O CEO que Eu Paguei
198 A Minha Ruína
Afonso Monteiro, 28 anos
Afonso Monteiro ainda sentia o calor da risada de Maria Lúcia ecoando pela sala quando fechou a porta do escritório.
Há menos de uma hora, estavam todos reunidos no tapete da sala, os quatro, como a família perfeita que eram.
Uma tarde inteira jogando O Jogo da Vida — e, como sempre, Maria Lúcia ganhou.
— Você trapaceou. — Ele resmungou, enquanto ela só ria, aquele riso doce e luminoso que parecia purificar tudo ao redor.
Agora, seu filho, Renato, com apenas cinco anos, abria o trenzinho elétrico importado dos Estados Unidos, o brinquedo novo, caro, que Afonso trouxe para ele na última viagem. O menino montava os trilhos no tapete do escritório, cabelo preto caindo nos olhos azuis — os mesmos olhos frios e calculistas de Afonso. Que orgulho!
No colo dele, sua filha de três anos tentava dar mamadeira para uma bonequinha.
Cabelos dourados como os de Maria Lúcia.
Olhos azuis como os dele. Sempre os dele.
Afonso Monteiro tinha vencido.
Era impossível negar.
Aos 28 anos, ele era tudo o que prometeu que seria — e muito mais.
Um império no ramo da construção.
Filial na França prosperando.
A Monteiro Inc. estava crescendo como se fosse feita de ouro.
Tinha uma esposa que o amava com a pureza de quem nunca pediu nada em troca. Dois filhos que o faziam se sentir invencível apenas por correrem pela casa gritando “papai”. Tinha dinheiro, poder e influência. Tinha Goiânia aos pés, Paris na palma da mão, e o Rio de Janeiro dobrado aos seus interesses.
E ele estava feliz.
Feliz de verdade.
Não aquele tipo de felicidade romântica e idealizada — isso nunca seria coisa dele.
Mas a felicidade prática, sólida e concreta.
Mas havia algo que Maria não podia curar.
Algo que os filhos não limpavam.
Algo que todo o dinheiro do mundo não apagava.
A ferida.
A humilhação.
O ‘não’ de Olívia.
O olhar dela para aquele sujeito do interior.
A terra batida no rosto dele.
O gosto de sangue.
O cheiro da vergonha.
Afonso nunca esqueceu.
E jamais perdoaria.
Assim como não esqueceu o pai e o fez pagar de uma maneira tão cruel quanto iria fazer com ela agora.
Deu um beijo no topo da cabeça da filha e pegou o documento em cima da mesa. O assunto era sobre uma certa cidadezinha no interior de Minas Gerais.
O relatório era claro:
A economia da cidade dependia em 80% de sua filial.
A prefeitura estava endividada até o pescoço após as obras que ele mesmo incentivou.
Os pequenos empresários apostaram tudo na “expansão” que ele prometeu.
As estradas estavam abertas, as escolas em reforma, os conjuntos habitacionais pela metade.
Afonso abriu outra pasta.
Contratos.
Licenças.
Cartas de intenção cuidadosamente redigidas para parecem cheias de promessas… mas com nada amarrado de verdade.
Um plano brilhante.
Cruel.
Irreversível.
A cidade estava inflada, otimista e esperançosa.
E justamente por isso, frágil.
Vulnerável.
Perfeita.
Afonso passou o dedo pelo papel como quem acaricia a garganta de uma presa.
Retiraria a filial em menos de uma semana.
Sem aviso.
Sem comunicação prévia.
Sem misericórdia.
Os bancos cobrariam.
As casas seriam tomadas.
Os comércios fechariam.
O prefeito seria destruído publicamente.
Famílias inteiras perderiam tudo.
E Olívia — se ainda respirava — veria a ruína da cidade que ela amava.
A cidade em que ela o rejeitou.
A cidade em que ela escolheu um caipira no lugar dele.
Tudo aconteceria porque aquela adolescente do interior o humilhou há anos.
Ele não amou Olívia.
Nunca amou. E ele tinha plena consciência disso.
Mas ele não esquece.
Ele não perdoa.
E ninguém — absolutamente ninguém — o humilha e vive bem para contar história.
Assim foi como foi seu pai, antes dela.
Ouviu a voz de Maria Lúcia ecoar pela casa.
Ela é maravilhosa.
Era tudo o que ele não merecia.
