O CEO que Eu Paguei

197 Esse é o monstro?


Afonso Monteiro — 21 anos.

Maria Lúcia Tavares — 19 anos.


A música vinha de uma orquestra ao fundo. Violinos, sopros e luzes douradas refletidas nos espelhos do salão. Mulheres elegantes com vestidos rodados, luvas de cetim e colares de pérolas. Homens com ternos bem cortados, brilhantina no cabelo e copos de espumante nas mãos.

Maria Lúcia sorria educadamente enquanto um grupo de amigas tagarelava ao redor dela. Sua taça de champanhe estava quase intocada. Seu vestido azul-claro combinava com os olhos azuis, e os cabelos loiros presos em um coque firme revelavam o pescoço delicado.

— Você viu que ele veio? — cochichou uma das moças.

— Quem? — ela perguntou.

— Afonso Monteiro.

Maria Lúcia ergueu levemente as sobrancelhas, sem disfarçar a curiosidade.

— Monteiro, da construtora? — perguntou, com educação.

— Ele mesmo. Disseram que o pai da debutante contratou a empresa dele. Você não sabia?

— Não — respondeu Maria Lúcia, observando o salão. — Não conheço esse tipo de gente.

— Não está perdendo nada — disse outra, mais ácida. — Dizem que ele é mais agiota do que empresário. Um homem cruel. Que ninguém se atreve a contrariar.

— É — concordou a primeira. — Um tipo... perigoso. Bonito e perigoso.

— Mas, eu adoraria que ele me chamasse para dançar. — disse outra.

Maria manteve o sorriso educado, mas seu olhar já havia se desviado. Ela não disse nada. Apenas observou.

E foi observada.

Do outro lado do salão, Afonso Monteiro terminava um gole de uísque. Alto, cabelos escuros perfeitamente penteados, terno cinza-grafite, olhos azuis de um tom anormalmente denso. Não sorria. Não precisava. A presença bastava.

As pessoas abriam espaço ao redor dele com o mesmo respeito que se dá a uma cobra venenosa.

Mas ele estava olhando só para uma pessoa.

Maria.

Ela percebeu.

Desviou o olhar de volta às amigas, mas sem pressa, sem alarde. Depois de mais um ou dois comentários, pediu licença e se afastou, andando com leveza.

Foi quando ele se moveu também.

Ela sentiu, antes mesmo de ver. A aproximação. O peso daquele olhar.

— Não costuma gostar de festas? — a voz dele surgiu ao lado dela, firme e baixa, algo no tom que não pedia permissão.

Maria virou o rosto devagar, olhando-o de frente. Seus olhos encontraram os dele. Azul com azul. Mas o dela era brisa — o dele, tempestade.

— Não gosto de conversas vazias — respondeu, sem se afastar. — E o senhor?

Afonso sorriu com um canto da boca. Um sorriso perigoso. Charmoso de um jeito que não devia ser.

— Eu costumo observar mais do que falar.

— Isso explica os olhos atentos.

Ele deu um passo para o lado, ficando de frente.

— Acha que estava sendo discreta?

— Eu não estava tentando ser — disse Maria Lúcia, com um leve arqueamento de sobrancelha. — Mas talvez o senhor estivesse.

Afonso soltou uma risada baixa. Gostou da resposta. Aquela mulher não se intimidava. Parecia não sentir medo dele.

— Afonso Monteiro.

— Maria Lúcia Tavares. — respondeu, sem hesitação, apertando a mão que ele ofereceu. Seu toque era delicado e firme. O dele, quente e decidido.

— Está acompanhada?

— Com amigas.

— Então não vai se importar se eu te tirar daqui por três minutos.

Ela inclinou a cabeça, curiosa.

— Três minutos?

— É o tempo de uma dança.

Maria o encarou. O salão girava ao redor deles, mas naquele instante só os dois existiam.

— E por que eu dançaria com o homem de má fama da festa?

Ele se aproximou um pouco mais, apenas o bastante para que a voz soasse mais íntima:

— Porque é sempre melhor conhecer alguém por si mesma do que pelas línguas alheias.

Ela sorriu e aquele sorriso foi diferente. Não um sorriso gentil. Foi um sorriso... interessado.

— Tem razão.

Estendeu a mão.

— Uma dança, senhor Monteiro.

E ele a conduziu ao centro do salão, onde as pessoas ainda sorriam — mas agora, os olhos de muitos estavam neles.

A música muda. Agora é um bolero suave, daqueles que preenchem o ar com intimidade. Os passos lentos, o compasso firme, o mundo ao redor desfoca. Luzes douradas dançam pelas paredes.

Afonso guia Maria Lúcia com uma mão em sua cintura, a outra segurando a dela com firmeza — mas sem invadir. Ele dança como se já soubesse cada passo de antemão. Mas é Maria Lúcia quem o encara de verdade.

— Não imaginei que soubesse dançar — ela comenta, com os olhos fixos nos dele.

— As pessoas gostam de presumir muitas coisas ruins sobre mim. — responde, com a voz baixa. — Mas minha mãe fazia questão de aulas de dança. “Um homem precisa saber conduzir uma dama”, ela dizia. — não que fosse verdade, mas foi o que ele disse.

Maria sorri com os olhos.

— Ela estava certa. Conduzir é uma arte.

— E saber ser conduzida?

— Também. Mas só por quem respeita o compasso da parceira — retruca, mantendo o olhar.

Afonso inclina o rosto, intrigado. A maioria das mulheres baixava os olhos na terceira frase. Ela não. Que interessante. Porque ela não?

— O que faz da vida, Maria Lúcia?

— Dou aula para crianças. Jardim de infância.

