O Bilhete

1 Capítulo Único - Mistério


Aiolos foi acordado por volta das 10 da manhã, seu telefone tocava incessantemente. Passou a mão pela cama, procurando o aparelho que deveria estar perdido entre os lençóis, o encontrou e atendeu sem olhar quem ligava:

—O que aconteceu?!-Disse um pouco afobado e com voz de sono

—Fala meu DJ!-Disse Shura rindo da voz do amigo- Acorda, lava esse rosto, põe uma roupa porque eu tenho certeza que você tá pelado e temos uma reunião no grupo em 15 minutos, assunto de suma importância!

—Ta bem!-Aiolos falou com voz de sono

—E quem vai começar a chamada é você pra nao se atrasar- Riu Shura- Falou! Até daqui a pouco- E desligou.

Como era domingo,Aiolos imaginava poder se dar o luxo de ficar mais tempo na cama, pois não precisaria cumprir tabela no seu segundo emprego de atendente de Telemarketing para uma companhia aérea, que ele arrumou já que as boates onde ele normalmente tocava estavam fechadas desde o início da pandemia e as lives da “balada na sacada”, evento que o sagitariano criou para levantar algum dinheiro e, também tentar animar os vizinhos do Residencial Reino de Athena durante o confinamento, não davam tanto rendimento. Porém, naquela manhã, parecia que havia um novo assunto, quentíssimo, além da festa da noite anterior, e curioso como era, não tardou a cumprir todas as tarefas determinadas por Shura, tomou um banho gelado rápido pois só assim despertaria de verdade e enfiou uma bermuda preta que achou largada no chão do quarto.

Caminhou despretensioso até a máquina de café e preparou um expresso. Ficou na dúvida se comia ou não torradas, então deixou para lá. Deu um gole profundo na xícara e logo tirou o celular do bolso, via mensagens chegando a todo minuto no grupo “ Cada um no seu quadrado” que nasceu depois de um fatídico evento onde os integrantes do grupo ficaram presos no elevador durante horas. O episódio poderia ter sido um evento traumático para muitos, mas graças à Aiolos, que não passava cinco minutos sem fazer uma piada, o que serviu para acalmar os demais e para plantar a semente da amizade entre vizinhos. Eles criaram um vínculo de amizade extremamente forte e, antes da Pandemia, estavam reunidos sempre que possível. Assim que abriu o grupo, iniciou uma chamada de vídeo e aos poucos, cada um dos rostos dos amigos ia surgindo na tela.

—Não vou nem questionar porque você tá ligando no vídeo, Aiolos – Saga, do terceiro andar, começou.

—Claro que ele quer fofocar sobre o bilhete – Francesco, do quarto andar completou – Ele é pior que velha fofoqueira.

—Aposto que foi o Shura que deu a letra – Milo, do oitavo andar, falou – Ele é três vezes mais velha fofoqueira que o Aiolos.

—Bilhete? Mas que bilhete?-Questionou Aiolos dando um gole na sua xícara de café- O Shura não me falou nada de bilhete

—Ahahaha, muito engraçadinho, Milo – Shura respondeu – Ué? O Afrodite atendeu e largou a câmera virada para cima por quê? Bota a cara no sol, Flôzinha.

—Eu tinha ido pegar meu café. Desculpa – o vizinho do 12ª andar surgiu na tela – O que manda, Aiolos?

—QUE BILHETE É ESSE???-Gritou o sagitariano dando uma tapa na mesa e arrancando uma gargalhada de Milo- Me contem a fofoca direito

—Você não viu o que o Saga postou no grupo?-Riu Francesco- Nao acredito! O fofoqueiro oficial do grupo por fora da história! É um milagre da quarentena

—Ah Máscara! -Aiolos jogou as mãos para cima em protesto- Me contem logo!

