O CEO que Eu Paguei

252 Gustavo - Parte Final


Na manhã seguinte, Túlio telefonou avisando que a petição estava pronta. Gustavo poderia passar no escritório durante o horário de almoço para conferir os dados e assinar. Ele agradeceu, desligou e permaneceu alguns segundos com o celular na mão, olhando para o próprio reflexo apagado na tela. Tinha passado a noite quase inteira acordado, tentando se convencer de que aquela era apenas mais uma providência necessária, como assinar um contrato de aluguel ou abrir uma conta bancária. Não era. Aquela assinatura colocaria no papel algo que seu corpo ainda se recusava a aceitar por completo: o casamento de quase dez anos havia terminado.

No escritório, Túlio tornou a explicar cada pedido com paciência. O divórcio seria requerido de imediato, sem depender da concordância de Amanda. As discussões sobre os bens, a residência das crianças, o regime de convivência e os demais pontos poderiam continuar depois, caso não chegassem a um acordo. A guarda unilateral havia sido incluída como pretensão de Gustavo, acompanhada do relato de que Amanda envolveu os filhos na traição, pediu que escondessem informações do pai e, mais recentemente, dificultou seu contato telefônico com eles. Túlio não lhe prometeu que o pedido seria aceito. Apenas afirmou que apresentaria os fatos e pediria uma avaliação cuidadosa da situação dos meninos.

Gustavo leu cada página, embora algumas palavras parecessem escritas numa língua que não dominava. Requerente. Requerida. Dissolução do vínculo matrimonial. Guarda. Convivência. Alimentos. O nome de Amanda aparecia diversas vezes, mas já não vinha acompanhado de “esposa”. Agora ela era a outra parte. A mulher com quem dividiu a cama, os filhos, as contas e praticamente toda a vida adulta havia se transformado num nome impresso do outro lado de um processo.

Assinou.

Não sentiu alívio.

Também não chorou.

Apenas devolveu a caneta e ficou olhando para a própria assinatura durante alguns segundos. Era o mesmo nome que escreveu no registro de casamento, na certidão de nascimento dos filhos, no contrato da primeira casa e, poucos dias antes, no documento da promoção. A mesma assinatura podia iniciar uma vida e encerrar outra.

Túlio recolheu os papéis.

— A partir daqui, ela será formalmente comunicada. É possível que o advogado dela entre em contato. Não discuta diretamente questões do processo. Se houver qualquer problema com os meninos, registre e me avise.

Gustavo assentiu.

Saiu do escritório sentindo que havia atravessado uma porta que não se abriria novamente.

A reação de Amanda veio no dia seguinte.

O telefone tocou no meio do expediente. Gustavo reconheceu o nome na tela e pensou em não atender, mas havia sempre a possibilidade de ser alguma coisa relacionada a Enzo ou Théo. Pediu licença à equipe, entrou numa sala vazia e fechou a porta antes de aceitar a chamada.

— Oi.

A voz de Amanda explodiu do outro lado.

— GUSTAVO, QUE PAPÉIS SÃO ESSES?

Ele afastou discretamente o aparelho do ouvido.

— QUE HISTÓRIA É ESSA DE DIVÓRCIO? GUARDA UNILATERAL? VOCÊ ENLOUQUECEU? VOCÊ NÃO VAI TIRAR OS MEUS FILHOS DE MIM!

Gustavo fechou os olhos e inspirou devagar. Lembrou-se imediatamente das orientações de Túlio: não discutir, não ameaçar, não responder a insultos.

— Eles são NOSSOS filhos, Amanda.

— ENTÃO POR QUE ESTÁ PEDINDO A GUARDA SÓ PARA VOCÊ?

— Porque você colocou os meninos dentro da sua traição e depois me impediu de falar com eles. O juiz vai avaliar. Eu não vou discutir isso por telefone.

— VOCÊ QUER ME PUNIR!

— Não. — a resposta saiu firme. — Eu quero proteger o Enzo e o Théo de serem usados de novo.

Amanda soltou uma risada nervosa, quase histérica.

— USADOS? EU SOU A MÃE DELES! FUI EU QUE CUIDEI DELES A VIDA INTEIRA! VOCÊ PASSA ALGUNS DIAS FORA DE CASA, CONTRATA UM ADVOGADO E AGORA RESOLVEU QUE SOU UM PERIGO?

Gustavo sentiu a raiva subir, mas manteve a voz baixa.

— Eu nunca disse que você não cuidou deles. Disse que pediu para duas crianças mentirem para o próprio pai para proteger o seu caso. Isso aconteceu.

— EU COMETI UM ERRO!

— Foram vários.

O silêncio durou apenas um instante.

— VOCÊ ESTÁ DESTRUINDO A NOSSA FAMÍLIA — Amanda disparou. — VOCÊ NEM TENTOU VOLTAR COMIGO. FOI A UMA SESSÃO DE TERAPIA, OUVIU UMA COISA DE QUE NÃO GOSTOU E SAIU CORRENDO!

Gustavo apertou o celular com força.

— Eu passei um mês tentando morar com você. Dormi no quarto dos meus filhos porque não conseguia dividir a cama com a minha esposa. Fui à terapia porque você pediu. Lá, descobri que ainda sente saudade do homem com quem me traiu. Não diz que eu não tentei.

— EU FUI HONESTA!

— E eu tomei uma decisão com base na sua honestidade.

A frase fez Amanda silenciar por alguns segundos. Quando voltou a falar, sua voz estava embargada.

— Eu não quero me divorciar.

Gustavo apoiou a mão livre sobre a mesa.

Ouvir aquilo ainda doía. Uma parte dele desejava que ela tivesse dito a mesma coisa antes de esconder a aliança, antes dos motéis, antes de levar os filhos para passear com Jonas. Agora, aquelas palavras já não podiam construir nada.

— Eu quero.

Amanda começou a chorar.

— Você não pode decidir isso sozinho.

— Posso decidir que não quero mais ser seu marido. — ele precisou engolir em seco antes de continuar. — O resto a gente resolve com os advogados.

— Não fala comigo como se eu fosse uma estranha!

Gustavo soltou o ar devagar.

— Foi você quem transformou a gente nisso.

Do outro lado, Amanda chorava cada vez mais. Ainda tentou falar sobre a história dos dois, os filhos e a possibilidade de outra terapeuta, mas Gustavo não permitiu que a conversa voltasse ao casamento.

— Eu liguei para saber se aconteceu alguma coisa com os meninos. Como não aconteceu, quero falar com eles.

— Você acabou de mandar um pedido para tirar meus filhos e acha que vou simplesmente passar o telefone?

A calma de Gustavo começou a rachar.

— São MEUS filhos também. Não usa esse termo como se eu fosse um estranho tentando roubar crianças que não conheço.

— VOCÊ QUER AFASTAR ELES DE MIM!

— Quero falar com eles, Amanda.

— NÃO!

Ele fechou os olhos.

— Não faz isso novamente.

— VAI PARA O INFERNO, GUSTAVO!

A ligação terminou.

Gustavo continuou com o aparelho encostado no ouvido por alguns segundos. A vontade de ligar de volta e gritar tudo o que segurara foi quase irresistível. Em vez disso, abriu a conversa com Túlio, relatou o horário e escreveu exatamente o que havia acontecido. Depois pediu por mensagem, de maneira objetiva, que Amanda permitisse uma ligação com Enzo e Théo naquela noite.

Ela não respondeu.

Os dias seguintes foram terríveis.

Gustavo ligava em horários razoáveis, enviava mensagens curtas e pedia notícias da escola. Amanda recusava as chamadas ou respondia que os meninos estavam ocupados, dormindo, tomando banho ou não queriam falar. Ele sabia que pelo menos parte daquilo era mentira. Enzo lhe mandara uma mensagem escondida pelo celular que o pai comprara, dizendo que a mãe havia guardado o aparelho porque “não era hora de conversar”.

Túlio explicava que cada negativa deveria ser registrada. Segundo ele, impedir repetidamente o contato poderia mostrar ao juízo que Amanda estava misturando o conflito conjugal com a convivência paterna. Gustavo entendia a importância jurídica, mas odiava ouvir que aquilo podia “ajudá-lo”. Não havia benefício algum em passar noites sem falar com os filhos. Ele não queria acumular provas. Queria ouvir Théo contando alguma história sem sentido e Enzo reclamando da lição de matemática.

Ao mesmo tempo, fez o possível para se afastar do restante do escândalo. Não procurou notícias sobre Jonas. Não quis saber da campanha, do governador ou dos comentários nas redes sociais. Quando algum vídeo aparecia automaticamente, fechava. O nome de Amanda só era pronunciado nas conversas com o advogado, com a escola ou com a mãe. Gustavo tentava reduzir toda a tragédia a documentos, datas e decisões práticas, porque pensar nas pessoas envolvidas continuava doendo demais.

Amanda também contratou um advogado.

A primeira manifestação deixou claro que ela não aceitava a guarda unilateral, negava que oferecesse qualquer risco aos filhos e afirmava que Gustavo agia motivado pela dor da traição. Reconhecia que pedira segredo aos meninos, mas alegava ter sido um erro pontual, do qual se arrependia profundamente. Também dizia que sempre fora uma mãe presente e que a retirada das crianças de sua rotina causaria um sofrimento muito maior do que qualquer falha que tivesse cometido.

Sobre o divórcio, porém, havia pouco que pudesse fazer.

Amanda dizia que não concordava, que desejava continuar casada e que ainda acreditava numa reconciliação. O advogado dela apresentou essa posição, tentou propor um período de mediação e sugeriu que o pedido não fosse conduzido com tanta pressa. Túlio explicou a Gustavo que a vontade dela poderia ser considerada na tentativa de acordo, mas não manteria o casamento contra a decisão dele. O vínculo seria dissolvido. O que permaneceria em disputa eram as consequências práticas do fim.

Quando o caso chegou à juíza, a primeira audiência foi muito pior do que Gustavo imaginara.

Ele entrou na sala acompanhado de Túlio. Amanda já estava sentada com o advogado. Parecia mais magra, abatida e trazia olheiras profundas. Assim que o viu, seus olhos se encheram de lágrimas. Gustavo desviou o rosto e sentou-se do outro lado, com a sensação desagradável de que estavam representando dois exércitos inimigos quando, poucos meses antes, decidiam juntos até a marca do arroz comprado no supermercado.

A juíza começou deixando clara a separação dos assuntos.

Quanto ao divórcio, não havia possibilidade de obrigar Gustavo a continuar casado. A vontade dele era suficiente para encerrar o vínculo, e as discussões restantes não impediriam essa decisão. Amanda começou a chorar silenciosamente quando ouviu aquilo. Gustavo não sentiu vitória. Apenas uma dor surda ao perceber que aquela mulher finalmente entendia que não poderia mais convencê-lo a voltar.

A divisão dos bens também não apresentou grande dificuldade naquele primeiro momento. Não havia uma fortuna, empresas ou propriedades escondidas. Existiam o carro, alguns móveis, saldos modestos, dívidas e os valores relacionados à vida que construíram juntos. Os advogados ainda precisariam ajustar detalhes, mas a juíza deixou claro que nada justificava transformar aquela parte numa guerra prolongada.

O verdadeiro conflito começou quando chegaram aos filhos.

Amanda não aceitava a guarda unilateral em hipótese alguma. Afirmava que sempre fora a principal referência da rotina dos meninos, que os alimentava, acompanhava a escola, cuidava das consultas e conhecia todas as necessidades deles. Seu advogado insistia que a traição conjugal não poderia ser utilizada para puni-la como mãe.