— Hm. — Ele parece genuinamente surpreso. — Tão calma e delicada quanto uma sala cheia de baixinhos gritando?

— Eu gosto deles — responde. — E eles gostam de mim.

— Imagino que sim. Você tem esse... jeito doce com bordas afiadas.

— E o senhor?

— O que tem eu?

— Além de construir prédios e colecionar histórias perigosas. O que faz?

Ele sorri. Não aquele sorriso frio. Um quase sincero, como se ela tivesse conseguido arrancar algo raro dele.

— Eu não costumo fazer nada além de trabalhar.

— Eu também não — responde Maria, com leveza.

— Gosta de flores?

— Flores não apagam os espinhos de quem as segura.

Afonso deixa escapar uma risada baixa. Aproxima um pouco mais o corpo. Não bastante para incomodar. Apenas o suficiente para sentir o perfume dela. Floral. Discreto. Inquietante.

— Você me acha um homem mau?

Maria Lúcia não recua. Não muda o tom.

— Eu não te conheço, senhor Monteiro. Mas sei quando um homem está acostumado a assustar os outros. Você não fala, você pesa as palavras. E tem um jeito estranho de encarar, como quem mede, avalia... como quem decide se vale o esforço.

Afonso silencia por um segundo. A música continua, mas ele não responde de imediato.

— Talvez eu esteja mesmo decidindo — diz por fim, encarando-a. — Se vale o esforço.

Maria Lúcia o fita sem se alterar. Depois inclina levemente a cabeça, quase divertida.

— Vai descobrir que comigo, senhor Monteiro, o esforço nunca é pequeno.

Eles seguem dançando. Dois desconhecidos que não desviam. Dois mundos que se reconhecem em silêncio.

A música termina. Mas nenhum dos dois parece ter pressa em soltar o outro.

Maria ainda sentia o calor da presença de Afonso na pele. Ele era intrigante. Havia algo nele que destoava — não no sentido vulgar, mas intenso. Um magnetismo que vinha nos silêncios, no modo como a encarava como se a enxergasse além do vestido azul e da postura impecável.

Ele não parecia ser o que diziam… ou ao menos, não apenas isso.

Educado, bonito e charmoso. Jovem, sem compromissos, com negócios florescendo e dono de um daqueles sorrisos que valiam mais que promessas. Era difícil imaginar como Afonso Monteiro não era o solteiro mais disputado do Rio de Janeiro.

Mas Maria Lúcia sabia se conter. Gostar não era o mesmo que entregar. E ela não seria mais uma a cair fácil no colo de um homem só porque ele era atraente e misterioso.

Foi nesse momento que Otávio se aproximou.

— Com licença, senhor Monteiro — disse, educado, estendendo a mão. — Maria Lúcia , permitiria uma dança?

Ela sorriu, surpresa e lisonjeada. Otávio era um excelente partido, conhecido da família, bem estabelecido, gentil. Havia concluído odontologia com louvor e já abrira seu consultório na zona sul. Ele a estava paquerando há um tempo, Maria Lúcia pensava que não demoraria para ele a cortejar oficialmente.

— Claro, Otávio — respondeu, aceitando a mão com elegância. — Seria um prazer.

Afonso não escondeu o incômodo. Não houve grosseria, mas o olhar dele escureceu ligeiramente enquanto soltava a mão de Maria Lúcia . Não disse nada, apenas assentiu com um meio sorriso enigmático, escondia mais do que mostrava.

Otávio conduzia com leveza. Seus passos eram firmes, mas suaves. Ele tinha aquele jeito natural de homens que foram bem criados, gentil sem ser forçado, seguro sem arrogância.

— Você está linda esta noite, Maria. Como sempre, mas hoje em especial.

— Obrigada, Otávio — disse, sorrindo com polidez. — A debutante me obrigou a vir bem vestida.

— Que bom gosto o dela, então — disse ele, com um olhar respeitoso. — Você estava dançando com o senhor Monteiro, não é?

Maria assentiu, com elegância.

— Estava. Ele é mais educado do que imaginei.

— Isso é ótimo. Às vezes, a fama vem antes da pessoa. — Otávio não fez nenhuma crítica, apenas comentou. — Mas que bom que teve uma boa impressão.

Ela olhou para ele com apreço. Não havia ciúmes ou ironia em sua voz. Apenas a naturalidade de quem não sentia necessidade de provar nada.

— Você é tão gentil. Tão… tranquilo.

Otávio sorriu.

— Tento ser. Já tem tensão demais nesse mundo. Alguém precisa compensar.

Maria Lúcia riu baixinho. Dançar com Otávio era como respirar fundo. Tranquilo e agradável. Aquele tipo de parceiro que muitas moças sonhavam em apresentar à família. Um verdadeiro green flag.

Quando a música terminou, ele a acompanhou até as amigas, e se despediu com um beijo casto nas costas da mão. Não forçou presença, nem se impôs. E Maria Lúcia respeitava isso.

A noite se seguiu leve. Maria Lúcia dançou com algumas colegas, passou um tempo com a prima que debutava — riram, tiraram fotos, dividiram bolinhos de coco com recheio de goiabada. O salão ainda vibrava de música, mas o cansaço se insinuava nas pernas.

Ao fim da noite, Maria Lúcia se despediu das amigas com um beijo em cada uma e um último abraço apertado na prima debutante. Caminhou até a frente da casa, mas o carro que levaria as amigas já estava cheio. Sobrava espaço apenas no colo — e ela, educada e criada com rigor, sabia que esse tipo de improviso não combinava com o que esperavam de uma moça decente.

— Eu espero um táxi aqui mesmo — disse, ajeitando a clutch na mão e mantendo a postura.

