O CEO que Eu Paguei
20 Interrompido Novamente
Era a segunda vez.
A segunda vez que o destino, o universo, ou qualquer outra força filha da puta decidia atrapalhar justo na hora em que ele ia transar com a mulher mais gostosa e irritante que já conheceu.
Heitor encostou na parede fria da obra, puxou o ar com força e tentou se concentrar em qualquer coisa que não fosse a sensação do corpo dela grudado no dele.
Mas não funcionava.
O pau latejava, duro dentro da calça social, e doía — doía como se fosse um castigo divino pela vontade reprimida.
Ele fechou os olhos, ainda sentindo o cheiro dela no rosto, o gosto daquela boca provocante, o som abafado do gemido que ela soltou quando bateu as costas na parede e colou o quadril no dele.
Aquilo tinha sido... melhor que a primeira vez.
Mais urgente. Mais quente. Mais perigoso.
E agora, parado ali sozinho, Heitor mordia a língua e sorria com o canto da boca feito um animal selvagem que sentiu o cheiro do cio e teve a carne arrancada antes de abocanhar.
Mas ele não ia perder mais uma vez.
Não dessa vez.
— Heitor. — A voz dela soou mais à frente, firme, voltando à persona de sempre. — Os paisagistas estão esperando.
Ele ajeitou o cinto discretamente e respondeu, quase sem virar:
— Vai indo na frente. Eu já te alcanço.
Helena hesitou, mas não insistiu. Só cruzou os braços, inclinou a cabeça, e o olhar dela desceu direto pra região da calça dele com um sorrisinho disfarçado que o fez querer jogá-la contra a bancada mais próxima e resolver aquilo na hora.
— Hm. Interessante — ela murmurou, baixinho, fingindo olhar pros próprios pés. — Aparentemente, você ainda está... empolgado.
— Aparentemente, a culpa é toda sua — ele rebateu de imediato.
Ela deu dois passos para trás, sem tirar aquele sorriso do rosto, mas forçou o tom ranzinza:
— Anda logo. Vai dizer que não consegue andar?
— Consigo. Só prefiro não assustar os trabalhadores com o tamanho da minha dedicação.
Ela fingiu revirar os olhos, mas voltou andando com aquele andar maldito, rebolado, firme, e sabendo que ele estava olhando.
Heitor respirou fundo, contou até dez, pensou em qualquer coisa que não fosse o corpo dela quente sob o dele, e só então saiu.
Quando a alcançou, Helena já conversava com os paisagistas. Estava concentrada, postura impecável, mas ele via no brilho dos olhos dela — ela também estava mexida.
Ele se aproximou, respondeu as perguntas técnicas, puxou assunto como se fosse um dos sócios da obra, tudo com a elegância típica… mas por dentro, só conseguia pensar:
“Hoje tem. Hoje, porra, tem.”
O sorriso no rosto dele era estonteante.
Terminaram de conversar, recolheram os equipamentos, e Helena foi se dirigindo ao carro com ele ao lado.
Andavam lado a lado, sem tocar. Mas o corpo dela ainda falava.
A forma como ajeitava o colete com pressa. Como mordia o canto da boca sem nem perceber. Como respirava fundo toda vez que ele se aproximava um pouco demais.
Ele via tudo.
O sol batia por trás do galpão e desenhava uma sombra fina no asfalto, bem na linha que separava os dois.
Teve vontade de cruzar aquela linha de novo.
— Você sabe — começou, com a voz mais baixa, rouca de propósito — que se a gente tivesse mais dois minutos naquela sala… eu não te deixava sair andando.
Ela olhou de canto. Não disse nada. Mas o rastro do sorriso estava lá.
— Três minutos, vai — continuou, se inclinando só o suficiente pra encostar o braço no dela — e eu fazia você esquecer até seu sobrenome.
Ela soltou um riso curto, abafado, mas não desviou o olhar.
— O que te faz pensar que eu ainda lembro?
“Essa mulher…”
Helena continuou andando, olhos à frente, mas a pele do pescoço denunciava o calor.
— E você? — ela perguntou, de repente, como quem joga uma isca sem olhar pra trás. — Ainda tá pensando em terminar o que a gente começou?
— Helena — falou, parando por um segundo, a voz arrastada no nome dela. — Eu ainda tô sentindo seu gosto. E nem encostei onde queria.
Ela parou também. Olhou ele nos olhos. De verdade.
Os olhos castanhos estavam mais escuros, como se o desejo ainda pulsasse ali dentro.
— Heitor… — começou, com aquele tom que misturava entrega e perigo.
— Eu não vou sumir. — Antecipou. — E não vou fingir que não aconteceu.
Ela pareceu relaxar um milímetro.
— Então para de falar... — disse, mais baixo. — Antes que eu perca a pouca vergonha que ainda me resta.
Heitor se aproximou de novo. Só o bastante pra encostar a boca perto do ouvido dela e sussurrar:
— Tarde demais.
E foi exatamente nesse instante que o universo resolveu foder tudo pela terceira vez.
Um Onix sedan prata encostou a poucos metros. A porta do motorista se abriu com força.
— Aí, Heitor! — Gaspar desceu animado. — Vim te buscar, cara!
Heitor parou. Travado.
— O quê?
— O André mandou eu vir! Os outros já voltaram! Bora, que hoje tem reunião de fechamento e depois barzinho com o pessoal da gerência!
— Eu vim com a Helena, Gaspar.
— Relaxa, irmão. Tamo com dois carros. Pode ir tranquilo. Ela volta de boa.
Heitor olhou pra Helena, que já estava encostada na porta traseira da caminhonete com aquele ar de “nem tenta”.
Ele ainda tentou argumentar:
— Tô terminando aqui ainda, Gaspar. Preciso dá um pulo ali dentro…
— Já assinaram tudo, chefe. Tá finalizado. Só falta ir.
Helena sorriu, triunfante e tentadora.
— A vistoria já acabou, Sr. Monteiro. Obrigada pelo tempo. Boa reunião. Bom jantar.
“Bom o caralho.”
Ela abriu a porta de trás da Strada, retirou os sapatos que ele veio, e o encarou, erguendo uma sobrancelha:
— Vai devolver?
Ele se rendeu. Tirou as botinas com o mesmo desgosto de quem devolve o melhor presente da noite.
— Você é muito eficiente, sabia?
— Eu sei.
Ele a encarou por mais um segundo. O vento bagunçava um pouco os fios rebeldes dela. A boca ainda estava levemente inchada. E ele só conseguia pensar no que teria feito se tivesse mais cinco minutos.
Mas não teve.
Helena acenou com a ponta dos dedos para os dois.
Gaspar, claro, acenou feliz feito um imbecil apaixonado, completamente alheio à tensão que havia no ar.
Heitor entrou no carro como quem entra em um enterro.
Olhou mais uma vez para ela, agora ao volante.
Lá se ia o melhor jantar que ele não teve.
Mas dessa vez… ele não deixaria barato.
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