Túlio concordou que adultério, sozinho, não definia guarda. Em seguida, apresentou o que considerava relevante: Amanda envolvera Enzo e Théo em encontros com o amante, pedira que escondessem do pai, condicionara novos passeios ao silêncio, dificultara o contato de Gustavo com os filhos após a separação e retirara deles o aparelho destinado à comunicação com o pai. Não se tratava, segundo ele, de punir uma infidelidade, mas de avaliar se Amanda conseguia separar suas escolhas pessoais do dever de proteger emocionalmente as crianças.

Gustavo permanecia em silêncio, ouvindo dois profissionais discutirem seus filhos como se analisassem uma situação pertencente a outra família. Em alguns momentos, sentia raiva ao ouvir a defesa de Amanda. Em outros, lembrava-se de que ela realmente fora uma mãe presente durante todos aqueles anos. A verdade era mais complicada do que gostaria. Ele não acreditava que Amanda machucaria fisicamente os meninos, os deixaria passar fome ou abandonaria a escola. O medo era outro. Temia que ela voltasse a fazê-los carregar mentiras, que os ensinasse a esconder coisas ou que, pouco a pouco, transformasse Gustavo no homem que havia destruído a família.

A juíza não concedeu a guarda unilateral naquele momento.

Também não ignorou os fatos apresentados.

Determinou uma organização provisória de convivência, garantiu a Gustavo contato regular com os filhos e deixou claro que nenhum dos dois poderia impedir ligações, visitas ou utilizar as crianças para transmitir recados sobre o processo. Solicitou uma avaliação psicossocial da família antes de decidir o modelo definitivo de guarda e advertiu os dois pais de que qualquer tentativa de colocar Enzo e Théo contra o outro seria considerada com extrema seriedade.

Amanda chorava. Gustavo mantinha os olhos fixos sobre a mesa.

Nenhum dos dois havia conseguido aquilo que queria.

Ela não preservara o casamento nem afastara o risco de perder a residência principal dos filhos. Ele não obtivera a guarda unilateral nem a garantia imediata de que os meninos ficariam com ele.

Quando a audiência terminou, Gustavo se levantou com a sensação de que o divórcio era a única parte simples de toda aquela tragédia. Encerrar o casamento dependia apenas de sua decisão.

Descobrir como continuar sendo pai sem destruir ainda mais os filhos seria a batalha verdadeira.

Os três meses passaram mais rápido do que Gustavo imaginava.

Talvez porque não tivesse tempo para pensar.

Mergulhou completamente no trabalho. A nova função exigia muito dele, a equipe ainda estava se adaptando à sua liderança e havia dias em que só percebia o horário quando o segurança da loja avisava que já estava na hora de fechar. Era um cansaço diferente daquele que conhecia. O corpo chegava exausto, mas a mente agradecia por permanecer ocupada.

No âmbito da vida pessoal, porém, tudo parecia caminhar em câmera lenta.

O divórcio foi decretado.

Quando saiu do fórum naquela manhã, Gustavo segurava uma folha de papel que encerrava oficialmente quase dez anos de casamento. Não houve sensação de vitória. Também não houve alívio. Apenas um vazio estranho. Era como se um juiz tivesse colocado um ponto final numa história que ele jamais imaginou ver terminar.

As questões patrimoniais foram resolvidas sem grandes dificuldades.

O carro acabou sendo vendido.

Os móveis também.

Cada um ficou com a parte que lhe cabia, e o dinheiro foi dividido conforme determinado. Gustavo não brigou por televisão, sofá, eletrodomésticos ou qualquer objeto da antiga casa. Depois do que acontecera, aquelas coisas haviam perdido completamente o significado.

O apartamento alugado para a tentativa de reconciliação também precisou ser devolvido quando o contrato venceu no mês anterior.

Amanda teve que procurar outro lugar para morar.

Gustavo nem quis saber como ela resolveria aquilo. Sabia apenas que os pais dela não moravam no Rio de Janeiro e que ela não tinha família próxima para recorrer. Durante alguns dias imaginou que talvez voltasse para a cidade onde crescera, mas isso nunca aconteceu. Comentaram, durante uma das audiências, que ela havia conseguido alugar um apartamento menor, mais afastado e próximo ao novo emprego.

Ele ouviu a informação sem fazer qualquer comentário.

Já não se interessava pela rotina dela.

Ou, pelo menos, era isso que tentava convencer a si mesmo.

O verdadeiro problema continuava exatamente o mesmo.

Enzo e Théo.

Nenhum dos dois queria abrir mão.

Amanda insistia que as crianças precisavam da mãe.

Gustavo sustentava que elas precisavam de estabilidade e, principalmente, de um ambiente onde não fossem colocadas novamente no meio dos conflitos dos adultos.

As audiências terminavam quase sempre da mesma forma.

Sem acordo.

Naquela tarde, depois de mais uma reunião no escritório de Túlio, Gustavo recolhia lentamente alguns documentos espalhados sobre a mesa.

Sentia-se esgotado.

Parecia que toda semana surgia mais um papel, mais uma manifestação, mais um parecer.

Quando já caminhava em direção à porta, ouviu alguém chamá-lo.

— Senhor Gustavo?

Ele virou o rosto.

Demorou alguns segundos para reconhecer a jovem.

Era a estagiária.

A mesma que Túlio insistira em colocar no caso desde o primeiro dia. Gustavo percebeu imediatamente que nem lembrava o nome dela. A garota pareceu notar seu constrangimento e sorriu de maneira educada.

— Larissa.

Ele fez um discreto movimento afirmativo.

— Desculpa... minha cabeça anda uma bagunça.

— Eu imaginei.

Ela respondeu sem qualquer ofensa.

Devia ter pouco mais de vinte anos e mantinha um jeito muito diferente dos advogados mais experientes do escritório. Enquanto Túlio falava com a segurança de quem já vira centenas de disputas familiares, Larissa parecia observar pequenos detalhes que quase ninguém comentava.

Ela caminhou até ele.

— O senhor tem cinco minutinhos?

Gustavo olhou rapidamente para o relógio.

— Tenho.

Larissa indicou duas cadeiras próximas à recepção.

Os dois se sentaram.

Ela abriu a pasta.

— Eu li absolutamente tudo do seu processo.

Gustavo arqueou discretamente as sobrancelhas.

— Tudo?

— Tudo. — Larissa respirou fundo antes de continuar. — Eu queria deixar uma coisa bem clara antes. Não estou dizendo que vou conseguir. Nem que descobri alguma solução milagrosa. Mas… acho que encontrei uma estratégia que ainda não foi explorada.

Gustavo endireitou o corpo na cadeira.

— Que estratégia?

Ela puxou algumas folhas.

— O senhor continua insistindo na guarda unilateral.

— Porque é isso que eu quero.

— Eu sei. — ela respondeu com calma. — Mas, sendo sincera... acho muito difícil o juiz concedê-la neste momento.

A sinceridade incomodou Gustavo. Ele cruzou os braços.

— Então você acha que eu vou perder.

— Não.

Ela respondeu imediatamente.

— Acho que o senhor está brigando pela coisa errada.

Gustavo franziu a testa.

— Como assim?

Larissa aproximou um pouco os documentos.

— Existe uma diferença enorme entre guarda e residência.

Ele permaneceu em silêncio. Ela percebeu que ele realmente não conhecia aquela distinção. Pegou uma folha em branco e começou a desenhar dois pequenos círculos.

— Guarda diz respeito às decisões importantes da vida das crianças. Escola, saúde, criação, autorização para viagens... Hoje, a guarda compartilhada é a regra na maioria dos casos.

Ela levantou os olhos.

— Isso não significa que os filhos morem metade do tempo com cada pai.

Gustavo começou a prestar atenção.

Larissa continuou.

— Uma criança pode ter guarda compartilhada… e residência principal com apenas um dos pais.

Ela fez uma pequena pausa para que ele absorvesse a informação.

— E é aí que eu acho que existe uma oportunidade.

Gustavo permaneceu olhando para ela. Sentia que, pela primeira vez em semanas, alguém não estava apenas repetindo o que já ouvira dezenas de vezes.

— Continua.

Larissa fechou a pasta.

— Na minha opinião, insistir na guarda unilateral faz parecer que o senhor quer afastar a mãe das crianças. — ela falou com muito cuidado. — Mas tudo o que eu li mostra exatamente o contrário. O senhor nunca tentou impedir que eles amassem a mãe. Nunca falou mal dela para os meninos. Nunca proibiu visitas. Nunca dificultou contato.

Gustavo permaneceu calado. Larissa prosseguiu.

— Então talvez a pergunta que precisamos responder para a juíza não seja "quem é o melhor pai". Talvez seja… "Qual casa oferece mais estabilidade para essas crianças neste momento?"

Gustavo sentiu o coração acelerar pela primeira vez desde que ela começara a falar.

Larissa continuou.

— O senhor tem emprego fixo. Horário definido. Acabou de ser promovido. Tem uma residência estável. Conta com o apoio da avó das crianças. Os meninos continuam estudando na mesma escola.

Ela apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Talvez a nossa maior chance não seja convencer a juíza de que Amanda deve perder a guarda. Talvez seja demonstrar que, neste momento da vida deles, faz mais sentido que a residência fixa seja com o senhor.

Ele permanecia em silêncio, olhando para a folha onde ela havia desenhado dois círculos para explicar a diferença entre guarda e residência principal.

Ela fechou lentamente a pasta.

— Posso mostrar uma coisa?

Gustavo ergueu os olhos.

— Claro.

Ela pegou o celular, desbloqueou a tela e abriu um aplicativo de imóveis.

— Na verdade... eu já estava pensando nisso faz alguns dias.

Gustavo franziu a testa.

— Pensando em quê?

Larissa girou discretamente o aparelho na direção dele. Na tela aparecia um mapa. Ela ampliou a imagem.

— Aqui fica a escola do Enzo e do Théo. — depois deslizou o dedo por algumas ruas ao redor. — E aqui... eu encontrei alguns apartamentos disponíveis.

Gustavo aproximou um pouco a cadeira. Ela continuou.

— Todos ficam num raio de, no máximo, duas quadras da escola.

Abriu o primeiro anúncio. Era um apartamento moderno, com três quartos, varanda, área de lazer e portaria vinte e quatro horas.

Depois abriu outro.

Mais simples. Mas igualmente bem localizado.

Em seguida mostrou um terceiro.

— Esse aqui é para aluguel. — passou para outro. — Esse já é financiamento. — ela olhou para Gustavo. — O doutor Túlio comentou que o senhor tinha sido promovido e que sua renda aumentou bastante.

Gustavo assentiu.

— Aumentou.

— Então eu fiz algumas simulações por alto. — ela sorriu, um pouco sem graça. — Claro que não sou correspondente bancária. Mas, pelos valores que encontrei, acredito que hoje o senhor consiga financiar um imóvel desse padrão sem comprometer sua renda de forma exagerada.

Gustavo permanecia olhando para a tela.

Havia muito tempo que não sentia entusiasmo ao pensar em alguma coisa relacionada ao futuro.

Larissa ampliou novamente o mapa.

— Tem outra vantagem. — ela apontou uma rua arborizada. — Daqui até a escola dos meninos são cinco minutos andando. — depois deslizou o dedo até outra avenida. — E daqui até a loja onde o senhor trabalha também não é longe. Se preferir, pode continuar indo de carro. Mas, dependendo do trânsito, caminhar talvez seja até mais rápido.

Gustavo observava atentamente.

Botafogo, nunca imaginou que moraria naquele bairro, ele era seguro, movimentado, tinha comércio, restaurantes, padarias, praças… Tudo parecia perto.

Larissa abriu outra aba.

— Eu também dei uma olhada na região. Tem bastante atividade para crianças. Escolas de esporte, natação...

Ela sorriu.

— E lembrei de uma conversa.

Gustavo a olhou curioso.

— Quando fui conversar com o Enzo naquele dia, ele ficou uns quinze minutos me contando que adorava esportes radicais. — ela abriu uma fotografia. — Aqui perto tem uma pista de skate muito boa.Acho que ele iria gostar bastante.