Era tudo o que ele jamais imaginou ter.
Afonso sentiu algo quente no peito — algo que só ela era capaz de provocar.
Mas não era suficiente para parar o que já estava em movimento.
Não havia bondade no mundo capaz de curar um ódio tão antigo.
— Desculpa, meu amor — ele murmurou, quase gentil, como se ela o ouvisse. — Mas isso é entre eu e meu passado.
Sua filha o olhou, curiosa. Ele conversou com ela sobre a bonequinha, ela sorriu e voltou a ninar a boneca.
Pegou o documento novamente.
Afonso apoiou o cotovelo na mesa e passou a mão pelos cabelos escuros.
Ele deveria estar feliz — e estava.
Mas era um tipo de felicidade retorcida, quente, quase febril.
Uma felicidade que vinha da lembrança de ser humilhado… e finalmente ter o poder de esmagar quem o enganou.
Maria Lúcia, com toda sua bondade, jamais entenderia.
Nem deveria.
Ela o salvou em tudo, menos ali.
Ali, nenhum amor tocava.
Aquilo era ele.
Era o que o mantinha inteiro, de certa forma.
Afonso Monteiro podia ser um marido amoroso.
Um pai dedicado.
Um homem que construía prédios e escolas para crianças.
Mas também era o tipo de homem que construía uma cidade inteira só para destruí‑la depois.
Ninguém, absolutamente ninguém, pisa em Afonso Monteiro e continua respirando tranquilamente.
A cidade pagaria.
E pagaria com juros.
Afonso ainda segurava o documento entre os dedos quando a porta de seu escritório se abriu sem aviso. Havia apenas uma pessoa naquele mundo que ousaria entrar assim: Maria Lúcia, a sua esposa, a sua mulher.
Ele não precisou olhar. Bastou sentir a presença, e uma torrente de água jorrou dentro do seu peito — uma rachadura efêmera em seu coração de pedra. Como sempre acontecia. Como só ela fazia acontecer.
— Ah, então é aqui que vocês todos estão escondidos? — disse Maria Lúcia com um sorriso zombeteiro, as mãos na cintura e os cabelos dourados emoldurando o rosto iluminado.
— O papai deixou! — declarou Renato, do tapete, onde ainda fazia girar os vagões prateados do trenzinho elétrico.
— Eu quero ficar com o papai! — anunciou Suzana, enroscada no colo dele, soltando a boneca e abraçando o pai. Sua voz tinha aquele tom doce e desafinado que só os filhos de três anos sabiam fazer parecer música.
Afonso sentiu uma cachoeira abrir-se dentro do peito. Uma nascente viva, cálida, que brotava entre as rachaduras de sua couraça.
— Se o papai deixou… — disse Maria Lúcia, agora cruzando o cômodo — …então está certo. Mas nada de bagunça por aqui, combinado?
Ela se aproximou por trás da mesa, contornando os móveis com a elegância, e passou a mão pelos cabelos escuros de Afonso, antes de depositar um beijo demorado no topo de sua cabeça.
— Eles não estão te atrapalhando de verdade, estão?
— Não — murmurou ele, sem desviar os olhos do rosto dela. — Para melhorar ainda mais a minha concentração, você também deveria ficar aqui.
Ela sorriu, meio sem graça.
— Ah… aí é que você não trabalha mesmo.
Com olhos curiosos, Maria Lúcia espiou os papéis sobre a mesa. Uma das folhas estava virada para cima, revelando uma fotografia pálida em preto e branco. Uma escola de muros altos em construção. Ela franziu o cenho.
— Você vai construir uma nova escola? É isso?
— Não — respondeu Afonso, com a voz neutra, mas o sorriso insinuando maldade. — É uma das escolas que a prefeitura de uma cidadezinha do interior de Minas está construindo.
— E você está ajudando?
Afonso ergueu os olhos, arqueando levemente a sobrancelha. O canto da boca subiu em um sorriso enviesado, mais gélido que divertido.
— Não.
Aquela curvatura disfarçada do sorriso dele, onde o charme dançava com a crueldade.
— A gente podia visitar essa cidade — disse ela, com leveza. — Deve ser bonita, não?
O semblante de Afonso se fechou, como o céu antes de uma tempestade.
— Não precisa. É longe, poeirenta. Você não vai gostar.
— Que bobagem, Afonso. Se for com você, até o fim do mundo me serve. E você me prometeu uma viagem a dois, lembra?
