O CEO que Eu Paguei

5 A Pressa de Quem Espera


Helena fechou a porta com um suspiro longo, jogando a bolsa no aparador da entrada. O som do trinco ecoou pela casa com um peso estranho — como se encerrasse mais do que uma tarde frustrada. Tótó correu até ela, abanando o rabo, e ela abaixou para fazer um carinho na cabeça dele, afundando os dedos entre as orelhas macias do seu cachorro caramelo.

— Ei, coisa linda… pelo menos você me recebe bem.

Ela tentou sorrir, mas era mais um esboço cansado do que um sorriso de verdade. O corpo inteiro dela parecia gritar, como se tivesse sido preparado para algo que não aconteceu. O calor entre as pernas ainda pulsava, quase dolorido. Uma vontade absurda, interrompida com crueldade. Fez tudo certo — pediu folga, adiantou trabalho, escolheu o horário mais discreto possível… e ainda assim saiu com a calcinha molhada e a dignidade tremendo nas pernas.

— Cheguei! — avisou alto, limpando os sapatos no tapete.

Do outro lado, a voz da avó veio da cozinha, doce e prática como sempre:

— Oi, Lêlê. Resolveu seus trens hoje?

Helena travou por um segundo, entre o corredor e a verdade que jamais contaria.

— Resolvi… ou quase isso — respondeu, andando em direção ao próprio quarto, o tom abafado por trás do cansaço.

Ela se jogou na cama com força, de bruços, e afundou o rosto no travesseiro. Ficou ali, parada, bufando de raiva. Se sentia quente, desconfortável, e pior: insatisfeita. A pele dela ainda queimava do toque dele, dos beijos, das mãos enormes segurando sua cintura como se ela fosse propriedade dele. E ela tinha adorado aquilo. Até se esquecer do próprio nome.

Camila. Que ódio daquele nome falso.

A avó apareceu na porta, limpando as mãos num pano de prato florido.

— Cê tá esquisita, menina. Tá bem?

Helena se virou de lado, apoiando a cabeça na mão.

— Só cansada, vó. Amanhã o diretor geral da empresa vai visitar a sede. Tá todo mundo surtando.

— Então por que não descansou de verdade hoje? Ficou a tarde inteira fora.

Helena engoliu em seco. Se ela soubesse…

— Resolvi umas pendências pessoais — disse, firme. — Me dei esse luxo antes do caos.

A avó soltou um som qualquer que misturava aceitação com desconfiança e voltou pra cozinha.

Helena se deixou afundar de novo no colchão. O cheiro do amaciante, o silêncio do quarto… tudo parecia mais irritante. Pensou nele. No quase-quarentão com cara de pecado e pegada de desgraça. Era garoto de programa, certo. Pelo menos, era o que dizia o perfil no site. Mas nada nele parecia mecânico. Pelo contrário — ele parecia se divertir. Quase mordeu o dedo enquanto pensava, a expressão indecente, como se estivesse bolando o que faria com ela.

“Cheio de frase de efeito, mas… porra. Que homem.”

Ela apertou as pernas, como se conseguisse aliviar a tensão que não passava. O pau dele estava tão duro que dava pra sentir a pressão mesmo com roupa. E o pior: ela não sabia mais se tinha controle algum da situação. Porque, naquele quarto de hotel, foi ela quem saiu primeiro — mas foi ele que ficou na cabeça.

E agora? Amanhã era um dia importante. Ela precisava focar. Mas já sabia: se fechasse os olhos, o rosto que ia ver era o do homem que não tirou sua calcinha… e mesmo assim deixou tudo dentro dela fora do lugar.

Helena rolava na cama como se os lençóis pudessem apagar o fogo que ainda ardia embaixo da pele. O rosto quente, os lábios sensíveis… e a lembrança dele ali, sentado, ainda com o volume pulsando entre as pernas e os olhos cravados nela como se fossem promessa.

Pegou o celular.

Entrou no seu perfil do site, como quem revê um erro só pra se torturar de novo. Havia uma notificação no sininho.

Camila F.

Avaliação: ⭐️⭐️☆☆☆ 2/5

Ela arregalou os olhos. Dois?

Deslizou os dedos e leu a descrição:

“Não rolou nada, só passeei na cidade. Mas pagou todo o combinado (passagens… hotel e tals). Ela chegou a ir no hotel e desistiu. Quando se sentir preparada, pode me acionar novamente.” — Moreno Alto

Helena mordeu o lábio pra não soltar uma gargalhada. Riu baixo, abafado, com a mão cobrindo a boca. Nota dois, é? Aquilo só podia ser vingança.

Mas havia um tom esquisito naquelas palavras. Ele tinha mesmo dado só dois… e mesmo assim deixado a porta entreaberta?

Ela se sentiu... provocada. Talvez um pouco desafiada.

“Preparada”, é? Ela quase respondeu ali mesmo só pra ver a cara dele derretendo de novo entre as pernas dela. Mas se conteve.

“Talvez…”

Talvez ela tivesse dado sorte. Ou talvez não devesse repetir. Vai que ele fosse vingativo. Vai que da próxima vez ele resolvesse mesmo deixar ela sem andar.

Helena mordeu o canto do lábio, pensativa.