Gustavo olhava cada fotografia como se, pela primeira vez em muitos meses, conseguisse imaginar os filhos felizes outra vez.

Imaginou Enzo indo para a escola a pé. Théo reclamando porque queria levar um brinquedo na mochila. Os dois descendo depois da aula para andar de bicicleta na orla com ele.

Imaginou buscar os meninos sem precisar atravessar metade da cidade.

Chegar em casa antes do anoitecer, jantar com eles, ajudar na lição.

Aquilo deixou de parecer apenas um processo judicial. Começava a parecer uma vida.

Uma vida possível.

Ele voltou os olhos para Larissa.

— Você fez tudo isso... por quê?

Ela pareceu surpresa com a pergunta. Deu de ombros.

— Porque eu fiquei pensando no processo. Todo mundo fala muito da guarda. Mas ninguém estava falando da rotina. E criança vive de rotina. — ela apontou novamente para o mapa. — Se a gente conseguir mostrar para a juíza que os meninos podem continuar estudando na mesma escola, manter os mesmos amigos, chegar rápido em casa, ter lazer perto e um pai presente todos os dias… Talvez isso diga muito mais do que qualquer alegação que a Amanda possa fazer, afinal ela mora longe da escola e o senhor que paga a van.

Gustavo permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois voltou a olhar os anúncios. Quanto mais via, mais gostava da ideia. Não era apenas comprar um apartamento. Era construir um lugar onde os filhos realmente quisessem estar.

Levantou novamente os olhos.

— Você consegue marcar visitas?

Larissa piscou.

— Consigo.

— Eu posso sair no horário de almoço alguns dias. Se marcar direitinho, consigo visitar dois ou três por vez.

Ela abriu rapidamente o bloco de notas do celular.

— Eu entro em contato com as imobiliárias ainda hoje.

Gustavo sorriu pela primeira vez de maneira espontânea desde que entrara naquele escritório.

— Ótimo.

Já ia se levantar quando parou. Pensou por alguns segundos. Depois voltou a olhar para ela.

— Tem uma coisa...

Larissa aguardou.

— Você se importa de ir comigo?

Ela arregalou discretamente os olhos.

— Eu?

— É. — Gustavo deu uma pequena risada. — Eu nunca comprei apartamento. Na verdade, nem sei direito o que devo observar.

Ela baixou os olhos por um instante.

— Acho que o corretor explica...

— Explica o lado dele. Você parece enxergar umas coisas que eu não enxergo.

Larissa ficou claramente sem jeito. Segurou a pasta contra o peito.

— Não sei se o doutor Túlio...

— Eu falo com ele.

Ela ainda hesitou alguns segundos, depois acabou sorrindo. Um sorriso pequeno, quase tímido.

— Tudo bem.

Se ele autorizar... eu vou.

Gustavo estendeu a mão.

— Fechado.

Ela apertou a mão dele.

Enquanto Gustavo saía do escritório sua cabeça não estava ocupada por audiências, traições ou mensagens de celular.

Depois de meses vivendo apenas perdas, bastou aquela pequena possibilidade de futuro para fazê-lo acreditar que talvez ainda existisse vida depois de toda aquela dor.

Naquela noite, Gustavo demorou muito para conseguir dormir.

Pela primeira vez desde que descobrira a traição, sua cabeça não estava presa ao passado.

Estava ocupada pelo futuro.

Abriu novamente as simulações que Larissa lhe enviara por mensagem. Comparou parcelas, entrada, taxas e prazos. Fez contas numa folha de papel, depois refez na calculadora do celular. Com o salário da nova função, o bônus por desempenho e a participação nos resultados, realmente conseguiria assumir um financiamento sem colocar a vida financeira em risco.

Sorriu sozinho.

Durante anos, ele e Amanda sonharam com um apartamento próprio.

Agora, ironicamente, realizaria aquele sonho sozinho.

Não era como imaginava. Mas talvez fosse como precisava ser.

Outra decisão também amadureceu naquela madrugada.

A pensão.

Sentou-se na cama do pequeno apartamento alugado e ficou olhando para o teto. Não queria um único centavo vindo de Amanda.

Ele estava financeiramente estabilizado, recebia um bom salário e sabia que conseguiria cuidar dos filhos sem depender da contribuição dela. Se conquistasse a residência fixa dos meninos, abrir mão da pensão lhe parecia o caminho mais coerente.

No dia seguinte comentou aquilo com Túlio.

O advogado ouviu tudo em silêncio.

Quando Gustavo terminou, ele cruzou os braços sobre a mesa.

— Posso lhe fazer uma pergunta?

— Claro.

— O senhor está abrindo mão porque acredita que é o melhor para os meninos… ou porque não quer mais nenhum vínculo financeiro com a Amanda?

Gustavo demorou alguns segundos para responder.

— Os dois.

Túlio assentiu.

— Eu imaginava. Juridicamente eu não costumo recomendar que um cliente tome decisões movido pela dor.

Gustavo permaneceu em silêncio.

— Mas existe uma diferença enorme entre abrir mão por orgulho… e abrir mão porque realmente não precisa.

O advogado abriu uma pasta.

— Se o senhor realmente tem condições de manter Enzo e Théo com tranquilidade, podemos explicar isso à juíza. — pegou uma caneta. — Não como um castigo para Amanda. Nem como um favor. Apenas dizendo a verdade. Ela está recomeçando a vida profissional. O senhor já está consolidado. Se entende que esse dinheiro fará mais diferença para ela reorganizar a própria vida do que para o senhor criar os meninos… isso demonstra maturidade.

Gustavo apenas concordou com a cabeça.

Nos dias seguintes começaram as visitas aos apartamentos.

E foram, no mínimo, inusitadas.

Enquanto seguia até o primeiro endereço, Gustavo não conseguiu evitar um pensamento. Sempre imaginou viver aquele momento ao lado da esposa.

Discutindo cores de parede.

Escolhendo o quarto das crianças.

Brigando por causa do tamanho da cozinha.

Sonhando juntos.

Em vez disso… estava indo visitar imóveis acompanhado de uma estagiária que estava olhando o caso dele que nem conhecia.

A vida realmente dava voltas estranhas.

Larissa entrou no carro carregando uma pasta e um caderno de anotações.

— Boa tarde.

— Boa tarde.

Ela colocou o cinto.

— Consegui encaixar três visitas no seu horário de almoço.

— Você é eficiente.

Ela sorriu.

— Eu tento.

O primeiro apartamento era bonito, boa iluminação, sacada e dois quartos. Mas Larissa descartou a opção em menos de cinco minutos.

— Não gostei.

O corretor pareceu surpreso.

— Posso saber o motivo?

Ela respondeu naturalmente.

— A rua é muito movimentada. Tem pouco espaço para as crianças brincarem. A garagem é apertada. E percebi que não há farmácia nem mercado perto.

O corretor ficou alguns segundos sem resposta.

Gustavo também.

Nunca teria reparado em metade daquelas coisas, para ele era um apartamento dos sonhos.

No segundo apartamento aconteceu algo curioso. Assim que abriram a porta, o corretor abriu um sorriso largo.

— Sejam bem-vindos. Que bom receber um casal jovem procurando o primeiro apartamento.

Gustavo abriu a boca para explicar.

— Na verdade nós...

Larissa segurou discretamente o braço dele.

Sorriu para o corretor.

— Estamos procurando um lugar que seja bom para a nossa família.

O corretor abriu um sorriso ainda maior.

— Então vieram ao lugar certo.

Durante toda a visita, Gustavo permaneceu em silêncio. Só voltou a falar quando entraram novamente no elevador. Assim que as portas fecharam, olhou para Larissa.

— Por que você fez isso?

Ela soltou um pequeno sorriso.

— Porque corretores costumam negociar melhor quando acreditam que a decisão depende de uma família inteira.

Gustavo franziu a testa.

— Isso funciona?

— Mais do que deveria. — ela respondeu naturalmente. — Além disso, se eles perceberem que o imóvel será para uma família consolidada, acabam mostrando detalhes que talvez escondessem de um comprador sozinho.

Ele ficou pensando naquilo.

Fazia sentido.

Mesmo assim...

Sentia-se estranho.

Nos apartamentos seguintes a cena acabou se repetindo.

— O senhor pode mostrar o quarto das crianças?

— A senhora gostou da cozinha?

— Vocês pretendem aumentar a família?

Larissa respondia tudo com absoluta naturalidade. Em determinado momento chegou até a segurar a mão de Gustavo enquanto caminhavam pelo corredor.

— Querido, olha esse armário.

A palavra o fez olhar imediatamente para ela.

"Querido."

Aquilo era apenas uma encenação.

Ele sabia.

Mesmo assim, sentiu um desconforto difícil de explicar. Não porque houvesse qualquer interesse entre os dois.

Muito pelo contrário.

Larissa era praticamente uma desconhecida. Mas Gustavo passara dez anos chamando apenas uma mulher de "amor".

Por mais irracional que parecesse, fingir ser marido de outra mulher dava a estranha sensação de estar traindo algo dentro dele.

Talvez não Amanda.

Mas o homem que sempre acreditara ser.

Percebendo seu silêncio, Larissa perguntou discretamente quando saíram do terceiro imóvel:

— Eu passei dos limites?

Gustavo demorou um pouco para responder. Depois balançou a cabeça negativamente.

— Não. — respirou fundo. — Só é... diferente.

Ela pareceu compreender imediatamente.

— Se preferir, na próxima visita eu paro com isso.

Ele pensou por alguns segundos. Depois sorriu de maneira cansada.

— Se ajuda a conseguir um apartamento melhor para os meninos… acho que consigo sobreviver.

Larissa riu baixinho.

— É só faz de conta.

— Eu sei.

Continuaram caminhando.

Ao longo das visitas, Gustavo passou a observar outra coisa.

Larissa nunca analisava o apartamento pensando apenas nos adultos. Tudo passava pelas crianças.

Ela abria uma janela e perguntava:

— Dá para um menino de cinco anos alcançar esse peitoril? Cadê a tela?

Via a cozinha.

— O Enzo consegue fazer um lanche sozinho sem subir em cadeira?

Entrava nos quartos.

— Se os dois brigarem, dá para separar as camas sem apertar a circulação?

Chegava à garagem.

— Aqui eles conseguem descer do carro sem ir direto para a rua?

Observava a praça em frente.

— Tem iluminação suficiente para eles brincarem no fim da tarde?

Em determinado momento, encontrou um pequeno espaço de convivência no prédio.

Olhou pela janela.

— Ali cabe perfeitamente uma mesa para vocês fazerem dever de casa.

Depois sorriu.

— E, se o Théo continuar do jeito que conheci, provavelmente vai transformar isso numa pista de corrida.

Gustavo riu pela primeira vez de verdade.

Era impressionante.

Ela realmente conhecia o processo.

Mas, mais do que isso… Parecia conhecer Enzo e Théo.

Não como personagens de um processo judicial.

Como duas crianças.

E aquilo fez Gustavo acreditar que talvez ainda existissem pessoas olhando para aquela história além dos papéis e das leis.

Talvez existissem pessoas olhando justamente para quem mais importava.

Os seus filhos.

No fim, Gustavo acabou comprando justamente o apartamento que Larissa mais criticou. Ela ainda tentou convencê-lo durante toda a visita. Entrava na cozinha, abria os armários antigos, testava as portas de madeira e fazia uma expressão de reprovação cada vez que encontrava algum detalhe que precisaria de reforma. Dizia que ele estava comprando uma dor de cabeça, que provavelmente teria de trocar toda a hidráulica, substituir os revestimentos e gastar um valor considerável apenas para deixar aquele cômodo minimamente moderno. Gustavo ouvia tudo, mas sempre acabava voltando para a varanda. Dali era possível enxergar boa parte de Botafogo, algumas copas de árvores, um pedaço da enseada e, mais ao fundo, o contorno do Pão de Açúcar. O apartamento recebia a luz do fim da tarde e ficava perto o suficiente da escola para que os meninos fossem caminhando. Gustavo conseguia imaginar Enzo fazendo a lição de casa na mesa da sala enquanto Théo brincava no chão. Não era o imóvel mais novo nem o mais bem conservado, mas parecia um lugar onde os três poderiam construir uma vida.