— Eu fico com você — disse Guilherme, um conhecido da roda de amigos. Era gentil, da mesma idade, vestia-se com certo esmero e havia passado boa parte da noite circulando com um copo de refrigerante e uma simpatia leve.

— Não precisa, Guilherme.

— Eu insisto. Não se deixa uma dama sozinha a essa hora no Rio de Janeiro — disse, sorrindo.

Maria Lúcia agradeceu com um aceno sutil da cabeça e foram para a rua de baixo, onde era um ponto de táxi, ao lado, viu o carro de Otávio estacionado. Reluzente sob a luz pálida. Sabia que ele ainda estava ali, mas jamais entraria sozinha no carro de um homem com quem não estivesse cortejada. Isso seria impensável. E mesmo Otávio sendo confiável, ela era uma dama.

Ela e Guilherme ficaram encostados na mureta do jardim externo, observando os faróis dos carros que passavam pela rua. Aguardando algum táxi livre.

Foi quando escutaram.

Um barulho seco, abafado, vindo do beco ao lado. Algo entre um grunhido e um baque. Maria Lúcia virou o rosto de imediato. Guilherme franziu o cenho.

— Fica aqui. Eu vou ver o que é isso — disse ele, dando um passo.

— Eu vou com você — retrucou Maria Lúcia de imediato.

— Não, você é mulher. Tem que se afastar, vai que é perigoso.

Ela ergueu o queixo. O olhar firme.

— Justamente por ser mulher, Guilherme, é que eu não vou ficar aqui parada fingindo que não ouvi nada. Nós dois somos dois. Juntos temos mais chance de ajudar, seja o que for.

Ele hesitou, claramente desconcertado. Suspirou.

— Tudo bem, mas anda atrás de mim. Se eu mandar correr, você corre. Entendido?

Maria Lúcia assentiu, determinada.

E então os dois seguiram, lado a lado no começo, até Guilherme se adiantar com cautela. Maria Lúcia , alguns passos atrás, mantinha os olhos atentos e a respiração contida, sentindo o próprio coração pulsar alto — entre o medo e a firmeza. Não sabia o que encontrariam, mas sabia de uma coisa: não era do tipo que virava as costas quando podia ajudar alguém.

Maria Lúcia chegou perto o bastante para escutar a respiração de Guilherme mudar — ficar curta, tensa. Ela deu mais dois passos, o vestido roçando contra as pernas, e virou a curva do beco.

E então o mundo dela congelou.

Otávio estava no chão.

Ensanguentado.

Atordoado.

Com o rosto destruído a socos.

E sobre ele, como uma sombra violenta, Afonso Monteiro, o terno aberto, a gravata solta, os punhos cobertos de sangue — o sangue de Otávio — erguendo o braço para desferir outro golpe.

Maria Lúcia levou as mãos à boca, o ar preso na garganta.

— Meu Deus…

Guilherme pulou na frente, sem pensar:

— HEY! JÁ CHEGA!

— Larga ele, Monteiro! — gritou, a voz embargada. — Quer bater em alguém? Bate em mim! Porra, escolhe alguém do teu tamanho!

Afonso nem sequer virou o rosto.

Ele ignorou.

Como se Guilherme fosse nada.

Como se só existisse ele e a presa caída no chão.

Otávio gemeu.

Afonso levantou mais uma vez o punho ensanguentado — e foi aí que Guilherme, desesperado, correu para cima dele.

Afonso finalmente virou o rosto.

O sorriso se abriu lento e frio. Um sorriso que não tinha nada de humano.

— Tá bom, então.

E antes que Maria Lúcia conseguisse gritar, Afonso o acertou. Um soco seco, direto no nariz. Guilherme foi arremessado para trás, caiu no chão com um gemido sufocado.

Maria Lúcia gritou:

— GUILHERME!

Ela correu. O salto arranhou o chão, quase tropeçou — mas foi. Segurou o braço de Afonso com as duas mãos, como se pudesse segurar um animal selvagem só com vontade.

— Para! Para! PARA! — ela implorou, a voz quebrada, respirando rápido demais. — Afonso, por favor… para com isso… por favor…

Afonso congelou.

Devagar.

Como se tivesse sido puxado de volta do fundo de um abismo.

Ele virou o rosto para ela.

Os olhos azuis — frios, perigosos, incandescidos — agora encaravam Maria Lúcia. Ela acreditava que ele não a machucaria, ele não era aquele tipo de pessoa… certo?

E então ele falou, com aquela voz rouca, baixa, quase um aviso:

— Ele pediu.

Maria Lúcia piscou, confusa.

Afonso olhou por cima do ombro para Otávio, ainda caído, respirando com dificuldade. Sorriu de canto, aquele sorriso que fazia qualquer pessoa sã recuar.

— Não pediu? — Afonso provocou.

Otávio, tonto, com o lábio rasgado, levantou a mão fraca, dolorida.

E murmurou:

— P… pedi, sim… eu… eu pedi…

Maria Lúcia ficou pálida.

Afonso abriu as mãos, como quem mostra que não tinha culpa de nada.

— Tá vendo? — disse, com um charme cruel. — Tô fazendo um favor pra ele.

Maria Lúcia sentiu um enjoo subir.

— Você acha que eu posso ir pra casa tranquila enquanto o meu amigo tá sendo espancado aqui…? — ela disse, ofegante, com a voz trêmula. — Você acha que isso é normal?

Afonso a observou em silêncio por um instante. Como se tentasse decifrá-la.

Como se ela fosse o único barulho que pudesse ouvi-lo naquele caos.

Ele deu um passo à frente.

