POV HELENA



No começo daquela noite, eu finalmente respirei fundo no elevador do nosso prédio.

Heitor e eu havíamos passado o dia inteiro sem nos ver — algo quase raro para nós, mas absolutamente compreensível. Ele estava trabalhando como um louco nos últimos dias, e hoje em especial parecia mais ocupado que o normal.

Tudo por causa do vídeo.

Um vídeo oficial. Público. Nosso.

Sobre tudo o que aconteceu com Antônio.

Era importante — disso eu nunca duvidei — mas também era completamente inesperado. Quando Heitor me contou, eu sequer imaginava que teria produção, figurino, consultoria de imagem… e um roteiro.

Sim. Um roteiro.

Ele mandou uma equipe até o nosso apartamento para repassar comigo o que eu deveria dizer, a ordem, os pontos principais, como respirar e onde pausar. Foram dois dias inteiros dedicados só a isso, e no começo eu achei exagerado… mas conforme parte das filmagens tomavam forma dentro do discurso, eu comecei a perceber o quanto aquilo significava para ele.

Heitor estava tratando o vídeo como um documento histórico.

E ele queria que eu brilhasse. Que minha fala fosse perfeita. Que ninguém ousasse interpretar meu sofrimento como fraqueza ou fragilidade.

E isso… eu achei lindo.

Talvez por isso eu não tenha reclamado, ainda que uma parte minha estivesse levemente ressentida.

A finalização da mansão — a nossa casa — era a coisa que eu mais esperava nos últimos meses. Era um marco. Um sonho. Uma mudança gigantesca. Eu tinha imaginado rir com ele no quintal, andar pelos cômodos, dormir ali a primeira noite, olhar cada detalhe… juntos.

Mas o Heitor não me chamou.

Nem uma vez.

E agora, ironicamente, eu veria tudo pela primeira vez gravando um vídeo institucional.

De um lado, eu sabia que ele estava sobrecarregado, gerenciando milhões de problemas ao mesmo tempo, alguns profissionais e outros jurídicos.

Mas do outro lado… eu estava chateada.

Eu queria ter dito isso. Queria. Mas cada vez que eu pensava em falar, ele estava no meio de reuniões, assinando contratos, se encontrando com os advogados, coordenando equipes, resolvendo crises, me acompanhando nas minhas atividades de gestante… e eu não quis parecer mimada.

Mesmo assim, aquele incômodo ficou ali, agarrado ao meu peito como poeira.

Sacudi a cabeça.

Era ridículo estragar minha própria alegria.

Hoje eu ia ver nosso lar pela primeira vez.

E isso já bastava.

A descida até a garagem me devolveu um sorriso involuntário.

A Range Rover branca com teto preto estava estacionada na minha vaga, brilhando como se fosse a primeira noite que foi exibida na minha festa de aniversário pelo Heitor. Parecia surreal cada vez que eu olhava para ela.

Meu carro.

Meu presente de aniversário.

Meu luxo absoluto.

Passei os dedos no puxador touch-screen, que se expandiu com aquela elegância futurista impossível de se acostumar. A porta se abriu com suavidade, iluminando os bancos com aquele toque aconchegante, e eu senti meu humor automaticamente melhorar.

Eu amava aquilo.

Dirigir aquele carro fazia eu me sentir… tão madura, independente e sofisticada. Uma mulher que conquistou o respeito próprio, o trabalho, a vida e agora um lar.

Mesmo com um carro só meu, eu jamais estaria sozinha.

No banco de trás, com postura impecável, estava Oséias, meu segurança.

— Já está preparada, senhora Helena? — ele disse.

Olhei pelo retrovisor e percebi algo diferente no rosto dele.

— Que foi? — perguntei, estreitando os olhos. — Que cara boa é essa aí?

Ele ficou desconcertado de um jeito quase engraçado.

— Não sei do que a senhora está falando.

— Aham. Sei. — virei para frente. — Conheceu alguma moça, foi?

Ele pigarreou como se tivesse engolido a própria língua.

— Não.

— Oséias, eu tenho faro pra isso.

Ele deu um sorriso mínimo, derrotado pela minha insistência, mas recuperou logo o profissionalismo.

— Só digo pra senhora dirigir com cuidado. Se sentir qualquer coisa, me avisa na mesma hora.

— Você conhece a regra. — ergui o queixo, orgulhosa. — Só eu dirijo esse carro.

— Era mais seguro deixar o motorista — ele resmungou, cruzando os braços.

— Nem pensar. — sorri, passando a mão no volante. — Dirigir é emocionante. E esse carro enorme me faz sentir poderosa.

Ele riu com suavidade.

— Só cuidado. A senhora tá mais frágil por causa do bebê…

Olhei para ele pelo retrovisor, semicerrando os olhos.

— Você tá passando muito tempo com o Heitor. Tá até falando igual.

— O doutor Heitor se preocupa com a senhora. Só isso.

Soltei uma pequena risada.

— Eu sei. E mesmo que não apareça… eu gosto muito disso nele.

E gostava mesmo.

Heitor parecia inabalável para o mundo, mas comigo ele era cuidadoso, paciente, e até exagerado e eu amava cada detalhe disso.

A estrada até a mansão parecia mais silenciosa que o normal.

Após a tempestade, a cidade ainda não tinha recuperado completamente a distribuição de energia. Algumas quadras estavam apagadas, outras parciais, outras com postes piscando.

E então chegamos à portaria principal.

Meu coração deu um salto quando o porteiro me viu chegar, e antes de eu abrir a boca, ele anunciou com firmeza:

— Boa noite, é a senhora dona da casa, certo? Seja bem-vinda.

Uma onda de calor subiu pelas minhas costas.

Dona da casa.

Não visita.

Não acompanhante.

Dona.

Eu sorri tão largo que fiquei com medo de parecer ridícula.

Passei pelo portão com aquele prazer infantil de quem finalmente pertence ao lugar onde chegou.

Mas a sensação não durou mais do que trinta segundos.

