Notas iniciais
Espero que gostem :)

"Diga-lhes, pois, que nem a morte fará com que deixes os meus pensamentos. Estou contigo e tu estás comigo. Se a vida cruzar nossos caminhos novamente sorrirei para ti com profunda alegria, pois é isso que sempre serás para mim: a minha alegria."

—Não chore que não estou a ir para a África!

—Mas vai para longe de mim...

—No Natal estarei aqui, e na Páscoa também Diara.

Diara fechou os olhos e as lágrimas escorreram por seu rosto cansado. Criara aquele menino desde que a mãe morrera quando ele e o irmão ainda eram muito pequenos. Vê-lo partir para tão longe feria-lhe o coração. Tinha medo do que aconteceria enquanto estivesse longe, medo do que aconteceria quando voltasse. Algo lhe dizia que aquela viagem para conhecer novos horizontes, aprender com o mundo velho não traria boa sorte a ninguém. No entanto o menino estava tão feliz! Decidiu-se por acariciar seu rosto, desejar-lhe boa viagem e apenas observar enquanto despedia-se do pai e do irmão dois anos mais novo.

—Cuide bem do meu rapaz!- ordenou Natanael Guimarães ao criado que acompanharia seu filho a Europa.

—Com certeza cuidarei, patrão.

Natanael era um homem vivido, importante, admirado e bondoso. Sabia que o velho criado cuidaria de Carlos Eduardo como cuidara dele durante toda a sua vida. Os criados da Casa Guimarães acabavam por desenvolver grande apreço por seus patrões e Castilha não era diferente. Ele cuidara dos meninos desde que sua amada esposa Lucélia falecera de pneumonia quando Bento, o mais novo dos irmãos, tinha apenas dois anos. Carlos estava em boas mãos. Tinha certeza disso.

—Irá me visitar, meu pai?- Perguntou Carlos com a voz hesitante. Por mais corajoso e extrovertido que fosse, Carlos nunca se separara do pai e apenas a ideia de passar mais de um mês longe dele lhe trazia calafrios. Resolveu ser forte, pois não queria desapontar seu velho.

—É preciso que passe um tempo separado de mim, meu filho- respondeu-lhe Natanael- Mas sabe que sempre estou aqui se precisar de mim. Viaje. Viva. Experimente. Estaremos esperando por você. Seu destino pode esperar.

Ao dizer "seu destino pode esperar" Natanael lembrava Carlos de seu compromisso em Cipreste. Tratava-se de um casamento arranjado com a prima, Maria Rosa. Bento também tinha parte nesse acordo pois se casaria com a outra prima, irmã de Rosa, Maria Aurora. Ambas filhas da união da Casa Orsini e da Casa Guimarães. Os casamentos eram uma tentativa de unir ainda mais as duas famílias. Rosa tinha a mesma idade de Carlos e Aurora a mesma de Bento. A coincidência era tanta que afirmavam não ser um arranjo feito por meros humanos, mas sim pelo próprio Deus.

—Sei de meu compromisso, pai. Pensarei nele o tempo todo.

Natanael sorriu, satisfeito. Conhecia o filho e amava o seu jeito prático de ver as coisas. Sabia que Carlos não sentia nada mais do que um amor fraterno pelas primas e principalmente por sua noiva, Maria Rosa. Mas admirava a sua capacidade de sempre honrar seus compromissos. Era um homem forte e de honra o seu Carlos Eduardo.

—É preciso que aprenda a viver sozinho, Carlos. Por um tempo ficarei aqui na companhia de Dona Lucinda.

Dona Lucinda era a gata branca que Carlos e Aurora encontraram perdida na Estrada Elitista (a estrada que ligava Cipreste aos dois casarões onde viviam os Orsini e os Guimarães, e onde havia os famosos Ciprestes de "ouro" que cresciam gloriosos e dourados junto a entrada das duas casas).