—Bem, hoje de manhã eu e Shura fomos correr-Saga começou a história com calma- na volta eu parei na padaria para comprar os croissants e viennoiseries para o café da manhã dominical de Dona Tatiana, a mulher mais mimada deste Residencial…

—DO RESIDENCIAL? -Milo reprimiu uma risada quando viu Saga revirar os olhos

—Ele nao parou na padaria, ele correu mais 3km até a padaria artesanal que a patroa gosta, isso sim!-Shura riu e viu Saga ergueu o dedo médio para ele

—Enfim!-Resmungou máscara da morte — Agilizem, eu nao ouvir essa lenga lenga toda de novo!

—Bem, quando eu chego aqui no prédio e vou me encaminhando pro elevador, lá estava o nosso amigo espanhol, chorando de rir sentado no chão segurando um papel…

—Eu fui e com algum custo, consegui entregar o bilhete para o Saga e…

Os dois não se contiveram, se entreolharam e começaram a urrar de rir, sendo acompanhados pelos demais logo depois, somente Aiolos, que estava boiando, depois de alguns protestos gritou:

—MAS QUE MERDA DE BILHETE É ESSE CARALHO???

—Calma cara, a conversa subiu-Disse Milo enxugando as lágrimas- Mas eu marquei pra você no grupo!-Milo volta a rir- Olha lá logo

Aiolos, curioso que era, rapidamente reduziu a tela da chamada de video, e abriu o grupo, de deparando com uma foto de uma folha de papel impressa nas mãos de Shura, a folha continha o seguinte recado:

“Alerta as senhoras e aos senhores casados do Residencial Reino de Athena.

Uma criatura procura por um homem desesperadamente.

Primeiro: A criatura em questão, mora no 12º andar de um dos três edifícios neste condomínio;

Segundo: Estou chamando de criatura, pois não sei se a coisa é homem, mulher, sereia ou sabão em pó.

Um último conselho: tomem cuidado com seus maridos, pois ela enviou mensagens indesejadas a meu marido – a quem apelidou de ‘Meu Pumba’. As aparências enganam.

Atenciosamente, alguém que só lhes deseja o bem. ”

Aiolos que tinha dado um gole no café quase se engasgou com a bebida, engoliu seco a bebida quente e deu uma das suas conhecidas gargalhadas, o sagitariano riu por alguns minutos puxando mais uma vez o coro, até que Máscara da Morte os interrompeu:

—Hey! A gente tá aqui reunido para resolver quem escreveu essa baboseira, nao pra rir!-Disse Francesco enxugando as lagrimas

—É verdade -O morador do décimo segundo andar resmungou- Eu preciso passar o reiki em rosa venenosa, pois ele anda muito cabisbaixo esses dias…

—O Máscara da Morte tá certo – respondeu, referindo-se ao italiano do quarto andar por seu apelido nos jogos on-line que viraram adeptos nesta quarentena – Qual o palpite de vocês?

—Pois eu tô desde às 7:40 da manhã tentando isso, cara! – Saga falou – Até pedi pra mulher tentar ver algo nas cartas, mas ela mandou eu me ferrar e procurar o que fazer.

—O cara queria usar o Tarot da esposa pra descobrir uma fofoca e eu que sou pior que velha? – Aiolos indagou – Bom, isso lima uma suspeita minha.

—Eu também cheguei a cogitar isso, mas a dona Tatiana jamais gastaria tinta da impressora e perderia tempo enfiando bilhetinho nas caixas de correio de todo o condomínio.– Shura falou tranquilo – Ela é do tipo que iria até o apartamento da dita criatura e a jogaria janela abaixo.

—E sério, o Saga tá BEM mais pra Scar do que pra Pumba – Milo completou, arrancando uma risada de todos, exceto de Afrodite, que parecia mais entretido com uma torrada.

—Ow Shu, todo mundo recebeu isso mesmo?

—Sim. Confirmei com o Shiryu, que mora no Esperança de Bronze e com o Algol do Coração de Prata.

—Alma de Ouro, Coração de Prata, Esperança de Bronze... O nome desses prédios são tão bregas – Afrodite resmungou, dando um gole na caneca de café.