Porque assim que eu comecei a dirigir pela avenida de entrada, algo me fez reduzir a velocidade até quase parar.

Estava muito escuro.

Sem os postes, sem a iluminação projetada, sem luzes cênicas mostrando a arquitetura da fachada. Nada.

Apenas lanternas de capacetes, distantes, espalhadas sem ordem. Trabalhadores iam e vinham, mas a cena parecia estranhamente improvisada.

E o pior não era a falta de luz.

Era as lonas.

Grandes, altas, presas entre nas árvores de ipê, cobrindo completamente a visão lateral da avenida. De um lado e de outro, formando túneis verticais.

Senti o coração apertar.

— O que é isso? — sussurrei.

Eu conhecia aquela avenida como se fosse uma pintura diante dos meus olhos. Os ipês brancos. As estátuas de animais. O paisagismo criado só para aquele espaço.

Era a parte da mansão que eu mais amava, antes mesmo de morar ali.

— Não acredito que ele mexeu nisso… — murmurei, tensa. — Será que ele tirou os ipês? Ou as estátuas?

Uma tristeza inesperada atravessou minha garganta.

Eu tinha amado cada detalhe.

E agora estava tudo encoberto, escondido e apagado.

Não fazia sentido.

Heitor jurou que a reforma estava pronta.

Eu olhei pelas frestas, tentando ver qualquer traço, mas as lonas eram bem presas, grossas, isolando completamente a vista.

Era como se algo estivesse sendo escondido.

Ou como se… não fosse para ver ainda.

— Faz sentido isso pra você, Oséias? — perguntei.

Ele não pareceu nada preocupado.

— Ah, sim. É só proteção antichamas.

— Antichamas?

— Os tecidos. São antichamas. Eles cobriram a vegetação para evitar faíscas.

— Faíscas de quê?

— Um dos postes estourou depois da tempestade. Tava instável. Chamaram técnicos. Pode ter dado curto. Por isso desligaram toda a energia na avenida.

Minha respiração aliviou, mas não completamente.

— Entendi… — murmurei.

Se era só isso… menos mal.

Mas ainda assim…

Eu estava vendo pela primeira vez o lugar onde eu vou morar.

E ele estava inteiro… apagado.

Minhas expectativas estavam tão altas para rever o lugar.

Respirei fundo.

Heitor não ia gostar de saber que a avenida estava assim na minha primeira visita. Ele teria surtado com a equipe se soubesse. Ele devia estar em um péssimo humor, emburrado.

Mas ao mesmo tempo…

Eu sabia que ele estava fazendo tudo sob uma pressão absurda.

Então engoli meu incômodo e segui dirigindo.

A fachada da mansão finalmente apareceu após a curva, iluminada apenas pelo mínimo necessário, mas linda como eu lembrava. Os ipês brancos estavam lá, intactos; as estátuas dos animais também. Nenhuma alteração brusca, nenhum exagero moderno… quase como se alguém soubesse que aquele pedaço era meu favorito e ousasse não tocar.

Senti meu peito aliviar.

— Se lembra da sua parte? — Oséias perguntou animado, quase infantil.

— Lembro — respondi, surpresa com aquele entusiasmo.

Ele ajeitou a gravata como se estivesse prestes a entrar no palco.

— Eu tô empolgado pra minha parte. Vou aparecer no vídeo também.

Eu tive que engolir o riso.

Claro que ele ia amar aparecer no vídeo. Segurança sério, profissional, mas com alma de quinze anos quando o assunto era câmera.

Alguns drones voavam discretos sobre o jardim principal, fazendo filmagens panorâmicas, eles eram redondos, estáveis, com aquelas luzes vermelhas mínimas que pareciam vagalumes tecnológicos. Perto da entrada, eu vi fotógrafos e uma equipe de filmagem conversando entre si, cada um com fones no ouvido, organizando ângulos e testando luz.

Heitor realmente tinha levado aquilo a um nível muito maior do que eu imaginava.

— Ele quis levar esse vídeo a sério mesmo — murmurei.

— Sim. A marca de estacionamento da senhora tá ali — Oséias apontou.

Respirei fundo e segui devagar. Até a demarcação da vaga fazia parte do roteiro que a equipe tinha passado para mim no dia anterior. O único detalhe que não estava no plano original era a luz.

Ela era fraca, quente, quase abafada, como se tivesse sido pensada para um efeito estético, não para visibilidade. Era bonita, delicada, cinematográfica… mas ainda assim me incomodou por um segundo.

O céu estava totalmente escuro, sem lua, com apenas algumas estrelas tímidas, como se nem o céu tivesse coragem de disputar atenção com aquele momento.

— Tudo isso pro Fortenelle… — murmurei, revirando os olhos.

Filmar um vídeo impactante não era exatamente o tipo de coisa que eu sonhava fazer depois de um processo traumático, mas Heitor estava tão determinado a limpar meu nome, a entregar transparência, a encerrar publicamente algo que me machucou tanto… que eu simplesmente não tive coragem de falar que não.

E talvez fosse mesmo necessário.

Estacionei.

Olhei rapidamente para o retrovisor: maquiagem intacta, pele impecável, sem aquele brilho excessivo. O penteado deixava meus cabelos mais cacheados do que o normal, e eu amei. Parecia uma versão mais sensual de mim mesma.

Mas a melhor parte? O vestido.

Um longo verde musgo acetinado, de caída perfeita, elegante sem esforço.

Verde.

Minha cor favorita.

Eu não disse isso para ninguém.

Então obviamente Heitor contou.

Meu coração aqueceu como se ele tivesse afagado minha alma por dentro.

Respirei fundo, ajeitando os ombros.

— Agora é com você — disse Oséias, já animado com a própria estreia.

Ele saiu primeiro, dando a volta no carro com aquele ar de segurança profissional, mas com o sorriso mal escondido de quem esperou a semana inteira para esse momento.

Abriu minha porta.

Estendeu a mão.

Eu aceitei com gratidão, sempre fazia diferença sair com apoio, principalmente com o peso crescente da barriga.

