O Brinde
1 Capítulo único
Preparou os talheres de prata, a faca e a espátula fulgurantes na sua elegância antiga, manuseados apenas em ocasiões especiais. Sorriu na antecipação do momento solene. Olhou para os rostos de cada um dos convivas daquela ceia de Natal que rodeavam a mesa na expetativa do seu gesto. A família, como convinha a uma consoada que se prezasse. Pai, mãe, a tia velha, o irmão e a esposa mais o fedelho de cinco anos irritante que passou o tempo todo agarrado ao telemóvel, os dois primos solteiros, a amiga enjoada de um dos primos que bebeu demasiado vinho, a sua namorada.
Ele propôs cortar e servir o bolo-rei, dividi-lo e oferecê-lo, para demonstrar as suas capacidades de anfitrião, apesar de a reunião estar a acontecer na casa dos pais e ele já não morar ali desde o final do verão passado. Quis ser útil. Quis que o Natal fosse um sucesso – porque estava a ser claramente uma festa aborrecida. Uma obrigação enfadonha, uma tradição embaraçosa. Havia naquela sala pouca afinidade apesar de serem todos parentes, de serem todos amigos. Na prática e na teoria.
A árvore de Natal iluminada, os presentes acumulados debaixo das ramadas artificiais vergadas pelo peso das bolas coloridas, a música foleira da época a tocar num telemóvel ligado a um amplificador, a lareira acesa, a lenha a crepitar.
Ele foi impecável na divisão do bolo-rei, pejado de fruta cristalizada, recoberto de açúcar em pó. Distribuiu as fatias com o mesmo requinte da espátula e da faca prateadas. Comentou-se que já não havia brindes. Antigamente é que era, havia prendas escondidas na massa dourada, quem calhasse com a fava pagava o bolo-rei do ano seguinte; depois havia as outras surpresas, os berloques de latão que causavam comoção quando eram descobertos pelo sortudo a quem calhara a fatia premiada. Agora não se podia fazer nada, a ASAE não deixava, a culpa era do governo.
Nisto, a namorada soltou um gritinho. Espantada, levou os dedos à boca. Toda a gente olhou para a moça que corava, visivelmente embaraçada por congregar a atenção dos demais – ela até nem queria ter vindo. Tinha-o conhecido havia duas semanas e não se sentia à vontade para ir à casa dos pais dele, na noite de Natal. Mas ele precisava de mostrar que era independente. Vivia sozinho, tinha uma namorada, cortava o bolo-rei na consoada.
Nos dedos da moça estava um anel com um brilhante. A preciosa joia estivera escondida na fatia do bolo-rei. Ele empalideceu. A mãe bateu palmas, o pai resmungou. Um pedido de casamento original! Felicitaram os noivos.
Que novidade maravilhosa! Principalmente… para ele. Boquiaberto, empunhava a faca e a espátula.
O que estava a acontecer?
Longe dali, na pastelaria fechada, o aprendiz de padeiro entrava em pânico. Não encontrava o bolo-rei onde escondera o anel com o qual contava surpreender a namorada de longa data. Naquela noite de Natal iria pedi-la em casamento.
Contudo já não iria acontecer. O bolo-rei, o seu bolo-rei especial… tinha sido vendido!
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