O CEO que Eu Paguei

191 Antes de tudo, eu tinha vocês


POV Humberto Monteiro



Tudo aqui é sempre igual… mas nunca chato.

É quentinho. Fofo. Aconchegante.

Tipo estar dentro de um carinho.

Eu não sei o nome disso, mas sei que gosto.

Gosto muito!

É como estar sempre dentro de um abraço gigante. Um abraço que respira e me embala sem parar.

Esse abraço é a mamãe.

A batida dela é meu mundo:

Tum-tum… tum-tum… tum-tum…

Eu não sei bem quem é a “mamãe”… mas eu sei que ela é minha.

E que eu sou dela.

Quando ela tá bem, essa batida é feliz. Abre espaço.

Parece que tem luz dançando aqui dentro, mesmo eu não sabendo o que é luz.

Eu amo a mamãe.

Ela é o meu lar.

Meu lugar favorito, mesmo sendo o único lugar que eu conheço.

Mas às vezes… tudo fica pesado.

A batida dela fica diferente, meio apertada.

Eu não gosto. Não gosto mesmo.

Às vezes parece que a mamãe fica triste — e eu não sei o que é tristeza, mas eu sinto.

Fica tudo escuro e apertado e quente demais…

Eu não entendo por quê.

Então eu tento ajudar.

Porque eu não gosto quando ela fica triste.

Eu não gosto quando o mundo aperta.

Não gosto quando a batida dela fica tremida, meio molhada, meio doída.

E quando isso acontece eu penso:

“Ei. Para. Eu tô aqui.”

Eu não sei como falar.

Não sei nem como mexer direito.

Mas eu tento.

Eu tento muito.

Eu tento mexer… essas coisinhas aqui que ficam grudadas em mim. Acho que são… hmmm… armas secretas?

Bom, eu uso elas como armas secretas.

Eu tento empurrar o escuro pra longe.

Eu fico tipo:

“Ei! Mamãe! Tô aqui! Não fica assim não!”

Eu tento de novo.

Mexer tudo, chutar o que dá pra chutar… eu sou forte.

Ou… vou ser.

Prometo.

Eu quero tirar a tristeza dela de perto.

Quero segurar ela com essas minhas coisinhas que eu nem sei usar ainda.

Mas ela não responde.

Eu mexo, empurro, estico tudo.

Quero alcançar ela.

Quero bater na tristeza e mandar ela embora daqui.

“Mamãe! Me sente! Eu tô tentando te ajudar!”

E sabe o que ela faz?

Nada.

Ela não ouve.

Ela nunca ouve!

“Por que você não me ouve, mamãe?”

Eu prometo que quando eu ficar grande…

ninguém vai fazer ela sentir isso.

Nunca.

Do nada, o mundo muda.

O peso sai.

O ar fica leve.

A batida dela salta — tum-tum-tum! — do jeito feliz que eu amo.

E eu sei o motivo.

Ele chegou.

O meu papai!

O papai é essa voz que vibra bonita, que encosta por fora e muda tudo por dentro.

Ele fala perto, e a voz dele vibra como se estivesse esbarrando em mim e eu sinto meu corpinho tão feliz.

Eu amo o papai!

A mamãe escuta o papai.

Pelo menos alguém aqui ela tem que escutar!

E quando ele tá com a mamãe, ela fica tão feliz…

ah, aí eu fico impossível aqui dentro.

Eu empurro, mexo, sacudo tudo — eu quero participar!

Eu quero fazer parte da alegria.

Não sei bem o que aconteceu, mas dessa vez…

é diferente.

Antes ele falava com a mamãe, e eu só ficava ouvindo, puxando essa sensação gostosa pra mim também.

Agora…

a vibração vem direto pra cá.

Como se ele estivesse… chamando alguém aqui dentro.

Como se ele estivesse falando comigo.

O papai tá falando comigo! O papai me escuta!

Eu não entendo nenhuma palavra.

Nada.

Zero.

Mas meu corpo pequenininho sabe.

Sabe que essa voz…

tá procurando eu.

E do nada algo explode dentro de mim — tipo foguinho, tipo brilho, tipo… orgulho?

Sim. Orgulho.

Do meu tamanho minúsculo, mas já com ego grandão, eu penso:

“Ah. Ele sabe que eu tô aqui.”

A voz dele entra forte — não de gritar, mas de certeza.

Eu não sei o que ele diz, mas o jeito importa mais que tudo:

É carinho.

É cuidado.

É promessa.

É aquele tipo de som que diz “eu te vejo” mesmo sem olhos.

Mamãe sorri por dentro.

Eu sinto.

A luz dela muda.

O tum-tum dela fica de outro jeito — o jeito que só acontece quando ele tá perto.

E aí… eu faço a única coisa que eu consigo fazer:

Eu tento responder.

Eu mexo tudo — minhas micro partes, minhas mini forças, meus quase-nada músculos.

Eu empurro o mundo líquido.

Eu balanço.

Eu quero dizer:

“Oi! Eu tô aqui! Eu ouvi! Eu ouvi você!”

Eu quero mostrar pra ele que eu sei.

Que eu sinto.

Que essa voz é minha também.

Mas eu mexo tão pouquinho que talvez ninguém note.

Mas o papai sempre nota!

A voz continua.

E eu relaxo, porque dá pra sentir o amor mesmo sem entender nada.

Eu penso:

“Fala mais, fala mais, eu gosto disso.”

Eu fico quietinho de novo, absorvendo cada vibração como se fosse a coisa mais importante do universo.

E acho que realmente é.

Porque eu sinto:

Eu não tô só crescendo.

Eu tô sendo chamado.

