O Blog
5 A matéria que salvou o jornal
Notas iniciais
Por Peggy,
Eu não conseguia acreditar em tudo o que Maze me contava. Parecia tão surreal que eu simplesmente tentei me abster do pensamento incerto de que minha amiga poderia estar inventando aquilo para que não ficássemos sem o jornal.
— Peg, pensa comigo, por que eu inventaria algo desse nível quando a Charlotte, aquela vadia, nos forneceu essa matéria de bom grado?
Maze tinha razão, e agora me olhava com um olhar desapontado, como se detestasse a ideia de que eu desconfiava de suas palavras.
— Olha, eu vou pra casa. — Pisquei várias vezes.
— Mas você disse que ia dormir aqui. — Falei séria, percebendo a besteira que tinha feito.
— Valeu, mas prefiro ir a um lugar onde acreditam em mim. — Maze suspirou chateada e estava com a razão. Nunca deveria ter desconfiado dela, não quando ela é a minha melhor amiga.
— Hey, Mazeeken, fica vai, por favor? — Segurei sua mão, e ela revirou os olhos, voltando a sentar na minha cama. Eu a abracei.
— Sua idiota. — O sussurro não passou despercebido por mim. Deitei em suas coxas e comecei a revisar a gravação do que Maze conseguiu:
“Anda logo com isso, Clady. Eu aposto que sua mãe vai adorar saber o que o filho dela faz atrás da escola no seu tempo livre…”
“Você não deveria me ameaçar, não quando posso destruir o seu histórico perfeito.”
Um som semelhante a um tapa ecoou.
“Não fale assim comigo! Está achando que está lidando com alguns daqueles marginais com quem anda? Sou esperta o suficiente para me safar de qualquer tentativa sua e ainda te culpar por isso.”
Ele riu.
“Se fosse mesmo esperta, não estaria aqui me obrigando a invadir o sistema e recolher as provas dos próximos meses, não é mesmo? No fundo, você é só uma perdedora arrogante que se acha alguém, e vá por mim, Charlotte, você não é.”
Maze tinha razão em não deixar que essa história vazasse. Contar-me aqui no quarto foi perfeito.
— O que você quer fazer, hein, Peggy? — Ela perguntou, pegando o notebook e abrindo o editor de texto para redigir o que deveria ser a matéria. — Que tal, “Vadia exposta e o roubo das provas estudantis”?
Levantei de seu colo incrédula. Por mais que eu goste desse tipo de matéria, dessa vez terei que me segurar, senão a diretora não me levará a sério.
— É perfeito, mas vamos deixar para depois que tirarmos o jornal da berlinda.
— E o que você pensa em fazer, Peg? Se for até a diretora, ela saberá que invadimos a escola. Se publicar no jornal, pode ser que não acreditem, e do jeito que aquela vagabunda é cara de pau, é capaz de ameaçar o jornal e trazer os pais dela até a escola. O que seria ótimo de se ver, aquela arrogante perdendo a pose e os pais sem saber o que fazer. — Gargalhou. Maze já estava pensando em vingança, algo que não faz parte dela.
Me joguei na cama em desespero. Eu sei o que fazer e estou morrendo de vontade de acabar com tudo, mas se eu o fizer, vou manchar o meu jornal, porque é capaz de jogarem minha reputação, que não é tão boa assim, no lixo.
— Ah droga, eu tinha me esquecido do fardo que é lidar com matérias sensacionalistas. Elas sempre me empolgam, mas deixam minha credibilidade lá embaixo. — Tapei meus olhos devido à frustração que estava sentindo no momento e senti um carinho nos meus fios. Quando abri espaço entre meus dedos, vi Maze me olhando com um sorriso maníaco, como se soubesse exatamente o que fazer. — Maze, o que você...
— Apenas escreva a matéria. Sente-se naquela cadeira e escreva a melhor matéria da sua vida! Sem opiniões, seja imparcial e deixa o resto comigo. Eu tenho um plano que não só vai salvar o jornal como nos trará uma credibilidade única!
O problema da minha amiga estar tão feliz desse jeito é que há cem por cento de chances de sermos expulsas no final disso tudo.
— Podemos ser expulsas. — Afirmei.
— Relaxa, meu amor. A Peg que eu conheço não deixaria uma simples coisinha como uma ameaça de expulsão acabar com a verdadeira notícia!
Respirei fundo ao me levantar. Mazeeken tem razão. Se eu quero ser uma jornalista no estilo Lois Lane, eu preciso reagir! Sem pensar mais, pulei da cama e a encarei com meu melhor sorriso.
— Faça o que tem que fazer! Eu vou tomar algumas medidas necessárias.
Ela se espantou.
— Não me diga que...
— Isso mesmo, baby. É hora do café! — Seu gargalhar quebrou a tensão dos meus pensamentos e, em poucos minutos, minha amiga já estava na porta do meu quarto.