Quando pisei no chão, notei um homem me filmando, câmera enorme, estabilizador e a lente longa apontada para mim.

O constrangimento subiu pelas minhas costas como um arrepio.

Por que alguém precisava filmar eu saindo do carro? Era teste de ângulo? Parte do making off? Alguma ideia estética? Eu não sabia e, naquele momento, preferi não pensar demais.

Eu só estava ali para cumprir o roteiro e ajudar Heitor a encerrar um capítulo doloroso.

E então eu virei o rosto.

E tudo ao redor deixou de existir.

Porque ele estava ali.

Heitor.

Meu homem.

Meu lar antes da casa.

Ele estava parado a poucos metros, com um sorriso tão largo, tão feliz, tão vivo, que minha pele se arrepiou na mesma hora. Ele parecia diferente — ou talvez fosse eu, com saudade de um dia inteiro sem ele.

O terno preto caía impecável sobre os ombros largos; a camisa branca sem gravata deixava uma parte da clavícula à mostra; o primeiro botão aberto era quase indecente de tão sedutor. As abotoaduras douradas brilhavam discretamente quando ele movia as mãos.

Mas o que mais me desmontou foi o rosto.

Ele tinha cortado o cabelo, só um pouco. Estava penteado com perfeição para o lado, mas não engomado. Tinha aquele ar propositalmente elegante, mas com tudo de Heitor: masculino, moderno e fácil de admirar.

E os olhos…

Os olhos eram impossíveis.

Azuis, brilhantes, apaixonados, calorosos e fixos em mim de uma forma que ninguém jamais olhou para outra mulher.

Meu peito bateu três vezes antes que eu percebesse que ainda respirava.

Comecei a caminhar até ele, mas ao mesmo tempo ele também caminhava até mim, como se o espaço entre nós nunca tivesse sido feito para ficar vazio.

Quando nossos olhares se encontraram no meio do caminho, eu sorri involuntariamente.

— Oi… boa noite — falei, com a voz boba de quem acabou de esquecer o próprio nome.

Eu nunca tinha visto aqueles olhos tão cheios de luz quanto naquela noite.

— Boa noite amor. — ele respondeu, firme, suave e íntimo.

O modo como ele me chamou fez todos os músculos do meu corpo relaxarem.

Heitor me analisou devagar, de cima a baixo, uma vez.

E depois, de novo.

O sorriso no canto da boca veio rápido: ele estava inteiramente encantado.

— Você tá maravilhosa… — a voz dele saiu profunda, rouca e com um brilho que me fez arrepiar inteira — nossa… essa cor ficou linda em você. Mas, convenhamos… o que não fica, né?

Meu rosto aqueceu imediatamente.

Ele sempre exagerava assim, mas naquele momento eu quase acreditei que o mundo inteiro tinha parado só para olhar para mim.

— Eu tava com saudade — murmurei. — A gente nem se viu hoje.

— Eu também estava. — Ele deu um passo a mais, diminuindo a distância entre nós como quem sabe que eu gosto disso. — Mas finalmente você chegou.

Ele ofereceu a mão, com aquele gesto sutil e elegante.

— Vem, Helê.

Meu corpo inteiro derreteu.

Eu conhecia Heitor há tempo suficiente para saber quando ele estava mais apaixonado do que de costume. E eu juro que nunca tinha visto ele daquele jeito: tão galanteador, gentil, pleno e completamente meu.

Peguei a mão dele.

E ele a virou com cuidado, levando os meus dedos até os lábios.

Quando ele os beijou, eu realmente perdi o ar.

Meu coração disparou. Minha pele se arrepiou. Meus olhos ficaram marejados por dentro, mas eu fingi que estava apenas feliz.

— Porra, Helê… — a voz dele saiu baixa, íntima, quase em segredo — você tá linda demais. O que eu faço, hein?

Eu comecei a rir, meio tímida, meio sem graça, mas profundamente lisonjeada.

— Não seja bobo.

Mas a verdade?

Eu não queria que ele parasse.

O sorriso dele se alargou, sem nenhum pudor.

— Eu não pretendo parar.

Entrelaçamos as mãos. Pode parecer simples, mas o modo como ele segurou meus dedos, de uma maneira firme, quente e protetora, fez qualquer resquício de insegurança desaparecer.

Ele me olhou nos olhos.

— Vamos?

Eu sorri.

— Vamos.

Seguimos caminhando de mãos dadas, e por alguns minutos eu nem percebi que não estávamos indo para a porta principal. Eu estava simplesmente… entregue. O calor da mão dele, o cheiro amadeirado, a textura calma dos dedos entrelaçados nos meus, tudo isso era suficiente para ocupar a minha cabeça inteira.

A lateral da mansão estava com uma iluminação diferente, quente e baixa, como se o chão respirasse com a luz. Eu podia ouvir o som dos nossos passos sobre o caminho de pedra e nada mais. Era como se o mundo tivesse diminuído o volume só para que nós dois existíssemos ali.

Nem eu falei nada.

Nem ele.

A presença era estímulo suficiente.

De vez em quando, um de nós olhava para o outro e sorria, sorrisos tolos, satisfeitos, bobos e apaixonados. Aquele tipo de sorriso que só quem tem intimidade e saudade reconhece. Parecia uma conversa silenciosa, com significados que ninguém mais entenderia.

Quando finalmente contornamos a lateral e entramos nos fundos da casa, eu despertei de dentro da minha própria distração:

Nós não estávamos dentro da mansão.

Eu parei.

— Você não vai entrar comigo? — perguntei, confusa. — A filmagem vai ser aqui fora?

Heitor sorriu com um brilho, e aquela simples imagem fez meu estômago flutuar.

— Vamos gravar aqui mesmo — disse com naturalidade. — O clima está fresco e bonito.

Eu olhei ao redor.

E ele tinha razão.

