelo.

Meu coração desarma. Meu peito aperta. Meus olhos enchem.

— Que isso, filhão… já tá me conquistando desse jeito?

E pensar que ele está há poucas horas no mundo.

Suspiro. Encosto a testa na dele, sentindo aquele cheirinho doce que só ele tem. E fico ali.

Bobo.

Orgulhoso.

Completamente rendido.



POV Helena


Acordei estranhamente leve… e ao mesmo tempo esgotada. Leve por dentro, como se algo tivesse me sido arrancado — mas um cansaço absurdo pesava sobre mim. Pisquei devagar, sentindo os olhos ainda embaçados. A claridade da janela me cegava um pouco, mas não tanto quanto a imagem que logo se formou diante de mim: Heitor.

Sentado ali.

Na poltrona do quarto. Segurando ele.

Nosso filho.

Meu peito se apertou.

O tempo parou por alguns segundos, enquanto eu observava aquela cena como se estivesse fora do próprio corpo: os braços do Heitor envolviam o bebê com cuidado e carinho. E havia algo ainda mais absurdo ali… aquela mãozinha minúscula agarrando com força o dedo dele.

Senti a garganta fechar.

— Boa tarde, Bela Adormecida… — a voz rouca dele veio com aquele sorriso besta, terno, besta mesmo. — Como foi a soneca?

— Boa tarde… meus rapazes. — tentei sorrir, mas o corpo reclamou com veemência quando tentei me mover.

A dor me atravessou de um jeito agudo e involuntário. Soltei um gemido.

Heitor se levantou num pulo, como se o mundo tivesse desabado. Mas levantei a mão num gesto calmo.

— Amor… tá tudo bem. Foi só… uma dorzinha — menti, tentando soar convincente. Mas meu quadril parecia ter sido atropelado por um cavalo.

— Helena… — ele se aproximou, claramente dividido entre vir até mim e continuar segurando o bebê. — Quer que eu pegue água? Ou algo específico? Chá? Suco? Um rio inteiro?

Suspirei, cansada e manhosa:

— Só água… O frigobar tá longe demais.

Vi a expressão dele de dor ao precisar soltar o dedo da mãozinha que o segurava. Mas ele soltou. Devagar, como se não quisesse magoar ninguém. Abriu o frigobar, pegou a garrafa, apoiou entre as coxas e tirou a tampa com cuidado.

— Aqui, amor. — sentou-se ao meu lado, me entregando com todo o cuidado do mundo.

Eu segurei a garrafa, mas minha atenção já não estava ali.

Meu olhar caiu sobre aquele bebê — meu bebê. Meu filho. Um menino que veio do meu ventre. Senti o coração desacelerar só de olhar para ele.

— Posso… posso segurar? — perguntei, quase sem fôlego.

Heitor sorriu. Aquele sorriso que me desmonta.

— Claro, amor. Ele é seu.

Com delicadeza, ele me passou o pequeno. E quando o acolhi novamente nos braços, algo em mim mudou. Tudo mudou.

Um calor absurdo me preencheu por dentro. Uma paz estranha, poderosa. Eu tremi. Era como se o mundo tivesse parado para me mostrar que, apesar de tudo que eu fui, tudo que eu lutei para ser… agora também sou mãe, mãe desse pequeno.

O rostinho dele se moveu, a boquinha fez aquele gesto de sucção. Sorri. Meus olhos se encheram de lágrimas sem nem pedir licença.

— Acho que ele tá com fome de novo… — comentei, tentando manter o controle.

Heitor acariciou meu rosto.

— Quer que eu chame a enfermeira?

Assenti.

Ele, claro, tirou umas fotos nossas antes. Eu nem consegui brigar. Só senti meu rosto, quente e descabelado. Ele percebeu meu incômodo e passou a mão pelos meus cabelos, depois um lenço pelo meu rosto. Depois mais uma sessão de fotos.

— Você tá linda, amor. — disse, como se fosse a maior verdade do mundo.

