O CEO que Eu Paguei

275 De outro ponto de vista - Parte XI


Antônio Fortenelle passou cinco semanas na França e, se alguém lhe perguntasse depois se a viagem tinha valido a pena, provavelmente responderia que havia sido uma das mais produtivas dos últimos anos. O programa executivo de liderança internacional por si só já justificava o tempo fora. Havia executivos de empresas de vários países, professores que tratavam estratégia de uma maneira menos acadêmica do que ele esperara e discussões que continuavam muito depois do fim das aulas, em jantares, cafés e encontros organizados entre participantes que sabiam perfeitamente que metade do valor daquele tipo de formação estava nas relações construídas ao redor dela. Antônio gostava desse ambiente. Gostava de ser colocado numa sala onde não bastava carregar o sobrenome Fortenelle ou apresentar números impressionantes da Fort Group. Ali havia gente igualmente preparada, alguns dirigindo empresas maiores, outros trabalhando em mercados que ele conhecia apenas de relatórios, e Antônio conseguia extrair alguma coisa de quase todas as conversas. Não tinha mais vinte anos e já não sentia necessidade de demonstrar o tempo inteiro que era a pessoa mais inteligente da mesa, embora continuasse gostando bastante quando percebia que estava entre as mais preparadas. Observava, perguntava, discordava quando achava necessário e, quando falava diante do grupo, sentia aquela velha satisfação de perceber que as pessoas prestavam atenção. Falar para uma plateia nunca fora um problema. Pelo contrário. Antônio gostava de organizar uma ideia e conduzir uma sala até a conclusão que queria.

A última semana tornou a viagem ainda melhor. Uma aproximação iniciada durante o programa acabara evoluindo para uma negociação real com a Weelii, uma empresa francesa de tecnologia extremamente conhecida e que Antônio acompanhava havia algum tempo. O negócio exigira mais conversas do que ele inicialmente previra, algumas adequações do lado da Fort Group e uma negociação particularmente cansativa sobre condições comerciais, mas fechou. Quando recebeu a confirmação final, já perto do fim da viagem, Antônio sentiu uma satisfação quase infantil que não demonstrou na reunião. Apertou mãos, agradeceu, falou sobre próximos passos e manteve a postura profissional até sair. Só depois, no corredor do hotel, pegou o telefone e ligou para Viviane.

Ela atendeu na segunda chamada.

— Se estiver me ligando para dizer que vai ficar mais uma semana, eu vou pessoalmente buscar você.

Antônio riu.

— Também senti sua falta, mãe.

— Cinco semanas, Antônio.

— Nós nos falamos quase todo dia.

— Chamada de vídeo não é a mesma coisa.

— Dependendo do horário que você me liga, é até melhor.

— Engraçadinho.

Ele encostou-se na parede.

— Fechamos.

Viviane ficou em silêncio por um segundo.

— A Weelii?

— A própria.

A mudança na voz dela foi imediata.

— Antônio!

Ele sorriu.

— Eu sabia que você ia gostar.

— Gostar? Eu estou há meses dizendo que essa aproximação fazia sentido.

— E eu estou há meses fazendo a aproximação.

— Não estraga meu momento.

Antônio riu.

Viviane começou a perguntar detalhes. Valor, escopo, tecnologia envolvida, prazos, quem participara da negociação, quais pontos ainda precisavam ser fechados juridicamente. Antônio respondeu quase tudo e prometeu mandar a documentação completa assim que estivesse organizada. No fim da conversa, ela voltou ao assunto realmente importante para ela.

— Quando você chega?

— Brasil, daqui a dois dias.

— Belo Horizonte?

— Sim.

— Vamos nos encontrar na convenção. Como combinamos.

Antônio sorriu. Eles conversaram sobre o hotel que ficariam e o horário que cada um chegaria. Viviane pediu para ele dar notícias.

Antônio tinha acabado de desembarcar no Brasil quando começou a receber áudios dela. O primeiro tinha pouco mais de um minuto. O segundo, quase três. No terceiro, Viviane já parecia pessoalmente ofendida pelo universo. Uma auditoria interna havia identificado falhas importantes de autorização em determinados processos e ela precisaria permanecer no Rio com parte da equipe para entender a extensão do problema. Não era algo que pudesse empurrar para a semana seguinte nem delegar sem antes saber exatamente o que tinha acontecido.

Antônio ouviu os áudios dentro do carro, ainda cansado da viagem.

Ligou imediatamente.

— O que aconteceu?

Viviane atendeu com a voz de quem já estava trabalhando havia horas.

— Não sei ainda.

— Então eu vou para o Rio.

— Não vem nada.

— Mãe!

— Você tem a convenção.

— A empresa vem antes da convenção.

— E representar a empresa na convenção também é trabalho.

Antônio passou a mão pelo rosto.

— Qual o tamanho do problema?

— Ainda estou descobrindo.

— Isso não é uma resposta tranquilizadora.

— Não era para ser.

Ele ficou em silêncio.

— Quer que eu vá?

Viviane suavizou a voz.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho. Quero você lá representando a Fort Group. Você já estava confirmado nos painéis, tem gente importante que eu queria que encontrasse e acabou de passar cinco semanas construindo relações fora. Não vai abandonar tudo porque eu encontrei uma auditoria ruim.

— Se for fraude...

— Se for fraude, eu descubro.

Aquilo era tão Viviane que Antônio quase sorriu.

— E o cliente?

— Eu contorno.

— Qual deles?

Ela disse.

Antônio reconheceu imediatamente.

— Posso ligar.

— Não precisa. Eu resolvo.

— Você adora dizer isso.

— Porque normalmente resolvo.

Ele riu.

Viviane suspirou.

— Eu só queria muito te ver.

A frase saiu de um jeito mais simples que as reclamações dos áudios.

Antônio recostou-se.

— Nós fazemos chamada de vídeo.

— Não é a mesma coisa.

— Você já falou isso.

— Porque é verdade.

Ele também queria vê-la. Não sentira uma saudade desesperadora porque, de fato, tinham se falado durante toda a viagem. Viviane sabia praticamente tudo que acontecera na França, inclusive coisas que Antônio não lembrava exatamente quando tinha contado. Mas cinco semanas era muito tempo sem estar fisicamente perto dela, sem jantar junto, sem entrar no escritório e encontrá-la implicando com alguma decisão, sem aquele tipo específico de presença que chamada nenhuma substituía.

— Eu termino aqui e vou para o Rio — disse.

— Ótimo.

— Provavelmente em poucos dias.

— Melhor ainda.

— Então para de fazer parecer que fui morar definitivamente na França.

— Cinco semanas.

Antônio riu.

— Trabalha, Viviane.

— Vai representar minha empresa direito.

— Sua?

— Minha enquanto eu estiver viva.

— Agora entendi por que você ainda não me deu tudo.

— Exatamente.

Ele desligou sorrindo.

A convenção em Belo Horizonte ocupou Antônio mais do que imaginava. Nos primeiros dois dias, mal teve tempo de pensar em outra coisa. Participou de painéis sobre estratégia, internacionalização e tecnologia, conversou com executivos que conhecia apenas por nome, reencontrou gente com quem já havia negociado e passou mais tempo em jantares empresariais do que gostaria de admitir. Gostava daquilo, no entanto. Gostava de circular. Não era o tipo de executivo que tratava networking como distribuição mecânica de cartões. Prestava atenção nas pessoas. Sabia quem tinha mudado de empresa, quem estava entrando num setor novo, quem tinha acabado de vender participação, quem parecia satisfeito demais ao falar de uma aquisição ainda não anunciada. Viviane o ensinara havia anos que a parte mais importante de certas reuniões acontecia quando a reunião formal terminava. Antônio aprendera muito bem.

Num dos painéis, falou por quase quarenta minutos para uma plateia cheia e saiu especialmente satisfeito. Gostava da sensação de conduzir o raciocínio de uma sala. Havia alguma coisa quase física em perceber dezenas ou centenas de pessoas quietas enquanto ele falava. Não precisava aumentar a voz. Não precisava impressionar com excesso. Conhecia o assunto, sabia onde queria chegar e tinha aprendido a usar silêncio tanto quanto palavras. Depois, várias pessoas o procuraram. Recebeu convites, trocou contatos, marcou conversas futuras.

No fim do evento, já havia formado um grupo agradável de homens e mulheres mais ou menos da sua idade. Alguns eram herdeiros como ele, outros tinham construído carreira executiva sem relação familiar com as empresas em que trabalhavam, havia uma mulher que dirigia uma companhia de logística, um executivo do setor financeiro, dois empresários ligados a tecnologia e um homem cuja família possuía propriedades no Triângulo Mineiro. Nenhum parecia especialmente disposto a voltar imediatamente para a rotina.

Foi esse último que sugeriu:

— Vou para Uberlândia amanhã.

Antônio estava terminando uma bebida.

— Meus sentimentos.

O homem riu.

— Tenho uma fazenda lá perto.

— Melhorou.

— Vamos ficar uns dias. Vocês podiam ir.

Uma das mulheres se interessou.

— Têm cavalos?

— Tem.

Antônio levantou os olhos.

— Que cavalo?

— Você quer pedigree agora?