— Você está comprando a vista, não o apartamento — Larissa disse, cruzando os braços na porta da cozinha.

Gustavo sorriu discretamente, ainda apoiado no guarda-corpo.

— Talvez eu esteja mesmo.

Ela se aproximou, parando ao lado dele.

— Você precisa olhar para dentro, Gustavo. Vai morar aqui todos os dias, não passar a vida inteira na varanda. Essa cozinha é antiga, os armários estão acabados e eu nem quero imaginar o estado dos encanamentos. Você vai gastar bastante reformando tudo isso.

— Eu faço aos poucos.

— Aos poucos?

— Passei boa parte da minha vida fazendo tudo aos poucos.

Ele voltou a olhar para a paisagem. Durante anos, imaginou que escolheria um apartamento ao lado de Amanda. Na fantasia que construiu, seria ela quem discutiria a cor das paredes, reclamaria da cozinha pequena, escolheria as cortinas e decidiria onde colocariam cada móvel.

— O apartamento que eu sonhei comprar era outro — confessou. — Era para morar eu, minha esposa e meus filhos. Não deu. Então, se agora eu posso comprar esse e gostei daqui, vou deixar do meu jeito. Sem pressa.

Larissa permaneceu em silêncio durante alguns instantes, observando-o como se finalmente entendesse que aquela escolha não estava sendo feita apenas com cálculos ou bom senso. Depois soltou o ar e balançou a cabeça, vencida.

— Então promete uma coisa.

Gustavo finalmente olhou para ela.

— Qual?

Larissa apontou para a cozinha.

— A primeira reforma vai ser ali. Nada de comprar televisão gigante, videogame novo ou encher a varanda de coisa antes de trocar aqueles armários quebrados.

Ele deu uma risada sincera.

— Fechado.

Naquele mesmo dia, Gustavo assinou a proposta do imóvel.

Os meses seguintes passaram numa velocidade que ele jamais imaginou. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu, sua rotina deixou de ser guiada exclusivamente por audiências, advogados e documentos judiciais. O programa de desenvolvimento de lideranças exigia muito dele, mas Gustavo parecia ter encontrado naquele desafio uma maneira de continuar respirando. Estudava durante a noite, acompanhava gestores mais experientes durante o dia e participava de reuniões sobre planejamento, resultados e gestão de equipes. Aos poucos, percebeu que realmente possuía talento para liderar pessoas. Sabia escutar, tinha firmeza para tomar decisões e entendia como conversar com clientes sem fazê-los se sentirem apenas mais um número. Os resultados apareceram. Clientes antigos voltaram a comprar, novos contratos foram fechados e sua equipe passou a procurá-lo antes mesmo que os problemas chegassem à diretoria.

Seu telefone praticamente não parava. Logo pela manhã já havia dezenas de mensagens aguardando resposta, cotações, pedidos e clientes perguntando sobre lançamentos. Gustavo criou listas de transmissão, passou a enviar ofertas exclusivas para os compradores mais antigos e fazia questão de retornar pessoalmente as ligações importantes. Era cansativo, mas aquele cansaço lhe fazia bem. Pelo menos enquanto estava trabalhando, sua mente se ocupava com problemas que possuíam solução. Uma meta podia ser alcançada, um cliente insatisfeito podia ser atendido e um erro na operação podia ser corrigido. O casamento, não.

A vida pessoal continuava presa à disputa pelos meninos. A guarda permanecia compartilhada provisoriamente, e Enzo e Théo passavam períodos alternados com os dois. Gustavo criou uma regra que nunca precisou repetir muitas vezes: quando estivessem com ele, não transformariam aqueles dias numa continuação do processo. Os filhos podiam falar sobre Amanda, contar o que fizeram com ela e demonstrar saudade sempre que quisessem; ele jamais os repreenderia por amar a própria mãe. O que Gustavo não permitia eram perguntas sobre audiências, advogados ou quem estava vencendo. Não deixaria que Enzo e Théo se sentissem obrigados a escolher um lado.

Nos dias em que estavam com ele, tentava preencher a casa de normalidade. Levava os dois para andar de bicicleta, preparava pipoca para assistirem filmes, ajudava nas tarefas escolares e inventava passeios simples nos fins de semana. Quando precisava devolvê-los a Amanda, voltava dirigindo sozinho para o apartamento, e era nesse caminho que a solidão costumava aparecer com mais força. Ao abrir a porta, não encontrava mochilas jogadas na sala, carrinhos no corredor ou vozes discutindo pelo controle da televisão. Havia apenas o silêncio de um lugar que ele comprara pensando nos filhos, mas onde ainda precisava passar metade do tempo sozinho.

Sentia falta de Amanda e odiava a si mesmo por isso. Havia noites em que lembrava do perfume dela, das viagens que fizeram quando ainda namoravam, das conversas na cama e das manhãs em que os quatro acabavam amontoados no mesmo colchão porque Théo acordou assustado. A saudade sempre vinha acompanhada da lembrança das mensagens, dos motéis e dos passeios escondidos. Era como sentir falta de uma pessoa e, no mesmo instante, recordar que talvez ela nunca tivesse existido daquela maneira.

Amanda continuava tentando reatar. Ligava, mandava mensagens enormes, deixava cartas e, em algumas datas importantes, enviava presentes pela portaria. Gustavo nunca dava abertura. Respondia apenas o que dizia respeito aos filhos. Não a insultava, não a provocava e nem usava as crianças para puni-la, mas também não permitia que as conversas avançassem para a vida dos dois. Sabia que, se deixasse Amanda se aproximar, uma parte dele ainda poderia ceder. E não confiava nela o suficiente para sobreviver a outra decepção.

Ele também tentou seguir em frente. Criou uma conta num aplicativo de relacionamento, aceitou alguns encontros e conheceu mulheres bonitas, educadas e interessantes. Em todos eles, porém, sentia que estava representando uma versão de si mesmo que ainda não existia. Ouvia as histórias, fazia perguntas, sorria nos momentos certos, mas não conseguia criar interesse verdadeiro. Comparava gestos, vozes e expressões sem querer. Terminava os encontros com educação e nunca marcava um segundo.

Com o tempo, desistiu de procurar companhia daquela maneira. Seu corpo continuava sentindo desejo. Gustavo ainda era jovem, sentia falta de toque, de proximidade e de uma mulher deitada ao seu lado. Algumas vezes procurou encontros puramente físicos, tentando separar necessidade de sentimento. Funcionava por algumas horas. Depois voltava para o apartamento com a mesma sensação de vazio, talvez ainda maior. Descobriu que sexo não fazia companhia para ninguém. Apenas atrasava o momento em que o silêncio voltava.

Mesmo assim, continuou.

Quase um ano depois do início daquela batalha, chegou o dia da decisão definitiva sobre a residência dos meninos. Gustavo entrou no fórum ao lado de Túlio com o coração tão acelerado que mal conseguia prestar atenção ao que o advogado dizia. Larissa vinha alguns passos atrás, carregando a pasta onde organizaram comprovantes da escola, horários, despesas, relatórios de acompanhamento psicológico e tudo o que demonstrava a rotina que ele havia construído para Enzo e Théo. Não haviam transformado Amanda numa mãe incapaz. A estratégia era justamente outra. Demonstrariam que os filhos poderiam manter a convivência com os dois, mas que, naquele momento, a casa de Gustavo oferecia uma organização mais estável para a vida escolar e emocional deles.

Amanda já estava sentada quando ele entrou. Parecia mais magra, cansada e ansiosa. Os dois trocaram apenas um olhar breve. Gustavo sentou-se do outro lado, tentando não pensar que aquela mulher foi, durante quase dez anos, a pessoa para quem procurava primeiro sempre que sentia medo. Agora estavam ali esperando que uma desconhecida decidisse em qual casa os filhos passariam a maior parte da vida.

A juíza levou vários minutos explicando a decisão. Reforçou que a guarda continuaria compartilhada, porque ambos permaneceriam responsáveis pelas decisões importantes da vida dos meninos. Amanda continuaria sendo consultada sobre escola, saúde, viagens e tudo o que envolvesse a criação. Também teria convivência regular, finais de semana alternados, parte das férias, datas comemorativas divididas e dias definidos para buscá-los. Nenhum dos dois receberia o direito de excluir o outro da vida das crianças.

Gustavo ouvia cada palavra tentando preparar-se para qualquer resultado.

Foi então que a juíza informou que a residência fixa de Enzo e Théo seria estabelecida com ele.

Por alguns segundos, Gustavo não compreendeu completamente o que tinha acabado de ouvir. Permaneceu imóvel, olhando para a frente enquanto Túlio tocava discretamente seu braço. A residência dos filhos seria em seu apartamento. Eles acordariam ali para ir à escola, voltariam para casa depois das aulas e teriam naquele endereço a base principal da rotina. Amanda continuaria sendo mãe, continuaria convivendo com eles e participaria das decisões, mas os meninos morariam com o pai.

As pernas de Gustavo ficaram fracas. Ele não comemorou, não sorriu e nem fez qualquer gesto de vitória. Apenas fechou os olhos e soltou lentamente o ar que parecia estar prendendo havia quase um ano. Todo o trabalho, as visitas aos apartamentos, a escolha da escola, os comprovantes de horários e os meses tentando demonstrar que buscava estabilidade, não vingança, finalmente tinham levado a algum lugar.

Quando abriu os olhos, encontrou Amanda chorando.

Ela mantinha o rosto baixo, uma das mãos sobre a boca e os ombros tremendo. Nunca pareceu tão destruída. Por um instante, Gustavo sentiu pena. Conhecia o amor que ela sentia pelos meninos e sabia que aquela decisão lhe arrancava a rotina diária dos filhos. Logo depois, porém, lembrou-se das ligações impedidas, dos segredos ensinados às crianças e das noites em que ela mentia para estar com Jonas.

Sentiu uma satisfação amarga.

Não porque gostasse de ver Amanda sofrer. Ou, pelo menos, não apenas por isso. Havia dentro dele uma parte ferida que enxergava naquela decisão uma espécie de consequência. Agora, não era Gustavo quem ficava diante dos destroços enquanto Amanda tentava preservar tudo o que desejava. Ela também teria de conviver com uma perda criada pelas próprias escolhas.

Ao sair do fórum, Gustavo permaneceu alguns segundos parado na calçada. Túlio falava sobre os próximos procedimentos e Larissa explicava quando a nova rotina começaria oficialmente, mas ele quase não ouvia. Pensava apenas nos meninos. Imaginava as roupas deles ocupando definitivamente os armários, as mochilas deixadas perto da porta e o café da manhã antes da escola. O apartamento que comprara como uma estratégia para a guarda acabava de se transformar no lar dos três.

A decisão, porém, não consertou imediatamente aquilo que o divórcio havia provocado. Enzo já não era o menino expansivo de antes. Tornara-se mais observador, parecia sempre medir as palavras e tinha medo de dizer alguma coisa que pudesse magoar um dos pais. Théo continuava carinhoso, mas desenvolveu uma necessidade constante de saber onde Gustavo estava e a que horas voltaria. Às vezes acordava no meio da noite, atravessava o corredor e perguntava se o pai continuaria ali pela manhã.

Os dois permaneceram em acompanhamento com uma psicóloga infantil. Gustavo fazia questão de participar das reuniões, ouvir as orientações e aprender como responder às perguntas difíceis sem transformar Amanda numa vilã diante deles. Compreendeu que ganhar a residência fixa não significava vencer. Significava assumir a responsabilidade de reconstruir uma segurança que os meninos haviam perdido.