Carlos riu do comentário do pai, que fora tão contra a presença da gata na Casa Guimarães no princípio. Anos depois, Natanael e Dona Lucinda nunca se separavam e era bom saber que o pai estaria sempre se lembrando dele através da bolinha de pelos brancos. Após alguns segundos de silêncio, Carlos se lançou nos braços do pai, sentindo seu cheiro familiar e tentando, a todo custo, ser o homem forte que fora criado para ser.

—Sentirei saudades, meu pai.

—Eu também, meu filho. Mas não quero que fique pensando em mim.

Carlos sorriu e separou-se do pai. Era típico dele dizer algo como aquilo.

Em seguida, despediu-se do irmão. Não disseram nada, apenas se abraçaram. Eram carne e unha desde sempre. Amigos, companheiros. Era injusto que Carlos pudesse viajar enquanto o irmão ficaria em casa ajudando o pai com os negócios. Natanael afirmou que dezessete anos era a idade ideal para um jovem aprender um pouco mais com a vida em terras cheias de cultura e aventuras "A hora de Bento chegará" afirmara o pai em uma das tentativas de Carlos em convencê-lo a deixar que Bento fosse com ele.

—Não se esqueça que tem uma noiva, Carlos. Não faça nada para magoá-la. Sabe que Rosa tem grande apreço por você.

—Não farei- Carlos separou-se de Bento e olhou no fundo de seus olhos verde-oliva, idênticos aos seus- Cuide de todos por mim, meu irmão. Escreva-me sobre tudo.

—Eu escreverei. Prometo.

—Você precisa ir, meu filho. O seu trem sai às nove.

Carlos estava quase entrando no carro quando uma voz familiar chamou por seu nome.

—Carlos! Carlos! Espera!

Ao virar-se para a direção da Casa Orsini viu apenas uma cabeleira castanha antes de ser esmagado em um abraço apertado. Aurora.

—Achei que eu não chegaria a tempo- ela sussurrou e Carlos sorriu, apertando a garota em seus braços.

—Fico feliz que tenha conseguido.

Aurora separou-se dele, ajeitou os cabelos e o vestido simples que usava.

—Eu até lhe pediria para ficar, mas sei o quanto é importante para você.

—Estarei de volta antes que sinta a minha falta.

—Eu jamais sentirei sua falta- ela comentou com o seu típico sorriso travesso.

—Aurora!- Bento cumprimentou a noiva, cordialmente- Não imaginei que a veria aqui.

Aurora desviou o olhar para ele apenas por um segundo antes de voltar sua atenção para Carlos, que achou graça da situação. Bento estava sempre tentando cortejá-la e ela era totalmente contra aquele casamento arranjado.

—Eu provavelmente não deveria estar aqui- ela contou a Bento, olhando para Carlos com uma clara expressão de tédio.

—Aurora...- Carlos sussurrou em tom de aviso.

—Eu a levarei até em casa, querida- disse Natanael, colocando uma mão sobre o ombro da sobrinha e dispensando Bento com a outra- sei o quanto era importante para você estar aqui hoje.

—Alguém que me entende!- Aurora abraçou o tio. Natanael amava as sobrinhas igualmente, mas tinha fascinação por Aurora. Lembrava-lhe muito sua falecida Lucélia. O espírito livre, cheio de suas próprias vontades. Rosa, por outro lado, era uma típica dama: comportada e contida. Daria uma ótima esposa, agora que Deus tivesse piedade de Bento!

—Carlos precisa ir agora, minha querida.

Aurora olhou para o primo, travessa, e deu-lhe um último abraço.

—Cuidado para não engravidar nenhuma francesa- sussurrou ao ouvido dele.

Carlos sorriu e disse, sério:

—Vou tentar...

Natanael puxou a sobrinha na direção da Casa Orsini.

—Eu falo sério!-Gritou Aurora.

—Eu também!- Gritou Carlos.

E num último olhar, Carlos pôde ler as palavras nos lábios da prima:

—Fique bem.

Notas finais
Espero que gostem :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.