O Bug do Milênio
1 Como roubar um relógio e ganhar uma concussão
Jordie sabia que estava ferrado, e isso não era uma conclusão particularmente difícil de chegar.
A matemática era simples: quatro caras pesando provavelmente uns oitenta quilos cada e vestindo blazers de lã azul-marinho sob medida de um lado; do outro, um único garoto de quatorze anos com a gravata torta e sapatos de couro que claramente tinham sido comprados em alguma promoção de segunda mão.
Ele estava correndo, mas atrás dele a pequena infantaria de destruição da Wellington Academy corria também.
— PEGA ELE! — berrou Ethan Hashford.
A voz dele era aquele barítono grave de quem já tinha barba antes de todo mundo e usava o sobrenome estampado na ala nova do colégio como licença poética para ser um babaca profissional.
Jordie não olhava para trás.
Olhar para trás era o primeiro erro de qualquer vítima de filme de terror, sua mãe sempre dizia, com aquele tom paciente de quem ensina a regra do jogo enquanto costurava mais um remendo no seu uniforme.
“Jordie, nunca olhe para trás quando estiver correndo.”
Claro que ela provavelmente se referia sempre estar atento na rua depois de sair da escola, e não a fugir do capitão do time de lacrosse e dos seus três cães de guarda após invadir o vestiário e surrupiar um relógio de dois mil dólares.
Mas... aquela era a Wellington Academy. A prestigiada, secular e insuportável escola "sabor britânica", onde os alunos pareciam sair de um catálogo de elite e o bullying não era feito com empurrões toscos, e sim com humilhações geralmente elegantes e refinadas, exceto quando Ethan Hashford decidia que a elegância demorava demais a surtir efeito.
Tecnicamente, Jordie não tinha roubado. Ele tinha pegado.
Sem pedir.
O que era completamente diferente.
Provavelmente.
Além disso, Jordie tinha uma justificativa quase moral: sua mão esquerda por vezes parecia ter vida própria desde que se entendia por gente. Ele tinha o hábito involuntário de encontrar bolsos alheios, destrancar gavetas emperradas ou sumir com pequenos objetos antes que seu cérebro pudesse dar a ordem para parar e pensar no quanto aquilo não iria melhorar o seu dia.
Sua mãe — que trabalhava em dois empregos quase sem dormir para pagar os custos extras que a bolsa de estudos integral de Jordie não cobria — chamava aquilo de "energia acumulada com falta de atenção".
A coordenação da escola chamava de TDAH.
Ethan Hashford chamava de "motivo para dar uns socos na cara do bolsista franzino".
Jordie dobrou a esquina do pátio interno, escorregando levemente nos paralelepípedos centenários da academia. Ele apertou o metal frio do relógio dentro do bolso da calça de alfaiataria.
— Volte aqui, Warden, seu filho da—!
O resto do xingamento se perdeu no vento de outono.
Não porque Jordie estivesse longe demais, mas porque ele estava ocupado demais tentando garantir que seus pulmões não colapsassem.
Lyra descobriu que Jordie havia desaparecido exatamente quatro minutos antes do sinal da última aula tocar.
Ela estava no corredor dos armários de carvalho envernizado, organizando seus cadernos por ordem alfabética e código de cores — verde para Biologia, azul para História, Vermelho para a matemática, que ela detestava, mas dominava —, quando percebeu a ausência da figura inquieta ao seu lado.
Isso não era exatamente uma emergência nível cinco. Jordie desaparecia com a frequência de um fantasma vitoriano.
Normalmente, para evitar a inspetora.
Às vezes, porque tinha visto um esquilo estranho no jardim botânico do colégio e decidiu segui-lo.
Noutra, ele simplesmente desapareceu no meio da aula de Química e só foi encontrado meia hora depois, no telhado do laboratório, tentando entender como o mecanismo do relógio da torre funcionava.
Ela deu um suspiro e ajeitou a gravata feminina impecável do seu próprio blazer da Wellington. Se havia alguém ali que não precisava se preocupar com o valor da mensalidade pesada da escola, era ela. Seu padrasto pagava as contas do colégio sem nem olhar o extrato, mas Lyra detestava a soberba da maioria dos herdeiros que estudavam ali. Talvez por isso tivesse se grudado a Jordie desde o primeiro dia: ele era o único garoto no raio de dez quilômetros que não tentava impressionar ninguém com o saldo bancário da família.
Com cabelos ondulados que emolduravam um rosto oval de maçãs altas quando soltos, nariz reto e mandíbula delicadamente marcada, ela tinha olhos castanhos, ligeiramente estreitos, que detinham uma franqueza incômoda — palavras de Jordie — quando ela encarava alguém diretamente. A maioria dos professores a considerava o estereótipo da garota prodígio destinada a brilhar em Harvard.
