O. C.

1 Capítulo 1



(Núcleo do Conjunto Hospitalar de Nova Jérsei)

Plo – Q – T.

Plo – Q – T.

Passos.

E eles caminham por um longínquo e estreito corredor, indo em direção ao setor Psiquiátrico.

Plo – Q – T.

E silêncio.

Os escarpins em coloração vermelho rubi e saltos longos e finíssimos estacionam abruptamente. Dois homens grandalhões usando uniformes ridiculamente brancos – como todo o restante da equipe de enfermagem – bloqueiam o acesso aramado.

— Por favor, identifique-se! – ordena um deles.

A mulher dos cabelos e olhos sombrios exibe seu crachá e tão logo aqueles os muros em forma de gente abrem o caminho.

Um terceiro homem libera o portão eletrônico.

Beeep!

O portão corrediço se abre.

Ela adentra o portal aramado e continua com seus passos decididos.

Plo – Q – T.

Plo – Q – T.

E eles novamente paralisam quando diante de uma porta de metal.

Ela busca pelas chaves dentro dos bolsos frontais de seu jaleco com certo cuidado.

Bling! Bling!

As chaves cantarolam ao colidirem com algum objeto desconhecido.

Ela as recolhe com seu – quase – imperceptível sorrisinho vitorioso estampado em seus lábios e as enterra no assimétrico ferrolho sem qualquer mesura ou piedade.

Abre. Entra. Fecha. Tranca.

E as chaves voltam para um dos bolsos frontais do jaleco.

Qual deles?

Esse é um dos mistérios.

Plo – Q – T.

Plo – Q – T.

Os escarpins continuam seus passos apressados. E param delicadamente ao se encontrarem com uma cadeira solitária, mas nem tão sozinha o quanto poderíamos imaginar.

Ela senta.

Cruza as pernas.

O branco jaleco cobrindo seus joelhos.

Documentos em mãos.

Seus olhos sombrios buscando pelas seguintes informações:


A. H. N. J – All Hospital of New Jersey

Dra. Brightside.

_______________________________________

Paciente nº 06: Frank Anthony Thomas Iero Jr.

Idade: 18 anos.

Mãe: Linda Pricolo.

Pai: Frank Anthony Thomas Iero.

Quadro Clínico: O. C.

Progressos: —


E Click!

O disparo de uma caneta esferográfica.

Não obstante, os olhos sombrios se movem e ganham uma visão mais panorâmica do cenário.

E então poder-se-ia ver um grande salão, muito bem iluminado por uma lâmpada enorme ao centro do teto, de uma luminescência branca e azulada, que conseguiria facilmente atrair os olhares de qualquer um. Mas que se a olhássemos por um longo tempo, com total certeza poderíamos adquirir algum tipo de cegueira temporária.

Quatro paredes almofadadas.

Um pequeno vidro que permitia a circulação do ar, mas a maior parte do oxigênio sendo tratada por um ar-condicionado ligado permanentemente na opção frio polar.

Duas cadeiras.

Em uma delas se encontra a mulher dos sapatos vermelhos.

E na outra o mocinho da camisa de força.

E somente isso.

O restante do salão era preenchido por um silêncio não comensurável. Mas que não durou por muito mais tempo.

— Sabe por que eles o amarraram? – ela o questionou docemente.

Ele apenas levantou os olhos com total desinteresse.

Silêncio.

Olhos nos olhos.

— E então? – ela persistiu. – Sabe por quê?

Ele suspirou lacônico e então respondeu:

— Vai saber?! – disse com um sorrisinho misterioso nos lábios. – Soquei a cara de alguns enfermeiros!

Silêncio.

A mulher pareceu refletir sobre a violência das palavras.

E sobre a violência em si.

Entretanto não esboçou absolutamente nenhum tipo de reação normal ou anormal.

— Por que fez isso? – ela perguntou, algum tempo depois.

— E por que eu não faria isso? – tornou ele.

Silêncio.

Ela anotou algo.

Ele não pôde saber se era bom ou ruim.

— O que a doutora faria no meu lugar? – ele perguntou com o intuito de acabar com todos aqueles rabiscos. E também com algum interesse em particular.

Ela depositou os olhos sombrios nele e avaliou o seu estado catastrófico. Ou nem tanto ruim.

Os cabelos castanhos na altura dos ombros.

Os olhos, de um amarelo pálido a um castanho esverdeado, oblíquos.

Traços delicados. Mas com um pesar bem maduro para sua aparente pouca idade.

Ela diria que Frank era bonito o suficiente mesmo estando amarrado.

E completamente impotente, diga-se.

Ele ainda não tinha músculos ou um físico avantajado. No entanto causaria muito com sua postura altiva e totalmente digna de atenção.

— E qual é o seu lugar?

Ele riu histericamente.

— Os seus olhos precisam de óculos ou o quê?