Ele suspirou, vencido antes mesmo de lutar.
— A viagem a dois que eu imaginei não envolvia estrada de terra, cheiro de gado e almoço servido em prato de marrom.
— Justamente por isso vai ser especial — disse ela, inclinando-se para ele com aquele brilho nos olhos que desarmava exércitos. — Vamos? Por favorzinho?
"Por favorzinho". Era quase uma sentença de morte.
Afonso passou a mão pelo próprio rosto. O "não" se dissolveu na garganta. Ele não entendia. Nunca entendia. Mas simplesmente não conseguia negar nada àquela mulher.
— Tudo bem — murmurou. — Mas tem que ser amanhã.
Porque depois não haveria mais cidade para visitar.
Maria sorriu, jogou os braços ao redor do pescoço dele e o abraçou com doçura, alheia ao abismo que espreitava nas entrelinhas daquela frase.
Renato, o pequeno herdeiro, largou o trenzinho no tapete e correu até os dois, abraçando a perna do pai.
— Quero ir também! Quero ir!
— Nada disso — disse Afonso, recobrando o tom imponente. — Essa é uma viagem de adultos. Crianças estão proibidas.
— Mas papaaai… — lamentou Suzana com uma carinha de choro já se formando.
— Não, meus amores. Dessa vez, não. — Ele olhou para os dois com uma expressão severa, mas interna, muito interna, quase enternecida. — Ainda bem que vocês não têm o mesmo olhar da mãe de vocês. Senão eu já estaria falido.
No dia seguinte, Afonso acordou já com a sensação de que estava prestes a cometer um crime — não contra a lei, mas contra sua própria sanidade. Ainda assim, vestiu a polo branca da Lacoste, pegou as chaves do carro e deixou os filhos com os sogros. Ao lado de Maria Lúcia, partiu em direção à maldita cidade que tanto odiava.
A estrada, antes de terra batida e poeira vermelha, agora era asfaltada e bem sinalizada — um luxo que ele mesmo exigiu do estado como condição para erguer uma filial. Se arrependia amargamente disso. Não queria que sobrasse nem as estradas boas daquele local.
Maria Lúcia usava um vestido florido, leve, com cores suaves que dançavam com o vento que entrava pelas janelas abertas. Os cabelos soltos voavam ao vento, os olhos curiosos voltados para o horizonte. Era o tipo de visão que poderia fazer um homem esquecer que estava indo direto para o lugar mais detestável da terra. Afonso precisou ajustar o espelho três vezes, não por necessidade — mas para observá-la sem que ela notasse. Não queria estragar o momento.
Chegaram ao hotel por volta do meio-dia. O letreiro os recebia com letras amareladas piscando: Descanso Imperial. Mas de imperial, aquilo só tinha o nome e a pretensão. Maria Lúcia entrou sorrindo, cumprimentando os funcionários como se estivesse num spa cinco estrelas. Afonso, em contrapartida, se sentia como se tivesse colocado diamantes dentro de um esgoto. O quarto era apertado, com lençóis duvidosos e um ventilador que girava tão devagar que nem refrescava. O lugar era horrível.
Afonso olhou para Maria Lúcia como se pedisse desculpas sem dizer nada. Ela apenas sorriu, encantada com o clima simples do interior, como se não estivesse sendo forçada a dormir em um quarto que cheirava a madeira úmida e sabão em pó barato.
— Você tá gostando disso? — ele perguntou, incrédulo, enquanto ela tirava os sapatos.
— Tem seu charme, querido — respondeu ela. — Me lembra das viagens que fazia quando criança.
Essa não…
Mesmo assim, ele se esforçou. Apresentou a cidade a ela, percorreu as ruas que odiava, fingiu orgulho das lojinhas de ferragem e dos pequenos estabelecimentos. Maria Lúcia parecia encantada.
Passaram a tarde andando pelas ruas. Maria Lúcia sorria para todos os moradores, fazia perguntas, conversava com os donos das lojinhas. A cada passo eram convidados a entrar na casa de alguém e ganhar um lanche da tarde, o pior de tudo era que a comida era deliciosa e ele não aguentava comer só um pouquinho. Afonso mantinha o sorriso forçado e o olhar impaciente. Tudo naquela cidade era o tipo de coisa que amolecia o coração dela — e comprometia a carteira dele.