Uma garota prodígio que, naquele instante, sentiu um arrepio incômodo na nuca. Havia um padrão errado no ar.
— Você viu o Jordie? — perguntou para uma garota do segundo ano que passava ajustando a tiara de veludo.
— Jordie...?
— Warden.
A menina parou.
— Ah. Ele acabou de cruzar o portão de ferro principal.
— Andando?
— Na verdade, parecia uma prova de cem metros rasos. — A garota deu um sorriso venenoso. — Com o Hashford e os garotos do time correndo atrás dele.
Lyra fechou os olhos por três segundos exatos, uma veia sutil começando a pulsar no canto de sua testa.
Claro. É claro que tinha a ver com Hashford.
Lyra tinha um plano de vida muito bem estruturado e ele envolvia tirar notas A preferencialmente em todas as matérias, entrar em uma boa faculdade e sobreviver à Wellington até terminar o colegial. Mas Jordie tinha um talento quase místico para rasgar qualquer planejamento dela e jogar no lixo.
— Obrigada — disse, batendo a porta do armário com um estrondo que fez a outra garota dar um pulo.
— Lyra, espera, a aula de—
Mas ela nem ouviu. Já estava cruzando o saguão de mármore em disparada.
Jordie chegara à conclusão indiscutível de que havia cometido um erro crasso.
O relógio escondido em seu bolso pertencia a Ethan Hashford — o garoto que transformara os últimos três meses da sua vida em uma sucessão miserável de pequenas tragédias — e Jordie não sabia dizer qual tinha sido o gatilho exato.
Talvez na semana anterior, quando Ethan arremessou sua mochila numa poça de lama, estragando o único livro de História que ele não tinha como pagar de volta. Talvez dois dias atrás, quando o encurralou no vestiário para zombar dos seus sapatos velhos. Ou talvez naquela manhã, quando Ethan pegara o sanduíche que sua mãe tinha preparado com tanto carinho, dera uma mordida e o jogara no lixo sorrindo.
O motivo já não importava. O cérebro de Jordie simplesmente deu mais um de seus curto-circuitos.
Ele esperara a aula de Educação Física, entrara no vestiário com a agilidade que sempre teve para abrir travas simples e pegara o relógio sem pretender vende-lo ou “perdê-lo” por aí. Só queria que o babaca do Ethan sentisse, por cinco minutos, a sensação terrível de ter algo precioso arrancado de si.
Era um plano brilhante.
Até dar completamente errado.
Então Jordie cometeu o erro fatal de olhar para trás.
O garoto mais rápido da gangue de Ethan, Chris, estava a menos de meio metro. A mão do sujeito logo agarrava o tecido de sua mochila.
Jordie tentou acelerar, mas o asfalto molhado fora dos muros da Wellington não o perdoara.
— SOCORRO! — gritou para as casas da rua residencial.
Nada aconteceu.
Nem uma porta se abriu.
Nem uma cabeça apareceu em uma janela.
As pessoas daquela vizinhança tinham jardins enormes, carros caros e uma capacidade impressionante de ignorar adolescentes correndo pela rua tentando escapar de uma tentativa de assassinato. Talvez porque aquilo fosse exatamente o tipo de coisa que elas não queriam ter de explicar à polícia.
O pé de Jordie enganchou em alguma coisa que saltava do concreto, e ele mergulhou no chão, ralando as mãos contra a superfície áspera na tentativa de evitar meter a cara ali. O relógio de ouro de Ethan escapou do seu bolso e deslizou metalicamente pelo chão.
— Peguei você, seu bolsista de merda!
O chute veio antes que Jordie pudesse levantar, mas ele ergueu os braços por instinto e o impacto acertou seu antebraço.
Então outro golpe.
Depois outro.
A mão de alguém agarrou sua mochila e a arrancou de seu ombro.
— Cadê a porra do relógio?!
— Caiu! — Jordie tossiu, tentando se recuperar do primeiro golpe — Caiu ali!
— Mentiroso!
Jordie tentou novamente se levantar e uma sombra passou diante dele.
Um soco acertou seu rosto e, por um segundo, ele não sentiu nada. Então veio a dor. Uma dor quente e latejante que parecia ocupar metade da cabeça.
Ele cambaleou.
Alguém o empurrou.
E ele caiu novamente.
— Vai, chuta ele! — gritou alguém.
— Achei!
— Dá aqui!
— É meu!
As vozes vinham de todos os lados.
Jordie tentou se orientar...
Chão.
Tênis.
Calças do uniforme.
Grama rala.
Um rosto que aparecia e desaparecia.
O céu.
Então um chute acertou suas costelas e Jordie perdeu o ar. Ele se encolheu, tentando proteger a cabeça, sem saber mais quem estava batendo. Só sabia que eram muitos.