— Quero saber se você chama qualquer coisa de cavalo.

— Fortenelle virou fiscal de cavalo?

— Sempre fui.

A conversa virou provocação e, meia hora depois, a ideia já tinha deixado de ser apenas conversa.

Antônio verificou a agenda.

Podia.

O problema era Viviane.

Mandou uma mensagem.

“Precisa de mim no Rio?”

A resposta demorou alguns minutos.

“Não. Já identificamos parte das falhas. Estou com jurídico, auditoria e controles internos. Vá fazer o que tiver que fazer.”

Antônio respondeu:

“A convenção acabou.”

Viviane mandou apenas:

“Então venha para casa.”

Ele sorriu.

Digitou:

“Acho que vou ficar mais uns dias em Minas. Fui convidado para uma fazenda com o pessoal daqui.”

Dessa vez, o áudio chegou imediatamente.

— Antônio Fortenelle, você ficou cinco semanas fora do país, chegou no Brasil e agora resolveu passear em fazenda em vez de vir ver sua mãe?

Ele respondeu por áudio.

— Eu perguntei se você precisava de mim.

— Profissionalmente.

— Existe outra categoria?

— Engraçadinho.

— Quatro dias.

— Quatro?

— Talvez três.

— Vai com quem?

Antônio citou alguns nomes.

Viviane conhecia dois.

— Tenha juízo.

Ele respondeu:

— Juízo é meu segundo nome.

A resposta dela veio em texto.

“Isso é exatamente o que alguém sem juízo diria.”

Antônio riu sozinho.

E foi.

A propriedade ficava a uma distância confortável de Uberlândia e era exatamente o tipo de lugar em que gente rica conseguia passar quatro dias sem precisar decidir se queria descansar ou se divertir. Havia uma casa grande, piscina, área externa enorme, cavalos bem cuidados, quadriciclos, funcionários suficientes para que ninguém precisasse se preocupar com nada, uma represa relativamente próxima e espaços construídos para transformar qualquer noite comum em festa. Antônio chegou imaginando que ficaria dois dias.

Ficou quatro.

Durante o dia, cavalgavam, nadavam, pegavam quadriciclos, jogavam, conversavam, comiam demais e às vezes saíam para conhecer algum lugar da região. Antônio gostou especialmente dos cavalos e, depois da primeira manhã, o dono da propriedade percebeu que não estava lidando com alguém que apenas montava ocasionalmente por diversão.

— Você monta mesmo.

Antônio olhou para ele.

— Eu falei.

— Todo rico diz que monta.

— E todo dono de fazenda acha que tem cavalo excelente.

— Está criticando meus cavalos?

— Ainda não.

O homem riu.

À noite, o grupo aumentava. Apareciam amigos de amigos, gente da região, empresários, mulheres que alguém conhecia, pessoas que tinham passado o dia em Uberlândia e resolviam dirigir até lá. Havia churrasco, vinho, cerveja, música e conversas que começavam em mercado e terminavam em coisas completamente idiotas.

Antônio se divertiu de verdade.

Não ficou olhando telefone esperando notícia de contrato.

Não passou o tempo todo falando da Fort Group.

Bebeu.

Riu.

Nadou de madrugada numa das noites porque alguém teve a ideia.

Cavalgou cedo mesmo tendo ido dormir tarde demais.

E conheceu uma mulher bonita e divertida.

Estava ali através de uma amiga do grupo e não pareceu especialmente impressionada quando descobriu quem Antônio era, o que ele achou agradável. Conversaram durante parte da noite, beberam juntos e, em algum momento, começaram a se beijar.

Não houve história. Nem promessa. Nem necessidade de transformar aquilo em algo maior.

Ela dormiu com ele.

Na manhã seguinte tomaram café na mesma mesa com outras pessoas, trocaram uma provocação sobre quem tinha roubado mais cobertor durante a noite e seguiram normalmente. Ficaram juntos novamente antes do fim daqueles dias. Depois trocaram contato porque parecia educado e talvez algum dia se encontrassem outra vez.

Antônio não pensou muito mais nisso.

Essa era a vida dele naquela fase.

Não estava esperando ninguém. Não procurava grande amor. Não se sentia incompleto.

Tinha trabalho, amigos, mulheres, viagens, dinheiro e uma família à qual era profundamente ligado.

E estava bem.

Foi durante uma conversa aparentemente irrelevante, no terceiro dia, que surgiu a Plano & Forma.

Estavam sentados na área externa depois do almoço, parte do grupo ainda discutindo se sairia para cavalgar ou esperaria o calor diminuir, quando um dos empresários começou a reclamar de problemas que tinha encontrado numa das próprias empresas.

— Eu estava perdendo dinheiro há meses e ninguém conseguia me explicar onde.

Antônio levantou os olhos.

Problema empresarial era uma das poucas coisas capazes de recuperar imediatamente sua atenção mesmo durante férias.

— Quanto?

O homem riu.

— Você está de folga.

— Quanto?

Ele explicou por alto.

Falou de processos ruins, controles duplicados, falhas que não eram grandes individualmente, mas que juntas estavam criando desperdício suficiente para incomodar.

— E resolveu?

— Terceirizei.

Antônio fez uma expressão de pouco entusiasmo.

— Consultoria?

— Mais ou menos.

— Se você falar uma dessas empresas que entra com vinte pessoas, faz PowerPoint durante seis meses e vai embora deixando o mesmo problema...

O homem riu.

— Não. Plano & Forma.

Antônio ficou quieto.

— Nunca ouvi falar.

— São de Campinas.

— O que fazem?

— Entram justamente para achar buraco.

Isso chamou atenção.

— Que tipo?

— Processo. Controle. Eficiência. Gente fazendo coisa que não precisa, operação que está passando por três mãos quando podia passar por uma, risco que ninguém está vendo. Essas coisas.

Antônio começou a perguntar.

Quem tinha liderado o projeto? Quanto tempo levara? Como trabalhavam? Entravam só como diagnóstico ou ajudavam a implementar? Tinham experiência em empresa grande?

O colega respondeu o que sabia.

— A equipe é boa. Pelo menos a que foi para nós.

Antônio pegou o telefone.

— Tem contato?

O homem olhou para ele.

— Agora?

— Você acabou de recomendar.

— Estamos numa fazenda.

— Meu telefone funciona em uma fazenda.

Recebeu o contato.

Mandou uma mensagem curta primeiro.

Depois, quando teve resposta, ligou.

Em menos de meia hora já havia deixado encaminhada uma conversa.

A Plano & Forma estava em Campinas.

A coincidência era conveniente.

A Fort possuía uma filial importante na região e Antônio vinha querendo olhar algumas coisas pessoalmente havia algum tempo. Poderia passar pela unidade, conversar com a gestão local e aproveitar para conhecer a consultoria que acabara de lhe despertar interesse.

No último dia, enquanto organizava a volta, ligou para Viviane.

— Mudança de plano.

Ela suspirou antes mesmo que ele explicasse.

— Você não vem para o Rio.

— Vou.

— Quando?

— Depois de Campinas.

Silêncio.

— Antônio Fortenelle.

Ele riu.

— Descobri uma empresa interessante.

— Claro que descobriu uma empresa interessante durante quatro dias numa fazenda.

— Foi networking.

— Isso é o que homens ricos chamam de beber e conversar.

— Houve cavalos também.

— Melhorou muito.

Antônio contou sobre a Plano & Forma.

Viviane ficou imediatamente mais interessada. Perguntou o que faziam. Ele explicou o pouco que sabia.

— Nunca ouvi falar — ela disse.

— Nem eu.

— E isso te deixou interessado?

— Justamente.

Viviane riu.

— Você já marcou reunião.

Não foi pergunta.

— Sim.

— Para quando?

Ele disse.

— E vai aproveitar para olhar Campinas.

— Exato.

— Está vendo por que eu digo que você precisa ter juízo? Você transforma férias em auditoria.

— Você me criou.

— Não coloque isso na minha conta.

Antônio sorriu.

— Como estão as autorizações?

A voz dela mudou de volta para o trabalho.

— Melhor. Já sabemos onde começou.

— Quer que eu vá?

— Não.

— Tem certeza?

— Antônio!

— Perguntar não custa.

— Vá para Campinas. Veja essa empresa. Depois venha para casa.

Ele riu.

— Sim, senhora.

— E me liga quando chegar.

— Você sabe que eu tenho quase quarenta anos, não sabe?

— E eu continuo sendo sua mãe.

Isso encerrava qualquer discussão.

Antônio desligou ainda sorrindo.

Poucos dias antes, estava na França encerrando uma negociação internacional. Depois atravessara uma convenção em Belo Horizonte, passara quatro dias numa fazenda cercado de gente interessante, cavalos, bebida e uma mulher cujo sobrenome talvez esquecesse em alguns meses. Agora seguiria para Campinas porque alguém, durante uma conversa depois do almoço, mencionara uma empresa que talvez tivesse alguma coisa interessante para oferecer à Fort Group.

Nada parecia extraordinário.

Não havia pressentimento.

Não havia sensação de que alguma coisa estava prestes a acontecer.

Antônio apenas seguia a própria vida da maneira como sempre fizera: aproveitando oportunidades, conhecendo pessoas, fazendo negócios e indo para onde a curiosidade o levava.