— Você ia pra casa com ele? — perguntou, indicando Guilherme com um leve movimento do queixo.

— Eu ia pegar um táxi — retrucou, firme, apesar do medo.

Afonso respirou fundo. Olhou para o lado. Depois para ela.

E soltou um suspiro quase irritado.

— Tá bom — disse, secando o sangue da mão no paletó. — Eu vou embora.

Ele virou o corpo para ir.

Mas antes que ele desse o primeiro passo, Maria Lúcia ergueu a mão e o estapeou.

O estalo ecoou no beco.

Afonso ficou imóvel.

Maria Lúcia , com o peito subindo e descendo, lágrimas nos olhos, encarou-o com uma coragem que nem ela sabia que tinha.

— Você passou de todos os limites! — disse, a voz partida, mas firme. — Vai embora... vai embora AGORA… antes que eu comece a achar que tudo o que dizem de você é verdade.

Afonso a encarou.

O rosto marcado por um choque silencioso — não de dor física.

Mas de algo muito mais raro.

Algo que ele não sentia há anos:

ser confrontado.

Ele abriu um sorriso pequeno, triste de um jeito estranho… mas ainda perigoso.

E foi embora.

— Boa noite, Marilu. — a chamou por um apelido que quase ninguém a chamava

O beco ficou silencioso.

Otávio choramingava. Guilherme gemia. Maria Lúcia respirava rápido, com o coração na garganta.

Seguiram para o hospital.

Otávio estava bem — só hematomas. Guilherme, revoltado, chamou a polícia. Disse que Afonso Monteiro o atacou covardemente. Maria Lúcia confirmou, nervosa. Mas Otávio não.

Ele sorria.

— Foi só uma brincadeira, Maria — disse com aquele ar calmo que a deixava ainda mais irritada. — Não precisa se preocupar.

— Uma brincadeira? Com o rosto nesse estado? — Ela cruzou os braços, furiosa. — Por que está protegendo ele?

Otávio desviou o olhar, mas não respondeu.

— Vá embora com o Gui. — disse depois. — Depois a gente conversa.

Maria não dormiu naquela noite.

Sentou na cama, encarando o vazio por horas. Pensava em Afonso. Na raiva, no sangue, na brutalidade. Pensava no sorriso dele. Na dança. No jeito que a fazia rir.

Não.

Ela balançou a cabeça.

Afonso Monteiro é um homem perigoso. Não pode… não deve se aproximar.

Antes de ir para a escola nod ia seguinte, passou na casa de Otávio. Entregou à mãe dele uma sacola com gibis da Turma da Mônica.

— Pra ele se distrair enquanto se recupera — disse, gentilmente.

— Você é um anjo, menina — respondeu a mãe, emocionada.

Maria então seguiu para seu refúgio: a escola. O dia da pintura era sempre caótico — por isso ela já estava com uma roupa velha, preparada para sair dali toda manchada. E como previsto, Theo já tinha pedido:

— Tia, posso pintá um sol no teu braço?

— Claro que pode, meu amor — ela disse, sorrindo.

Enquanto Theo desenhava, uma voz rouca e debochada soou atrás dela:

— O sol combina com você.

O coração dela falhou.

Maria virou devagar.

Ele.

Afonso.

Com um terno impecável, cabelos penteados com cuidado, sorriso de canto nos lábios. Tinha o brilho de quem sabia que não deveria estar ali — mas estava mesmo assim.

— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, com um suspiro contido. — Quem deixou você entrar?

Afonso enfiou as mãos nos bolsos, o olhar passeando com charme pelos cartazes coloridos da parede.

— Eu sou dono de uma construtora, lembra? Estava pensando em reformar algumas construções públicas. E passando aqui, me perguntei... será que essa escola precisa?

Ele se aproximou de uma das mesas pequenas e, com a ponta do sapato, empurrou uma perna. A mesa desmontou de lado com um rangido.

Afonso suspirou, teatral.

— Olha isso, Marilu... imagina uma criança se acidentando. Ninguém quer isso.

Ele deu mais um passo em direção a ela. Maria Lúcia respirou fundo.

— Seria ótimo se você realmente ajudasse. Mas deve falar com a diretora. Não comigo.

— Já vou falar com ela — disse, se sentando em uma das cadeiras infantis com as pernas dobradas, sorriso travesso. — Mas, enquanto espero, pensei em me matricular.

Maria Lúcia franziu o cenho, se aproximando.

— Afonso, isso é uma escola. Vá embora.

— Exato, é uma escola — ele disse, com a cara mais lavada do mundo. — E dizem por aí que a escola é aberta pra todos que quiserem aprender. Eu tô aqui pra isso. Aprender.

Ela mordeu o lábio, lutando com o riso.

Mas o sorriso escapou. Largo, desobediente.

— Aqui é uma escola infantil. Para crianças até os seis anos.

Afonso pegou um pincel verde e girou entre os dedos.

— Perfeito, então. Dizem por aí que eu sou infantil mesmo. Inclusive, hoje na reunião, um sujeito me chamou disso. — Ele suspirou, com um sorriso teatral. — Me sento em casa, entre meus semelhantes.

Maria Lúcia riu, tentando esconder. Mas era tarde demais.

E Afonso sabia disso.

Satisfeito, virou-se para um dos meninos pequenos.

— E aí, campeão, o que a gente tá pintando?

— Tia Mari falou que é pintura livre — respondeu o garotinho, com a língua pra fora enquanto coloria.

— Livre? — Afonso olhou sério. — Adoro liberdade.

Ele esticou o braço esquerdo sobre a mesa.

— Essa camisa tá muito sem graça. Vamos dar um jeito nisso?