“Não era uma má ideia.”

Se levantou. Foi até o banheiro e deixou a água cair quente nas costas, no pescoço, na nuca. O vapor preenchendo o espelho, e a memória do corpo dele preenchendo tudo o que ela queria esquecer.

As mãos dele nas coxas dela.

O jeito como ele disse “Camila”… como se estivesse prestes a fazer uma besteira imperdoável.

“E eu teria deixado. Eu deixaria tudo… se ele tivesse tirado aquela calcinha.”

Passou a esponja pelo corpo com mais força do que o normal, tentando se desligar, mas não adiantava.

A blusa dela ainda carregava o cheiro dele.

Os dedos ainda lembravam a textura da barba malfeita.

“Se eu tivesse mais dez minutos naquele quarto…”

Saiu do banho mais quente do que entrou. Vestiu um short confortável e uma camiseta velha. Prendeu os cabelos rebeldes em um coque desleixado e foi para a cozinha, onde a avó a esperava com cheiro de arroz soltinho e alho refogado.

— Já tô colocando a comida, Lêlê — disse dona Olívia, abrindo um sorriso com poucos dentes, mas um brilho no olhar que valia mais que joia.

— Que cheiro bom, vó…

— Feijão tá grossinho, igual cê gosta. E tem angu, viu?

Helena se sentou à mesa, observando os passos lentos da avó indo e vindo entre o fogão e a pia. O avental florido estava torto, e o chinelo velho quase saía do pé.

— Como foi seu dia? — perguntou Olívia, servindo o prato fundo.

Helena pegou o garfo e pensou em responder que tinha sido péssimo, frustrante, que largou um homem quase em combustão no quarto de hotel e agora estava com o corpo doendo de vontade. Mas só sorriu e respondeu:

— Resolvi umas coisas. Conheci uns cantos da cidade. Dei uma volta.

— Tá com essa cara aí de quem viu coisa demais…

Helena riu, genuína, e encheu a boca com arroz e feijão. Estava delicioso.

— Não é isso. Tô só cansada. Amanhã vai ser um dia cheio na empresa, o diretor geral vem visitar a filial.

— Uai! E por que tanta correria pra um homem só? Ele é importante assim?

— Demais, vó. Herdeiro da empresa. Filho do dono. Gente rica, poderosa de verdade.

— Hum… — a avó fez um barulho desconfiado, ajeitando a cadeira ao lado. — Só espero que seja gente boa. Homem com poder demais vira pavão. Só sabe abrir o peito e esquece do resto.

Helena engoliu devagar, quase engasgando com o comentário da avó.

— Vai me pôr em um caixão assim, vó — respondeu, tentando se conter na risada. — Espero que ele seja gente boa mesmo, mas esses caras nunca são. Não se preocupa, a elite da empresa só passa e cumprimenta, nunca mais volta. Eu sou só número para eles.

Enquanto comiam, Olívia contava sobre os casos no programa do Datena de hoje e Helena ouvia cada palavra bem interessada. A avó cortava o angu com a colher, depois empurrava com feijão e farofa.

— Você ainda tá bonita — disse de repente. — Mesmo com essa olheira. Tá com aquele brilho estranho no olho…

— Que brilho, vó?

— De mulher que não dorme por causa de homem. Eu conheço. Já tive o mesmo.

Helena abriu um sorriso cansado, mas sincero.

— Não é nada. Juro.

— Cuidado viu, ficar jurando amor ou a ausência dele pode o atrair.

— Ai credo vó… Essa mandinga não me pega. Eu vou ser solteirona para sempre, só eu e a senhora. Esse é o plano.

— Eu não mandei não falar mais isso menina? — Ela dá um tapa no braço de Helena — Não é porquê não deu certo um relacionamento que cê tem que desistir dos próximos.

Helena franziu o rosto em desaprovação, mas não iria esticar o assunto com a avó.

Depois de arrumar a cozinha, Helena foi pro quarto, apagou a luz e se enfiou debaixo das cobertas.

Mas o sono não veio.

Veio o cheiro da pele dele.

Veio a lembrança da respiração quente na nuca.

Veio o som da voz dele dizendo: “Tu não faz ideia do que acabou de despertar em mim.”

A mão dela desceu devagar.

O toque era leve. Primeiro sobre a calcinha, depois por dentro. Fechou os olhos. Não era só prazer. Era desejo acumulado. Era frustração. Era provocação.

Na cabeça, a imagem dele: parado na beira da cama, a calça marcando tudo, os olhos queimando de tesão. Helena mordeu o lábio. Ela conseguia ouvir a voz dele — ou, pelo menos, a que sua mente recriava.

— Isso, Camila… mostra o que tu sabe fazer. — O timbre grave, sujo, rouco. Só que era tudo imaginação.

Ela gemeu baixinho, pressionando o travesseiro contra o rosto, se tocando com mais firmeza, mais fundo, guiada por aquela cena inventada — mas tão vívida.

Se contorceu, o corpo inteiro vibrando com a lembrança de um toque que não terminou.

Até gozar fantasiando a voz dele, o nome falso que ela mesma escolheu, e um sorriso satisfeito nos lábios.

“Nota dois, né? Espera só até a próxima.”

Notas finais
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