Louco.

Mas meu louco.

A enfermeira chegou com a nossa, a Talita. Me ajudaram a ajeitar o bebê para mamar. Doeu. Confesso. Acho que da primeira vez eu estava tão confusa que nem senti. Mas quando ele se aconchegou em mim, a mãozinha repousando no meu peito, senti uma onda de amor absurda. Uma dor que valia tudo.

Heitor me acomodou em seu peitoral, me abraçando como uma fortaleza. Seu peito firme contra minhas costas. A respiração dele acalmava a minha.

— Tá tudo bem, Helena. — ele sussurrou. — Você foi… incrível. Eu nunca vi nada igual. Você é a mulher mais forte que eu conheço.

Fechei os olhos, tentando segurar as lágrimas.

Eu nunca havia sentido tanta dor na vida, mas, não quero ficar o preocupando agora, o bebê está ali e precisa de nós focados nele.

Ele me abraçou por trás meio sem jeito.

— Helê, só quero que saiba que eu queria ter sentido por você, juro. Mas você conseguiu. Você trouxe ele. Ele tá aqui… perfeito… e você também. Eu tô tão orgulhoso de você.

Aperto meus olhos para não chorar.

— Você aguentou. Como tudo que já enfrentou na vida. Mas agora… agora você tem a mim. E ele tem a nós.

Me segurei muito e consegui não chorar ali.

O bebê terminou de mamar. O coloquei para arrotar com ajuda. Depois Heitor quis trocar a fralda — claro que quis. E eu deixei. Me diverti vendo ele se enrolar um pouco, mas dar conta do recado com aquele orgulho besta.

Depois ele o vestiu com um macacão cinza, com carinha de ursinho, touquinha combinando, meias e luvas branquinhas.

— Pronto — ele disse. — Nosso ursinho Monteiro.

— Deixa eu segurar esse bebê urso então. — pedi, já viciada naquele cheirinho quente e doce.

Heitor me entregou. Ajeitei meu filho nos braços. Suspirei.

Fico observando o Humberto por alguns segundos a mais do que o necessário. É impossível não ficar. Ele é tão pequeno… e ao mesmo tempo tão inteiro. A pele ainda rosadinha, o nariz delicado — o meu —, mas o resto… o resto é Heitor puro. O formato da boca, o jeito dos olhos mesmo fechados, até a maneira preguiçosa como se espreguiça.

Uma miniatura absurda do pai.

Levanto o olhar para o Heitor e é aí que percebo.

Aquela expressão.

Aquela exata expressão que antecede alguma ideia idiota.

Franzo o cenho imediatamente.

— Heitor Monteiro… — chamo, já cansada antes mesmo de ouvir. — Que cara é essa?

Ele tenta disfarçar. Tenta mesmo. Mas o sorriso cresce devagar, denunciando tudo.

— Nada, Helê.

Se apoia na cabeceira da cama com falsa inocência.

— Anda logo, Monteiro. — suspiro. — Desembucha.

— É que… — ele coça a nuca, teatral. — Será que eu posso provar?

Demoro um segundo pra entender.

Quando entendo, arregalo os olhos.

— NÃO. — respondo na hora. — Não, não e não. Nem pensar!

Tento empurrá‑lo, mas minha mão mal tem força. Meu corpo ainda tá mole, estranho, dolorido — e ele sabe disso.

— Calma, amor. — Ele levanta as mãos, rendido demais pra ser sincero. — Eu não vou pôr a boca. Juro. Só… pegar um pouquinho com o dedo. Uma gotinha. Só pra saber.

Bufo.

Olho irritada pra ele.

Mas aí ele faz aquela cara.

A cara de cachorro abandonado. Olhos pidões. Boca meio caída. A expressão exata que, contra a minha vontade, sempre funciona.

Foi essa mesma cara que me trouxe até essa maternidade.

Reviro os olhos, derrotada.