Maria Lúcia tentou impedir:

— Afonso, você não devia estar…

— ...no lugar certo? Discordo — disse, sorrindo. — Estou exatamente onde deveria.

Ele apontou o pincel azul pra menininha ao lado.

— Se me permite, mocinha, tava procurando uma gatinha… mas acho que achei uma tigresa!

A garotinha rosnou e fez garrinhas com a mão. Maria Lúcia caiu na gargalhada.

Afonso riu também, deixando as crianças pintarem sua camisa. Estava virando uma obra de arte viva — rabiscos, corações, manchas sem sentido. Mas ele parecia genuinamente… leve.

Ela o observava, tentando entender.

Como o mesmo homem do beco podia estar ali, fazendo Theo rir até cair da cadeira?

Como o mesmo homem que fez Guilherme sangrar podia agora estar com as bochechas sujas de tinta infantil?

Nada fazia sentido. E ao mesmo tempo, tudo fazia.

Maria Lúcia se aproximou, ainda com um sorriso tímido no rosto.

— Você foi bom com eles. Divertido. Não esperava isso de você.

Afonso arrumou o colarinho da camisa toda pintada e passou a mão nos cabelos, envergonhado e charmoso ao mesmo tempo.

— Eu sou bom em tudo que faço. Com o tempo, você vai perceber isso.

Maria Lúcia cruzou os braços, olhando séria.

Depois riu.

— O que foi agora? — ele perguntou, erguendo a sobrancelha.

— Seu cabelo tá azul.

Ele arregalou os olhos.

— Azul?

Maria Lúcia gargalhou. E Afonso, claro, não ia deixar barato.

— Já que é assim…

Ele afundou o dedo mindinho na tinta vermelha e foi se aproximando. Maria Lúcia recuou, rindo:

— Não! Afonso, não faz isso!

Mas foi tarde.

As crianças voltaram correndo da porta, e uma gritou:

— Tio! Pega ela!

Maria ficou cercada. Theo agarrou sua perna. Outro puxou seu vestido.

— Isso não é justo! — ela gritou entre risos.

— A vida não é justa, Maria Lúcia — disse Afonso, já colando o dedo na bochecha dela. — Mas ela é incrível mesmo assim.

Ele desenhou algo. Um símbolo. Depois sorriu, vitorioso.

— O que você fez? — ela perguntou, ainda rindo.

Ele deu de ombros.

— Segredo.

Ela olhou pras crianças, que riam. Afonso colocou o dedo na boca.

— Shhh…

A diretora apareceu, enfim.

— Ah, aí está o senhor Monteiro! — disse, surpresa. — O que… o que houve aqui?

Ela olhou Maria Lúcia, horrorizada.

Afonso se ajeitou.

— Estava testando as habilidades da turma. Vai que temos um pequeno Niemeyer escondido?

A diretora suspirou, depois sorriu para ele… e lançou um olhar fulminante para Maria Lúcia.

Maria Lúcia , envergonhada, deu tchauzinho. Afonso olhou de lado e piscou.

Ela suspirou, vendo-o se afastar com a diretora. Ele era um grosso.

Fofo…

Grosso! Isso, um homem grosso!

— Tia Mari! — Theo puxou a barra do vestido. — Minha mamãe tá ali!

Ela se assustou. Já era hora. Correu, pegou as mochilas e entregou cada aluno para os pais com um beijo, um sorriso e um “até amanhã”.

Ela amava aquilo. Amava ensinar. Amava seus pequenos.

Quando o último se foi, a mãe sorriu pra ela e disse:

— Adorei o desenho no seu rosto, professora. Muito criativo.

Maria Lúcia ficou branca.

Assim que a mulher virou de costas com a filha acenando “tchau, titia”, Maria Lúcia correu pro banheiro. Encostou na pia, o coração acelerado.

Olhou no espelho.

Ali, na bochecha… um coração vermelho.

E no meio dele, desenhada com dedos e tinta infantil:

uma letra “A”.

Maria Lúcia sentiu as bochechas arderem.

A vergonha, o riso, a dúvida, o calor.

Ela limpou com água, mas a pele parecia manter a marca.

Aquilo… não significava nada.

Mas mesmo assim… ela não queria apagar.

Naquela noite, Maria Lúcia tentou não pensar em Afonso Monteiro.

Tentou mesmo. Se ocupou, fez chá, rezou um terço pela metade, lavou os pincéis que já estavam limpos e dobrou lençóis duas vezes. Mas toda vez que o pensamento escapava, ele escapava pra ele.

Para o homem do sorriso torto, das mãos firmes e da fama suja.

Não fazia sentido. Ela viu com os próprios olhos o que ele era capaz de fazer. Guilherme ainda tinha marcas no rosto. E Otávio, mesmo tentando esconder, ainda mancava de leve.

E mesmo assim…

Mesmo assim ela se perguntava se tudo era verdade. Ou se era só mais fácil acreditar no que todos diziam.

No dia seguinte, ela passou na casa de Otávio. Levou brigadeiros que havia feito com carinho, entregou para a mãe dele, com um bilhete singelo de votos de melhora. Ele a viu rapidamente, disse que não podiam se ver mais, ele estava cortejando outra garota. Ela achou estranho, mas tudo bem. Ela torcia para a felicidade dele.

E então veio a próxima semana.

Afonso apareceu todos os dias na escola. Cada dia com uma desculpa nova: medir parede, avaliar fundação e pensar em soluções para o refeitório. E com cada visita, uma flor. Discreta e bonita, entregue com aquele ar de quem não estava fazendo nada demais.

Maria Lúcia não era tola.

Aquilo não era sobre a reforma.