A Plano & Forma, naquele momento, era apenas mais uma empresa numa agenda já cheia.

Antônio ainda não sabia que, muito em breve, deixaria de se lembrar dela pelo trabalho que fazia.

Lembraria pelo nome de uma mulher.

Antônio chegou a Campinas ainda de bom humor pelos dias que passara em Minas, mas ao final da terceira reunião com a Plano & Forma já começava a se arrepender seriamente de ter levado tão a sério a recomendação recebida na fazenda. Três dias entrando naquela mesma sala, conversando com equipes diferentes e assistindo apresentações sobre eficiência operacional, governança, reestruturação de processos, indicadores, controles internos, mapeamento de riscos e uma quantidade de metodologias que ele conhecia bem demais para se impressionar apenas porque alguém lhes dera nomes novos. Nada era ruim. Esse era justamente o problema. A Plano & Forma parecia uma empresa competente, organizada, tinha clientes respeitáveis e profissionais que claramente sabiam o que estavam fazendo, mas Antônio não havia incluído Campinas numa agenda já apertada para comprar algo que outras dez consultorias poderiam entregar. Girava lentamente a caneta entre os dedos enquanto um dos consultores explicava resultados obtidos em um projeto industrial e, quando o homem começou a entrar novamente em percentuais de redução e ganhos de eficiência, interrompeu.

— Já entendi.

O consultor parou. Antônio percebeu o pequeno desconforto na sala, mas não estava tentando ser grosseiro. Estava cansado.

— Não estou dizendo que isso não funciona. Estou dizendo que não foi isso que eu vim procurar.

A mulher sentada do outro lado da mesa fechou parcialmente a apresentação e o observou com mais atenção.

— Talvez estejamos mostrando as soluções erradas.

Antônio levantou os olhos. Aquilo, pelo menos, era uma observação honesta.

— Talvez.

Ela esperou um instante.

— O que exatamente você está procurando?

— Se eu soubesse exatamente, não estaria há três dias aqui.

Houve um sorriso contido na ponta da mesa, mas Antônio não acompanhou. Apoiado sobre os antebraços, explicou novamente o que encontraram na Fort Group. A auditoria identificara falhas de autorização entre unidades, situações em que etapas que deveriam permanecer independentes acabavam concentradas e exceções que se repetiam até começarem a funcionar como parte informal do processo. Viviane já estava cuidando daquilo no Rio. O que ele queria não era alguém redesenhando um fluxo correto que a própria Fort Group já conhecia.

— Eu sei onde a assinatura deveria acontecer. Minha mãe também sabe. Controles internos sabe. Auditoria sabe. Não quero um fluxograma bonito me dizendo isso. Quero entender por que uma pessoa consegue ignorar a regra e continuar operando normalmente sem que o próprio sistema perceba.

A mulher permaneceu em silêncio. Antônio continuou:

— Quero alguma coisa que encontre a fraqueza antes de alguém precisar tropeçar nela.

Ela olhou para o consultor ao lado. Foi uma troca rápida, mas Antônio percebeu imediatamente.

— O quê? — perguntou.

A mulher tornou a encará-lo.

— Temos uma proposta que talvez esteja mais próxima do que você está descrevendo.

Antônio recostou-se.

— E vocês resolveram mostrar no terceiro dia?

— Não é exatamente um produto comercial.

— Então o que é?

— Todo ano temos um programa interno de inovação. Pessoas da equipe podem desenvolver metodologias, ferramentas e soluções a partir de problemas identificados nas operações dos clientes. Alguns projetos passam por uma banca técnica e recebem desenvolvimento preliminar. — Antônio fez um gesto curto para que ela continuasse. A consultora abriu outra pasta no computador. — Este ficou entre os selecionados.

O primeiro slide não provocou reação alguma. Antônio continuou brincando com a caneta. No segundo, prestou um pouco mais de atenção. No terceiro, a caneta parou. Ele inclinou o corpo para a frente.

— Volta.

A mulher retornou um slide. Antônio leu novamente, mais devagar. Aquilo não era apenas outra matriz de riscos com caixas coloridas. O modelo cruzava responsabilidades, autorizações, recorrência de exceções, pontos de dependência entre áreas e mudanças de responsabilidade entre unidades. Mais interessante ainda, não tratava controle apenas como uma etapa formal que deveria existir. A lógica parecia procurar justamente os lugares em que o desenho da operação permitia que alguém contornasse uma regra sem que o desvio parecesse imediatamente um desvio. Uma exceção isolada era uma exceção. Dez exceções semelhantes começavam a revelar alguma coisa. Uma autorização dada por pessoa errada podia ser erro; uma sequência de autorizações atravessando as mesmas posições, unidades e dependências podia indicar que o problema estava no próprio desenho. Antônio olhou novamente. Finalmente. Não era revolucionário a ponto de reinventar controles internos, mas havia raciocínio ali. Alguém tinha pensado no problema da maneira que ele estava tentando explicar havia três dias.

— Isso aqui — disse.

— Sim?

— Quem fez?

— Foi desenvolvido dentro do programa de inovação.

Antônio ergueu os olhos.

— Eu ouvi essa parte. Quem fez?

A mulher hesitou um instante.

— Uma funcionária nossa.

— Sozinha?

— A concepção original, sim. Depois passou pela banca técnica, recebeu algumas sugestões, alguns pontos foram refinados...

— Não perguntei quem revisou.

O homem ao lado respondeu antes dela.

— A ideia e o desenho original foram dela.

Antônio largou a caneta sobre a mesa.

— Continua.

Os slides começaram a passar e, pela primeira vez em três dias, suas interrupções vinham porque queria entender, não porque queria acelerar a reunião. Perguntou como certos indicadores tinham sido construídos, se o modelo diferenciava uma exceção formalmente autorizada de um desvio de processo, como tratava dependências entre unidades, como cruzava recorrência e responsabilidade, se já havia sido testado em situação real e por que não tinham transformado aquilo numa solução comercial. Algumas respostas vieram com facilidade. Em outras, a mulher precisou consultar material. Depois de mais duas perguntas, Antônio percebeu exatamente o que estava acontecendo.

— Você não conhece isso inteiro.

Ela não fingiu.

— Não como a autora.

— Então quero falar com ela.

Houve outra pequena troca de olhares.

Antônio notou.

— Ela não está aqui — respondeu a consultora.

— Onde está?

— Alocada em um cliente.

— Funcionária de vocês?

— Sim.

— Nome.

A ficha apareceu na tela.

— Se chama Helena.

O nome não produziu absolutamente nada nele. Antônio passou os olhos pelas informações de maneira quase automática. Formação, experiências anteriores, cursos, cargo, trajetória. Era um currículo bem normal, nada nele explicava imediatamente o projeto que acabara de ver. Esperava alguma grande escola internacional, passagem por consultoria famosa, talvez anos em auditoria ou controles. Não havia. A fotografia ao lado do nome mostrava uma mulher bonita. Antônio percebeu isso da mesma maneira como perceberia que alguém na sala usava um relógio da marca que ele gostava: registrou e seguiu adiante.

— Essa é ela?

— Sim.

Antônio voltou ao currículo.

— E ela fez aquilo?

— Fez.

Aquilo despertou mais interesse do que a foto.

“Então eu quero essa mulher no projeto.”

Não por charme.

Por capacidade.

Se aquele raciocínio tinha saído daquela profissional, queria colocá-la diante dos processos reais da Fort Group e ver até onde iria quando deixasse de trabalhar com um modelo teórico e encontrasse as contradições de uma empresa daquele tamanho.

— Onde ela está alocada?

— Em Minas.

— Qual cliente?

A consultora demorou apenas uma fração de segundo.

— Monteiro Inc.

Antônio levantou os olhos.

Ficou parado por um momento. Depois sorriu. Não um sorriso grande. Só o suficiente.

Ah.

Agora aquilo ficara ainda melhor.

— Monteiro Inc.? — repetiu.

— Sim.

Antônio tornou a olhar a ficha de Helena.

A satisfação foi imediata e completamente desnecessária.

Ela não era funcionária dos Monteiro. Não pertencia à empresa. Era uma profissional da Plano & Forma prestando serviço dentro de uma operação deles. Portanto, tecnicamente, ele não estaria tirando nada de ninguém.

Tecnicamente.

O fato de uma profissional que criara a primeira metodologia capaz de lhe despertar verdadeiro interesse em três dias estar naquele momento trabalhando dentro da Monteiro Inc. produziu nele um prazer mesquinho que Antônio não teve a menor vontade de combater.

“Heitor vai adorar.”

Nem sabia se Heitor conhecia Helena. Provavelmente não.

Uma empresa daquele tamanho tinha centenas de funcionários, prestadores e terceiros circulando por diferentes operações.

Não importava.

Antônio gostou da ideia mesmo assim.

— Existe algum problema? — perguntou a consultora, percebendo a expressão.

— Nenhum.

— A alocação dela na Monteiro...

— Ela é funcionária da Monteiro Inc.?

— Não.

Antônio recostou-se.

— Então não existe problema.

A consultora assentiu, ainda um pouco desconfiada.