Os dois anos seguintes foram dedicados quase inteiramente a isso. Gustavo levava os filhos à escola, acompanhava tarefas, comparecia às reuniões, marcava consultas e tentava estar presente em cada momento importante. Aprendeu receitas simples porque Théo implicava com legumes e Enzo começou a demonstrar interesse por cozinha. Organizava a rotina de convivência com Amanda com a mesma objetividade que usava no trabalho, sem conversas pessoais e sem abrir espaço para novas tentativas de reconciliação.

Enquanto o coração parecia incapaz de cicatrizar, a carreira continuava avançando. Veio outra promoção, mais responsabilidades e um aumento considerável. Seu nome passou a ser lembrado sempre que surgia um projeto importante dentro da empresa. O dinheiro deixou de ser uma preocupação, e Gustavo finalmente conseguiu terminar o apartamento. Comprou móveis melhores, organizou os quartos dos meninos e reformou a cozinha exatamente como Larissa havia insistido naquela primeira visita. Trocou os armários, modernizou os revestimentos e instalou uma bancada onde Enzo gostava de ajudá-lo a preparar o jantar.

Larissa tinha razão.

A antiga cozinha era realmente horrorosa.

Mesmo com os filhos morando com ele, porém, Gustavo não conseguia se sentir completamente curado. Continuava sozinho. Continuava incapaz de confiar o suficiente para permitir que outra mulher ocupasse algum espaço verdadeiro em sua vida. Havia dias bons, nos quais quase não pensava em Amanda, e outros em que uma música, um cheiro ou um comentário dos meninos fazia toda a dor voltar com uma força absurda. A diferença era que agora tinha um motivo diário para sair da cama, trabalhar e voltar para casa.

Numa sexta-feira à noite, enquanto os três jantavam, Théo deixou o garfo sobre o prato e encarou o pai com os olhos cheios daquela expectativa que sempre antecedia algum pedido importante.

— Pai... a gente podia ter um cachorro.

Gustavo levantou os olhos. Antes que respondesse, Enzo também entrou na conversa.

— Eu acho uma boa. O apartamento é grande e a gente ajuda a cuidar.

Durante muito tempo, Gustavo teria recusado imediatamente. Cachorro dava trabalho, precisava de passeio, banho, alimentação, consultas veterinárias e alguém para limpar tudo o que fizesse. Naquela noite, porém, olhou para os dois filhos sentados à mesa e pensou que talvez fosse exatamente o que faltava naquele apartamento. Alguma coisa viva correndo pela sala, fazendo barulho, esperando por eles quando voltassem da escola e preenchendo os espaços onde o silêncio ainda aparecia.

Na semana seguinte, durante uma negociação, comentou o assunto com uma cliente antiga. Ela possuía um canil de Shih Tzu e contou que uma ninhada acabara de atingir a idade adequada para deixar a mãe. Explicou que eram cães pequenos, dóceis, carinhosos e bastante adaptáveis à vida em apartamento. Também deixou claro que exigiam escovação frequente, cuidados com os olhos e atenção especial à pelagem. Gustavo fez tantas perguntas que a mulher acabou rindo e dizendo que ele parecia estar avaliando um novo funcionário.

No sábado seguinte, levou Enzo e Théo ao canil. O lugar era limpo, organizado e cheio de filhotes correndo atrás uns dos outros sobre a grama. Théo se apaixonou pelos primeiros que viu e queria levar todos para casa. Enzo era mais criterioso. Observava cada cachorro, perguntava sobre temperamento e insistia que queria um macho, embora não soubesse explicar exatamente por quê.

Foi então que Gustavo a viu.

Enquanto os outros filhotes disputavam brinquedos e corriam de um lado para o outro, uma pequenininha permanecia sentada num canto, observando tudo. Assim que Gustavo se aproximou, ela levantou devagar, caminhou em sua direção abanando o rabinho e encostou delicadamente o focinho na mão que ele estendera.

Gustavo sorriu sem perceber.

— Meninos... venham aqui um instante.

Théo apaixonou-se pela cachorrinha no mesmo instante. Nem precisou pegá-la direito no colo para decidir que ela pertencia à família. Sentou-se na grama com as pernas cruzadas, acomodou o pequeno corpo sobre o peito e ficou observando o focinho achatado, os olhos redondos e os pelos macios que pareciam grandes demais para aquela criatura tão pequena. Quando a filhote lambeu seu queixo, ele soltou uma gargalhada e olhou para o pai com a expressão de quem acabara de tomar uma decisão que ninguém teria permissão para contestar.

— Ela vai chamar Bela.

Gustavo se abaixou ao lado dele e passou a mão delicadamente pela cabeça da filhote.

— Bela?

— Porque ela é bela.

Théo respondeu com a convicção de quem considerava aquela explicação mais do que suficiente. Enzo, porém, continuava em pé diante dos dois, os braços cruzados e a testa franzida, tentando manter a resistência mesmo depois de a cachorrinha já ter lambido sua mão e abanado o rabo toda vez que ele se aproximava.

— Eu falei que queria um macho. A nossa casa é uma casa de homens.

Gustavo ergueu o rosto para o filho e precisou conter o riso. Havia alguma coisa muito séria na maneira como Enzo dizia aquilo, como se a presença de uma cadelinha de poucos meses ameaçasse toda a masculinidade construída dentro do apartamento.

— Justamente por isso — respondeu. — Está faltando uma energia feminina lá em casa. Só tem cueca largada, chuteira fedida, videogame e discussão sobre futebol. A Bela vai dar uma equilibrada.

— Eu não deixo cueca largada — Enzo rebateu imediatamente.

— Então deve ser o Théo.

— Eu também não! — o caçula protestou, ainda abraçado à cachorrinha.

Gustavo riu, enquanto os dois começaram uma discussão sobre quem realmente espalhava mais coisas pela casa. Bela acompanhava o movimento com os olhos, abanando o rabinho como se já tivesse entendido que aquela família funcionava daquela maneira. No fim, Enzo cedeu sem admitir que havia cedido. Aproximou-se outra vez, pegou a filhote dos braços do irmão e ficou alguns segundos segurando-a contra o peito. Bela se acomodou tranquilamente, apoiou o focinho em seu braço e fechou os olhos. Enzo tentou manter a expressão séria, mas o sorriso apareceu mesmo assim.

— Tá bom. Pode ser ela. Mas eu que vou ensinar as coisas.

Foi assim que Bela chegou ao apartamento.

Nas primeiras semanas, Gustavo chegou a se perguntar se havia cometido uma loucura. A filhote chorava durante a madrugada, mordia tudo o que encontrava, fazia necessidades nos lugares errados e tinha uma habilidade impressionante para encontrar exatamente o objeto que não podia destruir. Um dos chinelos de Gustavo perdeu a ponta, o cadarço do tênis de Enzo amanheceu cortado e Théo quase chorou quando encontrou um boneco com metade da mão mastigada. Mesmo assim, bastava Bela correr em direção à porta quando eles chegavam, com as patas escorregando no piso e o corpo inteiro balançando junto com o rabo, para que qualquer irritação desaparecesse. Ela trouxe um tipo novo de movimento para a casa. Sempre havia alguém chamando por ela, rindo de alguma travessura ou procurando um brinquedo que a cachorrinha escondera. Até os silêncios pareciam menos pesados quando Bela se deitava aos pés de Gustavo no sofá e soltava um suspiro satisfeito, como se sua única preocupação no mundo fosse permanecer perto deles.

Foi durante uma caminhada na orla, alguns meses depois, que Gustavo percebeu que ainda existia uma parte de sua vida que permanecia completamente paralisada. Enzo seguia alguns metros à frente com a bicicleta, enquanto Théo corria ao lado de Bela tentando impedir que ela perseguisse todos os pombos que encontrava. O fim da tarde deixava o céu alaranjado, o vento vindo da água amenizava o calor e, por alguns instantes, Gustavo sentiu uma paz que não experimentava havia muito tempo. Tinha os filhos por perto, uma carreira que avançava, uma casa que começava a parecer verdadeiramente sua e uma cachorrinha que parecia ter nascido para fazer parte daquela família. Ainda assim, bastou ver um casal caminhando de mãos dadas na direção contrária para sentir uma fisgada conhecida no peito.

Não era saudade de Amanda exatamente. Pelo menos não como antes. Era a dor de perceber que a ideia de amar alguém ainda lhe causava medo. Qualquer aproximação feminina parecia vir acompanhada de uma ameaça, como se confiar significasse apenas esperar pelo momento em que seria enganado outra vez. Gustavo havia aprendido a trabalhar, criar os filhos e resolver problemas sozinho, mas começava a desconfiar de que tinha transformado aquela independência numa muralha. Sobrevivera à traição, ao divórcio e à disputa pela residência dos meninos, porém continuava vivendo como se Amanda ainda tivesse o poder de determinar tudo o que ele sentiria dali em diante.

Procurar ajuda psicológica foi uma das decisões mais difíceis que tomou. Não porque acreditasse que terapia fosse algo vergonhoso, mas porque já passara tempo demais dizendo a si mesmo que era forte o suficiente para resolver tudo sozinho. A primeira profissional com quem conversou pareceu distante demais. O segundo falava pouco e o fazia sentir que estava contando sua vida para uma parede. A terceira tentou conduzir quase todas as sessões para o perdão de Amanda, quando Gustavo sequer queria discutir a possibilidade de perdoá-la. O quarto era competente, mas ele simplesmente não conseguiu criar confiança. Já começava a acreditar que aquilo não funcionaria para ele quando marcou uma quinta consulta, mais por insistência da psicóloga dos meninos do que por esperança verdadeira.

Dessa vez, alguma coisa encaixou.

O profissional não tentou transformar Amanda numa vilã absoluta, tampouco reduziu o que ela fizera a um erro comum de casamento. Também não pressionou Gustavo a perdoar, esquecer ou encontrar outra pessoa. Ajudou-o a perceber que a traição havia terminado, mas ele continuava se relacionando com ela todos os dias dentro da própria cabeça. Cada mulher que conhecia era julgada por um crime cometido por Amanda. Cada atraso, mensagem no celular ou mudança de comportamento parecia um aviso. Aos poucos, Gustavo começou a compreender que se proteger de tudo também significava se privar de qualquer coisa boa que pudesse surgir.

Os dois anos seguintes não transformaram sua vida de uma hora para outra. Não houve uma manhã em que acordou completamente curado, pronto para amar novamente e livre de qualquer ressentimento. A mudança aconteceu nos detalhes. Começou a prestar mais atenção em si mesmo, voltou a cuidar da aparência sem sentir que fazia aquilo para competir com Jonas ou provar alguma coisa para Amanda. Mudou o corte de cabelo, passou a comprar roupas que realmente gostava, retomou exercícios e percebeu que se sentia melhor quando não vivia apenas em função do trabalho e dos filhos. Aprendeu que ser pai presente não significava desaparecer como homem.

Enzo e Théo já praticavam várias atividades, mas Gustavo passou a se envolver de verdade em algumas delas. Começaram pelo ciclismo. Aos domingos, os três saíam cedo, com capacetes, garrafas de água e Bela acomodada numa pequena bolsa própria presa à bicicleta dele quando o trajeto era mais longo. Depois veio a escalada indoor, que Théo abandonou assim que percebeu que precisava seguir instruções, mas Enzo adorou. O mais velho também tinha alguns amigos que praticavam surfe, e Gustavo acabou entrando naquela onda quase por acaso. No início, limitava-se a levar os adolescentes até a praia, carregar pranchas e esperar na areia. Depois aceitou fazer algumas aulas e descobriu que gostava da sensação de estar na água, concentrado apenas no próprio equilíbrio. Tornou-se o adulto responsável por transportar a molecada de um lado para o outro, comprar lanches depois do treino e ouvir conversas que os garotos acreditavam que ele não estava prestando atenção. Para Gustavo, aquilo era uma maneira de permanecer perto de Enzo sem sufocá-lo justamente na fase em que o filho começava a precisar de mais espaço.