Afonso quis morrer. Sentiu um arrepio percorrer a espinha.
A cidade parecia parada no tempo. Os postes ainda eram de madeira, a praça central tinha um coreto de ferro mal pintado e uma senhora regava plantas numa jardineira de barro com uma lata de leite em pó furada. As casas eram coloridas, mas desbotadas pelo sol. O povo, no entanto, parecia feito de ouro. Em cada esquina, alguém sorria.
— Que cidade linda — disse Maria Lúcia, encantada com tudo. — Eles têm pouco, mas têm tanto...
Afonso se esqueceu. Como poderia ter se esquecido! Aquela mulher realmente era sua perdição, a sua ruína! Ele se esqueceu de que aquele era o tipo de lugar que sua esposa adorava: humilde, acolhedor, cheio de problemas sociais e necessidades básicas não atendidas — ou seja, um convite escancarado à caridade. Um pesadelo para qualquer um que zelasse por sua conta bancária. E quisesse Deus que fosse apenas isso, aquela era a cidade que ele queria destruir. Não construir!
Enquanto caminhavam, ela parava para cumprimentar crianças de pés descalços, comentava com um senhor sobre uma horta comunitária, elogiar uma professora que alfabetizava na varanda, e quase chorou quando um garoto ofereceu um pedaço de goiabada embrulhado na palha.
Afonso sentiu o suor escorrer por debaixo da camisa. A cidade era um altar para o altruísmo de Maria Lúcia.
“— Preciso tirá-la daqui — pensou, em pânico. — Se ela passar mais uma hora nesse lugar, eu vou estar prometendo construir outro hospital, abrir uma biblioteca, asfaltar a periferia e adotar dois órfãos.”
No Rio ele ainda teve jogo de cintura: criou o Instituto Maria Lúcia Monteiro, garantiu o nome da esposa na fachada, encheu o coração dela de orgulho — e ainda conseguiu um desconto absurdo nos impostos. Ganhou por todos os lados. Mas aqui… não havia saída honrosa.
Era agora ou nunca. Se ela se apaixonasse por aquele lugar, ele estaria condenado a bancar uma cidade inteira. Afonso passou o braço pela cintura dela, a puxou com charme e olhou em seus olhos azuis com aquele calor de marquês apaixonado.
— Amor... — disse ele, num tom grave e meloso — Olhando tudo isso, vendo essas pessoas, esse lugar... eu pensei numa coisa. A gente não pode ajudar só por impulso. Precisa fazer direito. Estruturar. Organizar. O que você acha de voltarmos para o Rio, reunirmos uma equipe, fazermos um diagnóstico completo da cidade e, aí sim, pensarmos num projeto de médio prazo? Pode ser até com seu nome de novo, o Instituto Maria Lúcia Monteiro – Polo do Interior. Mas bem feito, com profissionais, com controle... Você merece isso. Eles também.
Maria Lúcia arregalou os olhos, emocionada. Tocou o rosto dele com as duas mãos, sorrindo:
— Isso é... perfeito. Afonso, você é incrível. Achei que viríamos só a passeio, mas você sempre pensa grande, sempre vai além...
— Claro — disse ele, pousando a mão no coração como quem carrega o fardo mais nobre. — Eu só quero fazer o bem. Mas do jeito certo.
Maria Lúcia sorriu, completamente convencida.
— Então a gente volta logo?
— Claro, minha flor — respondeu ele, beijando a mão dela.
Ela riu, deu de ombros, e concordou.
Afonso quase pulou de alegria por dentro. Tinha conseguido. A alma da cidade escaparia de suas mãos — por enquanto — mas ele ainda tinha margem. Era só sair dali antes que ela fizesse amizades ou começasse a visitar escolas.
Então... ele pensou, "que tal antes de voltar, aproveitar um pouco o momento, sem os filhos?"
Ele ativou seu modo “Monteiro sedutor”, aquele modo que milagrosamente sempre a convencia com jeitinho.
— Amor… — disse, com voz baixa, rouca, perigosamente convincente. — Que tal, antes, a gente ir para o hotel descansar. A viagem foi longa… e você sabe o que acontece quando nós dois ficamos… sozinhos.
Maria, como sempre, caiu direitinho na sedução dele — mas não sem antes rir e tocar o peito dele com a ponta dos dedos.
— Seu exagerado. — Ela sorriu. — Mas tudo bem. A gente pode ver o resto depois.