— Se houver interesse, podemos adaptar a metodologia para a realidade da Fort Group. Temos profissionais seniores muito preparados para conduzir a implantação e Helena poderia participar tecnicamente...

— Não.

A mulher parou.

— Não?

— Não quero vocês trazendo a ideia dela para uma equipe que vai precisar aprender a pensar como ela pensou depois de chegar na Fort Group.

— Temos pessoas que conhecem a metodologia.

— Conhecem ou receberam apresentação dela?

Silêncio.

Antônio já tinha a resposta.

— Quero a Helena.

A frase saiu simples.

A mulher abriu a pasta diante de si.

— Podemos verificar a disponibilidade dela para reuniões remotas durante o projeto.

— Também não.

Ela ergueu os olhos.

— Não?

— Eu quero ela no Rio.

— Presencialmente?

— Na sede da Fort Group.

A equipe pareceu precisar reorganizar a proposta mentalmente.

— Antônio, Helena está atualmente alocada em Minas. Uma mudança temporária de cidade altera bastante o custo.

— Eu sei.

— Teríamos hospedagem, deslocamento, provavelmente ajuda de custo, além da própria reorganização da alocação dela...

— Coloquem na proposta.

A mulher ficou em silêncio.

Antônio apontou para os slides.

— Eu não estou procurando a proposta mais barata. Estou procurando alguém que resolva o problema.

— Não necessariamente precisaríamos deslocá-la integralmente. Ela poderia trabalhar de Minas e viajar em momentos específicos.

Antônio balançou a cabeça.

— Não.

— Por quê?

— Porque eu quero essa metodologia aplicada dentro da operação. Quero ela sentada com controles internos, auditoria, jurídico e as equipes que conhecem os processos da Fort Group. Quero que possa perguntar, levantar e ir até uma área, olhar documentação, conversar com quem executa. Não quero uma pessoa aparecendo numa tela duas vezes por semana tentando entender uma empresa desse tamanho à distância.

A consultora fez uma anotação.

— A Fort Group tem equipe própria suficiente para apoiar?

Antônio quase sorriu.

— Temos profissionais excelentes.

— Então imagina uma composição com Helena como responsável pela metodologia e a equipe da Fort Group apoiando a execução?

— Inicialmente.

— Inicialmente?

— Se percebermos que falta braço, vocês colocam mais gente.

Ela assentiu devagar.

— Da Plano & Forma.

— Naturalmente.

Antônio voltou a olhar a tela.

— Não estou contratando vocês para substituir minha equipe. Estou contratando uma capacidade que eu ainda não tenho dentro dela.

A resposta pareceu agradar a mulher mais do que as anteriores.

— Nesse formato, Helena precisaria ficar no Rio durante uma parte considerável do projeto.

— Sim.

— Isso vai aparecer no preço.

— Eu já entendi.

— Quero deixar claro porque pode aumentar bastante a proposta.

Antônio fechou a caneta.

— Coloque passagem. Hospedagem. Alimentação. Deslocamento. O que vocês precisarem colocar. Só não me mandem uma proposta mais barata trocando a pessoa que criou isso por alguém que assistiu à apresentação dela.

O consultor ao lado interferiu:

— Antônio, precisamos verificar também a possibilidade de transição da alocação atual.

Antônio olhou para ele.

— Verifiquem.

— O cliente atual pode solicitar continuidade.

Aquilo quase o divertiu.

— A Monteiro Inc. pode solicitar o que quiser.

O homem percebeu o tom.

Antônio continuou antes que aquilo parecesse mais do que deveria.

— Helena é funcionária de vocês. Vocês organizam a própria equipe. Eu estou dizendo o que a Fort Group precisa para fechar.

Era uma resposta completamente profissional e verdadeira.

Só não era toda a verdade.

Antônio queria Helena porque o projeto era dela. Mas agora também queria Helena porque sabia de onde ela sairia.

E, embora jamais admitisse aquilo numa negociação, a ideia de pegar uma profissional excelente alocada dentro da Monteiro Inc. e colocá-la durante meses dentro da sede da Fort Group tinha melhorado consideravelmente seu humor.

Uma pequena vitória.

Que ele esfregaria como sempre na cara de Heitor Monteiro.

A consultora fechou parte dos documentos.

— Então, para confirmar: a Fort quer contratar a metodologia, com Helena presencialmente no Rio e participação direta na implantação. Utilizamos a equipe interna da Fort Group em conjunto com ela e, caso seja necessário ampliar capacidade, alocamos outros profissionais nossos.

— Isso.

— E remoto não atende.

— Não.

— Mesmo com viagens periódicas?

— Não.

Ela anotou.

— Certo.

Antônio se levantou.

— Agora estamos conversando.

Depois de três dias, era a primeira vez que realmente acreditava que poderiam fechar alguma coisa.

A mulher levantou também.

— Vou precisar tratar isso internamente e falar com a gestão responsável pela alocação dela.

— Façam.

— Pode levar algum tempo.

— Vocês têm meu contato.

Ele pegou o telefone e começou a organizar as próprias coisas.

A consultora ainda olhou para a tela.

— Se conseguirmos a Helena nesse formato, fechamos?

Antônio tornou a encarar o projeto.

— Se o restante da proposta fizer sentido.

Ela sorriu.

— Claro.

Ele caminhou até a porta.

— Mas mandem já com o custo real de trazer ela para o Rio. Não quero perder mais uma reunião discutindo uma coisa que eu já disse que quero.

— Entendido.

Antônio abriu a porta.

Antes de sair, seus olhos passaram outra vez pela ficha ainda aberta.

Helena, profissional da Plano & Forma. Boa o suficiente para criar aquilo. Atualmente dentro da Monteiro Inc. Em breve, se dependesse dele, dentro da Fort Group.

Antônio sorriu de leve.

Dessa vez, guardou o nome.

Não pela mulher da fotografia.

Pelo projeto.

E, admitiria apenas para si mesmo, porque tirar uma coisa boa de dentro da Monteiro sempre tornava qualquer negócio um pouco mais interessante.

Antônio permaneceu em Campinas por mais duas semanas além do que imaginara inicialmente. A visita à filial da Fort Group, que deveria ser rápida, abriu outras frentes; havia parceiros comerciais que valia a pena encontrar pessoalmente, algumas negociações que ele preferia resolver olhando para as pessoas e, no meio disso, a Plano & Forma voltou a procurá-lo. Dessa vez a conversa foi objetiva. Tinham reorganizado a proposta, calculado o custo da transferência temporária da profissional para o Rio, previsto hospedagem, deslocamentos, estrutura de apoio e aceitado a condição de Antônio: Helena Ribeiro Campos participaria presencialmente da implantação na sede da Fort Group. Começaria na segunda-feira. Antônio assinou satisfeito. Gostava da metodologia, gostava ainda mais de ter conseguido exatamente a configuração que queria e, num nível muito menos nobre que não fazia questão de examinar, ainda achava divertido saber que uma profissional excelente deixaria uma operação da Monteiro Inc. para passar os meses seguintes trabalhando dentro da Fort Group. Já tinha até marcado um almoço com alguns executivos para segunda-feira. Se Heitor estivesse entre eles, e provavelmente estaria, Antônio encontraria uma maneira suficientemente elegante de mencionar a nova aquisição sem parecer que tinha organizado toda a conversa só para aquilo. Não tinha organizado. Mas também não desperdiçaria a oportunidade.

Se a Monteiro resolvesse pressionar a Plano & Forma para mantê-la, Antônio já sabia exatamente o que faria. Contrataria Helena. O currículo que vira não era extraordinário no papel, mas o projeto era, e ele confiava mais no que uma pessoa conseguia produzir do que na quantidade de nomes importantes impressos numa formação. Uma proposta direta da Fort Group, no Rio, dentro da sede, com salário e posição adequados, dificilmente seria recusada por uma profissional naquela fase da carreira. Para Antônio, aquilo estava praticamente resolvido. Helena começaria segunda-feira. Ele conheceria pessoalmente a mulher que criara a metodologia, descobriria se a execução correspondia à ideia e, caso correspondesse, talvez a Plano & Forma descobrisse tarde demais que havia levado uma de suas melhores profissionais para dentro da empresa errada. Era negócio. Competência precisava ser reconhecida. Se ele ainda sentia algum prazer adicional por ela estar saindo justamente de um projeto dos Monteiro, ninguém precisava saber.

Na sexta-feira, decidiu finalmente voltar ao Rio. Depois de França, Belo Horizonte, Uberlândia e Campinas, começava até a concordar que Viviane tinha motivos para reclamar. Passaria o fim de semana com ela, ouviria pessoalmente o relatório completo sobre as falhas encontradas pela auditoria, deixaria a mãe repetir pelo menos cinco vezes que cinco semanas na França tinham sido um absurdo e, na segunda, estaria novamente na sede. Era um plano simples. O voo também seria simples. Antônio embarcou sem qualquer expectativa além de chegar, tomar banho no própria apartamento e provavelmente acabar jantando na mansão porque Viviane fingiria que não tinha preparado nada especial enquanto todos os funcionários saberiam que tinha.

Então chegou ao assento e viu a mulher sentada ao lado.

A primeira reação não teve profundidade alguma.