E aí—
— EI!
A voz atravessou o barulho e todos olharam na sua direção.
Por um instante, Jordie enxergou apenas uma figura parada alguns metros atrás deles. Cabelos alaranjados presos em um rabo-de-cavalo, blazer azul da Wellington, respiração pesada, rosto vermelho de tanto correr. Lyra.
Qualquer pessoa sensata esperava que uma garota de família rica, com feições nobres e notas quase impecáveis tentasse argumentar, citar o código de conduta da Wellington ou ameaçar chamar os advogados do pai, mas Lyra tinha outra forma de lidar com esse tipo de problema.
Ela não gritou mais nada, nem hesitou. Só avançou no garoto mais próximo e desferiu um soco direto, reto e com a força exata na ponta do queixo dele. O estalo seco ressoou na rua pacata, os olhos do garoto viraram e ele desabou na grama feito um saco de batatas.
— Que porra—? — Ethan começou a dizer, chocado ao ver a garota de ouro da escola agindo como uma briguenta de rua.
Lyra não esperou.
Ela não lutava com brutalidade; parecia calcular os pontos fracos de cada um em segundos.
Porém, a matemática não perdoava. Eles eram quatro — agora dois de pé — e muito mais pesados.
Ethan recuperou-se do choque e se lançou sobre ela. Lyra tentou sair da linha do ataque dele, mas Hashford foi mais rápido, agarrando-a pelo blazer do uniforme e arremessando-a contra o chão.
O impacto do asfalto nas costas de Lyra fez o ar escapar de seus pulmões em um assobio doloroso. Seu cérebro treinado por horas assistindo programas esportivos nas férias imediatamente registrou a informação: aquilo tinha sido um ippon perfeito. Pena que o tatame era feito de concreto.
— LYRA! — gritou Jordie, tentando se levantar, mas o outro garoto remanescente deu um pisão em seu peito, prendendo-o no chão.
— Sua louca do caralho! — esbravejou Ethan, limpando um corte no lábio que Lyra tinha conseguido abrir antes de cair ao chão. Ele ergueu o pé e desferiu um chute na lateral do corpo dela.
Lyra se encolheu com o impacto, fechando os dentes com força, mas sua mão ainda tateou o asfalto, procurando cegamente uma pedra, um galho, qualquer coisa para continuar atacando. Ela parecia uma tempestade contida, lutando até o último segundo, mas Lee, o terceiro amigo brutamontes de Hashford, já estava de olho nos seus movimentos.
Enquanto isso, Jordie tentava empurrar a perna de Finney, o garoto que o prendia no chão com o pé. O mundo estava borrado, o sol brilhava demais, e ele podia ouvir o próprio coração batendo como um tambor desregulado no fundo dos ouvidos. Dois estudantes de quatorze anos, caídos no asfalto com os uniformes arruinados da Wellington, apanhando na covardia de veteranos ricos.
A vida deles era um desastre.
E, o pior de tudo: Jordie tinha a estranha e incômoda sensação de que aqueles quatro idiotas eram o menor dos seus problemas.
Os dois seguiam pela calçada em silêncio durante alguns minutos. Não porque tivessem ficado sem assunto, mas porque ambos estavam ocupados demais descobrindo quais partes do corpo ainda funcionavam.
Jordie sentia uma dor surda nas costelas, outra no maxilar e uma terceira, mais difícil de localizar, no orgulho. Caminhava com uma das mãos apertando o braço esquerdo e a outra segurando a alça da mochila rasgada.
Lyra não estava em condição muito melhor. O cabelo ruivo havia escapado completamente da presilha. A gravata pendia torta. Havia terra nas mangas do blazer azul-marinho, um rasgo pequeno na lateral da camisa e um corte no lábio inferior que ainda deixava uma fina linha de sangue no queixo.
Os sapatos de ambos, que naquela manhã haviam deixado a Wellington Academy brilhando sob o lustre do saguão principal, agora pareciam ter percorrido uma trincheira.
— Nós apanhamos muito — Jordie disse por fim.
Lyra olhou para ele.
— Sim.
— Tipo... vergonhosamente.
— Bastante.
— Quatro contra dois continua sendo covardia.
— Sim.
— Então tecnicamente não perdemos.
Lyra pensou por alguns segundos.
— Jordie.
— O quê?
— Eles acabaram com a gente.
— Sim.
— E eu levei um ippon.
Ele tentou não rir.
— Você levou um ippon.
Lyra virou a cabeça devagar e soltou um suspiro pelo nariz.
Jordie sorriu também. Mas o sorriso doeu.
— Ai.
— Bem feito.
— Você também está machucada.
— Estou ciente disso.
— Seu lábio está sangrando.
— Também sei.
