O Bracelete de Prata

2 O Conto de Peridan - Capítulo 2


Notas iniciais
Para aqueles que não sabem, Umbromante é aquele que manipula as sombras.

Eles, arqueiro e garoto, já haviam andado por horas noite a dentro, sem encontrar nenhum sinal de outros soldados. Nesse meio tempo o homem falou pouco, mas o suficiente para Arthur descobrir algumas coisas. O nome do sujeito era Peridan, e ele havia acabado de participar de uma batalha, sendo que ele e seus aliados haviam perdido a mesma.

Já devia ter passado da meia noite quando Peridan finalmente decidiu que eles deviam parar. Eles estavam em uma clareira banhada pelo luar, e próximo as eles corria um pequeno riacho. Só nesse momento Arthur percebeu que o arqueiro estava com a perna esquerda ferida, e que sem duvida a caminhada até ali havia sido realizada com grande esforço.

– Vamos descansar um pouco meu jovem — disse Peridan, sentando-se em um tronco. O próprio garoto se sentou em uma pedra mais ou menos em frente do senhor, e ficou o observando por um tempo, até que finalmente perguntou.

– Você é rei de Nárnia? — o garoto estava pensando nisso a algum tempo. Mesmo achando as roupas de Peridan estranhas, dava para perceber que elas eram luxuosas ao seu modo, sendo que ele tinha uma bela cota de malha, uma espada e um punhão ricamente ornamentados pendurados e um sinto de prata, e um blusa de um vermelho vivo por cima de tudo, na qual estava bordado um leão em fios de ouro. Alem disse, sempre que ele fazia algum comentário sobre a batalha, dava a entender que ele mesmo estava em uma posição de autoridade e importância.

– Não... Eu não sou o Rei de Nárnia — disse ele lentamente, como se aquele fosse um assunto delicado — Sou Lorde Peridan, Senhor do Lago Ocidental e Chefe do Grande Conselho. Mas isso não me faz Rei de Nárnia — repetiu — Os Reis sumiram de Nárnia a muitos anos.

– E quem é esse Estrela Negra? E por que ele esta em guerra contra vocês?

– Bom, para responder isso, terei que contar praticamente a historia toda — continuou — Quando o Grande Rei Pedro e seus reais irmãos desapareceram de Nárnia há pouco mais de vinte e cincos anos, a politica de nosso pais ficou agitada. Muitos nobres, de dentro de fora de nosso reino reclamaram o direito a coroa — Nesse momento ele fez uma pequena pausa, e Arthur teve quase certeza de que ele foi um desses nobres.

– Mas não conseguimos entrar em um consenso, e muitos de nossos irmãos ainda acreditavam que os Reis retornariam, e por isso Nárnia esta sem rei desde então. Para governar o país foi organizado um Conselho com sete sábios e nobres, conselho este que eu mesmo presido.

– Acontece, que a aproximadamente cinco anos atrás, algo raríssimo aconteceu. Uma estrela desceu até Nárnia.

– E sua queda fez muito estrago? — perguntou o garoto.

– Sem duvidas ele fez muitos estragos, mas não da forma que esta pensando. — respondeu Peridan, percebendo a confusão do menino.

– Bom, mas quando um meteoro cai, ele normalmente faz muitos estragos e...

– Mas eu não estou falando de um meteoro, estou falando de uma Estrela. Seu nome é Uranos, o Luminoso, a mais brilhante das estrelas, desde a criação desde mundo até sua queda dos céus.

– Você fala como se essa estrela fosse uma pessoa.

– E oque mais uma estrela seria? — perguntou Peridan.

– Bom, seria, bem, seria... — o garoto não sabia explicar, e logo o senhor continuou.

– O Conselho não poderia ter ficado mais contente com a chagada de Uranos. A maioria dos conselheiros pelo menos, já que Nesron nunca demonstrou confiança para com o recém chegado, e Eldarin, o Senhor dos Bosques, era de pensamento semelhante. Mas a maioria dos lordes, e o povo de Nárnia em geral, estava feliz com a presença de Uranos.

– Por algum tempo eles nos agraciou com sua sabedoria. Deu-nos muitos presentes, e embelezou nossas terras com sua magia. Todos achavam que ele era um enviado do próprio Aslam, e era oque ele mesmo dava a entender. Mas aos poucos foi revelando os desejos de seu coração.

– Como assim? — perguntou Arthur que já estava fascinado pela historia.