Era sábado.

Ela estava em casa, ouvindo música baixinha no rádio — Dolores Duran cantava "A noite do meu bem" — enquanto organizava as atividades da próxima semana. Em volta dela, papéis com desenhos de letras e vários lápis de cor.

Foi quando o pai apareceu na cozinha.

A cara fechada. Braços cruzados. Postura de quem ia anunciar a terceira guerra mundial.

— Marilu, tem um sujeito aqui te procurando.

Ela levantou os olhos.

— Quem é?

— Afonso Monteiro. Da construtora.

O coração dela bateu mais rápido. Só isso.

Foi reflexo. Biológico. Nada mais.

— O que ele quer?

— Tô pondo ele pra correr a semana inteira — rosnou o pai. — Mas o homem não desiste. Agora é você quem vai lá fora dispensar ele.

— Pai… — disse Maria Lúcia, se levantando com calma — …não precisa ser tão rude com ele. Ele tá reformando a escola.

Ela passou por ele e lhe deu um beijo na bochecha. Ele não se moveu, mas a ruga entre as sobrancelhas suavizou só um pouco.

— Eu não gosto dele, Marilu — disse com voz grave. — Mal falado demais. Você é moça direita. Não quero ver você se metendo com esse tipo.

— Eu nunca me envolveria com ele — respondeu, firme.

Mas… as palavras pesaram.

Porque mesmo ditas com convicção… soaram um pouco falsas.

Afonso estava encostado no carro, mãos nos bolsos, os cabelos negros penteados de lado, o suspensório marcando bem o corpo sob a camisa branca. Parecia deslocado, moderno demais para aquele bairro de classe média.

Maria Lúcia caminhou até ele, tentando não olhar demais.

— O que você está fazendo aqui?

Afonso sorriu. Aquele sorriso.

— Vim te ver.

Ela quis sorrir. O rosto esquentou — e não era por vergonha. Era por raiva de querer sorrir.

— Você não devia estar aqui.

— Eu devia, sim — disse com a voz baixa. — Tô com um problema que só uma professora pode resolver.

Maria Lúcia cruzou os braços, divertida.

— E o que uma professora do jardim pode ajudar um magnata da construção civil?

Afonso abriu mais o sorriso, mas os olhos desviaram para trás dela e seu sorriu morreu um pouco.

Maria Lúcia seguiu o olhar.

O pai.

Na porta. Encostado no batente com os braços cruzados e a carranca de quem estava pronto pra enterrar alguém hoje no quintal.

Ela respirou fundo. Voltou os olhos pra Afonso.

— Entra. Vai — disse, num tom rápido. — Eu te ajudo.

Ela seguiu na frente e chegou perto do pai, o pai dela era alto como afonso, mas tinha ombros mais largos. Maria Lúcia o olhou com um sorriso.— Papai, ele precisa da minha ajuda com algo. Vou o ajudar. Tudo bem?O pai olhou raivoso para Afonso.— Papai!O homem suspirou em um rosnado.— Na cozinha. — ele disse, vencido.Maria Lúcia entrou e logo após Afonso, com a cabeça abaixada como se fosse um cãozinho inofensivo.

Afonso entrou quase em silêncio. Os olhos analisando tudo: a cortina de renda, a toalha florida, os desenhos infantis na mesa.

— O que você estava fazendo? — perguntou, puxando uma cadeira.

— Atividades da semana. Coisas de professora — respondeu ela, separando folhas.

— Posso ajudar?

Maria Lúcia arqueou a sobrancelha.

— Achei que tinha um problema…

Afonso passou a mão na nuca, encabulado.

— É que você parece tão ocupada... achei que podia te ajudar um pouco. Só um pouco.

Ela sorriu.

— Você tem razão. Estou precisando mesmo de ajuda.

Ele inflou o peito, como se tivesse vencido uma guerra.

Mas antes que pudessem começar, um ruído alto de madeira arrastando os interrompeu.

Ambos olharam.

O pai de Maria Lúcia — puxando a poltrona com uma mão só — posicionando-a estrategicamente de frente pro arco da cozinha. Onde ele podia observar cada respiração do suposto pretendente de sua filha.

Afonso engoliu seco.

— Não se preocupa — sussurrou Maria Lúcia. — Ele só é protetor demais.

— Ele tá certíssimo — sussurrou Afonso de volta. — Eu faria o mesmo… se tivesse uma filha tão maravilhosa quanto você.

Maria Lúcia sentiu o rosto esquentar de novo.

Eles começaram a separar papéis. Silêncio confortável. Até que Afonso falou, sem olhar pra ela:

— Você gosta de ser professora?

— Amo — disse com sinceridade. — Amo essas crianças.

Ele estava vermelho. Literalmente corado. Encabulado.

— E o que você gostaria de fazer?

Maria Lúcia parou.

— Sobre o quê?

Afonso levantou os olhos, sem graça.

— Da vida.

Ela suspirou, olhou os papéis e depois mexeu distraidamente numa mecha do próprio cabelo.

— Eu já faço algo que amo. Ensino crianças pequenas, muitas em situação vulnerável. Mas...

Ela sorriu, meio sem jeito.

— Mas eu quero formar famílias.

Afonso a olhou. Os olhos azuis acesos.

— Tipo… ter um monte de filhos?

Maria Lúcia riu.

— Não é sobre filhos. É sobre continuidade. Eu quero ver as gerações se reunirem. Todo mundo junto, rindo, compartilhando vida. Vô, neto, bisneto… numa mesma mesa, toda semana. Jogando um jogo qualquer, a família se encontrando em toda data comemorativa.

Afonso sorriu de lado, apoiando o cotovelo na mesa.