Antônio simplesmente gostou muito do que viu. Muito mesmo.

Foi físico antes de ser qualquer outra coisa. O rosto bonito, os traços que prenderam seus olhos um segundo além do necessário, o cabelo, o corpo, e principalmente aquele tom de pele mais escuro que sempre lhe provocara uma atração imediata. Não era preferência exclusiva, muito menos uma obsessão que Antônio algum dia tivesse parado para nomear. Tivera mulheres de aparências completamente diferentes. Mas reconhecia em si aquela queda específica: pele morena, quente, um contraste que achava particularmente sensual. Aquela mulher acertava isso nele com facilidade. A constatação veio simples, adulta e quase preguiçosa.

Bonita.

Depois:

Muito bonita.

E então aquela autoconfiança habitual tomou o restante do caminho.

Antônio não precisava fantasiar que todas as mulheres o queriam. Tinha experiência suficiente para saber que não era assim. Mas também tinha experiência suficiente para reconhecer o próprio efeito. Era bonito, sabia se vestir, sabia conversar, tinha dinheiro sem precisar exibi-lo ostensivamente, inteligência suficiente para não depender apenas da aparência e uma vida social que lhe ensinara cedo como deixar alguém à vontade quando desejava. Flertar não era uma atividade que exigisse planejamento. Acontecia. Antônio percebia interesse, devolvia, testava até onde a outra pessoa queria ir e, se os dois quisessem a mesma coisa, o resto raramente era complicado.

Por isso a avaliação inicial foi quase automática.

Uma mulher muito bonita sentada ao seu lado. Algumas horas de voo. Uma conversa. Talvez um telefone no final.

Talvez mais.

Nada especialmente extraordinário.

Foi com essa segurança que começou. E foi exatamente essa segurança que aquela mulher começou a desmontar de maneira irritantemente rápida.

Ela não reagia certo.

Ou, mais precisamente, não reagia da maneira a que Antônio estava acostumado.

Não ficava sem graça quando ele provocava. Não parecia particularmente impressionada. Não tinha aquele pequeno instante de reconhecimento que ele via tantas vezes quando alguém entendia quem era, mesmo que o sobrenome só aparecesse depois. Quando Antônio avançava um pouco na conversa, ela não recuava delicadamente para deixá-lo avançar mais. Cortava.

E cortava bem.

Não com grosseria vazia.

Com respostas claras.

Aquilo mudou tudo.

Se ela simplesmente tivesse sido antipática, Antônio provavelmente teria perdido o interesse depois de alguns minutos. Havia mulheres bonitas demais no mundo para que precisasse transformar hostilidade em projeto pessoal. Mas ela não era fria. Esse era justamente o problema. Em alguns momentos parecia determinada a fazê-lo entender que não conseguiria nada. Em outros, permanecia na conversa. Respondia. Reagia. Às vezes parecia quase divertir-se antes de lembrar que não deveria dar a ele aquela satisfação.

Antônio começou a observá-la de verdade.

Esse era sempre o primeiro sinal de que alguma coisa tinha saído do lugar.

Quando uma mulher o atraía apenas fisicamente, Antônio não precisava entendê-la. Desejo era suficientemente simples. Podia apreciá-la, conversar, passar uma noite ou alguns meses ao lado dela, gostar de coisas específicas e ainda assim não sentir necessidade alguma de desmontar cada contradição. Aquela mulher, porém, começou a produzir perguntas.

Ela era arisca, mas não fria.

Segura, mas não o tempo inteiro.

Havia momentos em que sua postura dizia que não precisava de absolutamente ninguém e outros, pequenos demais para que ela provavelmente soubesse que mostrava, em que Antônio percebia uma hesitação, um desconforto ou uma vulnerabilidade rapidamente escondida.

Ela conseguia irritá-lo e fazê-lo querer rir quase na mesma frase.

E o pior: Antônio começou a gostar da resistência.

Não porque precisasse de uma mulher que dissesse não para sentir desejo. Isso seria uma vulgaridade que nem sequer combinava com a experiência dele. O que o prendia era o fato de não conseguir prever a próxima reação. Antônio funcionava muito bem quando compreendia o sistema. Pessoas também eram sistemas, embora jamais ele dissesse assim em voz alta. Havia sinais. Padrões. Aberturas. Recuos. Ele sabia conversar com quase qualquer pessoa porque aprendia rapidamente essas regras.

Com ela, cada resposta parecia alterar um pouco o mapa.

Então a curiosidade entrou junto com o desejo.

Quem é você?

Ainda não no sentido grande que aquela pergunta ganharia depois.

Naquele momento era simplesmente um homem intrigado.

Por que aquela mulher bonita parecia tão empenhada em manter distância e, ainda assim, continuava conversando? O que havia por baixo daquele humor defensivo? Ela sempre era assim ou ele tinha recebido um tratamento especial? Por que, de vez em quando, havia alguma coisa quase macia nela antes que a expressão se fechasse novamente?

Mesmo assim continuava.

Talvez porque, a cada tentativa fracassada de impressioná-la, surgisse outra pequena coisa que queria descobrir.

E havia atração.

Muita.

Antônio também não era hipócrita a ponto de fingir que aquilo era uma conexão puramente intelectual nascida a dez mil metros de altitude. A proximidade dela o afetava. O perfume. A pele. O movimento do corpo naquele espaço pequeno. A voz quando respondia mais baixo. O rosto quando se irritava.

Ela o excitava.

Mais do que Antônio considerava razoável para uma desconhecida com quem não tinha conseguido avançar absolutamente nada.

Em determinado momento, percebeu isso com clareza suficiente para sentir uma pontada de vergonha de si mesmo.

“Meu Deus, Fortenelle.”

Quase riu internamente.

Cinco semanas na França, dias de convenção, uma mulher poucos dias antes na fazenda, uma vida inteira sem escassez de companhia feminina e ele ali, fisicamente afetado porque uma desconhecida bonita tinha decidido responder cada provocação como se fosse uma disputa particular.

Ridículo.

Gostou.

E então veio o pouso.

Foi ali que alguma coisa mudou sem que Antônio percebesse no momento.

Primeiro notou que ela estava com medo. Medo real.

Não aquela espécie de fragilidade exibida que algumas pessoas usavam porque sabiam o efeito que produzia. Não havia performance alguma. Pelo contrário. Ela parecia querer esconder.

A mulher que passara o voo construindo pequenas barreiras diante dele subitamente deixou escapar uma rachadura.

Antônio reconheceu porque conhecia medo melhor do que gostava de admitir.

Não pensou.

Só… fez.

Pegou a mão dela.

Só muito depois refletiria sobre a naturalidade do gesto. Naquele instante, o corpo reagiu antes da parte dele que normalmente media distância, consentimento social, efeito e intenção. Viu alguém assustada e quis acalmar.

A lembrança veio junto.

Sua mãe.

A primeira vez que Antônio voara quando criança, o desconforto, aquela sensação absurda de que alguma coisa tão pesada não deveria permanecer no céu e a mão da mãe cobrindo a dele. Viviane tinha um jeito específico de massagear devagar, como se o próprio ritmo pudesse convencer o corpo de que estava seguro.

Antônio repetiu.

Não percebeu imediatamente que estava repetindo.

A mão daquela desconhecida parecia pequena e delicada dentro das suas. Em outro contexto ele teria notado isso de maneira diferente. Teria percebido a pele, o contato e transformado mentalmente aquela proximidade em desejo.

Naquele instante não.

Estava concentrado nela. Em passar tranquilidade. Em fazer a respiração diminuir. Em demonstrar, com a própria calma, que nada estava acontecendo.

Era estranho.

Porque Antônio não estava tentando conquistar.

Não estava performando gentileza para produzir alguma coisa depois. Não estava tocando nela para testar até onde poderia avançar.

Por alguns minutos, queria apenas que ela parasse de ter medo.

E ela deixou.

Esse detalhe entrou nele de uma forma que demoraria muito a compreender.

Ela permitiu que ele segurasse sua mão.

A mesma mulher que lhe negara tantas pequenas aproximações durante o voo entregou a ele, sem cálculo, alguns minutos de vulnerabilidade.

Não significava romance. Não significava desejo.

Antônio sabia disso.

Mas significava confiança.

Ainda que mínima. Ainda que circunstancial. Por alguns minutos, ela confiou que ele cuidaria daquele medo e não faria nada com ele além de ajudá-la.

Antônio gostou da sensação.

Gostou muito.

Muito mais do que deveria.

Talvez porque fosse uma intimidade diferente de tudo que costumava conseguir com facilidade. Sexo nunca fora, para ele, garantia de acesso emocional. Podia dividir uma cama com uma mulher e continuar perfeitamente protegido dentro de si. Podia conhecê-la nua sem conhecer o lugar em que ela se escondia quando tinha medo.

Ali acontecia o contrário.

Ele não tinha praticamente nada daquela mulher.

Nem nome. Nem telefone. Nem promessa. Mas tinha a mão dela dentro da sua enquanto ela estava assustada. E, por alguns minutos, aquilo pareceu estranhamente mais íntimo do que deveria.

O desejo físico não desapareceu.

Talvez tenha ficado ainda pior.