– Uranos começou a reunir em torno de si um grupo de amigos estranhos, para não usarmos palavras piores. Seguidores, na verdade. Alguns homens jovens com fome de gloria, alguns animais ferozes, um certo numero de anões gananciosos, fez até mesmo amizade com os embaixadores de Telmar e da Calormania. Mostrou a eles as maravilhas que era capaz de realizar com sua magia, dobrando o fogo e as sobras s sua vontade, deixando todos espantado. Esse grupo cada vez maior de seguidores começou a preocupar com Conselho, mas demoranos tempo de mais para tomar uma atitude.

– Aos poucos ele começou a tomar para si responsabilidades. Começou a agir como um Senhor de Nárnia. Tomou como estandarte uma estrela dourada de sete pontas em fundo prata, mas aqueles que desconfiavam dele o chamavam de Estrela Negra, e de Umbromante devido a sua feitiçaria. Seus aliados o enchiam de elogios, e seu poder só aumentava.

– Agora que se achou forte o suficiente, tentou dar um golpe de estado. Alega que Nárnia se transformou em uma anarquia, e que para o bem dos bons cidadães de nosso país, ele deve tomar o poder. Agora reclama os títulos de Castelão de Cair Paravel, Príncipe da Floresta Ocidental e Senhor de Nárnia.

– O Conselho não suportou tal afronta. Reunimos o exercito em Cair Paravel, e marchamos contra esse autoproclamado Príncipe. Tínhamos conosco quinhentos homens, além de centauros, anões e animais ferozes, entre outros, somando todos nossos números eramos mais de mil guerreiros. Não era nem de longe a força que poderíamos ter reunido, mas achamos que era suficiente para derrotar o feiticeiro.

– Uranos e seus homens estavam acampados na borda norte da Floresta Ocidental, essa mesma na qual nós estamos agora. Ele não se perturbou com nossos números, e ainda declarou que se recuássemos, ele não nos faria mal. Rimos de seu orgulho naquele momento, e agora temos motivos para chorar amargamente.

– Pois nós subestimamos e muito os números do Umbromante. Além dos partidários que ele havia reunido em Nárnia, seu exercito já estava muito maior. Ele trouxera muitos homens de outros lugares, provavelmente mercenários de Telmar, mais de 600 espadas pelo menos, e até mesmo alguns gigantes do norte. Todos esses estavam escondidos na floresta, ocultados de nosso batedores, provavelmente através de encantamentos, a espera do nosso ataque.

– Marchamos contra ele assim que todas as negociações falharam. Apesar de nossos números estarem equilibrados, não podíamos enfrentar as forças dos gigantes. Além disso, tínhamos de enfrentar o Feiticeiro em si. Só agora entendo os verdadeiros limites de seu poder. Os soldados de Cair Paravel eram lançados a distancia com apenas um gesto de suas mãos. Sua presença inspirava medo. Onde quer que nossos homens estivessem em vantagem, ele aparecia como que vindo do nada, lançando fogo e terror em nossos aliados. Em pouco tempo, nossos soltados partiram em recuada. Vi muitos amigos sendo mortos, e outros foram capturados, mas creio que muitos conseguiram escapar.

– Eu mesmo dei a ordem de recuar — parou por um instante ao falar isso, como se fosse sufocar por causa da vergonha — Foi a pior derrota que Nárnia já sofreu desde a época da Rainha Branca.

Nesse momento Peridan parou de falar, olhando para o chão, como que tentando entender como as coisas chegaram naquele ponto. Arthur se sentiu no dever de tentar animá-lo.

– Mas o senhor mesmo disse que poderia ter reunido mais homens se quisesse, e que muitos escaparam. O Senhor não pode reunir outro exercito e tentar novamente?

– Quando a historia dessa derrota se espalhar, muitos começaram a temer enfrentar o feiticeiro. E outros lhe juraram lealdade, por medo, ganancia, ou mesmo por acreditar ser o certo, pois alguns em Nárnia acreditam que ele, em sua sabedoria e poder, é um líder a ser seguido, sendo que muitos ainda não perceberam a maldade em seu coração. A cada dia que passar, Uranos se tornara mais poderoso.

– Mas deve ter algo que pode ser feito.

– E existe — disse o Lorde — devo ir solicitar ajuda do Rei Cor. Arquelândia e Nárnia são antigas aliados, e tenho certeza que ele nos apoiara nessa hora sombria.

Nesse momento, Peridan se pôs de pé.

– Vamos Arthur, o caminho até Arquelândia não ira diminuir se permanecermos sentados.