O Cântico de Iara
1 Capítulo 1
— Estou cansado! Eu não aguento mais!
Naqueles dias turbulentos de setembro, só me lembro de ter dito isso, quando minha patroa perguntou qual era o meu problema.
É claro que dizer algo como isso na frente da chefa é uma ideia muito mais que estúpida: é quase como um pedido expresso de demissão.
Concluir que logo estaria limpando minha sala era óbvio, considerando a cena dantesca que se montava diante dos meus olhos avermelhados: o escritório inteiro me olhava direto nos olhos, de forma fulminante, como se eu fosse um inseto que quebrou a “paz”, ou qualquer coisa desse tipo, naquele recinto sagrado e, por essa razão, merecia ser esmagado.
Apesar disso, Dona Marisa (a melhor advogada de Taubaté, como diziam alguns), mostrou compaixão e me liberou para uma visita ao médico oficial da empresa, Armando Gholpe:
— Vá até ele, Marcelo – disse minha patroa – Ele vai curar seus nervos.
Eu costumava chamar o referido mestre em medicina de “doutor Chapatin”, pois suas palavras eram atrapalhadas, suas receitas não faziam muito sentido e ele sempre trazia consigo um pequeno saco de papel que, segundo alguns, trazia em seu interior bombons carregados com calmantes.
Confesso que não estava muito animado em ir até o consultório de Armando, mas quando Marisa chamou o segurança, não tive outra alternativa além de seguir direto para a a sala branca, onde os pacientes eram atendidos.
O médico observou minha pele pálida, pegou um daqueles equipamentos misteriosos de hospital e analisou o castanho dos meus olhos, bateu nos meus joelhos com um martelinho e penteou meus cabelos negros (nessa parte eu até agradeci).
Depois do exame, perguntou-me qual era o problema e eu lhe disse que as montanhas de papéis, clientes grosseiros, colegas ignorantes e auxílio minúsculo (pois, como estagiário, não recebo salário) estavam me esmagando, ao que o médico do saquinho de papel falou:
— Sabe de uma coisa, suspeito que você esteja cansado.
— Claro que sim, seu velho babão! – Respondi, irritado.
Bastou o vovô escutar minhas palavras para me acertar com força na cabeça, usando o saco de papel, enquanto dizia "você precisa aprender a respeitar os mais velhos”.
— Sabe do que eu preciso? De um feriado prolongado!
— Não seria má ideia… – disse Chapatin – Talvez eu possa fazer algo a respeito.
Sem demora, o médico abriu a gaveta de sua escrivaninha e tirou um mapa, junto do comprovante de reserva de um hotel chamado "Mãe D’Oro”.
Para resumir, Antônio havia pagado um quarto nesse lugar para o feriado de independência (vocês sabem, o sete de setembro), no entanto, como não poderia ir devido ao trabalho, decidiu me presentear com o comprovante (que, embora estivesse em nome dele, ainda me permitiria ficar no quarto do hotel).
Bem, na verdade precisei desembolsar R$200,00 reais para conseguir aquele papel, mas como estava desesperado por ter alguns dias de folga, decidi “sangrar o bolso” e partir no dia seguinte.
Chapatin deu-me um atestado para que eu tirasse o dia de folga (pois, apesar de tudo, ainda faltavam alguns dias para o feriado), então tive muito tempo para cuidar das malas e da gasolina do Volkswagen – meu amado fusquinha azul.
A noite de viagem valeu a pena, tanto pelo vento entrando no carro, quanto pelas músicas do Magal, projetadas magicamente pelo rádio do meu possante ao longo de toda a linda viagem, até o raiar do dia, quando cheguei no Mãe D’Oro.
O hotel ficava em uma dessas cidades do interior que, por vezes, nem aparecem nos mapas, mas toda a pacatez do lugar era exatamente do que eu precisava para relaxar…
Pelo menos foi o que pensei, até visitar o Mãe D’Oro: um lugar chechelento, com móveis velhos, atendentes grosseiros e que estava precisando de uma reforma geral – basicamente, ser demolido.
Em resumo, aquele lugar era uma verdadeira espelunca!
Apesar disso, a vida de estagiário não é fácil, de modo que minha carteira estava com muito pouco dinheiro para alugar um quarto melhor.