Quando a tensão começou a passar, Antônio voltou a perceber a proximidade. O calor da mão dela. A pele. A distância pequena entre os corpos. O perfume que já havia notado antes.

Só que agora havia outra coisa misturada.

Ternura.

A palavra o teria incomodado se alguém a usasse naquela hora.

Antônio não pensaria assim. Pensaria apenas que gostava de tê-la daquela forma calma e confiando nele.

Talvez fosse isso que o desarmasse um pouco.

Durante toda a vida adulta, Antônio aprendera que relacionamentos eram mais confortáveis quando sabia onde pisava. Atração tinha regras. Sexo tinha regras. Namoro, até certo ponto, também.

Cuidar de alguém sem esperar retorno não cabia tão facilmente nesse sistema.

A sensação foi breve.

O pouso terminou.

Ela voltou a ser ela.

As barreiras começaram a retornar. Antônio também recuperou rapidamente o próprio comportamento habitual.

Mas alguma coisa tinha acontecido.

Ele ainda sentia na mão a memória do toque quando já não precisava segurá-la.

E isso o incomodou.

Não de maneira ruim, de maneira persistente.

Era como quando uma música parava e o cérebro continuava reproduzindo o último trecho. Antônio percebeu que gostaria de saber se ela estava bem. Depois percebeu que gostaria de vê-la novamente. Essa segunda constatação foi mais interessante.

Normalmente, depois de um flerte frustrado, a conclusão seria simples. Aconteceu. Não deu. Vida que segue.

Ali não.

Ele queria continuidade. Não necessariamente namoro. Muito menos amor.

Antônio não tinha chegado perto de formular qualquer coisa desse tipo.

Queria outra conversa. Queria descobrir se ela era igualmente irritante fora de um avião. Queria saber o que fazia. De onde vinha.

Por que tinha aquela casca.

Queria descobrir se conseguiria fazê-la rir sem que imediatamente tentasse esconder.

Queria tocar naquela mão outra vez, e essa vontade o deixou mais desconfortável do que a vontade muito mais simples de levá-la para uma cama.

Porque de cama ele entendia.

Aquilo ainda não.

Foi por isso que, quando percebeu que ela realmente pretendia sair daquela viagem sem lhe dar nem o nome, Antônio sentiu uma frustração desproporcional.

Não estava acostumado com histórias que terminavam antes de decidir se tinham começado.

Ela simplesmente iria embora.

E ele ficaria com o quê?

Uma mulher bonita. Algumas horas de conversa. Um punhado de respostas afiadas. Uma mão pequena entre as suas.

Nenhum nome.

Antônio quase achou graça.

Havia passado as últimas semanas fechando contratos internacionais, reorganizando projetos, decidindo equipes, conseguindo exatamente o que queria da Plano & Forma.

E uma desconhecida não lhe daria sequer o próprio nome.

Aquilo deveria ter sido o fim.

Para um homem diferente, talvez fosse.

Antônio observou-a partir.

Sentiu ainda uma pontada de constrangimento ao recordar algumas das próprias investidas durante o voo. Tinha passado um pouco da medida do seu padrão habitual. Estivera interessado demais. Excitado demais. Divertido demais com cada resistência.

“Você agiu como um idiota”, pensou.

Não com culpa pesada.

Mais com aquela vergonha particular de quem percebe que saiu da própria pose.

Só que havia um problema.

Não estava arrependido.

Gostaria de fazê-la se irritar outra vez. Gostaria de ver aquela expressão novamente. E, principalmente, queria saber quem ela era.

A curiosidade sobreviveu ao desejo.

Esse era o detalhe novo.

Mulheres bonitas Antônio conhecia muitas. Mulheres com quem teria prazer em dormir, também.

Aquela tinha conseguido outra coisa. Fizera Antônio continuar pensando depois que já não estava diante dele. Ele não sabia ainda que isso era raro.

Antônio ainda conseguiu enxergá-la algumas vezes depois do desembarque. Helena seguia alguns metros à frente, misturada ao fluxo de passageiros, e ele se pegou procurando por ela entre malas, famílias, funcionários e gente apressada demais para perceber que Antônio Fortenelle, que normalmente atravessava aeroportos como atravessava qualquer outro lugar, sabendo exatamente para onde estava indo e sem olhar duas vezes para ninguém, diminuía o passo simplesmente para não perdê-la. Não chegou a decidir que iria atrás. Seria humilhante demais admitir isso até para si mesmo. Só queria, talvez, uma última oportunidade de falar alguma coisa que corrigisse a impressão desastrosa que julgava ter deixado durante o voo. Podia ser mais normal. Mais sóbrio. Mostrar que sabia conversar com uma mulher bonita sem parecer um adolescente tomado pelos hormônios. Mas bastou parar alguns segundos para olhar o telefone, responder uma mensagem e permitir que duas famílias atravessassem diante dele. Quando ergueu os olhos novamente, não encontrou mais o cabelo, a silhueta ou qualquer sinal dela. Antônio ficou parado por alguns segundos, vasculhando o saguão, e sentiu uma irritação absolutamente desproporcional. Ela tinha simplesmente desaparecido. Não lhe dera nome, telefone, endereço, absolutamente nada. E ele ainda conseguiu perdê-la dentro do aeroporto.

— Perfeito — murmurou para si mesmo, retomando o caminho com o maxilar mais tenso do que a situação justificava.

O carro da família já o esperava. Antônio entrou no banco traseiro, deixou a mala seguir no porta-malas e, antes mesmo de perguntar qualquer coisa ao motorista, puxou o telefone. Durante alguns segundos ficou olhando para um contato que não usava com frequência. Era alguém da companhia aérea com quem já tivera relações comerciais suficientes para que um pedido incomum não provocasse muitas perguntas. Ligou.

Explicou o voo, a classe, o assento ao lado do seu e disse que precisava confirmar a identidade de uma passageira. Não entrou em detalhes. Também não precisou. Enquanto esperava, recostou a cabeça e sentiu novamente aquele calor irritante subir pelo rosto ao recordar partes da viagem. Quanto mais se afastava do aeroporto, mais consciente ficava de como havia se comportado. Tinha insistido demais. Provocado demais. Permitido que o interesse aparecesse demais. Antônio sabia flertar; passara décadas aprendendo a ler o momento exato em que uma mulher queria que ele avançasse e, sobretudo, o momento em que deveria recuar. Não era um homem desesperado por atenção feminina, muito menos alguém que precisasse se provar diante de uma desconhecida.

E, ainda assim, tinha se ouvido falando, tentando outra vez, arrancando conversa, buscando alguma brecha como um moleque que acabara de descobrir que a garota bonita da sala não estava impressionada com ele. A vergonha não vinha porque aquela mulher o tivesse rejeitado. Rejeição existia. Antônio não era infantil a ponto de acreditar que toda mulher deveria desejá-lo. A vergonha vinha de reconhecer que ele próprio havia saído do personagem que dominava tão bem. “Ela devia estar achando que eu sou sempre assim.” Essa possibilidade o incomodou profundamente. Se a visse de novo, precisava corrigir aquilo. Mostrar que não era aquele homem excessivamente interessado, excitado demais e incapaz de aceitar uma resposta sem tentar arrancar outra.

O retorno veio antes de o carro pegar a via principal. Antônio abriu a mensagem e encontrou mais informação do que esperava. Helena Ribeiro Campos. Leu o nome uma vez, depois outra. Helena. Por algum motivo, gostou imediatamente. Havia também data de nascimento, naturalidade e dados cadastrais que incluíam até o CPF, informação que ele passou sem interesse algum. O que realmente queria estava agora disponível.

Abriu o LinkedIn imediatamente e digitou. Quando o perfil apareceu, confirmou pelo rosto que era ela. Dessa vez não havia dúvida alguma. Ali estava a mulher do avião, agora presa numa fotografia que Antônio pôde observar pelo tempo que quisesse sem receber nenhuma resposta atravessada por isso. Desceu a página, curioso, e então encontrou o nome da empresa.

Plano & Forma.

Antônio ergueu as sobrancelhas.

— Não acredito.

Começou a rir sozinho.

Aquilo era uma coincidência excelente.

A mulher do avião trabalhava justamente na Plano & Forma.

Por alguns segundos, Antônio ficou genuinamente encantado com o acaso. Tinha passado três dias dentro daquela empresa em Campinas, conversado com uma quantidade razoável de funcionários, fechado um projeto com eles e agora descobria que a desconhecida que havia conseguido bagunçar sua cabeça durante um voo fazia parte da mesma companhia. Pensou imediatamente na profissional que criara a metodologia contratada pela Fort e que começaria a trabalhar na sede na segunda-feira. Não lembrou do nome dela. Não precisou. Na reunião, o nome tinha sido apenas uma informação ao lado de uma fotografia corporativa minúscula que Antônio olhara por poucos segundos antes de voltar toda a atenção ao projeto. O rosto daquela mulher também não permanecera em sua memória. O que ficara era a capacidade dela, a lógica da proposta, o raciocínio que conseguira interessá-lo depois de três dias de apresentações esquecíveis.

Helena, ao contrário, ele lembrava perfeitamente.