— Me encontra amanhã às cinco da manhã em frente à escola.
Não tive tempo de questionar; Maze simplesmente saiu e eu fiquei encarando meu notebook. Seria uma longa noite.
...
Os corredores estavam um perfeito tumulto. Charlotte tentava passar despercebida, escondendo o rosto como um livro, enquanto os outros a encaravam de maneira descrente. Nem eu mesmo pensei que algo assim pudesse funcionar, e agora estou correndo para a sala do jornal na tentativa de ser vista como uma vítima, alguém que acabou de descobrir a verdadeira história da Sweet Amoris.
Horas antes
Por Maze,
Eu saí da casa de Peg certa das minhas escolhas, pouco me importando com o que ocorreria ao divulgar essa notícia sem a devida permissão. Minha amiga merece uma versão decente. Sei que nem sempre Peggy teve as melhores ideias; entretanto, ela estava tentando mudar. Puxei meu celular do bolso e olhei as horas. Todo mundo sabe que em todas as escolas há aqueles que são dados como vândalos e os verdadeiros vândalos, que em sua maioria também são os praticantes de bullying. Clady, o garoto que ajudou Charlotte claramente contra a vontade, se enquadra no primeiro grupo, e pela hora eu sei que está atrás da escola pichando os muros.
Como eu sei disso? Simples: o faxineiro tem que limpar aquela parte da escola toda semana por sempre ter pichações de cunho relativamente 18 e às vezes muitos palavrões. Eu corri feito uma louca até chegar no quarteirão da escola e, quando finalmente me aproximei, dei a volta pulando a grade da parte de trás e coloquei o capuz nos meus cabelos. Não queria que me reconhecessem nessa situação, pois o que eu farei também é considerado um crime. Ao ouvir o barulho que o aerossol faz ao ser utilizado, sabia que estava no local correto e não me preocupei em ir até ele rapidamente.
— Ei, garoto. — Chamei de longe, observando-o guardar a lata e sair correndo.
— Puta merda, ah, que droga! Ei, espera! — Comecei a correr. — Eu não sou delatora, só quero te ajudar a acabar com aquela vagaba doninha da Charlotte! — Falei um pouco mais alto e ofegante pela corrida, e ele simplesmente parou de correr sem olhar para trás.
Peguei meu celular e passei rapidamente o áudio gravado. O garoto finalmente me olhou, um pouco incrédulo.
— Eu tenho uma proposta para te fazer e você vai gostar. — Afirmei.
— Como pode ter tanta certeza?
— Porque ela inclui pequenos delitos e a queda daquela estúpida que te usou. — Ele me olhou um pouco mais interessado, ajeitou os óculos e sorriu de canto. Pelo visto, tenho um novo aliado.
...
A diretora Shermansky chegava a se tremer enquanto caminhava pelos corredores. A notícia não parava de ser divulgada pela estação de rádio da escola, que sempre foi a responsável pelas notícias importantes do local:
— “Anda logo com isso. Eu aposto que sua mãe vai adorar saber o que o filho dela faz atrás da escola no seu tempo livre…”
— “Você não deveria me ameaçar, não quando posso destruir o seu histórico perfeito.”
Um som parecido com um tapa ecoou.
— “Não fale assim comigo! Está achando que está lidando com alguns daqueles marginais com quem anda? Sou esperta o suficiente para me safar de qualquer tentativa sua e ainda te culpar por isso.”
Ele riu.
— “Se fosse mesmo esperta, não estaria aqui me obrigando a invadir o sistema e recolher as provas dos próximos meses, não é mesmo? No fundo, você é só uma perdedora arrogante que se acha alguém, e vai por mim, Charlotte da sala A, você não é.”
Clady foi esperto o suficiente para cortar o áudio no momento em que seu nome é dito, além de ter acrescentado detalhes para que ninguém duvidasse de quem estava falando. Ele também disfarçou sua voz com a ajuda de um robô. O garoto é simplesmente brilhante! Quando escutou minha proposta, não pensou duas vezes antes de aceitar e ainda afirmou que faria em questão de minutos, já que o responsável pelas notícias na hora do intervalo nunca verifica o áudio; ele só dá o play. Então foi bastante fácil para ele invadir a sala de áudio e manipular tudo ao seu gosto com um pequeno computador, que creio eu estivesse em sua mochila no momento em que o abordei. Infelizmente, não sou capaz de conter meu sorriso ao ver essa cretina se ferrando. Quando Charlotte passou por mim, soube que algo estava errado, principalmente por me ver tão tranquila enquanto a maior parte de nossa sala estava incrédula, principalmente o trio que só tem um cérebro. Ergui minhas sobrancelhas duas vezes de maneira sugestiva antes de seguir para o jornal, correndo para ver a matéria que Peggy estava planejando. Minha amiga me olhou incrédula por saber exatamente quem tinha feito aquilo, já que, quando Clady me disse que conseguira resolver naquela mesma noite, fiz questão de desmarcar o horário com ela e remarcar para às sete e quarenta da manhã, assim ninguém desconfiaria, pois o zelador já está no local por esse horário e nós sempre chegamos pontualmente com vinte minutos de antecedência para revisar a matéria antes de publicar. Ou seja, tínhamos testemunhas.