“Para quem passaria o feriado fazendo relatórios, até que me dei bem” disse a mim mesmo, enquanto me acomodava no péssimo quarto.
Sem me demorar naquela pocilga, sai para conhecer o “vilarejo” (porque “cidade” já parecia demais para um lugar tão minúsculo), com suas casinhas em estilo colonial, a mercearia do português (pelo menos, ele me pareceu ter vindo da pátria lusitana), o quiosque, a praça com uma estátua de um certo deputado Roul Bá Mhas Faz e uma fonte decorada com um cisne de bronze que jorrava água cristalina do bico.
Mais para a noite, descobri que haviam apresentações no quiosque sempre que o Sol se punha, então me arrumei com um jeans básico e uma camisa branca (eu não tinha dinheiro para comprar nada melhor), desejando me animar um pouco e esquecer aquele hotel decaído.
Caminhando alegre, meu entusiasmo logo murchou quando vi uma multidão encher o lugar: havia transeuntes beberrões, mulheres fofocando até não poderem mais, crianças gritando e correndo, homens de terno distribuindo “santinhos” com a fuça de seus candidatos, o padeiro cobrando dívidas e garotas rindo como hienas para um grupo de rapazes que, sorrindo como um grupo de bobos, achavam estar impressionando as beldades.
Como o coração acelerou e comecei a ofegar, não consegui me aproximar da multidão, de modo que fiquei sentado na cadeira de uma pastelaria fechada, desejando observar a diversão de longe.
Com atenção, vi aqueles espécimes tão estranhos esbaldarem-se naquela farra, ignorando se estavam ou não sendo ridículos ou cafonas.
Suspirando, preparei-me para voltar à espelunca quando, inesperadamente, ouvi algo que atraiu minha atenção ao centro do quiosque, onde notei, pela primeira vez, o palco de madeira.
Ali, cantando com a voz de um anjo, estava a garota mais espetacular que já vi em toda a minha! Ela tinha cabelos negros e brilhosos, pele de Iracema e olhos puxados e castanhos.
Seu nome era Iara, segundo me disseram mais tarde, e ela cantava uma música folclórica muito bonita, enquanto tocava sua viola com maestria.
Eu precisava me aproximar daquela moça de qualquer jeito, mas meu coração começava a acelerar sempre que eu caminhava até a multidão, então me contentei em apenas ouvir o cantar de minha musa do interior.
Em determinado momento, mais para o fim da apresentação, nossos olhos se encontraram e, para meu contentamento, ela sorriu; pronto! Naquele momento, decidi que precisava falar com ela de qualquer maneira.
Infelizmente, Iara desapareceu assim que o show terminou e, como minha busca por ela terminou em fracasso, optei por voltar à espelunca e dormir um pouco.
Nos próximos dias, continuei a acompanhar as apresentações de Iara, com suas cantigas antigas e palavras enigmáticas:
— Ouçam todos, meus irmãos, pois agora vou contar – cantava minha amada— o segredo da jurema e o sobre o filho do Ceará. Todos sabem (já contei) sobre a índia “pés de anjo”. Lembrem todos, ouçam bem; e sorriam crianças, que Moacir vai bem!
Eu ouvia suas palavras sem sentido, imaginando se todas as mulheres tinha a clareza de minha Iara, ou sua voz dos anjos, seu olhar hipnotizante, etc., apenas para concluir que ela era única no mundo, como a Julieta o foi para Romeu, Cleópatra para Antônio e Maria para seu José.
Ao final, seus olhos voltaram a encontrar os meus e, uma vez mais, ela sorriu para mim.
Com o passar dos dias, eu não pensava em mais nada além de Iara, então busquei os conselhos de uma índia chamada Vera (para ser mais claro, Vera Índia de Magalhães) que, segundo diziam, tinha o poder de resolver problemas – mediante uma pequena contribuição.
Dizem que o amor não tem preço, mas tem sim: no meu caso, ele custou R$50,00 em dinheiro vivo e um vale-café.
Segundo Dona Vera, eu só precisava ir até o local onde minha amada treinava seu canto.
De acordo com ela, Iara costumava ensaiar próxima ao rio, pois entendia que a natureza lhe serviria melhor de inspiração do que a boêmia comum da cidade.
Não tirei aquela informação da mente (nem o preço que ela me custou), então, quando vi Iara se apresentar naquela noite, meu entusiasmo era visível.