Lembrava do rosto em movimento. Da expressão irritada. Do sorriso que tentava segurar. Dos olhos quando queria cortá-lo. Do medo durante o pouso. Daquela pele. Da mão.

Por isso, quando viu Plano & Forma no LinkedIn, seu cérebro não procurou correspondência com uma ficha vista dias antes. Para Antônio, a conclusão era muito mais simples: Helena era outra funcionária da mesma empresa.

E aquilo, por si só, já era fantástico.

— Melhor ainda.

Passou a ler o perfil com muito mais atenção. Formação, experiências anteriores, cursos, trajetória profissional. Era inteligente. Tinha construído uma carreira no mínimo interessante. Não parecia ter chegado ali por atalhos óbvios e havia alguma coisa naquele crescimento que combinava com a impressão que Antônio tivera no avião: uma mulher que não parecia pedir licença para ocupar espaço. Ainda não conhecia o trabalho dela de verdade, mas isso poderia mudar com facilidade.

A solução ocorreu quase imediatamente.

Se a Plano & Forma já mandaria uma profissional para a Fort, poderia mandar Helena também.

Era perfeitamente justificável. O projeto teria interface com áreas diferentes, a sede possuía excelentes profissionais internos e, caso fosse necessário reforço externo, Antônio já havia deixado claro que aceitaria ampliar a equipe da consultoria. Bastava descobrir em que Helena trabalhava e se sua experiência poderia ser utilizada ali.

A ideia lhe agradou mais do que deveria.

“Coloco ela no projeto.”

Simples.

Profissional.

Perfeitamente defensável.

Ele quase sorriu ao imaginar a cara dela entrando na sede da Fort Group e encontrando o homem do avião sentado do outro lado de uma reunião.

Talvez fosse infantil.

Não se importou.

Continuou procurando. Encontrou o Instagram e sentiu a satisfação cair imediatamente ao perceber o pequeno cadeado ao lado do perfil.

— É claro.

Parecia absolutamente coerente com ela. A mulher que se recusara até a lhe dar o nome obviamente não deixaria a vida inteira aberta para qualquer desconhecido olhar.

Resistiu para não mandar uma solicitação e então abriu as mensagens.

Pensou um pouco antes de escrever. Desta vez não queria repetir o comportamento do avião. Nada de provocação exagerada, nada que parecesse insistência, nada que confirmasse a impressão de homem desesperado que, na cabeça de Antônio, certamente ela levara dali. Escreveu, apagou, ajustou e finalmente enviou:

“Espero que tenha chegado bem. Prometo que fora de uma cabine pressurizada sei me comportar melhor. Foi um prazer conhecer você, Helena. Quem sabe eu consiga uma segunda impressão.”

Leu novamente.

Melhor. Muito melhor.

Guardou o telefone satisfeito e, pela primeira vez desde que a perdera no aeroporto, sentiu que a situação havia voltado para um terreno compreensível. Não apenas descobrira quem ela era como o acaso tinha colocado entre os dois uma conexão profissional muito conveniente. A Plano & Forma já trabalharia com a Fort Group. Se quisesse vê-la de novo, não precisava correr atrás de uma desconhecida pelo Rio. Bastava encontrar uma justificativa profissional razoável.

E Antônio era extremamente bom nisso.

Quando o carro entrou na propriedade de Viviane, ele finalmente conseguiu pensar em outra coisa. A mãe o esperava praticamente na porta. Antônio mal atravessara a entrada quando ela apareceu e o abraçou com uma força que não combinava com as semanas de chamadas de vídeo, áudios, mensagens e telefonemas quase diários.

— Finalmente — foi a primeira coisa que ela disse, ainda agarrada a ele.

Antônio riu e a apertou de volta, sentindo naquele instante que também tinha sentido falta daquilo, embora jamais lhe desse a satisfação de admitir na mesma intensidade. Viviane o afastou para examiná-lo, anunciou imediatamente que ele estava mais magro, ignorou todos os protestos e o levou para dentro enquanto perguntava ao mesmo tempo sobre a França, Campinas, a convenção, a Weelii e se ele realmente precisara passar quatro dias numa fazenda em vez de voltar para casa. A mesa denunciava que ela planejara a noite havia dias. Havia a comida favorita dele, pratos que Antônio comia desde jovem e uma sobremesa que Viviane jurou não ter pedido especialmente para a ocasião.

— Coincidência — afirmou.

Antônio olhou para ela, depois para a sobremesa.

— Sei.

— O cozinheiro também sentiu sua falta.

— Mais do que você?

— Não exagere.

Jantaram por muito tempo. Antônio contou histórias que não entravam nas conversas rápidas por telefone, Viviane quis detalhes da negociação com a Weelii, perguntou pela filial de Campinas e ficou especialmente interessada quando ele explicou novamente o projeto da Plano & Forma. Falou sobre a metodologia, sobre a profissional que havia criado o modelo e sobre como estruturara a contratação para que ela ficasse presencialmente no Rio. Quando mencionou que descobrira no avião outra funcionária da mesma empresa, quase contou toda a história, mas desistiu antes mesmo de começar. Não porque estivesse escondendo alguma coisa. Simplesmente parecia absurdo dar importância suficiente à coincidência para explicar à mãe que passara horas tentando conquistar uma desconhecida, que ela se recusara a dizer o nome e que ele usara um contato na companhia aérea para descobrir quem era. Viviane o conheceria bem demais para deixar aquilo passar sem comentários. Antônio preferiu preservar a própria dignidade.

Depois do jantar, subiu e tomou um banho demoradamente quente, mas a água não conseguiu produzir o efeito de desligamento que ele esperava. Helena voltou sem convite. A expressão debochada. Uma resposta particularmente afiada. O instante em que o medo aparecera no pouso. A mão pequena dentro da sua. Antônio encostou a cabeça na parede do box por alguns segundos e soltou um suspiro impaciente.

— Chega.

Terminou o banho, vestiu-se e abriu o telefone ainda sentado na ponta da cama. Havia dezenas de mensagens acumuladas, boa parte de mulheres. Uma queria saber se ele já estava no Rio. Outra enviara uma foto que deixava bastante claro o objetivo da conversa. Uma antiga namorada sugeria jantar na semana seguinte. Outra mulher perguntava se ele continuava solteiro. Antônio passou por todas e abriu a conversa que realmente queria.

Nada.

A mensagem para Helena continuava sem resposta.

Talvez estivesse nas solicitações. Talvez ela não tivesse visto. Talvez tivesse visto e simplesmente decidido ignorá-lo.

Antônio percebeu que a terceira hipótese o irritava.

Precisava tirar aquela mulher da cabeça.

A conclusão pareceu simples. Antônio conhecia bem o próprio corpo e sabia que havia noites em que desejo não precisava de romance, interesse ou qualquer tentativa de transformar duas pessoas em algo além do que queriam naquele momento. Poderia sair e encontrar alguém, mas não estava com paciência para conquista. Conquista exigia conversa, atenção, algum jogo e aquele movimento delicado de fingir que não se sabia exatamente onde tudo terminaria. Naquela noite ele não queria fingir coisa alguma. Queria uma mulher, sexo e silêncio depois. Objetivo. Sem expectativa. Sem manhã seguinte obrigatória. Mandou uma mensagem para um conhecido que circulava em ambientes onde discrição custava caro e disse apenas que precisava de uma indicação excelente. O amigo provocou, perguntou desde quando Antônio Fortenelle precisava de ajuda para encontrar companhia feminina, mas acabou enviando três contatos acompanhados de recomendações suficientemente claras.

Antônio escolheu o último.

Ela usava o nome profissional de Valentina. Talvez fosse verdadeiro, talvez não; Antônio não se importava. O perfil que recebeu mostrava apenas o suficiente para justificar a recomendação: uma mulher na casa dos trinta, alta, cabelos escuros longos, corpo elegante, fotografias produzidas sem vulgaridade e uma postura que deixava evidente que o serviço era voltado para homens acostumados a pagar muito pela ausência de complicações. Antônio entrou em contato. Valentina respondeu com educação profissional, explicou disponibilidade, tempo, valor e algumas regras básicas sem rodeios. Ele gostou disso. Não negociou preço, não pediu desconto, não tentou transformar pagamento em flerte. Confirmou horário, recebeu o endereço de um apart-hotel sofisticado na Zona Sul e fez a transferência combinada antes de sair. Quando ela confirmou o recebimento, Antônio pegou as chaves do carro.

Valentina abriu a porta usando um vestido de seda escuro que parecia caro sem ostentação. Era ainda mais bonita pessoalmente. Tinha aquele tipo de aparência cuidadosamente construída que não deixava nada ao acaso: cabelo impecável, maquiagem leve, perfume sofisticado e movimentos tranquilos de quem já passara tempo suficiente perto de homens ricos para não ficar impressionada com relógio, carro ou sobrenome. O apartamento tinha iluminação baixa, música quase imperceptível e uma garrafa de vinho aberta sobre a mesa. Nada parecia improvisado. Ela sorriu e estendeu a mão.

— Antônio?

Ele assentiu.

— Sou a Valentina. Prazer. — O aperto foi firme, breve, profissional.

