O Brilho Da Lua
2 Você irá descobrir tudo por acidente
Notas iniciais
" É difícil pensar em algo enquanto sua nuca lateja tão forte quanto se tivesse dando carona a um elefante nos ombros, mas Ullisses tentava imaginar como foi parar ali. "
– Quem diabos causara aqueles arrepios? E aquela voz... — neste momento era sua voz que sumia.
" O jovem rapaz se referia a voz que o tirou do torpor que a dor que sentia o tinha deixado. Ullisses acordou no escuro e com uma dor lancinante em sua coxa, esta parecia presa sob escombros o que, somado ao seu estado físico atual, limitava seus movimentos aos dos seus olhos. E foi o que bastou para enxergar a pobre criança. "
– Ei, Cid! Volte aqui garoto! — sua voz era fraca — Também estou perdido! Podemos achar a saída juntos!
" Cid. Este foi o nome que ele deu àquela coisa. O encontro com aquilo assustaria qualquer um em uma situação normal, mas o que é um copo d'água para quem está numa tempestade? E era com isso que Cid brincava. Um copo, não uma tempestade, só para esclarecer. "
–Oras, seu moleque endemoniado, apareça, seu verme — sua voz parecia uma rebelião em sua garganta que tentava prender suas palavras — sou seu mestre, não? Então apareça!
– Master? — ouviu-se a fina voz submissa.
" E ali estava o pequeno monstrinho. Desta vez brincava com uma lanterna e ficava jogando-a de uma mão para outra e girando-a em torno do próprio eixo. Sua face era delicada e rechonchuda como a de qualquer criança deve ser. Cabelos negros como o breu e olhos dourados como ouro derretido. Seria um belo modelo infantil, pois era bem sagaz para sua idade. Claro, se seu rosto não ficasse com uma eterna expressão sádica, doentia e psicótica. "
– Aí está você minha pestinha preferida deste... deste... — sua expressão ficou confusa e apertou os olhos — onde estamos?
" Seus olhos raramente piscavam e suas íris eram contraídas como se tentasse olhar para o Sol constantemente, porém o que mais assustava era sua boca. É difícil imaginar como aqueles lábios desenvolveram a habilidade de se contorcer num eterno sorriso diabólico que faria fugir até mesmo padres devotos acostumados a possessões de garotinhas. Cid era assim: uma personificação do eterno terror, ou quase. "
–Hell... — sua voz era calma e despretensiosa.
– Sabia que você e sua voz não combinam? — esboçou um sorriso — E eu já não lhe ordenei que falasse em português? — começou a tossir, sua garganta arranhava.
– Sorr... desculpe-me, mestre. O incomoda tanto?
– Só não vejo necessidade — mirou a lanterna — me guiará para fora daqui?
– Mas mestre o senhor já sabe como sair! — a criança tinha a voz tristonha e pedinte.
E de certa forma sabia. Cid tinha dito como aquele local funcionava quando foi nomeado. A cena foi assim:
" — Droga! Alguém aí? Onde estou?
– Lálálá...
– Quem está aí? Ei, criança, qual seu nome?
– Names are to real things!
– Não banque o sabichão comigo comigo. Percebo que você é real até demais!
– If you talk... Master!
– Como saio daqui? Em português...
– Of cour... É claro, às suas ordens. Para sair daqui é só querer.
– Eu quero!
– ...
– Viu, não sai, garoto!
– Não quis de verdade, my lord.
– Maldito moleque sádico está me enganado?
– Jamais, meu mestre, porque eu enganaria quem me criou?
– Bullshit!
– Meu mestre quem se expressou em outra língua agora.
– Pestinha, estou ficando louco, só pode errr... Você não tem nome mesmo garoto?
– Me chamarei como o senhor quiser. Garoto é um bom nome?
– Esse não, deixe-me ver algo que combine com este seu sorriso sádico. Sad, Sid... Cid! Será Cid, tudo bem?
– Se meu mestre gostar. I accept."
" E naquele momento ele não sabia se queria abraçá-lo no melhor estilo paterno que ele pudesse encarar ou castigar o garoto, mas como se nunca houvesse uma viga pesada sobre sua perna, Ullisses estava em pé parando a meio palmo do garoto com uma expressão amedrontada na face. Era a pesada respiração em sua nuca e a voz rouca que o petrificava. "
– Venha Cid, vá na frente. Eu quero sair! — disse determinado ao recordar daquilo que só a lembrança lhe trazia pânico.