— Tá. — cedo, contrariada. — Mas só um pouquinho. E não faz eu me arrepender.

Ele vibra como se tivesse acabado de ganhar um campeonato mundial. Eu juro que se tivesse energia, teria batido nele.

Ajeito o Humberto com cuidado na mantinha, protegendo o corpinho, enquanto Heitor se aproxima. Sinto os dedos longos e quentes encostarem primeiro no meu pescoço — e já me arrepio.

— Ei. — olho feio. — Não inventa moda.

Ele entende na hora e desce os dedos pela lateral da regata de amamentação. Me encara com aquele sorrisinho torto travesso.

Aperta de leve.

— Ai… — puxo o ar. — Acho que foi uma péssima ideia.

— Calma, já saiu. — Ele observa a gotinha clara no dedo, curioso. — Qual o nome disso mesmo?

— Colostro. — respondo, observando também.

Ele leva à boca.

E imediatamente faz uma careta tão dramática que quase me esqueço da dor.

— Nossa… — ele põe a língua pra fora. — Espero muito que o leite seja melhor.

Não consigo segurar.

— Idiota! — rio baixo. — A cara que você fez foi impagável.

— Se divirta, viu, Humberto? — ele diz, apontando pro bebê. — Isso aí é só seu. Exclusivo.

Olho para ele, curiosa.

— Acho que eu quero provar também.

Ele arregala os olhos e leva a mão à boca pra não rir alto.

— Deixa comigo, gatinha.

Ele aperta de novo — ainda incomoda, ainda arde um pouco e ainda dói —, mas tira outra gotinha e encosta nos meus lábios.

Provo.

E faço exatamente a mesma cara que ele.

— Credo… — murmuro, azeda. — É horrível mesmo.

Ele ri, satisfeito demais com a vitória.

— Então fechamos assim: — ele diz, se inclinando pra me dar um beijo rápido. — A gente espera o leite descer pra ver se melhora.

Dou uma risada cansada, mas verdadeira.

Olho pro meu filho. Depois pra ele.

— A gente virou pai e mãe… — murmuro, quase sem acreditar.

Heitor sorri daquele jeito que só aparece quando ele está completamente entregue.

— Viramos. — ele responde. — E pelo visto… ainda somos nós.

E isso, estranhamente, me tranquiliza mais do que qualquer coisa.

Eu passo o dedo bem de leve na bochecha do Humberto. É uma bochecha gordinha, quente, lisinha… parece que foi feita sob medida pra caber meu carinho.

— É tão perfeito que nem parece real — murmuro, mais pra mim mesma do que pro Heitor.

Puxo um pouquinho da mantinha azul clara que tá cobrindo ele. A ponta do nariz dele enruga. Passo o dedo de novo, agora de leve no contorno da sobrancelha.

E aí ele faz.

Levanta o cantinho da boca.

Foi um sorrisinho.

Ou quase.

Daqueles de canto, safado, igualzinho o do pai.

Eu prendo o ar. Meus olhos arregalam. Eu fico congelada, segurando o choro e a risada.

— Heitor…

Ele levanta o olhar do celular e vem pra perto com aquele olhar todo dele, já preocupado.

— O quê? Amor, tá tudo bem?

— Olha pra ele. Agora. Rápido.

Heitor chega mais perto, se abaixa devagar e apoia uma das mãos nas minhas costas, encostando o rosto quase na mesma altura do nosso filho.

E o Humberto repete.

Do jeitinho que fez antes.

Cantinho da boca.

Sorrisinho.

Ladrão de corações com menos de vinte e quatro horas de vida.

— Ah, não… — Heitor ri baixinho, os olhos arregalados. — Eu juro que ele fez isso pra mim antes, mas você não acreditou. Agora fez pra você também.

Eu encaro o bebê de novo, totalmente rendida.

— Você viu isso, né? Ele… ele sorriu.

— Eu vi — Heitor responde, emocionado. — É a cara da mãe, provocando a gente desde cedo.