Atrás da casa, uma nova equipe estava posicionada: luzes, tripés, câmeras, drones, microfones. Inclusive a moça que tinha passado comigo o roteiro na semana anterior. Ela estava sorrindo e acenou discretamente quando notou que eu cheguei.

Ok, aquilo estava maior do que eu imaginei.

Heitor olhou para mim, atento.

— Está cansada?

Olhei para ele, surpresa pela suavidade da pergunta.

— Não… — respondi. — Estou bem.

— Se você ficar cansada, me avisa — disse. — Eu te seguro nos braços.

Eu ri na hora, sem conseguir evitar.

— Você ia adorar ter essa cena no vídeo.

Ele não negou.

Na verdade, seus olhos se iluminaram como se eu tivesse acabado de adivinhar seu desejo secreto.

— Seria o protetor de tela do meu celular — disse com toda a calma do mundo.

Meu rosto pegou fogo.

Ele soltou uma risadinha, satisfeito com meu constrangimento.

E então eu percebi outra coisa.

No jardim, espalhadas com ordem quase imperceptível, havia caixinhas de som discretas, como pequenas lanternas instaladas no chão. Estavam tocando uma música suave em inglês, em volume perfeito: audível, envolvente, mas jamais incômoda.

Eu franzi o cenho com um sorriso.

— Uma escolha estranha de música para esse tipo de vídeo — comentei, divertida.

Heitor apertou minha mão levemente.

— Estão testando as caixas — ele explicou. — Mas essa música combina com o momento.

Eu ri.

— Que música é?

Ele se aproximou um passo, não tirando os olhos de mim.

— Can’t Help Falling in Love, do Elvis Presley.

Meu coração já pulou só pelo título.

— O que diz a música? Parece bem romântica.

Heitor não respondeu imediatamente. Em vez disso, ele apertou minha mão outra vez com suavidade, mas com aquela firmeza segura de quem diz sem dizer: fica comigo no agora.

Sem desviar os olhos dos meus, ele começou a traduzir, acompanhando o ritmo do cantor:

— Homens sábios dizem… — começou, com a voz grave, baixa e íntima — que só os tolos se apaixonam…

Eu já estava ficando sem ar.

— Mas eu não consigo evitar… me apaixonar por você…

Minha pele inteira esquentou. Eu nem sabia onde colocar as mãos.

Ele continuou, devagar, no mesmo tempo da música, como se estivesse lendo um texto que ele sentia, não apenas recitava:

— Querida, é assim… algumas coisas estão destinadas a acontecer… pegue minha mão… tome minha vida inteira também… porque eu não consigo evitar… me apaixonar por você.

Minhas bochechas queimavam. Minha nuca formigou. Eu pensei em passar a mão pelo rosto, mas lembrei que não deveria estragar a maquiagem, mesmo que ela fosse leve, então só fiquei ali, rindo sem graça, mordendo o lábio de nervoso.

Minha voz saiu fraca:

— É… bem romântica mesmo. Alguém deve estar muito apaixonado.

Heitor sorriu com tanta intensidade que eu senti aquilo no peito.

— Não existe ninguém mais apaixonado do que eu — disse, convicto, com uma alegria calma.

Eu desviei o olhar por um segundo porque encarar ele daquele jeito parecia arriscado demais, como se eu fosse desmaiar de emoção.

— Você está sendo muito bobo — murmurei.

— Você gosta? — ele perguntou.

O carinho na voz dele fez minha coluna arrepiar.

— Gosto. Eu te amo — respondi, olhando nos olhos com toda a sinceridade que eu tinha.

Os olhos dele brilharam como se eu tivesse acabado de dar um presente.

— Que bom. Eu também amo você. — murmurou. — Quero te mostrar uma coisa antes de começarmos.

Dei um passo mais perto.

— O quê?

— Você vai ver.

Foi então que eu senti.

Um perfume floral — intenso, doce, vivo — tomou o ar, como se as flores tivessem acabado de acordar.

Eu olhei para a escuridão à frente.

Os fundos da casa estavam quase totalmente apagados, exceto por pequenos reflexos distantes. Não dava para distinguir muito, só um breu profundo, com pontos claros de luz difusa.

Mas então, meus olhos se ajustaram.

E eu notei uma coisa diferente:

Um caminho.

Um caminho de pedras brancas, perfeitamente alinhadas, formando uma trilha suave, orgânica, quase poética.

E eu tinha absoluta certeza:

Aquele caminho não existia antes.

Era novo.

Recém-criado.

E ele ia longe, muito longe, até o final do jardim.

Ao redor, em leitos largos, havia flores, plantadas e bem cuidadas. Era difícil identificar a variedade naquela escuridão, mas eu vi camadas, formatos redondos, pétalas densas. Pareciam flores importantes.

Senti meu coração acelerar.

— Você… fez um jardim? — perguntei, com uma incredulidade infantil.

— Fiz — ele respondeu como quem diz claro que fiz. — E queria te mostrar rapidinho.

Eu ri.

— Mas está muito escuro! Eu deixei o celular no carro, não tenho como iluminar.

Heitor sorriu daquele jeito travesso, absolutamente confiante.

— Isso eu resolvo.

Ele estalou os dedos.

E de repente…

As pedras brancas acenderam por baixo, como se tivessem sido feitas de luz líquida. O caminho inteiro brilhou suave, cálido, com um efeito mágico impossível de descrever.

Ao mesmo tempo, luzes pequeninas surgiram no meio das flores — pontos amarelos, delicados, como se vagalumes tivessem escolhido aquele jardim como lar.

Eu fiquei parada.

Sem palavras.

Era um conto de fadas.

As flores — agora visíveis — tinham várias camadas de pétalas, várias em tons diferentes, mesclando cores com uma perfeição que parecia irreal. O perfume era doce e delicado como se todas tivessem sido criadas ao redor de um mesmo sentimento.

Eu levei a mão à boca, incontrolável.

— Uau…

Ele sorriu, satisfeito com cada centímetro da minha reação.

— Que bom que você gostou — disse, com orgulho discreto. — Olha ali.

Ele apontou com a cabeça.