Um túnel escuro e que cheirava a ferrugem se abriu a sua frente. No fim uma luz pálida se mostrava quase tão tímida quanto uma voz feminina que vinha dela chamando Ullisses.
Se o mesmo não quisesse tanto sair de lá, talvez reparasse que no canto escuro do túnel estava um vulto de voz rouca murmurando enquanto era consolado por uma forma feminina:
– Ainda é cedo, Ully, ainda é cedo...
– Vamos, vamos ele está acordando! Volta para gente, cara, sei que consegue! — uma garota de cabelos negros como a noite e pele alva como a neve pulava próxima ao corpo do rapaz que até a pouco estava inerte.
Ullisses estava em como e, depois de dias, finalmente acordava. Tinha emagrecido, mas fora isso e sua expressão abatida que nem de longe lembrava a sua costumeira, ele parecia bem.
– O que houve? Cid, nós saímos? — sua voz parecia lutar com cada palavra para que fosse pronunciada.
– Ainda está perturbado, mas vai se recuperar logo — era o médico — tomará a última dose de medicação às oito da manhã e poderá ter alta amanhã mesmo. Até lá ficará de observação. Sem exageros, deixarei os dois a sós — disse-lhes já saindo.
– O doutor disse que tivemos sorte — ela parecia estar contando um segredo — principalmente eu que tive apenas alguns arranhões. Agora durma! Te vejo amanhã.
Ullisses nem discutiu estava exausto e adormeceu como um bebê até o Sol acordá-lo com seus fortes raios na face.
– Oito da manhã, garotão! Tome seu remédio, depois seu café e rua. O doutor já liberou sua alta — dizia uma bela enfermeira que o tirou do sono tão logo quanto sua voz invadiu seus ouvidos.
– Obrigado. Acordo já com uma bela visão — seu sorriso era brincalhão.
– Sim, está um belo dia lá fora.
– Não me referia ao dia — seu olhar era penetrante e malicioso — e você sabe.
– Sim, garotão, eu sei — chegou próximo ao seu ouvido com a voz mais sexy que tinha e sussurrou — pena que sua namorada está lá fora também.
A expressão dele mudou para algo próximo à confusão e fez a enfermeira rir enquanto levantava e já ia embora deixando para traz um bad boy com cara de babaca olhando para o nada.
Enfim ele estava disposto e depois de inventar uma mentira qualquer em seu depoimento para a polícia sobre o acidente estava fora daquele lugar.
– Cá estou eu — acendeu um cigarro — e sem a Nancy — parecia irritado.
– Por que homens insistem em dar nomes de mulheres aos seus objetos? — disse uma voz familiar atrás dele.
– Não sei quanto aos outros, mas eu ficaria desconfortável de montar em um homem — virou-se para ela já sabendo quem era — e por falar em montar: quem te deu permissão de espalhar que era minha namorada?
– Montar? — a mesma soou ofendida — grosso!
– Você não me respondeu... — sua indiferença era palpável.
– Sei lá, aquela enfermeira estava cuidando demais de você e ainda é minha vez de brincar — sua postura passou de garota birrenta para mulher sedutora em um piscar de olhos.
– Ó céus, ande e conte-me o que houve — sua expressão ainda não era das melhores — o oficial me disse que você quem me trouxe aqui.
– Que mandão! — regrediu na idade de novo — Bem, no meio daquela corrida insana, doentia e perigosa você perdeu o controle da moto e a jogou estrada a frente e fomos arremessados. O doutor falou que por pouco minha cabeça não ficou pior do que o seu capacete que nem sei como saiu dela e foi parar embaixo da roda do caminhão.
– Foco no importante! — agora ele tinha expressão — Papagaie menos e informe mais — e não era das mais atraentes para uma conversa amigável.
– Grosso!
A conversa ou briga, não se sabe qual dos dois predominou, se arrastou ainda por várias horas enquanto caminhavam e tentavam digerir aquela história confusa que na mente de Ullisses eram apenas borrões e uma silhueta que ainda o intrigava tanto quanto a existência do Cid fora daquele lugar confuso.
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