Reviro os olhos, mas sorrio. Porque é mentira. Aquele sorrisinho é a cara do pai. O formato da boca, o jeitinho torto, tudo igual ao Heitor. Mas o nariz… o nariz é meu. Pequeno, meio arrebitado, teimoso. E isso já me dá uma alegria meio boba.

— Pra mim, ele parece com você — murmuro, ainda alisando de leve o rosto do Humberto.

— Amor, olha isso. Os olhos — Heitor aponta. — Azul clarinho igual ao meu. O queixo, o formato do rosto… é minha cópia em miniatura.

— Mas o nariz é meu.

— E a teimosia também, aposto.

Dou uma cotovelada de leve nele, ainda sorrindo.

— E pra mim, ele tem seu olhar. E sua boca. E essa mania de ficar quietinho só pra enganar, igualzinho a você quando tá tramando alguma coisa.

Heitor beija o topo da minha cabeça, depois olha de novo pro filho, encantado.

Depois de um tempo ele se senta na poltrona, quase colado na gente.

— Amor, pega outro alfajor de doce de leite pra mim?

Ele já estava de pé antes mesmo de eu terminar a frase.

— Claro, amor. Só um? Não quer mais nada?

Sorrio, mesmo cansada. Ele é assim, muito prestativo e exagerado. Mesmo quando está todo bobo com o bebê, não esquece de mim.

— Um pirulito de bolacha Maria com chocolate também.

Ele assente, dá aquele sorrisinho de canto e vai atacar as mesas. Minutos depois, volta com tudo nas mãos, já tirando a embalagem do alfajor, como se eu não tivesse forças nem pra isso — o que talvez seja verdade.

— Aqui, vida. — Ele entrega como se estivesse me dando um prêmio.

Pego com gosto, mastigo devagar e olho pra porta da sala de visitas.

— Todo mundo tá lá? — pergunto, meio sem saber se quero mesmo saber.

Ele também olha.

— Parece que sim, Helê. Mas não se sinta pressionada a receber ninguém agora. Ninguém vai entrar se você não quiser.

Suspiro. Meu corpo ainda dói. A barriga tá sensível, minhas costas estão tensas, e os peitos… bom, eles não são mais meus. São do Humberto agora.

Mas mesmo assim… minha avó. Eu queria vê-la.

— Eu queria ver a minha avó. Será que pode pedir pra ela entrar? E os seus pais também.

Heitor assente na hora, com aquela expressão de quem entende tudo sem precisar de explicação. Beija o topo da minha cabeça com calma, depois já tá com o celular na mão mandando mensagem.

— Heitor?

— Hm? — Ele para o que está fazendo e me olha na hora.

— Vem aqui um pouquinho.

Ele sorri de lado, meio sem entender, mas se aproxima. Estico o braço com esforço e puxo ele pra perto, com Humberto ainda dormindo no meu colo. Ajeito ele entre nós dois, e quando Heitor me abraça, eu me encaixo.

Aquele abraço… nossa, eu precisava disso. Eu precisava dele. Do cheiro dele. Do peito dele. Do mundo dele.

Ele me beija várias vezes — na têmpora, na testa, na bochecha. Como se estivesse carimbando em mim que eu sou amada. Como se estivesse garantindo que eu não estou sozinha.

— Te amo, coração — ele murmura. — Fica tranquila. Vai dar tudo certo.

Fecho os olhos por um segundo e me permito acreditar. Porque com ele… quase sempre dá.

E agora, com Humberto nos meus braços, tudo parece mais sério. Mais real. Mais bonito também.

Mas mesmo com tudo novo, ainda sou eu. Ainda sou a Helena que precisa do meu Heitor por perto. Ainda sou a neta que quer ver a avó. Ainda sou a mulher que aprendeu a amar, mesmo quando achava que nunca ia ter isso.

E agora sou mãe.

De um menininho com o nariz que veio de mim… mas que, quando sorri dormindo, é a cópia descarada do homem que eu amo.