Na verdade, cheguei até a cumprimentar um bebum e, por mais que ele não fosse digno, perdoei seu palavrão com um aceno.
Quando o som da viola parou e a canção cessou, meus olhos encontraram os de Iara e ela sorriu com mais intensidade do que nas noites anteriores.
Eu estava mais feliz que deputado após vencer a eleição, então não me desesperei quando minha musa desapareceu; corri pela trilha do bosque indicada por Vera e encontrei Iara, sentada em uma rocha, tocando sua viola e cantando uma antiga canção dos índios cujo significado ignoro.
Logo, porém, minha alegria passou.
É verdade que Iara estava ali, ensaiando suas canções sem toda aquela multidão que tanto me sufocava, no entanto, minha musa ainda estava fora do meu alcance: a rocha que abrigava minha paixão estava no meio do rio…
E eu não sabia nadar.
Para resumir, a culpa era do meu primo, Jeremias, que tantos anos atrás havia me desafiado a nadar no lago da escola e, por consequência, quase morri afogado.
Desde aquele dia fatídico, excomunguei de minha vida todos os corpos de água feitos para nadar ou pescar, incluindo rios, lagos, piscinas e qualquer outro que se encaixe nessas características.
O rio corria tranquilo, mas o pânico logo se apoderou de mim assim que me aproximei meros dois passos de suas águas geladas.
Desanimado, optei por me esconder atrás de uma árvore e observar minha musa dedilhar a viola e cantar mais algumas lindas cantigas de verão; não desejava que ela me visse acovardado.
A despeito de meu receio, Iara me avistou e sorriu, como se estivesse satisfeita com minha presença (ao menos era isso que eu queria concluir).
Com sua voz doce ela me convidava a pular no rio e ir até ela, mas não atendi ao seu canto maravilhoso, por mais que meu coração doesse.
Eu não queria me enfraquecer mais diante dela, então cobri os olhos com a mão esquerda e me sentei aos pés de um Ipê, seguindo o seguinte raciocínio: “se não posso chegar a ela, então não quero vê-la”.
Iara riu timidamente (talvez detectando meu orgulho ferido) e prosseguiu com seu ensaio noturno, até tocar sua última canção e pular no rio, como um peixe.
Imagino que ela desejava voltar para casa, mas como seguiu pela margem do rio oposta a minha, nunca poderia seguí-la.
A noite estava fria, então segui para meu humilde quarto de hotel e rapidamente caí no sono.
Com o raiar de um novo dia, fiz minha higiene matinal e saí depressa da espelunca, evitando ser envenenado pela comida suspeita daquele lugar.
Àquela altura, meu dinheiro já havia acabado, sendo a reserva de Chapatin a única razão para que eu ainda não tivesse sido expulso do Mãe D’Oro.
Como é de conhecimento geral, a fome não respeita a fase das “vacas magras”, de modo que meu estômago começou a doer, desejoso de receber o sustento diário.
Tentando enganá-lo um pouco, caminhei até a igreja local, ansioso por conversar um pouco com o "departamento superior".
A construção era toda composta por arquitetura barroca, com suas lindas torres pontudas que pareciam tocar o céu, sinos que produziam sons fortes e metálicos, grandes portas de madeira decoradas com relevos de santos e uma escadaria de pedra que, se por um lado parecia antiga, por outro mostrava sinais claros de cuidados.
Acredito que o pároco varresse a fachada do templo diariamente, mas como a fraqueza da fome começava a me derrubar, apenas esqueci essa observação, entrei no edifício e me sentei em um desses lindos banco de madeira trabalhada.
Enquanto fazia minhas orações, o pároco se aproximou com um copo de água e um pãozinho, garantindo assim o meu desjejum.
Fiquei um pouco envergonhado quando pensei que o homem pudesse ter ouvido o ronco de meu estômago, mas como pareceu-me pecado recusar uma refeição na casa de Deus, engoli o orgulho e apreciei aquela que, na minha opinião, foi a refeição mais maravilhosa que tive nos últimos tempos (efeito de minha fome, com certeza).
Não sei se é costume este tipo de gentileza nessas cidades interioranas (na capital, certamente não é), mas o agradeci com humildade e, mais animado pela fome ter-me dado trégua, contei-lhe meus infortúnios, tanto econômicos quanto emocionais.