Mais à frente, não tão longe da entrada do jardim iluminado, havia uma estrutura branca impecável — um gazebo clássico, com grades delicadas, cercado por flores que subiam pelas laterais como se tivessem nascido apaixonadas.

Era cinematográfico.

Era sublime.

Era impossível.

— Quer ir lá comigo? — ele perguntou.

— Quero — respondi sem hesitar.

Eu estava empolgada como uma criança.

As flores eram tão diferentes — algumas com tons rosados suaves, outras com rosa profundo, outras com branco puro com bordas cor-de-rosa. Eram tão cheias de textura, tão cheias de vida, que eu tive vontade de tocar cada uma.

Ele entrelaçou nossos dedos de novo.

E deu outro beijo na minha mão antes de começarmos a caminhar.

Meu coração virou líquido.

Seguimos pelo caminho iluminado.

O jardim parecia expandir conforme caminhávamos. As rosas que cercavam o começo da trilha eram rosas inglesas brancas com bordas rosadas, perfeitamente simétricas, formosas, elegantes sem esforço.

Ele baixou a voz, me olhando com um carinho que deixou minha pele arrepiada:

— Essas rosas me lembram de quando eu te conheci. De como você começou a dar cor a uma vida que era muito… monótona.

Eu o encarei, sem graça, sem saber onde colocar meus olhos.

— Heitor…

— É verdade — ele disse, sem perder o tom suave. — Eu não imaginava que alguém pudesse fazer tanta diferença só por existir.

Continuamos andando.

A fileira das rosas brancas com borda rosa foi mudando de tom ao longo do caminho — agora nas cores rosa clara, depois em um rosa em um tom mais escuro.

Ele apertou minha mão, com ternura:

— Essas aqui… — ele apontou com o olhar, as rosas misturadas, vibrantes, múltiplas — me lembram os sentimentos que você despertou em mim. Coisas que eu nunca imaginei sentir. Agora elas fazem parte de mim, como o ar que eu respiro.

Meu rosto parecia uma fogueira.

— Você está muito romântico hoje — sussurrei, tímida.

Ele riu devagar, sem desviar o olhar.

— O que eu posso fazer? Eu sou completamente apaixonado por você.

Levou a outra mão até nossas mãos entrelaçadas, acariciando com o polegar, como se quisesse gravar aquela memória na pele.

Eu sentia meu corpo inteiro vibrar.

Nunca tinha visto ele assim — tão aberto, tão doce, tão entregue… tão meu.

E saber que ele fez um jardim inteiro inspirado no que sente por mim…

Era o gesto mais romântico que eu já havia visto na vida.

As fileiras continuaram até o gazebo, subindo pelas madeiras brancas, contornando cada arco, como se quisessem abraçar o espaço. As luzes estavam distribuídas como se fossem luzes natalinas — suaves, cintilantes, douradas, mas sem exagero — criando um halo íntimo, acolhedor e mágico.

Entramos no gazebo devagar, ainda de mãos dadas, e o silêncio parecia sagrado.

Eu me virei, observando tudo.

Era ainda mais bonito por dentro.

O branco das estruturas de madeira contrastava com a luz dourada das lanternas discretas e o brilho sutil das flores que subiam pelas colunas. Tudo parecia... calmo. Sereno. Como se o tempo tivesse desacelerado só para nós dois estarmos ali.

— É lindo... — murmurei. — De dia deve ser mais lindo ainda.

Heitor soltou minha mão, mas só para me envolver pela cintura com um dos braços. Senti a firmeza da palma dele na lateral da minha coxa, me guiando, me conduzindo até a parte oposta do gazebo.

Ali estava mais escuro, mas eu fui sem pensar. O corpo dele do meu lado me fazia sentir segura, mesmo sem entender muito bem o que acontecia.

Apoiei as mãos no parapeito e olhei adiante. Breu.

— E pra lá? — perguntei, com a voz baixa. — Tem mais flores?

Heitor deu aquele sorriso de lado que eu conheço tão bem. O sorriso que sempre vem antes de ele me surpreender.

— Tem sim. — ele respondeu. — Quer ver?

Virei o rosto para encará-lo. Os olhos dele estavam absurdamente brilhantes naquela luz morna, e o sorriso… ah, o sorriso dele. Tão cheio de afeto, de algo que parecia prestes a transbordar.

— Quero — sussurrei.

Ele levantou o braço e estalou os dedos.

E o que aconteceu depois me tirou o fôlego.

Diante dos meus olhos, o jardim se acendeu.

Mas não foi qualquer iluminação — foi mágica. Uma luz dourada, quente, suave, começou a surgir debaixo das flores, revelando um novo caminho que se estendia além do que meus olhos conseguiam alcançar.

E então eu vi.

Um mar de rosas vermelhas e tons alaranjados que pareciam ouro vivo sob a luz noturna.

— Essas... — Heitor disse, com a voz baixa ao meu lado. — Essas rosas vermelhas… são o amor que eu sinto por você.

Meus olhos marejaram.

— E essas, com esse tom alaranjado, quase dourado… — ele continuou — são a vida que eu quero ter ao seu lado. Longa, vibrante… e sem fim. Como essas flores. Elas não acabam. Assim como o que eu sinto.

Eu olhei.

Era verdade.

Eu não conseguia ver o fim.

Era como se ele tivesse desenhado o amor dele com raízes e pétalas.

E antes que eu pudesse reagir, senti as mãos dele tocarem meus braços.

Lentas. Firmes.

— Helena.

Ele deslizou até alcançar minhas mãos. Segurou-as entre as dele. E então olhou para elas. Depois para mim.

— Eu te observo às vezes... — ele começou, a voz rouca, baixa, quase tremendo. — E fico pensando como é possível alguém ser tão certa pra mim.

Eu travei. Meu coração batia tão alto que parecia ecoar no peito.

Ele ergueu os olhos azuis — tão intensos, tão emocionados — e cravou os meus.