Théo seguuiu por outro caminho. Apaixonou-se por videogames e conseguia passar horas falando sobre personagens, fases e atualizações que Gustavo não compreendia. Ele não gostava especialmente de jogar, mas decidiu que não deixaria aquela parte da vida do filho se transformar num mundo ao qual não tinha acesso. Então criaram um acordo: sempre escolheriam um jogo para terminar juntos. Às vezes Gustavo errava comandos simples e precisava ouvir Théo reclamar que ele era “muito noob”; em outras, o menino comemorava como se tivessem vencido um campeonato quando o pai finalmente conseguia passar uma fase difícil. Não importava o jogo. O que Gustavo gostava era daquele tempo ao lado do filho, dos dois sentados no sofá, discutindo estratégias e rindo quando Bela se colocava diante da televisão para chamar atenção.

A relação com Amanda também encontrou uma espécie de equilíbrio. Eles conversavam apenas o necessário sobre Enzo e Théo, organizavam datas, compromissos escolares, consultas e viagens. Gustavo estabeleceu com os filhos que não queria notícias da vida pessoal da mãe. Não os proibia de falar sobre ela nem esperava que escondessem acontecimentos importantes, mas não queria saber com quem Amanda saía, onde passava os fins de semana ou se havia retomado qualquer relação com Jonas. Durante muito tempo, acreditara que descobrir alguma coisa sobre os dois o destruiria novamente. Com o passar dos anos, percebeu que já não importava. Amanda podia estar com Jonas, com outro homem ou sozinha. Aquela vida não lhe pertencia mais, e finalmente começava a sentir alívio ao pensar nisso.

Foi justamente quando acreditava que tudo havia se acomodado que Bela resolveu criar uma confusão.

Naquele fim de semana, Enzo e Théo estavam viajando com Amanda para aproveitar o feriado prolongado. Gustavo ficaria sozinho e imaginava passar os dias descansando, talvez pedalando pela orla e colocando alguns trabalhos em dia. Na sexta-feira, porém, uma reunião se prolongou muito além do previsto, e ele percebeu que não conseguiria buscar Bela no pet shop antes do fechamento. Telefonou para a mãe, pediu que recebesse a cachorrinha e combinou com o estabelecimento que a deixassem na casa de Terezinha.

Algumas horas depois, recebeu uma ligação do pet shop.

A funcionária falava depressa, repetindo pedidos de desculpas e tentando explicar que ocorrera uma troca entre duas cadelas da mesma raça, porte e marcação muito parecidos. Bela havia sido entregue por engano à dona de uma cachorrinha chamada Pipoca, enquanto Pipoca fora deixada na casa de Terezinha. A outra tutora já havia percebido o erro e se comprometera a levar Bela até o endereço informado para fazer a troca.

Gustavo ficou furioso. Não entendia como um estabelecimento responsável por animais podia cometer um erro daquele tamanho. Bela usava identificação, respondia pelo próprio nome e, para ele, não havia qualquer possibilidade de confundi-la com outro cachorro. Avisou que conversariam sobre aquilo depois, passou novamente o endereço da mãe e saiu do trabalho assim que conseguiu.

Quando chegou à casa de Terezinha, bastou olhar para a cachorrinha andando pela sala para saber que não era Bela. Pipoca era muito parecida, tinha praticamente o mesmo tamanho e a distribuição dos pelos lembrava a dela, mas o jeito era completamente diferente. Mantinha-se mais afastada, observava Gustavo com cautela e não correu em sua direção quando ele chamou pelo nome da própria cadela. A ideia de Bela estar na casa de uma desconhecida o deixou ainda mais inquieto. Com certeza mudaria de pet shop depois daquilo.

A campainha tocou alguns minutos depois.

Gustavo foi atender antes que a mãe precisasse levantar. Abriu a porta já preparado para falar sobre o absurdo da situação, mas qualquer reclamação morreu antes de chegar à boca. A mulher do outro lado segurava uma caixa de transporte e parecia tão irritada quanto ele. Tinha os cabelos mais curtos do que se lembrava, com mechas mais claras que refletiam a luz da varanda, e vestia uma calça social com uma blusa simples, como alguém que também havia saído do trabalho e precisara mudar toda a rota por causa daquela confusão. Os dois se encararam por alguns segundos. O reconhecimento aconteceu quase ao mesmo tempo.

Larissa foi a primeira a reagir. A irritação diminuiu, dando lugar a um sorriso surpreso.

Gustavo também sorriu, ainda tentando acreditar na coincidência.

— Isso é pouco — respondeu. — Quem diria que você era a sequestradora da minha cachorra?

Larissa arqueou uma sobrancelha.

— Sequestradora? A Pipoca foi levada da minha casa e entregue para a sua família. Tecnicamente, o sequestrador é você.

Gustavo riu alto, uma reação tão espontânea que até ele se surpreendeu.

— Acho que essa ficha criminal complica sua inscrição na OAB.

Ela ergueu o queixo com falsa superioridade.

— Chegou atrasado. Já tirei há bastante tempo. Agora é doutora Larissa Fernandez Cruvinel.

— Doutora?

Gustavo a observou por um instante, sinceramente satisfeito com a notícia.

— Você já era competente como estagiária. Fico feliz que tenha conseguido.

Antes que ela respondesse, Bela começou a latir dentro da caixa, movimentando-se com tanta empolgação que o recipiente quase balançava nas mãos de Larissa. Gustavo abaixou imediatamente o olhar. A cadelinha o reconhecera e tentava alcançar a porta com as patas, soltando pequenos sons apressados.

— Minha garota...

Ele se aproximou e recebeu a caixa das mãos de Larissa. Abriu a portinhola ainda na varanda, e Bela praticamente se lançou contra seu peito. Gustavo a segurou, rindo enquanto ela lambia seu queixo, seu nariz e qualquer parte do rosto que conseguia alcançar.

— Calma, eu também senti saudade. Você ficou fora só algumas horas.

Larissa observava a cena com um sorriso.

— Ela ficou assim desde que coloquei no carro. Acho que percebeu que finalmente estava voltando para casa.

Gustavo fez carinho nas costas da cadela e abriu mais a porta.

— Entra. A Pipoca está ali com a minha mãe.

Larissa hesitou.

— Não quero incomodar.

— Não incomoda. Além disso, depois dessa confusão toda, acho melhor você mesma confirmar se não trocamos de novo.

Ela acabou entrando.

Assim que Pipoca a viu, correu pela sala e começou a pular em suas pernas. Larissa se abaixou, pegou-a no colo e recebeu a mesma festa que Bela acabara de fazer com Gustavo. Aquilo bastou para confirmar que, por mais parecidas que fossem, ninguém que realmente conhecesse as duas deveria tê-las confundido.

Terezinha surgiu no corredor, curiosa com as vozes. Gustavo fez as apresentações, explicando que Larissa trabalhara no escritório responsável por seu divórcio e tivera participação importante no processo da residência dos meninos. A mãe cumprimentou a jovem com simpatia, olhou de uma para a outra cachorrinha e comentou que realmente eram muito parecidas. Depois avisou que aproveitaria para organizar algumas coisas no quintal e que poderiam chamá-la se precisassem, afastando-se com uma naturalidade que Gustavo conhecia bem demais. Terezinha sempre tivera uma curiosidade discreta por qualquer mulher que aparecesse na vida do filho, embora ele soubesse que, mais tarde, ela juraria não ter pensado em absolutamente nada.

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Larissa continuou em pé com Pipoca no colo, e Gustavo indicou o sofá. Os dois se sentaram, cada um segurando a própria cadela, enquanto começaram a colocar os anos em dia. Ela perguntou primeiro por Enzo e Théo, e Gustavo soltou uma pequena risada antes de responder.

— O Enzo virou oficialmente um adolescente insuportável. Está respondão, acha que sabe tudo e passou a olhar para mim como se eu tivesse nascido no século passado. Mas pelo menos ainda avisa onde vai, cumpre horário e não me dá motivos sérios para perder o sono. Já o Théo, se eu deixar, passa o fim de semana inteiro enfurnado no quarto jogando videogame. Os dois estão bem na escola. Cada um com as próprias fases.

— E o apartamento? — Larissa perguntou. — Você ainda está morando naquele com a cozinha horrorosa?

Gustavo sorriu.

— A cozinha horrorosa não existe mais. Reformei quase tudo. Troquei os armários, bancada, piso, parte hidráulica... Você tinha razão sobre o encanamento, inclusive. Deu um problema enorme quando começaram a quebrar.

Ela abriu um sorriso satisfeito.

— Eu avisei.

— Avisou muitas vezes.

— Ainda bem que alguém naquela visita tinha bom senso.

Gustavo riu e, sem pensar muito, disse:

— Você devia ir conhecer. Ficou bem diferente.

Larissa pareceu um pouco surpresa, mas não recusou.

— Qualquer dia eu vou mesmo. Quero conferir se você não estragou tudo escolhendo decoração sozinho.

— Os meninos ajudaram. Então provavelmente estragamos juntos.

Ela riu, e o som lhe pareceu familiar de uma maneira agradável. Gustavo percebeu que fazia muito tempo desde a última vez em que conversara com alguém sem calcular cada palavra, sem medo de perguntas sobre o divórcio, Amanda ou a vida que construíra depois. Larissa conhecia a pior parte de sua história, mas não o olhava com pena. Também não precisava explicar quem ele era ou por que certas coisas ainda o afetavam. Ela simplesmente sabia.

Perguntou se continuava no mesmo escritório, e Larissa contou que havia saído algum tempo depois de conseguir a OAB. Agora trabalhava num escritório menor, formado apenas por mulheres, e gostava muito mais do ambiente. Tinha mais autonomia, participava diretamente dos casos e já começava a construir a própria carteira de clientes.

— Um escritório só de mulheres? — Gustavo perguntou. — Deve ser organizado demais para eu entrar.

— Depende do dia. Às vezes parece um tribunal. Em outros, parece uma sala de guerra.

— Um dia quero conhecer.

— Pode aparecer. Mas espero que não seja para outro divórcio.

— Um já foi suficiente para esta vida.

Os dois riram, e foi nesse momento que Gustavo percebeu que a observava mais do que deveria. Larissa mudara muito desde a época do processo. Os cabelos estavam na altura dos ombros, bem cuidados, com luzes delicadas que iluminavam o rosto. Parecia mais segura, mas ainda mantinha aquele jeito de prestar atenção verdadeira enquanto alguém falava, inclinando levemente a cabeça e fazendo perguntas que mostravam que havia escutado cada detalhe. Ele sentiu uma animação pequena e inesperada, algo próximo daquele nervosismo bom que não experimentava havia anos.

Não era a vontade vazia que surgia nos encontros marcados por aplicativo, quando tentava se convencer de que precisava conhecer alguém. Era curiosidade. Interesse verdadeiro. Desejo de continuar a conversa depois que Pipoca fosse embora.

Gustavo apoiou o braço no encosto do sofá, assumindo uma postura mais descontraída.

— Os meninos viajaram com a mãe para aproveitar o feriado. Eu estava pensando em passar num barzinho perto da orla mais tarde. Comer alguma coisa, ouvir música... Você podia ir comigo, se ainda não tiver planos.

Larissa piscou algumas vezes.

— Hoje?

— Hoje.

Ela olhou rapidamente para Pipoca, como se a cachorrinha pudesse oferecer alguma resposta.

— Não sei...