— Maze, o que foi que você fez? — Sussurrou, visivelmente suada, e eu respirei, lhe entregando um copo de café.
— Relaxa, ou vão descobrir. A diretora está vindo para cá, então se concentra na sua matéria. Afinal de contas, todos vão querer ler sobre isso, Peg!
— Se a diretora sonhar que nós fizemos isso…
— Nós não, Peg. Fui eu quem fiz. Você não sabe de nada, então apenas vamos olhar o jornal e… — Parei de falar assim que a porta foi aberta e a diretora adentrou a sala.
— ENTÃO, SENHORITA PEGGY, ISSO É OBRA SUA?
Minha amiga a olhou incrédula.
— Eu não sei do que está falando, diretora. A minha matéria do jornal é essa aqui. — Peg se apressou em pegar o jornal e entregar para a diretora, que ajeitou os óculos antes de ler em voz alta:
— Crimes, amores e fantasmas: o que está por trás de toda a confusão ocorrida na Sweet Amoris?
Fiquei impressionada com o título. Até que Peggy consegue fazer uma matéria excelente quando não está focada só em manchetes curtas.
Shermansky continuou a ler calmamente e, enquanto corria os olhos pelo papel, pude ver minha amiga cruzar os dedos atrás das costas. Quando finalmente acabou, a diretora fechou o jornal e deixou-o sobre a mesa, não disse uma palavra, o que aumentou a tensão na sala.
— E então? Dessa vez eu não invadi nada para conseguir essa matéria, apenas fiz uma pesquisa de campo. — Peg mentiu.
— E a parte do crime, tão bem escrita, suponho que sonhou com ela, senhorita, ou está me tirando por idiota?
Dessa vez fui eu a pigarrear.
— Senhora Shermansky, a notícia que liberaram está correndo desde às nove e meia da manhã, o horário do primeiro intervalo. Nós só fizemos o nosso trabalho escrevendo uma matéria decente que sairá no horário do almoço. — Afirmei.
— E acha mesmo que vou acreditar nisso, meninas?
Nunca vi essa senhora tão vermelha na minha vida.
— Olha... Esse é o jornal de mais cedo. — Peg entregou o jornal que havia redigido na semana passada e não havia publicado.
— Por que professores do colégio não podem ter seus relacionamentos descobertos? — Os olhos de Shermansky correram rapidamente pela página, constatando que estávamos falando a verdade, pelo menos em partes, e depois fechou e nos entregou.
— E então, diretora? — Peg parecia apreensiva enquanto a mandachuva caminhava para a porta. Antes de sair, a diretora virou a cabeça para o lado e respirou pesado.
— Seu jornal permanecerá aberto, já que dessa vez compreendeu que não deve infligir as regras para uma boa matéria.
— E a matéria de hoje? — Dessa vez fui eu quem perguntei, observando-a relaxar os ombros.
— Pode publicar. Agora eu tenho um assunto realmente sério a tratar. — A diretora saiu da sala e nos olhamos. Sem pensar duas vezes, nos abraçamos para comemorar e depois nos jogamos na poltrona com a respiração um pouco ofegante por conta da adrenalina.
— Como você fez isso? — Perguntei.
— O que, o jornal? — Assenti. — Quando você desmarcou comigo, me ocorreu que deveríamos ter um plano B. Se ela tivesse virado a página, estaríamos lascadas, porque eu não mudei a data. — Riu de nervoso e eu me levantei.
— Se Clady não tivesse nos ajudado também, pois eu ia explanar essa notícia de qualquer jeito. — Ri de levinho, comprovando que sou um caso perdido às vezes, e Peggy se levantou.
— Mazeken! Só não vou reclamar porque faria o mesmo. — Nos olhamos de maneira cúmplice antes de terminar de imprimir o restante do jornal. Na hora do almoço, entregamos os exemplares e, pelo resto do dia, os crimes, as suspeitas de fantasmas e possíveis romances populares da Sweet Amoris não saíram da boca do povo.
O jornal finalmente estava a salvo, Charlotte foi expulsa e a verdade por trás dessa matéria muito bem encoberta por mim, Peggy, Clady e até mesmo Melody, que nos ajudou a invadir a escola. Agora tudo o que pensamos é na próxima notícia e que talvez Peggy precise abrir mais vagas para o jornal.
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