— Tá vendo aquelas flores? — sussurrou. — Como seguem até onde os olhos não alcançam? Eu mandei plantar assim porque eu queria que você entendesse algo que eu nunca consegui dizer direito…

Ele respirou fundo.

— O meu amor por você não tem fim.

Eu já não respirava direito. Meus olhos ardiam. Minha garganta travou.

— Ele começa em você... — ele continuou, a voz ficando mais firme — e continua no nosso filho, nos nossos dias, nos nossos erros, nos nossos acertos, no que a gente ainda nem viveu.

Os olhos dele pareciam tão emocionados quanto os meus.

—Você entrou na minha vida sem pedir licença e mudou tudo. O jeito que eu penso, o jeito que eu trabalho, o jeito que eu olho o mundo. Você me fez querer ser melhor. Não porque pediu. Mas porque você merece.

Minha visão já estava embaçada. Mas eu não conseguia tirar os olhos dele.

— Eu não tô aqui por causa do nosso filho, Helena. Tô aqui por causa de você. Porque quando eu penso na minha vida… eu só penso em você. Você é o meu lar. Não a casa. Não o nome. Não o sobrenome. É você. Apenas você.

Eu travei.

Aquilo não podia ser o que eu estava pensando…

Não.

Não podia.

Então ele se afastou um pouco.

E se ajoelhou.

Meu coração quase parou.

Parecia ser exatamente o que eu estava pensando.

Levei a mão à boca, o corpo inteiro tremendo.

— Meu Deus… Heitor…

Ele sorriu — um sorriso tão cheio de verdade, de amor, de nervosismo contido — e puxou de traz de uma pilastra do gazebo uma pequena caixinha vermelha aveludada.

Abriu.

O anel era deslumbrante. Um diamante oval cercado por um halo brilhante, delicado e eterno.

— Então… — ele disse, com os olhos presos em mim. — Helena Ribeiro Campos... você aceita se casar comigo?

Meus lábios tremeram.

— Me deixa acordar com você todos os dias… Errar com você. Crescer com você. Proteger você. Aprender com você. Amar você até nem o tempo existir mais.

A voz dele falhava, mas ele não parava.

— Eu não sei prometer um amor calmo todos os dias… Mas eu prometo um amor inteiro. Honesto. Vivo.

— Se você disser sim... Eu vou passar o resto da minha vida te escolhendo. Porque você é a única escolha que eu quero. Porque eu não quero um capítulo com você. Eu quero biblioteca inteira.

As lágrimas escorriam no meu rosto.

— Casa comigo, Helena… Casa comigo não porque eu te peço, mas porque eu te quero. Profundamente. Diariamente. Infinitamente.

Ele puxou o ar, apertou os olhos azuis brilhantes.

— Casa comigo porque eu reconheço em você o que eu nunca encontrei em ninguém: o lar que eu esperei a vida inteira sem saber que estava procurando. Casa comigo porque eu quero ser o homem que te levanta quando tudo desaba, que te escuta quando ninguém entende, que fica quando o mundo manda ir. Casa comigo porque, pela primeira vez na vida, eu não quero poder… Eu só quero você.

Ele respirou fundo, e finalizou:

— Inteira. Imperfeita. Cansada. Risonha. Irritada. Confusa. Brilhante. Sensível. Forte. Frágil. Você. Exatamente como é. Casa comigo porque minha vida nunca mais vai caber longe da sua. Casa comigo… porque eu escolho você como o meu destino. E não existe mais destino possível para mim que não seja ao seu lado.

Eu já não me aguentava. As lágrimas escorriam como uma chuva silenciosa. Senti o rosto quente, o peito apertado, o corpo inteiro em suspenso.

— Você é um idiota… — murmurei, entre soluços.

Ele sorriu emocionado, os olhos marejados também.

— Eu quero ser o seu idiota. Pro resto da vida.

Eu olhei para ele.

Ali. Ajoelhado. Me pedindo em casamento.

Heitor parecia lutar contra sua própria emoção..

— Então… Helena Ribeiro Campos, aceita se casar comigo?

A mão tremia quando eu respondi:

— SIM… é claro que SIM!

O sorriso dele se abriu como um céu depois da tempestade.

— Estica a mão esquerda pra mim?

Eu, no meio da emoção, estiquei a mão errada.

— A outra — ele riu.

Nós dois rimos juntos. Eu estiquei a esquerda. Ele pegou o anel, com todo o cuidado do mundo, segurou minha mão como se fosse a coisa mais preciosa da Terra… e colocou.

— Agora você é minha noiva. E eu mal posso esperar pra você ser minha esposa. Helena Monteiro.

Ele se levantou.

Mas eu não esperei.

Joguei meus braços no pescoço dele e pulei, como se o mundo todo tivesse desaparecido. Ele me segurou firme, riu junto comigo, e me girou no ar como se eu fosse leve feito uma pena.

Quando me colocou no chão, nossos olhos se encontraram.

E ele me beijou.

Um beijo de verdade.

Daqueles que fazem o coração parar. Que fazem o tempo pausar. Um beijo inteiro, de amor e desejo, alívio e sonho.

Eu sorri no meio do beijo, e ele sorriu também. E então…

FLASH.

Eu parei. Pisquei.

— Espera… — olhei pro lado — tem gente ali?

Lá estavam eles. Fotógrafos. Câmeras. Equipe inteira. Todos sorrindo, com olhos brilhando, como se tivessem assistido o melhor final de novela da vida.

Oséias… estava no cantinho, limpando uma lágrima do rosto.

Eu enterrei o rosto no peito do Heitor, vermelha como um tomate.

— Eu não tinha visto ninguém ali…

— Melhor assim. — ele riu. — Agora eu tenho muita opção de wallpaper.

Beijou minha testa. Depois minha boca, de leve.

— Mas eu preciso de mais.

Ele segurou minha mão, ainda sorrindo.

— Vamos tirar umas fotos?

— Vamos — eu disse, rindo.

Tiramos algumas.

No fim, a equipe bateu palmas. Vários deram parabéns. Uma das mulheres até chorou.