Ajeitando os óculos e penteando com os dedos seus cabelos grisalhos, o religioso perguntou se eu estava, de fato, interessado na moça que cantava diariamente no quiosque.
Respondi afirmativamente, cabisbaixo, mas já sentindo aquele alívio no peito que a gente só consegue em raros momentos, quando nos abrimos para um amigo e dizemos: “amigo, estou na pior”.
Com um sorriso, o pároco chamou o coroinha (um menino loiro e franzino, vestido com um tipo de bata) e pediu-lhe que trouxesse um caderno de anotações, sendo prontamente obedecido.
Sem enrolação, o religioso tirou desse alfarrábio um folheto e me entregou, juntamente com dois tostões que, considerando as efígies, deveriam ser do primeiro período Vargas.
Batendo as mãos, me aconselhou:
— Mais abaixo no rio, onde os pescadores se divertem a trabalhar no ofício de São Pedro, você encontrará Flip e sua joia: “O Boto”. Entregue a ele esses tostões e lhe peça para levá-lo até a rocha onde a moça se diverte com a música… Mas fique ciente de uma coisa; independente de seu romance dar certo ou não, a cidade inteira ficará sabendo de tudo! Flip tem gosto por histórias divertidas, piadas infames e fofocas de todos os tipos.
Ótimo! Se eu seguisse na busca de minha amada Iara, provavelmente me tornaria o próximo meme a viralizar na internet brasileira…
Mas com assuntos do coração, o diálogo é muito difícil, de forma que aceitei as recomendações e segui, com cautela, até a parte baixa do rio, onde se viam canoas, pequenos barquinhos e até uma piroga indígena, feita de um tronco maciço de árvore.
Precisei perguntar por algum tempo, mas logo encontrei Flip, rodeado de barcos belíssimos e enganando alguns turistas com histórias ridículas sobre lobisomens, homens do rio, discos voadores e políticos honestos.
O rapaz devia ter entre quinze e dezesseis anos, tinha cabelo curto e escuro, pele bronzeada pelo Sol, regata branca com os dizeres “Baile na Garoa”, um calção azul e, para coroar sua figura pitoresca, um par de chinelos de praia.
Outro detalhe interessante era sua corrente de ouro (provavelmente falso) que trazia uma plaquinha com a reveladora mensagem: “FIADO? SÓ AMANHÃ!”
Caminhei até o barqueiro e lhe cumprimentei, logo começando a contar sobre a garota que eu tanto desejava encontrar.
Eu gostaria de contar um pouco sobre como foi a conversa com Flip, mas com o não entendi nem 20% do que ele falou, vou apenas pular essa parte e seguir para o que realmente interessa: a noite do grande encontro.
Aconteceu da seguinte maneira: Flip arrumou sua “embarcação nobre” (foi como ele chamou) e se posicionou no trecho do rio onde nos conhecemos, aguardando minha chegada.
Dessa vez, não fiquei muito tempo na apresentação de Iara, pois quanto mais ela cantava, mais apaixonado eu ficava (além do mais, o pânico de encontrá-la mais tarde no rio poderia transparecer na minha cara), então preferi correr até o ponto de encontro, onde Flip me esperava.
Minha animação inicial logo arrefeceu-se, quando vi o “inafundável Titanic” de meu barqueiro: uma canoa velha e com pintura desbotada, com vários pontos cobertos por um tipo de adesivo que, segundo meu entendimento, era impermeável.
A decepção logo deixou meu rosto quando ele deu um soco amigo no meu ombro e disse:
— Marcelo! Fala, meu mano! Beleza, guerreiro? Saca só meu possante do rio; muito massa, né não? Tá legal, eu sei que é meio “deprê”, mas fala sério, cara! Por dois tostões do Getúlio a gente não alugava nem uma piroga decente. Mas te digo, maluco; hoje cê vai ficar na paz com a tua mina, te garanto. Então? Suave pra subir o rio? Ou tá osso achar coragem?
Apenas balancei a cabeça, em sinal de afirmação, já que suas palavras eram como um derivado primitivo de alguma língua latina, desconhecida até por Camões.
Consegui interpretar uma ou outra palavra, mas o informalismo do discurso me deixaram a sensação de que Flip se comunicava por algum dialeto aparentado ao português.