Eu tô sendo esperado.

Querido.

Amado — antes mesmo de existir de verdade.

E isso… isso cresce comigo.

E eu não vejo a hora de responder com palavras.

Mas por enquanto…

Eu só bato água com minhas quase-mãozinhas e penso:

“Eu tô aqui, papai.”

“Eu ouvi. Eu sempre ouço.”

E continuo crescendo — grande no peito, mesmo sendo minúsculo no resto.

Eu sinto que estou ficando diferente, mas está tudo bem, eu gosto!

Eu vou contar qual o meu momento favorito! Aposto que todo mundo quer muito saber.

Hoje o mundo está… bonito.

Eu não sei o que é “bonito”.

Nunca vi nada além desse escurinho quentinho aqui.

Mas se existe uma palavra pra isso que eu sinto… deve ser essa.

A batida da mamãe tá macia.

Não tá correndo, nem tremendo, nem apertada.

Tá suave.

Tum… tum… tum…

E eu tô aqui, flutuando feliz, pensando no porquê o meu mundo está ficando menor — quando acontece:

Um toque.

Quente, leve, carinho puro.

Na barriga.

Bem onde eu estou.

Eu sei essa sensação.

É ela.

É a minha mamãe.

Ela tá me tocando como se estivesse procurando… eu.

Não é só um movimento.

Nem ela se mexendo pra lá e pra cá.

É carinho.

Eu fico muito, muito quieto.

Tipo quem segura o ar — mesmo eu não sabendo respirar ainda.

Eu fico esperando, prestando atenção em tudo.

Cada vibração.

Cada pulso dela.

Cada intenção.

E então… ela fala.

Eu não entendo palavra nenhuma, mas eu sei:

Ela tá falando comigo.

E aí o meu mundo estica.

Abre.

Vira luz quentinha, como se alguém acendesse um sol só pra mim aqui dentro.

Eu tento responder, claro.

Eu mexo minhas micro-coisas, minhas mini-partes, minhas armas secretas — tudo.

Eu empurro como se estivesse dizendo:

“Oi, mamãe! Eu tô aqui! Eu tô ouvindo!”

Então ela ri.

Eu sinto o riso dela.

Ele balança tudo aqui dentro.

É tipo música dançando sem tocar.

É tipo brincar — mesmo eu não sabendo brincar ainda.

E aí eu penso com toda certeza do universo:

“Eu fiz ela rir.”

Meu peito cresce — ou o que eu acho que é meu peito.

Eu fico orgulhoso.

Eu sou muito bom nisso de existir, viu?

Aí outra vibração chega.

Um peso gostoso no ar.

Um jeito firme e carinhoso ao mesmo tempo.

Papai!

Ele encosta também.

Tem duas mãos agora — uma leve, delicada, amorosa que é da mamãe,

e uma firme, quente, cheia de proteção que é do papai.

E eu?

Eu tô no meio.

Do jeitinho que eu gosto.

Ele começa a falar.

E eu sei que é comigo também.

Eu não entendo nada do que ele diz, mas eu sinto tudo.

A voz dele chega até mim como se estivesse me segurando — mesmo ele nem podendo.

É carinho.

É promessa.

É orgulho.

É amor gigante.

Eu fico tão feliz que quase viro cambalhota aqui — se eu soubesse fazer isso, já estaria fazendo.

Mamãe fala de novo.

Ele responde.

Ela ri.

Ele encosta mais perto.

E eu penso:

“Esses são minha mamãe e o meu papai.”

Porque eu posso ser minúsculo, posso não entender nada, posso nem saber abrir o olho ainda…

mas eu sei quando eu sou amado.

E eu sei que eles me amam.

Eu sei que esse carinho é pra mim.

Eu sei que essa mão passando devagar é pra me contar que ela sabe que eu estou aqui.

Eu sei que essa voz profunda falando baixinho é promessa.

Promessa de que eu tenho lugar.

Promessa de que eu sou esperado.

Promessa de que eu sou importante.

Eu sei que quando eles estão juntos assim…

o mundo fica certo.

Não tem aperto.

Não tem medo.

Não tem silêncio triste.

Só amor.

E eu penso — do meu jeito simples, puro, grandão por dentro:

“Eu gosto disso. Quero mais.”

Se depender de mim, a gente vai ficar assim muitas vezes.

Eles dois por fora.

Eu aqui no meio.

Todo mundo junto, do jeitinho que eu nasci pra caber.

Eu mexo de novo.

Um chutinho, talvez.

Ou só um impulso de alegria.

E eu digo sem dizer:

Eu amo vocês.

Os dois!

Tanto, tanto, que às vezes eu acho que vou explodir de amor aqui dentro — mas não explode não, tá? Eu ainda preciso crescer muito.

Eu quero ficar assim pra sempre:

Mamãe de um lado.

Papai do outro.

Eu no meio, bem no meio, guardando vocês aqui comigo.

Mas tem uma coisa…

Acho que…

acho que meu lugar favorito tá ficando pequeno.

É… estranho.

Eu tô crescendo e o mundo tá ficando menor.

Eu não sei se fiz alguma coisa errada… só cresci.

Então eu penso:

“Mamãe, papai…

vocês vão caber aqui comigo?”

Porque eu quero vocês aqui.

Mas se não der pra vocês virem…

Tudo bem.

Eu saio.

Eu saio e vou praí fora.

E eu agarro vocês.

Bem forte.

Dos dois lados.

Pra ninguém nunca soltar.

Porque eu não sei muito sobre vida ainda…

mas eu já sei qual é o meu lugar:

Entre vocês dois.

Pra sempre.