— Depende.

— Depende do quê?

— Depende do que você quer. – ela arqueou uma sobrancelha. – Posso simplesmente ver o que vejo de fato. Ou então ver o que você quer me mostrar.

— Posso escolher? – ele pediu, pouco inocente.

— Totalmente.

— Então me tire disso aqui! – e então começou a se mover, tentando de todas as formas se livrar daqueles trapos no qual estivera envolto.

— Sinto muito, mas não posso fazer isso.

— Mas que diabos! — ele gritou. Bastante histérico.

— Entenda que não estou aqui para ordenar ou mesmo desordenar o que fazem com você ou não.

— E então? – ele uniu as sobrancelhas, cansado.

— Eu quero ajudar você. E estou sendo sincera ao dizer isso. – ela mudou a posição das pernas e acomodou a prancheta sobre os joelhos. – Quero poder ver os acontecimentos através do seu ângulo de visão. E com isso tentar entendê-lo.

Silêncio.

— Por favor, Frank. Quanto mais rápido fizermos esse procedimento, mais rápido você terá sua liberdade de novo.

— Você não entende! – ele gritou.

— Então me explique.

Silêncio.

Aconteceu um breve declive na iluminação.

Os dois permaneceram ouvindo um ao outro respirar.

Frank tinha algumas lágrimas em seus olhos quando a iluminação finalmente voltou. Mas elas não caíram.

— Pessoas que não conheço entram no meu quarto e me colocam para dormir. E isso acontece todos os dias. Pode imaginar?

— Então resolveu se manifestar violentamente para deixar claro que não quer dormir?

— Não! – ele esbravejou, remechendo em vão o corpo sobre a cadeira. Mas as amarras não cederam nem um pouco.

— E por que respondeu aos enfermeiros com socos e chutes?

— Porque eles queriam roubar as minhas memórias!

— E conseguiram?

Silêncio.

— Parte delas. – ele suspirou. – Eu sinto como se estivesse adormecido por dias ou meses. E por isso não me lembro de muita coisa.

— Uma espécie de vazio interior?

— Não. – ele meneou a cabeça, em negativa. – É bem pior do que isso. Eu sinto como se tivesse sido preenchido por uma grande quantidade de veneno mortal. E toda essa merda vem devastando o meu interior e quebrando o meu cérebro ao meio.

— Está machucado por dentro?

— Sim.

— Podemos tentar uma coisa. – disse ela enquanto ainda subescrevia. – Um acordo.

— Que tipo de acordo?

— Posso ajudar você a recuperar suas memórias.

— Como assim?

— É bastante simples. E completamente lógico.

Ela se levantou e caminhou em direção a cadeira em frente.

Plo – Q – T.

Plo – Q – T.

E silêncio.

Ela se aproximou perigosamente do garoto. E emparou o seu rosto com as mãos.

— O cérebro humano funciona como uma máquina perfeita. – disse ela, com determinação no olhar. – É preciso apertar os parafusos certos para que possamos obter todo o seu potencial.

— Então você vai espremer a minha cabeça até meu cérebro sair pelo meu nariz?

— Claro que não farei isso. – ela riu. – Apesar de não ser uma ideia totalmente ruim.

— Há-há. Não foi engraçado.

— Realmente não foi. – ela o soltou. – Então farei as perguntas certas.

— Mas eu disse que não me lembro de tudo.

— Exatamente.

— Não entendi.

Ela sorriu e tornou a caminhar.

Plo – Q – T.

Plo – Q – T.

E se sentou em sua cadeira novamente.

— O que você lembra são apenas vestígios. – ela o ignorou e começou a anotar . – Ligarei os pontos com as perguntas certas. Como se suas memórias fossem parte de uma grande teia de aranha. Todos os fios se conectam em algum momento. E se eu puxar o fio certo, chegaremos ao início de toda a trama.

— E encontraremos a aranha também?

— Sim. Mesmo porque precisaremos do animal para reconhecer o veneno e encontrar a cura, certo?

— Certo.

— Então, temos um acordo?

— Acho que sim. — ele confessou, ainda meio indeciso.

— Precisamos de um assunto. Um primeiro fio. Sobre o que quer falar?

Silêncio.

Olhos nos olhos.

— Podemos falar sobre Melanie? – ele pediu.

— É claro que podemos. – ela procurou pelo nome nos aquivos. O achou. E tentou ao máximo não demonstar estar surpresa.

— Eu queria saber por que ela ainda não veio me visitar.

— Ela deve ter alguns motivos para isso. – ela tornou sem grande interesse.

— Sim. – ele concordou, pouco intrigado. – Ela deve ter alguns motivos.

Silêncio.

E então nasce uma questão importantíssima.

— Por que a chama de Melanie?

— Não sei. Quem sabe porque meu pai a chamasse assim. – respondeu ele, completamente sincero.