— Gosto disso. Mas pra isso falta uma coisa...

— O quê?

— Um homem. Mas não qualquer homem. Um homem com “H” maiúsculo.

Maria Lúcia já ria.

— Bonito, forte, estável, sorriso encantador — ele dizia, olhando pras próprias mãos. — E com mãos fortes e calejadas.

Ela tapou o rosto rindo. Ele riu também.

— E onde vou achar um homem assim?

— Vou dar um jeito de passar mais por aqui — respondeu ele, sorrindo malandro.

Eles passaram o resto da tarde assim. Rindo. Trocando confidências. A mãe de Maria Lúcia trouxe biscoitos de polvilho e uma garrafa de Coca-Cola. O pai não saiu da poltrona. Mas fingia ler o jornal enquanto espiava.

Afonso foi embora ao entardecer, com os dedos sujos de cola e o coração... estranhamente leve.

E Maria, encostada na porta depois que ele saiu, olhou pro céu em tom pastel e pensou:

Nada disso devia estar acontecendo.

Mas talvez, só talvez… estivesse acontecendo por um motivo.

Os meses se passaram.

Mas Afonso não conseguiu esquecê-la.

Desde aquele maldito olhar na festa, desde o momento em que os dedos dela roçaram os dele — tão suaves, tão certos — alguma coisa dentro dele não estava mais no lugar.

Ele odiava isso.

Afonso Monteiro nunca foi mulherengo. Nunca precisou disso. Sabia que podia ter quem quisesse, mas raramente queria alguém. Achava o amor uma perda de tempo — conversa de gente fraca. Esse negócio de sentir, de ceder, de se importar… era feminino demais pro gosto dele. Sentimento era distração, e distração era inimiga do poder. Algo que apenas um homem como ele poderia entender.

Mas então apareceu Maria Lúcia.

E o nome dela começou a morar nos pensamentos dele com uma frequência incômoda.

Ele não entendia. Por que, diabos, ele queria ouvir a risada dela? Por que passava os dias lembrando do dourado dos cabelos dela brilhando sob a luz? Por que o corpo inteiro parecia mais quente só de pensar no jeito dela andar, falar e olhar? Por que ele queria saber o que ela gostava, o que sonhava, o que desejava?

E mais do que isso: por que, pela primeira vez na vida, ele queria dar essas coisas?

Afonso NUNCA, nunca se importou com o que os outros pensavam ou queriam.

Era doentio.

Era absurdo.

Era ela.

Afonso odiava escolas. Sempre odiou. As carteiras desconfortáveis, o cheiro de giz, a ideia de regras impostas. Mas, ultimamente, ele estava praticamente viciado nelas. Mais especificamente, nos projetos sociais que envolviam a construção de novas escolas municipais nos bairros mais pobres da cidade.

Algo que, honestamente, era responsabilidade da prefeitura. Mas ele não podia se aliar a eles — Maria Lúcia poderia pensar mal dele. Pensar que ele era mais um desses empresários que agem por interesse e visibilidade. E, por algum motivo idiota, ele não queria que ela pensasse mal.

Então, estava bancando tudo sozinho.

Milhares de reais em obra, material, equipe. Tinha desviado engenheiros de empreendimentos milionários para atender um cronograma que ninguém além dele exigia.

Por quê?

Porque ela dava aula. Porque ela acreditava no que fazia. Porque os olhos dela brilhavam quando falava das crianças e do futuro. E, por algum motivo que Afonso ainda não conseguia nomear, ele queria ver esse brilho de novo. Quantas vezes fossem necessárias.

Ela havia mencionado, casualmente, que sonhava estudar na França. Aprender mais sobre o método Montessori. Disse isso sem pedir nada — apenas como uma conversa boba entre uma garrafa de coca-cola e uma esperança no olhar.

Afonso escutou.

E, desde então, Paris virou objetivo estratégico.

Estava abrindo uma filial da Monteiro Inc. na França. Algo completamente precipitado, arriscado, burro. Mas era isso ou arranjar um motivo aceitável para chamá-la a ir em uma viagem com ele para lá. Ele não queria admitir que estava fazendo isso por ela, por que não era!

Mas talvez… talvez ela fosse gostar da ideia de aceitar uma carona sem compromisso a França com ele. Talvez topasse visitar Paris onde coincidentemente ele tinha uma filial e era o berço dos estudos dela. Talvez sorrisse ao ver a Torre Eiffel, talvez deixasse escapar um riso encantado, um suspiro…

Talvez deixasse que ele estivesse ali ao lado dela.

Tudo isso, é claro, em nome dos negócios.

Para ela.

Para ele… era outro tipo de negócio. Um mais íntimo, mais perigoso, mais intenso. Mas não era amor. Nunca. Amor era fraqueza. Amor era coisa de quem precisava de alguém. Ele não precisava de ninguém.

Só queria ver o sorriso dela. Ouvir o som da voz dela dizendo “obrigada” do jeitinho doce que ela dizia. Queria estender a mão e saber que ela aceitaria, mesmo que com um olhar desconfiado e uma frase atravessada.

E, principalmente, queria ser o motivo dela continuar acreditando que o mundo podia ter gente boa.

Mesmo que ele não fosse.

Mas por ela… talvez ele conseguisse fingir que era.

Era uma quinta-feira à noite. Afonso não fazia ideia de como tinha sido convencido àquilo.

Ali estava ele: um magnata jovem, rico, bonito, influente — e completamente deslocado no meio da rua, revirando o lixo das casas em busca de garrafas PET.

Tudo para “salvar o planeta”. Que se dane o planeta! Que morressem os ursos polares, os pinguins e a camada de ozônio poderia evaporar. Quem ligava pra isso?