De qualquer modo, seu entusiasmo me contagiou, de modo que entrei no “Boto” (sim, esse era o nome da canoa) e seguimos rio acima, com a velocidade que o meio de transporte permitia.
Após alguns minutos, ouvi os sons da viola, acompanhados pela voz doce de minha amada Iara.
Fiquei feliz, até o momento em que o Boto começou a vazar e afundar.
Flip não se preocupou e disse que podíamos nadar até uma das margens:
— Só vamos nadar até o outro lado e tudo fica na boa – disse o barqueiro, logo pulando no rio e nadando até a grama fresca da margem.
Apesar do entusiasmo de meu amigo, tive de falar, com fúria:
— Mas Flip, eu não sei nadar! Porque acha que eu aluguei essa banheira?!
— A casa caiu… – disse Flip, com o semblante pálido.
Antes que ele chegasse até mim, a canoa afundou e mergulhei no rio, logo sendo levado pelas águas.
Enquanto eu afundava, pensei ter ouvido Flip gritar “relaxa mermão! Eu vou te salvar!”, mas tudo começou a ficar silencioso, até que eu não ouvi mais nada, nem o canto de minha dama fatal, cuja voz doce havia me trazido para as profundezas.
A luz do luar iluminava as águas, produzindo uma estranha beleza que, a meu ver, antecedia a tragédia da morte fria e molhada no rio.
Fechando os olhos e resignando-me ao destino que o amor me havia conduzido, esperei ouvir as trombetas do Reino de Deus, juntamente com o coral celestial e o Filho do Homem, trajado em suas vestes resplandecentes e dizendo-me “bem vindo, meu filho”.
Sim; era uma imagem bonita para se ter em uma hora como aquela, porém, acho que o Filho de Deus tinha outros planos para mim…
Uma sombra se aproximou do meu corpo e me agarrou com força, puxando-me em direção à superfície.
Ainda de olhos fechados, senti meus pulmões enchendo-se de ar, enquanto mãos acariciavam meus cabelos e uma voz sussurrava, com toda a doçura do mundo:
— Você é meu, não do rio. Agora está tudo bem.
Quando abri os olhos, vi minha Iara, com seus lindos cabelos negros, olhos que reluziam com a luz do luar, sorriso dengoso e bochechas coradas.
Ela me perguntou se enfrentar o rio só por causa dela tinha valido a pena, ao que respondi afirmativamente:
— Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.— falei, com a voz fraca.
— Ainda não beijou a sereia – Iara me disse.
— Ela ainda não me autorizou – respondi, enquanto recuperava o restante do fôlego.
— Ela permite – respondeu-me, enquanto me ajudava a levantar.
Embora cansado, inclinei-me timidamente na direção de minha musa e, sem pensar em mais nada, aproximei meus lábios dos dela, beijando-a com carinho.
Não foi um beijo cinematográfico – pois faltava-me a experiência –, no entanto, foi o mais importante de toda a minha vida.
A partir dali, nasceu entre nós um amor profundo e sincero, do tipo que supera aquelas crises as quais todos os relacionamentos estão vulneráveis.
É claro que a cidade inteira ficou sabendo de tudo, graças a Flip e sua boca de comadre, mas não me importei; se eu estava feliz, então não via problemas em deixar que os outros partilhassem de minha felicidade.
Somos todos "colegas-passageiros rumo à tumba", nas palavras do velho Dickens, não é verdade? Considerando isso, os cochichos e risadinhas daquele vilarejo (ou cidade, chamem como quiserem) até que me traziam alegria, pois em minha consciência residia a verdade de que as palavras do povo advinham de meu final feliz.
Aliás, talvez valha a pena contar sobre como o cotidiano daquelas pessoas interioranas se alterou, depois que minha amada “pescou-me” do rio: Flip passou a contar minha história com Iara para os turistas, ganhando uma boa quantia com isso; Vera alçou a fama ante os cidadãos, oferecendo serviços (picaretas) de “união de casais em sete dias e R$50,00”; o pároco pegou o coroinha desenhando bigodes no Santo Antônio da igreja (o que lhe valeu um poderoso puxão de orelha) e o restante do povo começou a realizar as festas do quiosque três horas mais cedo do que o habitual.
Bem…
Pelo menos, estão todos felizes.
FIM
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