—Você tem alguma suspeita, Dite?

—Euzinho? Nenhuma... eu só vi um pedaço desse bilhete. Rosa Piranha encontrou antes de mim e achou que era um lanchinho.

—Eu nunca vou me conformar com o nome desse seu gato – Máscara da Morte riu.

—Desde que adotei não sei se é macho ou fêmea, foi o melhor nome que achei pra um gato preto.

—Foco senhores, foco! – Aiolos exclamou – Milo, você que é mais popular que político na feira livre, conhece alguém do 12º andar dos outros edifícios?

—Conhecer eu até conheço, mas não sei o andar que mora...

—Lembra que, no bilhete, a pessoa diz que não sabe se é mulher, homem, sereia ou sabão em pó? – Saga interrompeu – Deve ser alguém igual o gato do Afrodite, sem gênero definido.

—É não-binário que fala, Saga. – Afrodite o corrigiu – O mal da sociedade é se prender muito a gênero.

—Ah, tem aquele loirinho – Milo comentou – O Camus dá aula de literatura online pra ele. Acho que é Misty o nome.

—Sim. Eu já o encontrei algumas vezes no estacionamento – Máscara da Morte falou – mas não o vejo com vibe de dar em cima de marido alheio.

—Por que? – Saga perguntou.

—Uma vez ele tava se arrumando no vidro do meu carro, só que eu tava dentro. Aí abaixei o vidro pra fazer uma pegadinha, deixar ele sem graça, só que ele ficou bravo porque eu tirei o reflexo dele. Em resumo: ele se ama demais para perder tempo chamando alguém de “meu Pumba”.

—Tem Shun, Queen e o Jamian, que suspeito quem nem humano seja – Shura disparou, arrancando risada de todos. Mais uma vez, Afrodite apenas observava com sua caneca na mão.

—E se a gente mudasse o foco um pouco? – O morador do 12º andar sugeriu, com ar de mistério – Quem vocês acham que é o Pumba?

—Ah, temos um leque imenso de possibilidades – Aiolos começou – Sabemos que não é ninguém da nossa rodinha, até porque, o único casado é o Saga. Milo até namora, mas a loira faria um deboche melhor que um bilhetinho.

—Sim. Ela faria o exposed da tal criatura no Twitter mesmo.

—Será que não é o marido do síndico? – Saga jogou no ar – Como é mesmo o nome dele?

—O zelador? – Máscara da Morte soltou em tom de deboche – Quem você acha que daria em cima de um cara que vive com aquele macacão de manutenção, todo sujo e suado?

—Há pessoas que acham isso charmoso, Da Morte – Afrodite retrucou, mas logo voltou atenção a sua xícara.

—Acabei de lembrar que você mora aqui no 12º, né Dite? – Milo disparou – Não suspeita de nenhum dos seus vizinhos?

—Eu... – o jovem arregalou os olhos, soltando a caneca. Em seguida, um forte barulho foi escutado – Gente, Rosa Venenosa derrubou um vaso aqui. Preciso limpar antes que ele se machuque. Beijinhos, seus putos.

Desligou e os amigos ficaram sem entender nada. Até que Aiolos findou a conversa:

—Acho que Rosa Venenosa é a dita criatura.

—Ah, Aiolos, vai pra merda! – os demais exclamaram, encerrando de vez a chamada.

****

Na noite anterior...

—Ainda bem que temos esses shows do Aiolos pra animar nossa vidinha de quarentena, né?

Mu suspirou e estendeu a mão para o esposo. Naquele momento, estavam sentados em lados opostos, numa pequena mesa posta na varanda de seu apartamento. Como seu apartamento era o primeiro andar, apenas ouvia a música, enquanto tomava vinho e jogava canastra com o amado. De repente, o celular do zelador tocou uma mensagem. Ele visualizou e rolou com os olhos. Mu estranhou aquilo:

—Más notícias?

—Antes fosse – hesitou um pouco, mas prosseguiu – É só uma coisa desnecessária que eu recebi.