Eu olhei para ele.

— Você me enganou direitinho. Eu juro que não esperava.

— Desde que comprei a casa, tive a ideia. Só estava esperando tudo ficar pronto.

Ele fez uma pausa.

— Mas o que mais demorou foi o anel. Encomendei da Cartier, na França. Design exclusivo. Feito só pra você.

Meus olhos se encheram outra vez.

Eu o abracei apertado.

— Eu ainda não acredito nisso. Eu tô… noiva.

— Você é teimosa — ele disse rindo. — Demora pra aceitar as coisas.

— Não sou assim!

— É sim! Nosso filho tá quase nascendo e você ainda fala que não acredita que tá grávida!

— Não é verdade!

Ele me abraçou, rindo, e encheu meu rosto de beijos, entre sorrisos e mais risadas.

— É verdade siiiim.

Ele então segurou minha mão outra vez, agora com o anel brilhando sob a luz.

— Então, minha noiva… — ele disse com aquele sorriso safado e doce. — Está pronta para o restante da noite?

Eu o encarei com o coração acelerado.

— Tem mais?

Ele sorriu.

— Tem.

Ainda ofegante do pedido, com o anel reluzindo na minha mão esquerda e o coração batendo alto como fogos de artifício presos no peito, deixei que Heitor me guiasse de mãos dadas pela lateral da casa.

Foi quando vi a Dra. Ana Flávia. Fiquei surpresa.

— Doutora?!

Ela sorriu, se aproximou e me abraçou com ternura.

— Parabéns, Helena. Foi lindo. Eu quase chorei junto.

Pegou na mão do Heitor também, deu os parabéns.

— Vai me mandar o vídeo, hein? Quero assistir tudo.

— Pode deixar — Heitor respondeu com aquele sorriso que me desmonta.

Fiquei vermelha.

— Você veio porque achou que eu ia infartar, foi?

Ela riu.

— Nada disso. Vim porque vou acompanhar vocês no voo.

— Que voo? — olhei para Heitor.

Ele deu aquele sorriso canalha, delicioso e irritante.

— Heitor Monteiro, o que você tá aprontando?

— Vai ver.

Seguimos mais alguns passos até que eu vi. Ali, a poucos metros, estava um heliporto.

E em cima dele, um helicóptero.

— Não! De jeito nenhum!

Ele riu, me puxou com carinho e segurou meu rosto entre as mãos.

— Confia em mim, meu amor. É rápido, seguro. Prometo.

Desceu as mãos pelas minhas bochechas, fez eu fazer um biquinho e me beijou.

— Você me coloca em cada enrascada...

— E você sempre sai feliz, né? Confia.

Revirei os olhos, mas sorri. Porque sim, eu confiava.

Dentro do helicóptero, ele colocou os fones em mim com carinho. O braço por trás das minhas costas, a mão repousando na barriga. Segurei com força nele, encostando meu corpo no dele.

A decolagem foi tensa. Eu estava nervosa. Mas olhei para ele e parecia que estava sentado num banco de praia, completamente tranquilo. Ana Flávia também. Só eu estava tensa.

Quando estabilizou, respirei melhor. Me lembrei da sensação de voar de avião.

— Olha pela janela — Heitor disse.

Estiquei um pouco o corpo. Abaixo, o jardim iluminado que ele fizera. De cima, parecia de verdade um infinito.

— Parece o filme Enrolados...

— Nunca vi. Mas a gente pode ver junto.

— Ótima ideia.

O voo foi curto. O pouso também deu frio na barriga, mas foi tranquilo. Heitor desceu primeiro e esticou a mão. A peguei.

Agradeceu a doutora, que foi para o carro. Nos despedimos.

Olhei em volta. Um restaurante lindo, moderno, jardim minimalista. Heitor apertou minha mão.

— Vem conhecer um lugar comigo.

O desing era sofisticado. Madeira, vidro, luz quente e tons terrosos.

Heitor me observava, claramente curioso pela minha reação. Abriu a porta para mim. Entrei. Um salão com mesas bem distribuídas à esquerda. À direita, uma mesa exclusiva e um palanque com uma banda se organizando.

Um homem mulato, muito bem vestido, se aproximou sorrindo.

— Amor, quero que conheça esse cara.

Ele esticou a mão.

— Um prazer, Helena. Parabéns pelo noivado e pelo bebê.

Sorri, ainda confusa.

— Agora entendi por que o Heitor insistiu tanto neste show...

Olhei para Heitor esperando a apresentação.

Ele me puxou pela cintura.

— Helê, esse é o Thiaguinho.

Arregalei os olhos.

— O Thiaguinho... tipo, o cantor Thiaguinho?!

— Ele mesmo — ele riu.

Thiaguinho também riu.

— É uma honra estar aqui. Vamos começar com uma playlist especial. Se quiserem alguma música, é só pedir.

— Ah, eu vou pedir sim! — prometi.

Nos despedimos. Virei para Heitor.

— Como assim você trouxe o Thiaguinho?! E parece exclusivo!

— É exclusivo. O restaurante é nosso. O show também.

— Como você conseguiu isso?!

Ele estufou o peito.

— Você me conhece, só faço o melhor pra você.

Revirei os olhos, mas sorri.

— Você sempre se supera...

— E você vai amar tudo que ainda vou te oferecer.

Ele me mostrou o restaurante.

— A gente nunca veio aqui, né?

— Não. Não estreou ainda. Você é a primeira.

— O quê?!

— Restaurante autoral. Brasileiro e mediterrâneo. 50 lugares.

— Seus estilos favoritos...

— Isso! Eu sabia que você ia lembrar. — Heitor disse com um sorriso lindo que começa nos olhos.

Me levou à cozinha. Equipe inteira ali.

— Essa é minha noiva, Helena. E mais do que isso... dona do restaurante.

— Oi? — franzi a testa.

— O restaurante é nosso.

— Como assim?

Ele sinalizou para o garçom esperar 4 minutos.

Me puxou para uma mesa próxima do palanque.