Gustavo sorriu de lado. Percebeu que começava a jogar charme e, pela primeira vez, não sentiu culpa nem a impressão de trair alguma parte de si mesmo. Amanda já não estava entre eles. Havia apenas um homem interessado numa mulher, tentando descobrir se o interesse poderia ser correspondido.

— A gente se encontra lá, conversa um pouco. Faz muito tempo que não converso com alguém tão leve quanto você.

Larissa soltou uma risada.

— Leve? Na época do seu processo você achava que eu era uma estagiária intrometida.

— Eu estava errado sobre algumas coisas naquele período.

— Só algumas?

— Não exagera. — Gustavo sorriu ainda mais. — A não ser que você tenha algum compromisso com seu namorado. Nesse caso, finjo que não convidei.

Ela riu e balançou a cabeça.

— Não tenho namorado.

A resposta provocou nele uma satisfação imediata, que não fez esforço para esconder.

— Então você ficou sem motivo para não ir.

— Você sempre foi insistente assim?

— Só quando acho que vale a pena.

Larissa desviou os olhos por um instante, claramente sem jeito, mas o sorriso permaneceu em seu rosto.

— Tudo bem. Eu vou.

Gustavo pegou o celular.

— Me manda sua localização. Passo às sete para buscar você.

— Não precisa me buscar. Posso encontrar você lá.

— Pode, mas prefiro te buscar.

Ela hesitou mais um pouco antes de concordar.

— Está bem.

Os dois tiraram os celulares ao mesmo tempo para trocar os contatos, mas, quando Gustavo digitou o nome dela, percebeu que o número continuava salvo. Larissa conferiu o próprio aparelho e encontrou o contato dele também, perdido entre conversas antigas do processo e mensagens sobre visitas aos apartamentos.

— A gente nunca apagou — ela comentou.

Gustavo olhou para o nome dela na tela e abriu um sorriso de lado.

— Talvez já estivesse economizando trabalho para hoje.

Larissa revirou os olhos, mas riu.

— Sete horas, então.

— Sete horas.

Quando ela finalmente saiu levando Pipoca, Gustavo permaneceu alguns segundos na porta, observando-a caminhar até o carro. Bela se agitava em seus braços, feliz por ter voltado, mas ele quase não percebeu. Havia uma sensação leve crescendo dentro do peito, uma expectativa que julgara não ser mais capaz de sentir.

Pela primeira vez em muitos anos, Gustavo não estava indo encontrar uma mulher para tentar esquecer Amanda, preencher uma noite vazia ou provar que tinha seguido em frente.

Estava indo porque queria ver Larissa outra vez.

O encontro foi melhor do que Gustavo esperava e muito mais estranho do que gostaria de admitir. Nos primeiros minutos, parecia incapaz de encontrar um ritmo natural para a conversa. Falava depressa demais, fazia perguntas antes de Larissa terminar de responder e, quando percebia que estava se comportando como alguém muito mais nervoso do que um homem de trinta e um anos deveria parecer, tentava compensar ficando sério demais. Não era um grande galanteador, nunca tinha sido. Durante quase toda a vida adulta, amou a mesma mulher, construiu uma família com ela e aprendeu a se relacionar dentro da intimidade de um casamento. Voltar a sentar diante de alguém que realmente despertava seu interesse fazia com que se sentisse deslocado, como se tivesse esquecido regras simples que todos os outros pareciam conhecer. Larissa, porém, não demonstrava pressa em preencher cada silêncio. Ria quando ele se atrapalhava, devolvia as provocações e, pouco a pouco, fez com que ele deixasse de se preocupar com a imagem que transmitia.

Conversaram sobre a vida de maneira leve, sem transformar a noite numa entrevista ou numa sequência de confissões pesadas. Larissa contou que estava solteira havia quase dois anos e que, desde o fim do último relacionamento, concentrara quase toda a energia na carreira. Tinha terminado uma especialização há pouco tempo, assumido casos mais importantes no novo escritório e começava a conquistar clientes próprios. Falava do trabalho com entusiasmo, mas sem aquele ar de quem precisava provar o tempo inteiro que era competente. Gustavo gostava da maneira como ela se expressava, da segurança com que explicava as coisas e do jeito como conseguia falar sério num instante e, logo depois, rir de alguma situação absurda do escritório.

Quando ela comentou que jogava beach tennis algumas vezes por semana, Gustavo se animou imediatamente e começou a falar sobre tudo que fazia com os meninos. Contou do ciclismo, da escalada indoor, do surfe com Enzo e os amigos, e até das tentativas frustradas de acompanhar Théo nos videogames. Larissa ria enquanto ele descrevia o próprio sofrimento tentando aprender comandos que o filho considerava óbvios. Gustavo disse que adoraria jogar beach tennis com ela qualquer dia, embora já previsse que passaria vergonha. Larissa respondeu que ele provavelmente passaria mesmo, mas que poderia começar treinando longe de qualquer conhecido.

A conversa encaixava de uma forma que Gustavo não experimentava havia muito tempo. Não precisava fingir interesse nem buscar assuntos para evitar o silêncio. Quando percebia, já havia passado quase uma hora falando de alguma coisa simples. A música mudou algumas vezes, o bar começou a esvaziar e os funcionários recolhiam mesas próximas quando os dois finalmente notaram o horário. Já era madrugada.

No carro, o silêncio ganhou outro peso. Larissa ficou olhando pela janela por alguns minutos, e Gustavo dirigia sentindo a presença dela ao lado de uma maneira que tornava difícil prestar atenção em qualquer outra coisa. Quando parou diante do prédio onde ela morava, nenhum dos dois fez movimento para encerrar a noite. Permaneceram ali, trocando algumas frases curtas, até que Gustavo se inclinou devagar e a beijou.

O primeiro beijo foi cuidadoso, quase uma pergunta.

O segundo não teve a mesma prudência.

Larissa segurou sua camisa, aproximando-se mais, e Gustavo sentiu toda a contenção da noite desaparecer. Havia passado anos evitando qualquer proximidade verdadeira, conhecendo mulheres sem conseguir se entregar, usando encontros apenas como distração. Com ela, porém, tudo parecia imediato. O desejo não vinha sozinho. Havia curiosidade, intimidade e uma vontade genuína de continuar perto.

Ainda assim, manteve alguma compostura.

Quando se afastaram, respirando depressa, Gustavo sorriu de lado.

— Você ainda não viu a cozinha reformada.

Larissa soltou uma risada, compreendendo perfeitamente a desculpa.

— Você me chamou pra sair só pra provar que eu estava certa?

— Estou disposto a admitir isso pessoalmente.

Ela hesitou apenas alguns segundos antes de concordar.

A moral daquela história foi que, quando chegaram ao apartamento dele, Larissa não chegou a ver a cozinha.

Na manhã seguinte, Gustavo acordou antes dela. Durante alguns instantes permaneceu deitado, observando a luz atravessar a cortina e tentando compreender como aquela mulher, que anos antes entrara em seu caso carregando um caderno e uma pasta, agora dormia ao lado dele. A sensação não era de vazio, arrependimento ou pressa para que ela fosse embora. Pela primeira vez depois do divórcio, não sentia que estivera com alguém apenas para fugir da solidão.

Quando Larissa acordou, porém, parecia desconfortável. Levantou-se devagar, procurou as próprias roupas e evitou encará-lo por alguns segundos.

— Acho que a gente foi rápido demais.

Gustavo sentou-se na cama.

— Você se arrependeu?

Ela demorou a responder.

— Não. Mas eu acompanhei o seu processo. Conheci seus filhos naquela época, ajudei no caso, procurei apartamento com você... Isso tudo parece meio errado.

Gustavo compreendia a preocupação. Ele também pensara em tudo aquilo, mas não enxergava nenhum abuso, vantagem ou relação profissional ainda existente entre os dois. Aquela fase tinha terminado havia anos.

— Larissa, você não é mais estagiária do meu advogado e eu não sou seu cliente. A gente tem quase a mesma idade. Eu tenho trinta e um, você vinte e oito. Somos dois adultos que se encontraram de novo e quiseram ficar juntos.

Ela finalmente olhou para ele.

— Dito assim, parece simples.

— Talvez seja. — Gustavo estendeu a mão. — E a química entre a gente não foi exatamente discreta.

Larissa tentou esconder o sorriso, mas não conseguiu.

O que deveria ter sido apenas uma noite acabou se estendendo pelo restante do fim de semana. Saíram para tomar café, buscaram Pipoca no apartamento dela e caminharam com as cadelas pela orla, pediram comida e ficaram horas conversando no sofá. Larissa finalmente conheceu a cozinha reformada e admitiu, com a satisfação de quem esperara anos por aquele momento, que estava muito melhor do que quando vira pela primeira vez. Gustavo permitiu que ela se gabasse durante alguns minutos antes de lembrar que fora ele quem pagara toda a obra, e ela rebateu falando que havia avisado que ficaria caro, mas ele quis mesmo assim. Ele se deu então por derrotado.

Durante a semana seguinte, passaram a trocar mensagens com frequência. Nada forçado. Nenhuma regra sobre quem deveria escrever primeiro. Gustavo acordava e encontrava uma mensagem dela reclamando do trânsito ou enviando alguma notícia absurda. No meio do expediente, mandava uma fotografia de Bela dormindo sobre uma almofada ou contava alguma situação com os filhos. À noite, conversavam até o sono vencer um dos dois.

Encontraram-se novamente.

Depois outra vez.

E, quando Gustavo percebeu, já organizava os dias pensando em quando veria Larissa.

Apresentá-la a Enzo e Théo exigiu muito mais coragem do que qualquer encontro. Antes de convidá-la, sentou-se com os meninos e explicou que havia conhecido uma mulher, que estava gostando dela e queria que os dois a conhecessem. Théo recebeu a notícia com uma indiferença quase ofensiva. Perguntou se ela sabia jogar videogame, ouviu que Gustavo não sabia e voltou para o controle como se aquilo encerrasse o assunto.

Enzo, porém, ficou sério.

— Ela sabe de tudo que aconteceu?

Gustavo assentiu.

— Sabe.

— Ela trabalhava com seu advogado, não era?

— Trabalhava.

— E agora vocês estão namorando?

— Ainda não. Estamos nos conhecendo.

Enzo ficou alguns segundos pensando.

— Eu vou fazer perguntas.

Gustavo suspirou.

— Eu imaginei.

Quando Larissa foi ao apartamento pela primeira vez, Enzo cumpriu a promessa. Perguntou onde ela trabalhava, por que estava solteira, se gostava de crianças, se pretendia morar ali e se entendia que o pai já havia sofrido bastante. Gustavo sentia vontade de desaparecer dentro do sofá. Tentou interromper algumas vezes, mas Larissa respondia com uma serenidade que parecia divertir Enzo. Em vez de tratá-lo como uma criança inconveniente, levou a sério a necessidade do menino de proteger o pai.

Théo fez apenas uma pergunta:

— Você joga videogame?

Larissa respondeu que era péssima.

— Então meu pai encontrou alguém pior que ele.

Aquilo foi suficiente para quebrar a tensão.

A convivência cresceu aos poucos. Primeiro, um passeio no shopping. Depois, cinema. Mais tarde, almoço de domingo. Gustavo e Enzo começaram a jogar beach tennis com Larissa, embora ela tivesse prazer especial em lembrar aos dois que ainda eram iniciantes. Théo também tentou acompanhá-los uma vez, mas concluiu que correr atrás de uma bola no calor era uma atividade sem sentido. Larissa aceitou ir à escalada indoor com eles, subiu apenas uma parede e passou o restante do tempo dizendo que ninguém deveria confiar a própria vida a uma corda tão fina.

Dois meses depois, Gustavo percebeu que não queria continuar chamando aquilo de “se conhecer”. Levou Larissa até a varanda do apartamento, a mesma onde decidiu comprar o imóvel anos antes, e fez o pedido sem discurso ensaiado.