Maria.

Maria ligava.

E era por isso que ele sorria como um idiota ao encontrar um pedaço grande de papelão seco e duro.

— Marilu! — ele chamou, empolgado como uma criança mostrando um tesouro. — Olha o que eu achei!

O sorriso que ela deu em resposta… Aquilo sim ia derreter as calotas polares.

— Nossa, Afonso, esse vai ser perfeito pro painel do teatro das crianças!

Ele inspirou fundo, inflando o peito com a pose de quem acabou de erguer um edifício inteiro com as próprias mãos.

— Eu sou ótimo em tudo relacionado a construção — declarou. — Pode confiar, o painel da sua turma vai ser o mais bonito da escola. Eu garanto.

Animado, Afonso continuou catando material como se disputasse um prêmio. Quando encontrou um verdadeiro tesouro — várias garrafas PET empilhadas juntas — se abaixou num movimento triunfante. Estava prestes a se gabar para Maria Lúcia quando uma sombra surgiu ao lado.

Um homem magro, com roupas surradas, se aproximava das garrafas.

— Boa noite, amigo — disse o desconhecido, com um sorriso torto e dentes faltando. — Tem bastante aí, né?

Afonso franziu o cenho. Se colocou entre o homem e as garrafas.

— Vai procurar em outro lugar. Isso aqui é meu.

— Você não parece precisar… — disse o homem, coçando a barba rala. — Eu vou trocar essas garrafas por umas moedas. Dá pra mim almoçar durante a semana.

Afonso arrancou uma das garrafas da mão dele.

— Não é problema meu. Vai catar lixo em outro canto.

O homem manteve a calma.

— Você parece ter condição… por que não compra umas garrafas e joga os líquidos fora?

Afonso bufou.

Ele logicamente já tinha pensado nisso, gostaria muito de ter feito. Ia pagar alguém pra fazer isso, inclusive. Mas Maria queria “procurar com ele”. Então cá estava.

Sem mais papo, Afonso fingiu que ia levantar a garrafa como se fosse bater — só para assustar o homem. Funcionou. O sujeito recuou e foi embora murmurando algo.

Com o campo livre, Afonso terminou de encher a sacola com um ar de vitória. Estava animado. Mal podia esperar para mostrar à Maria Lúcia o quanto tinha mandado bem. Talvez ela até desse um beijo na bochecha dele por isso.

E ela veio correndo logo em seguida.

— Uau, Afonso! Essa sacola tá cheia mesmo!

Ele deu um sorrisinho enviesado, do tipo que dizia “sou incrível, eu sei”. Estufou o peito outra vez.

— Eu sou forte, sabe? — disse com charme arrogante. — Posso levar as duas sacolas. Sorte sua. Sou a melhor opção para isso.

Mas então percebeu: ela não estava carregando nenhuma sacola.

— Espera aí… cadê a sua?

Maria Lúcia abaixou os olhos, envergonhada, e chutou uma pedrinha com o pé. Colocou as mãos para trás, sem jeito.

Afonso arqueou a sobrancelha.

— O que foi?

— Eu… dei as minhas garrafas pra um ambulante.

— Você o quê? — Afonso quase tropeçou para trás. Mas respirou fundo e tentou se conter. —Marialu, era pro trabalho das crianças, esqueceu?

— Eu sei, mas ele precisa mais do que eu.

Ele precisou de toda a força do universo para não rolar os olhos até o céu. Claro que ela caiu nesse papo furado.

Ela o chamou para seguir, e ele foi atrás. Mas à medida que se aproximava, reconheceu o homem.

O mesmo de antes.

O sujeito olhou para ele com um sorrisão canalha, e Afonso precisou travar os punhos para não resolver aquilo ali mesmo.

— Eu cuido disso — murmurou para Maria Lúcia, parando à frente do homem.

— Olha só — disse Afonso, com a postura altiva — essas garrafas são da… minha garota. Então, devolve.

— Ela me deu — retrucou o homem, inocente.

— Você enganou ela.

— Ela que ofereceu.

Maria Lúcia chegou logo atrás. O homem abriu outro sorrisão para ela. Afonso trincou o maxilar.

— Com licença — disse Maria Lúcia , educada. — Eu sei que você precisa mais do que a gente. Pode ficar com as minhas. E com as do Afonso também.

— QUÊ?! — Afonso perguntou, alto, escandalizado.

— Os papelões que você achou já são suficientes — explicou Maria Lúcia. — Dá pra fazer a atividade de amanhã com eles. Depois a gente consegue mais garrafas. A aula de reciclagem fica para depois.

O homem perguntou se ela era professora. Ela assentiu.

— Então essas primeiras que você me deu já bastam — disse ele. — Fiquem com o resto. Boa noite.

Afonso observou a cena como quem testemunha um milagre. Ainda bem que esse vagabundo teve bom senso, pensou. Ia ser um saco ter que voltar de madrugada e arrancar aquelas garrafas à força do sujeito.

Maria Lúcia se virou para ele, doce.

— Temos tudo. Vamos?

Afonso sorriu de lado, ainda emburrado — mas encantado com ela, como sempre.

— Você quer comer alguma coisa? Tomar um sorvete?

— Quero fazer algo pra você hoje — disse ela. — Por ter me ajudado tanto.

Ele a olhou com interesse.

— O quê?

— Um hambúrguer artesanal. Com cebolas caramelizadas.

Afonso vibrou como um adolescente.

— Isso!

Maria Lúcia riu.

— Você nem provou ainda.

— Não preciso. Se for você fazendo… — ele piscou. — É meu novo prato preferido.