Antônio gostou dela imediatamente, justamente porque não havia qualquer esforço para fingir que aquilo era um encontro casual. Ela ofereceu vinho, perguntou se ele queria alguns minutos para conversar ou se preferia ir direto ao motivo da visita. Antônio aceitou uma taça. Não porque precisasse, mas porque achou civilizado não entrar como alguém que comprava uma hora de silêncio humano e queria começar a contagem imediatamente.

Conversaram talvez quinze minutos. O suficiente para Antônio perceber que Valentina era inteligente, articulada e muito boa no que fazia. Falou sobre viagens sem oferecer informações pessoais demais, comentou restaurantes, riu de duas observações dele e soube manter exatamente aquela distância em que parecia interessada sem vender a ilusão de intimidade. Antônio relaxou. Perfeito. Era exatamente o que tinha procurado. Uma mulher belíssima, experiente, sem expectativa emocional e que não lhe exigiria absolutamente nada além do combinado.

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Quando ela se aproximou e o beijou, ele correspondeu com uma intensidade que parecia ter acumulado durante o dia inteiro. Valentina acompanhou o ritmo com naturalidade, segura o suficiente para saber quando deixá-lo conduzir e quando estabelecer a própria cadência. Antônio também foi atento. Talvez estivesse mais intenso do que normalmente seria, mas não tinha qualquer intenção de transformar aquela mulher num recipiente para frustração. Ela não tinha causado nada daquilo.

Nos primeiros minutos, funcionou. Pelo menos fisicamente. Valentina o atraía. Muito. O corpo respondia exatamente como deveria e Antônio chegou a sentir certo alívio com isso. Não estava vivendo nenhuma fantasia romântica ridícula segundo a qual uma mulher vista durante algumas horas teria tornado todas as outras invisíveis. Continuava desejando outra mulher perfeitamente bem. Ótimo. Era isso. A viagem, a resistência, a curiosidade e o fato de Helena ter escapado tinham apenas deixado alguma tensão acumulada que agora desapareceria.

Só que, em determinado momento, Valentina disse alguma coisa num tom brincalhão e Antônio teve a resposta de Helena dentro da cabeça antes mesmo de formular a própria.

A imagem apareceu rapidamente, ele a afastou e continuou.

Mais tarde, Valentina fez uma provocação acompanhada de um sorriso cuidadosamente sensual, e Antônio pensou imediatamente no meio sorriso debochado que Helena lhe dera no avião.

Aquilo começou a irritá-lo.

Não com Valentina.

Consigo mesmo.

Fechou os olhos durante alguns segundos, esperando que a ausência da imagem à sua frente ajudasse.

Foi pior.

Sem o rosto de Valentina, apareceu a voz de Helena. Depois uma frase. Depois a mão.

Abriu os olhos.

Valentina percebeu a pequena mudança e perguntou apenas:

— Tudo bem?

— Tudo.

Antônio sorriu e beijou-a novamente.

E estava tudo bem, fisicamente.

Esse era o absurdo.

Ele não precisava fingir excitação. Estava excitado. Queria Valentina naquele momento. Aproveitou a companhia dela, levou a noite até o fim e, se alguém olhasse de fora, não encontraria sinal algum de fracasso. O problema acontecia num lugar em que Valentina não tinha como entrar. Antônio estava com uma mulher extraordinariamente bonita e, ainda assim, sua cabeça continuava abrindo pequenas janelas para outra que mal conhecia.

Depois, ficou alguns instantes deitado, respirando devagar, enquanto Valentina se acomodava ao lado sem aquela artificialidade exagerada de quem tentaria transformar o pós-sexo em romance. Ela perguntou se queria água. Antônio aceitou. Acompanhou com os olhos enquanto ela se levantava e percebeu, quase com irritação, como era deslumbrante. Aquela mulher seria suficiente para monopolizar a atenção de praticamente qualquer homem numa sala. Em qualquer outra noite, Antônio provavelmente teria ficado mais tempo. Talvez conversasse, talvez repetisse a experiência, talvez guardasse o contato.

Valentina lhe entregou o copo.

— Você pensa demais — comentou, sem invasão, apenas observando.

Antônio soltou uma risada baixa.

— Me disseram isso algumas vezes.

— Hoje especialmente.

Ele tomou um pouco de água.

— Dia longo.

— Imaginei.

Ela não perguntou mais.

E foi justamente o silêncio que deixou espaço para a frase de Helena voltar.

Antônio havia contado no avião, convencido da própria esperteza, a história de uma mulher que um dia lhe respondera daquele jeito e acabara em sua cama. Helena devolvera mencionando o outro homem. O que acabara sozinho.

Antônio ficou olhando para o teto.

Era quase ofensivo lembrar daquilo naquele momento.

Virou o rosto.

Valentina estava ao lado dele.

Linda. Nua apenas sob o lençol, completamente confortável, mexendo no telefone com a discrição de quem sabia quando a presença contratada não precisava ocupar cada segundo.

Tecnicamente, Antônio não estava sozinho.

Helena estava errada. Só que a constatação produziu exatamente o efeito contrário ao que deveria. Porque ele estava ali com outra mulher e continuava pensando justamente naquela que lhe dissera que outro homem terminara sozinho.

— Que merda — murmurou.

Valentina virou o rosto.

— Problema?

Antônio sorriu.

— Nenhum.

E não havia problema com ela.

Esse era o ponto.

Valentina tinha feito tudo certo.

Era bonita o bastante, interessante o bastante, experiente o bastante. Antônio a desejara, aproveitara a noite e não tinha qualquer reclamação.

O problema era ele.

Ou, mais precisamente, aquela mulher que não tinha feito nada para merecer a quantidade de espaço que ocupava dentro da cabeça dele.

Helena não o seduzira. Não prometera encontrá-lo. Não lhe dera telefone. Não o beijara. Não dormira com ele. Não construíra expectativa alguma.

Tinha feito exatamente o contrário. Cortara investidas, deixara claro que tinha outra pessoa, recusara até o próprio nome e ido embora.

Eles haviam dividido algumas horas dentro de um avião.

Só.

Antônio conseguia explicar atração física. Explicava facilmente. Conseguia explicar o interesse provocado pela resistência. Também entendia curiosidade. O que não conseguia explicar era por que continuava revendo detalhes que não deveriam ter importância alguma. A voz. A expressão. O jeito como ela tentava esconder medo. A mão dentro da sua.

Aquilo o contrariava porque não encontrava uma causa proporcional ao efeito.

Antônio gostava de causa e efeito.

Gostava de saber por que determinada decisão produzia determinado resultado, por que alguém reagia de certa maneira, por que um negócio dava certo ou errado.

Helena era um resultado grande demais para uma causa pequena demais.

Tentou resolver mentalmente.

Era novidade… Só isso.

Ela o rejeitara, então o cérebro tinha ficado preso na coisa inacabada.

E agora existia ainda aquela coincidência profissional interessante: ela trabalhava justamente para a Plano & Forma, empresa que começaria um projeto dentro da Fort.

Provavelmente era isso.

Na segunda-feira, Antônio poderia ligar para a consultoria, descobrir onde Helena estava alocada e encontrar uma maneira profissional de incluí-la também.

Conheceria a mulher fora daquele avião.

Mostraria que sabia se comportar.

Talvez tomassem um café. Talvez ela finalmente percebesse que o homem excessivamente interessado do voo não era Antônio Fortenelle em condições normais.

Depois disso, a curiosidade passaria.

A explicação era suficientemente razoável para agradá-lo.

Valentina tornou a olhar para ele.

— Melhorou?

— Muito.

Ela sorriu.

— Ótimo.

Antônio ficou mais alguns minutos, conversou com ela de maneira agradável, agradeceu a companhia e se levantou. Antes de sair, perguntou se tudo estava acertado. Valentina confirmou. Ele ainda deixou um valor adicional, sem espetáculo, apenas porque tinha gostado do serviço e sabia reconhecer profissionalismo. Ela agradeceu sem falsa surpresa e o acompanhou até a porta.

— Boa noite, Antônio.

— Boa noite, Valentina.

Ela sorriu.

— Espero que resolva o que estava pensando.

Ele parou por um instante.

— Eu também.

Saiu quase rindo.

Dentro do carro, ficou alguns segundos sem ligar o motor. O telefone estava no bolso.

Não deveria.

Sabia perfeitamente que não deveria.

Pegou mesmo assim.

Abriu o Instagram.

Nenhuma resposta.

Antônio apoiou a cabeça no banco e soltou uma risada curta, irritada consigo mesmo.

Tinha acabado de pagar caro por uma noite com uma mulher deslumbrante, recebera exatamente a experiência objetiva que procurava e, assim que entrou no carro, a primeira coisa que fizera fora verificar se Helena Ribeiro Campos tinha respondido sua mensagem.

Outra mulher não tinha apagado Helena.

Só tinha deixado mais claro que ela estava ali… na cabeça dele e sem autorização.

Antônio fechou o aplicativo e largou o telefone no banco ao lado.

Na segunda-feira cuidaria disso.

E, enquanto dirigia de volta, ainda não fazia ideia de que a mulher cuja inclusão no projeto já havia transformado em condição contratual e a mulher que agora queria acrescentar ao projeto por motivos muito menos profissionais eram exatamente a mesma pessoa.