—Mas é só bloquear o número, oras.

O síndico acreditou que se tratava de alguma propaganda, correntes sem sentido e até uma fake News e, sabendo que o marido era bonzinho demais para saber lidar com isso, resolveu pegar o celular para responder, porém seu sangue ferveu ao olhar a tela:

—QUE DESGRAÇA É ESSA, ALDEBARAN?

—Então... lembra aquele reparo que fiz esses dias no 12º andar?

—Do interfone, sei sim. SÓ QUE ISSO AQUI MAIS PARECE UM CONVITE PRA QUE TU TOQUE A CAMPAINHA DELA, JOSÉ VITOR!

Mu levantou num supetão, passando a porta rumo a cozinha. Precisava de um copo d’água com urgência. Aldebaran veio em seu encalço:

—Não foi isso não, amor... Escuta e, pelo amor de meu Padrim Cicero: não me chame por meu nome não que fico assustado quando você faz isso.

—Ah... o bonitinho tem mais de dois metros só que se treme de medo quando eu o chamo pelo nome – atirou o copo em direção a ele e, depois, toda a louça que encontrou pela frente – MAS NÃO TEVE MEDO DE PASSAR O NUMERO PRA ESSA VAGABUNDA, NÃO É MEU PUMBA?! FOI ASSIM QUE ESSA BISCATE TE CHAMOU, NÃO FOI?

—Mu, sério! A gente vai acabar sem louça e vai dar o maior trabalho comprar nessa pandemia – ele falava calmo, enquanto se esquivava de pratos, copos e até alguns talheres que o marido atirava contra ele – Me escuta primeiro pra ficar pistola depois e com razão.

O síndico percebeu a faca na mão. Respirou, contou até três e recobrou a sanidade, porém ainda estava nervoso:

—Pistola com razão por quê?

—Você lembra né? As luzes do hall do 12º andar do Alma de Ouro queimaram, por causa do blackout da semana passada, e eu fui trocar. Nisso, um dos moradores... ou uma, não sei ao certo o gênero, se é que tem um... enfim, esse ser aí da foto me disse que o interfone tinha parado de funcionar também. Desci pra pegar as ferramentas e voltei lá. Fiz tudo certinho. Aí a criatura me perguntou como me achar caso o interfone desse defeito de novo e passei meu numero, como faço com todos os condôminos que precisam, você sabe. Mas eu te juro, Mu, que essa foi a primeira mensagem do tipo! Pode subir a conversa, pode olhar a nuvem, que salva tudo automaticamente. É sério, amor. Você sabe que não minto para você.

Ainda com a faca na mão, Mu conferiu tudo que o esposo disse. Por fim, respirou fundo, pousou a faca na pia e estendeu o celular para Aldebaran:

—Pois bem... Primeiro: já bloqueei e exclui o número desta criatura. Segundo: a partir de hoje, eu te acompanharei a qualquer reparo no 12º andar do Alma de Ouro. Só que não vou deixar essa história barato não.

—Não vai fazer uma loucura, homem...

—Não. Não vou não... – o abraçou – Já até larguei a faca. Problema foi que essa discussão fez a gente perder o final do show do Aiolos.

—Disso num vou reclamar... – retribuiu o abraço – Eu tô com um soninho.

—Então vamos, que vou te fazer um cafuné até você cair no sono, meu P-...

—Não se atreva a me chamar de Pumba! Apelido brega da porra-riu e o abraçou- e veja la!

—Veja la o que?

—Nao aproveite do meu sono profundo para cometer um ato violento

—Eu nao vou fazer nada, querido... O distanciamento social nao me permite!

Quando Mu teve certeza que Aldebaran embarcou em um sono profundo, foi até a sala, ligou seu computador e digitou um bilhete, e imprimiu várias cópias e saiu sorrateiro pela madrugada, de capuz e roupa preta, colocando os bilhetes debaixo da porta de todos os apartamentos. Uma hora ou outra, alguém mataria a charada.

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