— E acho que você vai ficar com um roxo enorme na—
— Jordie.
Ele fechou a boca e eles continuaram andando.
O vento frio da tarde passava entre as árvores e fazia algumas folhas secas rolarem pela calçada. Atrás deles, a Wellington Academy já havia desaparecido há algum tempo na curva da rua.
Jordie olhou para Lyra de lado.
Ela estava andando como se nada tivesse acontecido. Ou tentando parecer que nada tinha acontecido; ele conhecia aquela expressão.
— Você está brava comigo?
— Estou pensando no seu caso.
— Isso é pior.
— Muito.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu sinto muito.
Lyra não respondeu.
— Sério.
Ela continuou caminhando.
— Eu não devia ter pegado aquele relógio.
— Não.
— Eu só...
Jordie chutou uma folha seca.
— Eu estava cansado.
Lyra olhou para ele.
— Eu sei.
— Não queria continuar deixando eles fazerem aquilo comigo.
— Eu sei...
— E eu queria que achassem que foram castigados.
— Porque você é um idiota.
— É...
Ela finalmente sorriu um pouco.
— Mas um idiota meu.
Jordie abaixou os olhos.
— Ainda me sinto mal.
— Por quê?
— Porque você se machucou por minha causa.
Lyra parou de andar e ficou diante dele por um instante, os braços cruzados embora o movimento claramente doesse.
— Jordie.
— Hum?
— Eu escolhi vir.
— Você escolheu entrar na briga e isso não deveria me fazer me sentir melhor.
— Não é para fazer.
Ela tocou de leve o próprio lábio cortado e fez uma expressão de dor.
— Mas escuta: você não precisa se sentir culpado por me proteger de uma coisa que eu escolhi fazer.
Ele ficou em silêncio.
— E, da próxima vez — ela acrescentou —, tente não roubar coisas de quem tem amigos maiores que você.
— Então você não está dizendo para eu não roubar mais...
— Estou dizendo para você ser mais cuidadoso.
Jordie abriu um sorriso.
— Ah.
— Não pareceu ouvir a parte importante.
— Ouvi.
— Ótimo.
E eles voltaram a andar. Mais alguns metros e o silêncio teria voltado, não fosse Lyra diminuir o passo.
— O que foi? — perguntou Jordie.
Ela não respondeu. Estava olhando para a frente. Para além da próxima esquina, onde havia uma pequena faixa de neblina baixa, espalhando-se rente à estrada. A tarde estava fria, mas aquilo parecia denso demais para ser apenas vapor.
Lyra estreitou os olhos.
Havia alguém ali. Uma silhueta alta e escura. E... Ela piscou. Aquilo era um homem montado em um cavalo?
— Jordie...
— Hm?
— Você está vendo aquilo?
Ele acompanhou o olhar dela e por alguns segundos não disse nada. Até que:
— Um cavalo?
— Eu acho que sim.
— E um homem em cima dele?
— Sim.
— Ali, no meio da rua?
— Sim.
A figura permanecia imóvel sob a névoa. O cavalo parecia... incompleto. Ou talvez fosse apenas a neblina.
Lyra sentiu um arrepio subir pela nuca. Não era medo, exatamente, mas uma sensação mais incômoda. Aquela sensação que aparecia quando alguma coisa simplesmente não fazia sentido. O homem parecia estar olhando diretamente para eles.
— Vamos por outro caminho... — ela disse.
Jordie olhou para ela.
— O quê?
— Vamos dar a volta.
— Por quê?
Ela lançou outro olhar para a silhueta.
— Porque aquele cara quer alguma coisa com a gente.
— Como você sabe?
— Ele está parado no meio da névoa olhando para duas crianças cobertas de lama e sangue.
Jordie considerou aquilo.
— Tecnicamente, nós somos adolescentes.
— Jordie...
— Tá. Entendi.
E eles atravessaram para o outro lado da rua.
Lyra não tirou os olhos da figura. Por um breve instante, a névoa pareceu se mover. A cabeça do animal ergueu-se e o homem fez algum movimento que ela não conseguiu entender, então Lyra segurou o braço de Jordie.
— Anda!
— Estou andando.
— Mais rápido!
— Você está me assustando.
— Eu estou assustada.
Jordie olhou para ela. Aquilo fez com que ele parasse de fazer piada. Lyra raramente admitia estar com medo, então os dois aceleraram o passo.
Quando chegaram à esquina, ela se permitiu olhar para trás.
A névoa ainda estava lá. O cavalo também. O homem permanecia imóvel e olhando para eles. Lyra virou o rosto imediatamente, sem fazer a menor ideia de quem ele era. Ela só sabia de uma coisa: se aquele sujeito estava interessado neles, ela preferia muito mais descobrir por que depois de chegar em casa. Bem longe dali.
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