— Eu precisava de algo fora da Monteiro Inc. Isso aqui... era um sonho antigo. Contei pro meu amigo, aquele que te mostrei no almoço na casa dos meus pais. Começei o projeto antes de virmos ao Rio. Era surpresa. Ninguém sabe. Só você agora. E antes de abrir ao público, você tinha que ser a primeira a se sentar aqui.

— Isso é loucura... Por isso você não estava dormindo direito?

— Agora está tudo pronto.

O garçom trouxe os cardápios. Outro trouxe mocktails.

Provei. Goiaba. Minha fruta favorita.

— Sem álcool... de goiaba.

— Eu sei tudo sobre você.

Olhei o cardápio. No topo:

H. MONTEIRO

— H de Heitor, Humberto e Helena. Todos são Monteiro. — Heitor respondeu cheio de gosto.

Sorri. Não conseguia parar de sorrir.

— Escolhe um prato amor.

Escolhi.

— O Ravioli H. Monteiro.

Heitor tirou o terno com ajuda do garçom.

— Ótima escolha. Agora vou pra cozinha.

— Você vai cozinhar?

— Sei fazer todos os pratos do cardápio. Principalmente esse.

Arrumaram uma mesa próxima à porta da cozinha. Ele me chamou.

— Quer me ver em ação?

— Claro!

Ele me levou. Mangas arregaçadas, avental e postura elegante.

— Sabe, Helê... agora eu não sou CEO e nem herdeiro. Sou só um homem fazendo algo especial pra mulher que vai ser minha esposa.

Olhou para mim.

— Essa mulher é você.

Eu ri. A garganta apertava.

E ele cozinhou. Sozinho. Como se fosse arte. Mãos firmes. Movimentos seguros.

Colocou o prato na minha frente. Limpou a borda com um pano.

— Esse era meu plano B. Agora é meu plano A... com você.

Comi. Estava maravilhoso. Comi com o coração.

Voltamos para a mesa principal. E o chefe oficial do restaurante entrou em ação.

Ele me fez provar tudo. Pratos diferentes. Sobremesas. Comi tanto que comecei a suar.

Humberto estava feliz. Tenho certeza.

Heitor, animado, falava do restaurante, dos bastidores do pedido de noivado...

Mas o copo dele nunca ficava vazio.

E não era mocktail sem álcool.

As bochechas dele estavam vermelhas.

— Helena... você é tudo pra mim. Porra... eu te amo demais. Ainda bem que você aceitou.

— Conta mais. — dei corda, estava adorando.

— Eu sei que não sou o homem dos seus sonhos. Mas vou transformar todos eles em realidade.

Sorri largo.

— Você tá apaixonado demais...

— E tem como não tá? Eu te amo tanto que não cabe no meu peito. Você fudeu tudo, Helê. — Ele riu, largado.

— Eu?! Eu nem fiz nada.

— Ah, não se faz de boba. Eu nunca me senti assim. Nunca.

Fui ao banheiro. Pedi ao garçom pra não dar mais bebida alcoólica para ele.

Voltei. Heitor estava rindo sozinho.

Estava levemente alterado. E irresistível.

E então...

Estava no palco.

Com o Thiaguinho.

Thiaguinho começou a cantar o começo da música..

O palco estava iluminado de forma suave, com luzes âmbar que dançavam no ritmo da melodia. Thiaguinho sorriu para o público reduzido — que, no caso, era só eu — e então virou-se para ele.

Para o meu Heitor.

Ele estava ali, de pé, no palco, com uma mão no bolso e a outra segurando o microfone. A camisa já com três botões abertos… mas foi o olhar dele que me tirou o chão. Aquele olhar que dizia tudo — que gritava “é por você, Helena, sempre foi”.

E não foi só olhar, enquanto Thiaguinho cantava, heitor falou no microfone.

— Essa vai em especial para o amor da minha vida… Helena! Minha noiva, a razão do meu viver.

Senti meu rosto arder igual brasa.

E quando ele começou a cantar…

— Juro que vou me conteerr… Juro nunca mais erraarr...

A voz dele saiu grave, macia, um pouco rouca. Eu conhecia cada nuance da voz do Heitor, ele era um cantor de chuveiro, mas cantando ali… foi diferente. Era como se ele colocasse o coração inteiro em cada palavra.

— Como eu quero te mostrar! O milagre do amor...

Ele olhou direto pra mim. Aqueles olhos azuis cheios de promessas que estavam sendo cumpridas. E então eu ri, porque já estava chorando — ridícula, apaixonada e emocionada até o osso.

— Você me fez mudaarr… Tão bom te amaarr… te amaar!!

Thiaguinho assumiu o refrão por um instante, mas Heitor o acompanhava, emendando cada verso com tanta entrega, tanta verdade, que parecia até que tinham escrito aquela música só pra gente. Só pra mim.

— Recomeçaarr… sem me esconder! Atrás de um ditador! Existe um grande amor!

Ele soltou uma risada breve nessa parte, quase como se risse de si mesmo. E aí sim eu desabei. Porque só eu sabia o quanto ele tinha mudado, o quanto ele se despia de tudo por mim. O que ele fez pelo o nosso amor.

— Eu sempre fui apaixonado por você! — Essa parte ele cantou com tanta entonação.

Meu peito apertou. Eu apertava as mãos uma na outra para não correr até o palco.

— Reinventaarr… resplandecer! O que não apagou. Em mim nada mudou!

Ele se aproximou da beira do palco, com o microfone ainda na mão, mas agora me olhando como se o mundo não existisse mais ao redor. Só eu. Só ele.

—Eu sei que o sonho ainda pode aconteceerr...

E era isso.

Era isso que ele estava fazendo — me mostrando que o sonho não só podia acontecer… como já estava acontecendo. Ali. Com ele. Comigo.

Com a gente.

Eu sou agora, noiva do Heitor Monteiro.

Notas finais
❤️❤️ Aconteceu gente! Finalmente aconteceu!! ❤️❤️