O Bosque
3 Capítulo 3
Notas iniciais
O barulho de pegadas vinha se aproximando cada vez mais e mais. Alguns metros e aquilo estaria a poucos metros de Sophie.
E então, a criatura estava lá, na beirada mais escura da clareira.
O que relatarei a seguir poderá parecer tão estúpido que quase fez a garota rir naquele momento tão tenso.
Não havia criatura alguma! Era apenas um homem, usando roupas escuras, parecidas como armaduras, mas provavelmente feitas de algum tipo de casca de árvore enegrecida, ele tinha olhos escuros como carvão e olhos tão densos como breu. Não era magro nem gordo, alto nem baixo, mas algo nele chamava muito a atenção de Sophie.
Ela estava decidida a falar com o garoto e perguntar o que ele fazia ali, quando viu uma lâmina cintilar no cinco do jovem. Ele puxou a espada, que era muito bonita mas um tanto rustica, e avançou alguns passos em direção à ela.
— Como que você chegou aqui?
Repentinamente, ela se deu conta que ele estava falando com ela e respondeu na melhor voz que pode, sem gaguejar. O resultado foi uma voz estridente e cortada.
— Ah, você sabe como é, eu vim andando sempre reto, virei à esquerda três vezes e cá estou eu.
A tentativa falha de piada foi mal sucedida, mas o pior foi a garota se dobrando de rir da própria piada sem graça. Ela recuperou o ar e tentou consertar a resposta, contando de maneira confusa como havia chego ali. Sophie notou que ele estava avaliando-a, talvez tentando entender aquela criaturinha pequena tagarela e pálida. Quando ela terminou de contar toda a aventura, notou que ele não era tão assustador. Talvez ela estivesse errada, totalmente, inegavelmente errada.
— Então... você é o que chamam de ser humano? — a voz dele não era nada suave, era como a lâmina que ele carregava, afiada. A garota sussurrou um sim — Você veio de onde? França? E lá existem outras pessoas, como você?
Responder aquilo não parecia uma boa ideia, Sophie sentia isso, mas mesmo assim respondeu. O garoto parecia pensar. A jovem ia fazer algumas perguntas a ele, mas foi interrompida.
— Me leve até lá.
Dito aquilo ele ultrapassou a distância entre os dois e agarrou o braço da garota. Com toda certeza, aquilo deixaria uma marca. O aperto era forte e quente, não deixava Sophie pensar. Ela balbuciou e tremeu, não conseguia se livrar daquilo. Que diabos era aquele homem?!
— NÃO! — numa explosão de adrenalina totalmente repentina ela o empurrou para longe.
O rosto dele se retorceu numa expressão de uma mistura de raiva e confusão. Ele empunhou a espada em um piscar de olhos e aproximou-se dela lentamente. A garota não teria para onde ir, se embrenhar na mata certamente seria uma ideia horrível. Ela só esperou o pior acontecer. E aconteceu.
— Quem é você? — ela perguntou, mesmo sabendo que não teria resposta.
Foi só então que ela se lembrou da fada que a acompanhava desde o inicio daquela loucura toda, a pequena fada provavelmente estava tentando bancar a heroina e salva-la, o que era uma estupidez sem tamanho, mas o que valia era a intenção. Ao notar o que Sophie estava olhando, aquela criatura inescrupulosa pareceu adivinhar o que a fada iria fazer e com um floreio elegante da espada cortou suas asas.
O horror da garota foi tanto que a deixou sem ação. Ela não sabia mais o que pensar daquilo. Sabia que seria a próxima, era inevitável. Então por que não adiantar aquilo?
Com passos trêmulos ela se encaminhou na direção da fada, aquilo seria sua última ação da vida? Pensando em suas últimas palavras, pegou a fada com cuidado, e a aninhou no peito, onde deveriam estar as asas estavam longos rasgos sangrentos. A fada respirava com dificuldade, Sophie sabia que era culpa dela e não pode conter o choro. — Desculpe-me, por favor, me desculpe...
Ela teve que larga-la num amontoado de folha, esperava que ela tivesse paz, afinal.
— O que você quer? DIGA-ME.
Ele riu, uma risada forçada, falsa e horrível, exatamente como ele. Aberração, era isso que ele era.
— Garotinha, você não tem ideia do que você acabou de se meter. Não espere ter uma vida normal. Faça um favor a si mesma, pare de lutar. Você é igual a mim.
Seria possível que além de uma completa aberração ele era um louco? Como ele ousava falar aquilo?
Cansada de continuar lá, com aquela "coisa", ela se jogou na direção dele, da espada, que atravessou seu peito, tudo que ela via era o rosto dele. Tão lindo se não fosse tão terrível. Os olhos pareciam buracos negros que a atraiam... Sophie esperava sentir uma dor insuportável, mas não sentiu nada.
— Afinal, meu nome é Cavaleiro Negro, mas pode me chamar de Adam.
E a escuridão dos olhos dele a engoliu.
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Lá estava ela, na patética sala de estar dos Lindell, com a sra. Vangarff com linhas, tecidos e agulhas sentada na poltrona olhando de maneira severa para a garota.
— Já descansou o bastante? Você sabe qu...
Uma batida na porta a salvou de levar um sermão. Sophie não conseguia parar de pensar no que acontecera. Era tudo tão... inexplicável. Era melhor ela ficar de boca fechada sobre isso. Quando a sra. Vangarff voltou, acompanhada de uma moça alta e de cabelos negros que caiam em cachos e olhos cor verdes, o coração da garota deu um pulo.
— JADE! FINALMENTE VOCÊ VOLTOU! JÁ ERA TEMPO!
Com todo esse estardalhaço, as duas garotas quase caíram. Jade era uma antiga amiga de Sophie, mas teve que viajar por alguns meses com os pais, não sabia o por quê, mas devia ser algo importante. Elas passaram horas conversando, com a sra. Vangarff de vigia.
Talvez tudo aquilo tivesse sido um sonho, a garota talvez estivesse estressada demais, mas no fundo, ela sabia que era tudo real.
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