Aí está. Vitória. V-I-T-Ó-R-I-A.
Afonso vibrou por dentro.
Era isso.
Era só colocá‑la no carro.
Voltar para o hotel.
Amá-la a noite inteira.
Ir embora no dia seguinte.
E a cidade cairia como ele planejou.
Mas o universo é cruel com homens presunçosos.
Pegou a mão dela e caminhou o caminho de volta. Estavam quase na esquina final, o hotel já à vista — quando a voz ecoou atrás dele, em tom alto e inconfundível:
— Seu Afonso Monteiro?!
Afonso fechou os olhos.
Não.
Não. Não. Não!
Era o prefeito.
Inferno.
O sorriso dele vinha de longe — largo, honesto, esperançoso.
— Quem é esse? — ela perguntou baixo.
Afonso estava quase passando mal.
— É o prefeito. — respondeu baixo, triste.
O homem se aproximou mais.
— Prefeito! — Maria Lúcia disse animada. — Que bom encontrá-lo!
Afonso, por dentro, queria arrancar o pulmão e pisar nele.
Por fora… sorriso elegante.
— Prefeito.
O homem se aproximou apertando a mão dos dois como se apertasse o futuro.
— Ah, que alegria ver vocês aqui! A senhora deve ser a Dona Maria Lúcia, seja muito bem-vinda! Sua presença ilumina nossa cidade.
Pronto. Acabou. Morri.
Maria sorriu ainda mais — e Afonso viu o plano dele ficar mais frágil do que o vidro.
— Seu Afonso tem sido um verdadeiro anjo para esta cidade! — completou o homem.
Afonso travou a mandíbula. Maria Lúcia virou o rosto, surpresa.
— Tem é?
Ele sorriu torto.
— Você me conhece… — tentou.
Sorriso torto, olhos semicerrados, charme assassino.
— …tenho um coração enorme. — terminou a frase.
Maria Lúcia ficou orgulhosa.
Ele quis morrer.
O prefeito continuou:
— Antes de mais nada… eu ia enviar pelo correio um documento importante. Mas já que o senhor está aqui… ótimo! Dá até para adiantar! O carteiro só chegaria no Rio mês que vem.
O estômago de Afonso despencou.
— Documento? — Maria Lúcia perguntou animada.
Afonso só pensou:
Meu Deus… Ela vai acabar me santificando nessa cidade.
— Sim! Tudo aconteceu tão rápido, fiquei tão maravilhado que havia me esquecido da burocracia. — disse o prefeito. — É um contrato de permanência. Para garantir segurança aos trabalhadores, às escolas novas, às obras que o senhor Monteiro prometeu… Precisamos que ele assine confirmando que a Monteiro Inc vai permanecer aqui por, no mínimo… oitenta anos.
Maria arregalou os olhos — emocionada.
Afonso arregalou porque estava entrando em colapso.
OITENTA.
OITO-ZERO.
ANOS.
Eu tinha sete dias pra destruir esse lugar. SETE.
Não oitenta anos pra sustentá-lo.
— Veja bem… — Afonso começou, já preparando a fuga verbal mais rápida da história.
Mas Maria o interrompeu — como uma flecha atravessando seu peito.
— Prefeito… se essa cidade depende tanto da Monteiro Inc… então fique tranquilo. Eu mesma vou ajudar meu marido com esses projetos.
Afonso sentiu sua alma sair do corpo, caminhar até o meio da rua e ser atropelada por um caminhão de leite.
— Você… vai… o quê? — ele conseguiu perguntar, com a voz de quem acaba de perder uma guerra completa.
Maria Lúcia apertou a mão dele.
— Você sempre fez tanto por tanta gente, amor… está na hora de deixarem você receber o crédito que merece. Eu fico honrada de ajudar.
O prefeito bateu palmas.
— Então vamos agora à prefeitura! Assinamos hoje mesmo e garantimos o futuro da cidade pelas próximas gerações!
Afonso só conseguiu dizer uma coisa, completamente derrotado pelo dom que Deus deu à sua esposa:
— …claro.
E Maria Lúcia sorriu com tanto amor que, por um segundo, ele esqueceu que estava prestes a destruir uma cidade inteira.
Ou melhor — que deixaria de destruir.
Porque quando se tratava de Maria Lúcia…
Afonso Monteiro não mandava em porra nenhuma.
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