— Quero que você seja minha namorada.

Ela sorriu.

— Você levou dois meses para chegar nessa conclusão?

— Eu queria ter certeza.

— E agora tem?

Gustavo aproximou-se.

— Tenho.

Larissa aceitou, e ele se sentiu ridiculamente feliz. Passou o restante da noite com um sorriso que não conseguia controlar, como se tivesse voltado a ser um garoto. Não era a mesma felicidade que vivera com Amanda, nem precisava ser. Aquilo era novo. Mais cauteloso, talvez. Mas também mais consciente.

Larissa era péssima na cozinha.

Não apenas ruim. Realmente incapaz de preparar qualquer coisa que exigisse mais do que abrir uma embalagem e seguir instruções básicas. Era uma mulher de delivery, aplicativos e restaurantes próximos. Numa manhã de domingo, Enzo decidiu fazer canelone para o almoço. Larissa insistiu que ajudaria e transformou a cozinha numa bagunça em poucos minutos. Colocou molho demais, discutiu com Enzo sobre a quantidade de recheio e depois chamou Gustavo para resolver uma massa que grudara de maneira irreversível.

Os três terminaram cozinhando juntos, enquanto Théo aparecia de tempos em tempos apenas para perguntar quando a comida ficaria pronta. Bela e Pipoca circulavam entre as pernas deles esperando que alguma coisa caísse.

Gustavo observou aquela cena e sentiu algo se acomodar dentro do peito.

Durante muito tempo, acreditara que felicidade significava recuperar exatamente a vida que perdera. A mesma esposa, a mesma família, os mesmos planos. Só depois compreendeu que algumas coisas não voltavam. Precisavam ser construídas novamente, de outro jeito, com outras pessoas e sem a garantia de que durariam para sempre.

Quatro meses depois de começarem a namorar, Larissa apareceu no apartamento de Gustavo com uma expressão preocupada.

Ela segurava o celular na mão enquanto Bela e Pipoca brincavam no chão da sala.

— Aconteceu um problema lá no meu apartamento.

Gustavo imediatamente deixou o notebook de lado.

— O que houve?

Ela respirou fundo.

— Estourou a coluna hidráulica do prédio. O vazamento desceu por vários apartamentos e atingiu justamente o meu. O síndico disse que vão precisar quebrar o banheiro inteiro e parte da cozinha para trocar a tubulação. Pelo que falaram, devo ficar pelo menos um mês fora de casa... talvez dois.

Ela abaixou os olhos. Era visível que estava sem graça.

— Eu ia procurar um apartamento por temporada, ou ficar num hotel por alguns dias até decidir… — fez uma pequena pausa antes de completar. — Mas pensei em perguntar uma coisa.

Gustavo sorriu.

— Pode perguntar.

Ela respirou fundo outra vez.

— Eu e a Pipoca podemos ficar aqui até resolverem tudo?

Gustavo nem deixou que ela terminasse.

— Claro que podem.

A resposta saiu tão rápido que fez Larissa rir.

— Você nem pensou.

— Pensei.

— Em quê?

— Que agora a Bela vai ter companhia o dia inteiro.

Ela balançou a cabeça sorrindo.

— Eu estou falando sério.

Ele levantou do sofá e caminhou até ela. Segurou delicadamente suas mãos.

— Eu também. — os olhos dele transmitiam uma tranquilidade que Larissa conhecia bem. — Esse apartamento também é seu quando precisar.

Ela sentiu um nó se formar na garganta. Agradeceu apenas com um abraço demorado.

Enquanto ela permanecia escondida entre os braços dele, Gustavo sorriu discretamente.

Estava feliz.

Muito mais feliz do que imaginava.

Durante aqueles quatro meses de namoro, aprendeu a admirar Larissa de muitas maneiras. Gostava da inteligência dela, da forma respeitosa como tratava sua mãe, da dedicação ao trabalho e do carinho que demonstrava pelos meninos. Mas havia uma verdade que ele conhecia bem: ninguém conhece realmente uma pessoa durante encontros, viagens ou fins de semana. Você conhece alguém quando divide a mesma casa, quando existem contas para pagar, louças para lavar, dias ruins, silêncio e rotina.

Aquilo seria temporário. Mas seria a primeira vez que viveriam, de fato, como uma família.

Antes que Larissa levasse as malas, Gustavo chamou Enzo para conversar.

Os dois ficaram sentados na varanda enquanto Bela dormia aos pés deles. Enzo ouviu toda a história sem interromper.

Quando o pai terminou, permaneceu olhando para a rua por alguns segundos.

— Ela vai morar aqui?

— Temporariamente.

— Temporariamente mesmo?

Gustavo sorriu. Conhecia perfeitamente a preocupação escondida naquela pergunta.

— Enquanto o apartamento dela estiver em obra.

Enzo cruzou os braços.

— Pai… Você gosta muito dela, né?

Gustavo não escondeu.

— Gosto.

O adolescente abaixou a cabeça.

— Eu só… — respirou fundo. — Não quero ver você sofrer de novo.

A frase atingiu Gustavo em cheio. Ele passou a mão no ombro do filho.

— Eu sei.

Os dois ficaram alguns segundos em silêncio.

— Mas uma coisa eu aprendi, filho.

Enzo levantou os olhos.

— Nem toda pessoa vai machucar a gente porque uma machucou.

O garoto demorou um pouco para responder. Depois confirmou com a cabeça.

— Tá bom. Ela pode ficar.

Gustavo sorriu.

— Obrigado.

Enzo deu de ombros.

— Só não faz cara de bobo quando ela estiver olhando.

— Eu faço?

— Muito.

Naquela mesma noite, Gustavo reuniu os meninos na sala.

— Preciso conversar uma coisa com vocês.

Os dois prestaram atenção.

— A Larissa vai ficar morando aqui por um tempo.

Théo abriu um sorriso.

— Legal!

Enzo apenas confirmou com a cabeça. Gustavo continuou.

— Só que agora tem uma mulher morando na casa. Isso significa que algumas coisas vão mudar.

Théo franziu a testa.

— Tipo o quê?

— Tipo vocês não podem mais andar pela casa só de cueca.

Théo fez uma careta.

— Ah...

— Quando saírem do banho, coloquem uma roupa primeiro. Batam na porta antes de entrar no quarto. Respeitem o espaço dela. Ela também vai respeitar o de vocês.

Os dois concordaram. Gustavo olhou para eles mais uma vez.

— Outra coisa. Larissa não está aqui para substituir ninguém. Ela não é mãe de vocês. Mas ela é uma pessoa muito importante para mim. Então eu gostaria muito que vocês a tratassem com carinho.

Théo respondeu imediatamente.

— Eu gosto dela.

Enzo demorou um pouco mais. Depois sorriu discretamente.

— Eu também.

Gustavo respirou aliviado.

No sábado seguinte, Larissa chegou com duas malas grandes, algumas caixas e Pipoca dentro da caixa de transporte.

Bela começou a correr pela sala como se tivesse acabado de encontrar a melhor amiga do mundo.

Enquanto isso, Gustavo carregava as malas. Théo fazia perguntas sem parar. E Enzo fingia que apenas supervisionava a mudança.

Nos primeiros dias, Larissa sentia-se uma visita. Pedia licença para abrir a geladeira. Perguntava onde podia guardar cada objeto. Lavava imediatamente qualquer copo que usasse. Parecia ter medo de ocupar espaço demais.

Até que Gustavo percebeu.

Numa noite, ela terminou de guardar algumas roupas e voltou para a sala.

Encontrou Gustavo esperando por ela.

Ele estendeu uma chave.

Ela olhou sem entender.

— O que é isso?

— A chave do apartamento.

Larissa continuou parada.

— Gustavo...

— Você mora aqui agora.

Ela apertou a chave entre os dedos. Os olhos começaram a marejar.

— Mesmo que seja só por um tempo...

Ele sorriu.

— Principalmente porque é por um tempo.

Ela abraçou Gustavo com força. Naquela noite, dormiu muito mais tranquila.

A casa realmente mudou.

Era curioso como uma única pessoa conseguia alterar completamente o ambiente.

Não porque impusesse regras.

Mas porque transmitia uma sensação de organização que acabava influenciando todos ao redor.

Enzo e Théo passaram a guardar os tênis no lugar certo sem que ninguém precisasse pedir. As mochilas deixaram de ficar espalhadas pela sala. As toalhas misteriosamente começaram a aparecer estendidas no banheiro.

Nem Gustavo entendia como aquilo acontecera.

Havia também um quarto pequeno que servia apenas para acumular caixas, ferramentas, bicicletas desmontadas e objetos sem destino.

Larissa entrou ali uma única vez.

Olhou para Gustavo.

— Isso aqui não é um cômodo. É um depósito de guerra.

Durante um fim de semana inteiro, os quatro colocaram tudo para fora.

Separaram o que seria doado.

Organizaram o restante.

Compraram uma mesa.

Uma estante.

Uma luminária.

Quando terminaram, o antigo quarto da bagunça havia se transformado num escritório claro e confortável.

Larissa olhou ao redor completamente encantada.

— Ficou lindo.

Gustavo observava a felicidade dela. Não conseguia tirar o sorriso do rosto.

— Agora você tem um lugar só seu.

Ela virou para ele. Na frente dos meninos. Esqueceu completamente que eles estavam ali. Apenas caminhou até Gustavo, segurou delicadamente seu rosto e lhe deu um beijo rápido.

— Obrigada.

Enzo fez um barulho exagerado.

— Vocês começaram...

Os quatro riram.

Apesar de tudo, Larissa ainda tinha seus receios.

Algumas noites, quando os meninos já estavam dormindo, ela permanecia sentada na varanda ao lado de Gustavo.

Numa dessas noites, encostou a cabeça no ombro dele.

— Posso confessar uma coisa?

— Sempre.

Ela ficou alguns segundos olhando para Bela e Pipoca dormindo juntas na sala.

— Eu morro de medo de eles nunca me aceitarem de verdade.

Gustavo virou o rosto para ela.

— Quem?

— Os meninos. — ela sorriu sem graça. — Eu gosto muito deles. Muito mesmo. Só que às vezes tenho medo de parecer que estou invadindo um espaço que nunca vai ser meu.

Gustavo segurou sua mão.

— Larissa...

Ela esperou.

— Você sabe qual foi a única coisa que eu pedi pra você desde que começamos a namorar?

Ela pensou.

— Não.

— Que você fosse você mesma.

Ela sorriu.

— E você está sendo. Não tenta ser mãe deles. Não tenta competir com ninguém. Você só gosta deles. E isso eles percebem.

Larissa apoiou novamente a cabeça no ombro dele.

— Eu gosto muito de vocês. — a frase saiu baixinho.

Gustavo virou delicadamente seu rosto, beijou sua testa, depois seus cabelos e depois a ponta do nariz.

Ela começou a rir.

— Você tá me beijando inteira.

— Ainda não.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Não?

Ele sorriu daquele jeito tranquilo que só aparecia quando estava completamente em paz.

— Eu ainda vou levar o resto da vida pra terminar.

Larissa não respondeu.

Apenas o beijou demoradamente.

E, sem que nenhum dos dois percebesse naquele momento, quando a obra do apartamento finalmente terminou e o síndico avisou que ela já podia voltar para casa… mas, ela não voltou, resolveram continuar morando juntos.

Gustavo não sabia como seria a vida com Larissa. Não sabia se continuariam juntos por meses, anos ou décadas. Não conhecia todas as dificuldades que ainda enfrentariam, nem queria transformar aquele começo numa promessa perfeita.

Sabia apenas que estava feliz.

E, depois de tudo que vivera, isso já parecia muito.

Notas finais
Tive muito respeito com a trajetória do Gustavo, depois de tudo que aconteceu, não podia deixar vocês sem saberem do desfecho do lado dele e principalmente, ele sem um final.