O Beijo das Sombras
1 Prólogo
Notas iniciais
Inverno, 10 de janeiro de 2006
Ao ser interrogada sobre o tema Síndrome de Estocolmo, Carly nega sofrer de tal coisa.
Pois ela já havia tido relações íntimas com o Agressor antes de descobrir a verdade sobre ele. Então após isso a aproximação já existia, e por ele ser um dos únicos seres humanos com o qual ela tinha contato, foi inevitável.
—No momento em que descobriu sobre os assassinatos qual foi sua reação?
Questionou um dos médicos.
— Não somente no momento em que descobri, mas por vários meses, quis fugir, por medo e moralmente aquilo tudo era errado e horrível. Só de pensar em toda aquela cidade podre já me consumia por dentro. Mas ele não me machucou nunca me machucou apenas me prendeu pra não me perder. Ele poderia ter me matado, mas não o fez. E por mais que eu soubesse o monstro que ele era eu continuava sentindo os mesmos sentimentos por ele. Se eu tivesse tido a chance de escapar, eu teria o feito, e então o teria esquecido, se eu tivesse tido a escolha eu escolheria ter ido embora. Mas ficando ali ao lado dele todos os dias, não consegui resistir aos sentimentos que tive, por mais sujos que eu os julgasse. Por mais que minha mente me condenasse.
Carly queria estar ali com ele, os momentos com Bo eram os melhores, ela precisava daquele contato, do toque dele, em uma cidade só deles. Era quase normal a relação para os dois depois de certo tempo.
— Você participou dos assassinatos?
— Nunca, eu fechava os olhos pra não ver, durante o pouco tempo em que estiver solta. O Bo só me soltava quando estava em casa, e isso depois de muito tempo. Quando Bo saia ele me amarrava na cama.
— E como ele fazia isso?
— Às vezes de frente, às vezes de bruços, sempre com as pernas abertas.
— Ele te estuprava todos os dias?
— Ele não me estuprava, só nos primeiros dias, digo sem consentimento. Carly se desconcertava a cada pergunta.
— Como ele fazia isso? As perguntas não cessavam.
Os psiquiatras tentavam comprovar que Carly estava com Síndrome de Estocolmo após ser mantida presa pelos irmãos Sinclair. Por ela insistir em dizer que era apaixonada por Bo, e que ele não a machucava mesmo a tendo prendido por anos.
— Ele nunca me machucou, nunca foi violento, ele sempre conversava comigo ao meu lado na cama, e depois me acariciava, me chupava por bastante tempo, e somente quando meu corpo respondia, ele me penetrava, ele não era delicado na penetração e me machucou algumas vezes, mas não intencionalmente, quando eu reclamava de dor ele parava e se desculpava como qualquer outro homem. Depois parava e me beijava, e dormia ao meu lado toda noite.
— Você sabe se ele mantinha esse tipo de relações com outras mulheres?
— Ele nunca levou nenhuma outra mulher pra casa, e também nunca se ausentou por muito tempo, digo tempo suficiente de manter outra pessoa em cárcere privado, acredito eu.
Um dia isso despertou curiosidade em Carly, havia tantas casas ali, era totalmente possível que houvesse outras garotas presas.
— Eu o questionei sobre isso, ele se sentiu ofendido com a pergunta, e me levou dentro das casas, e eu observei atentamente. Mas não havia nada. Ele disse que nunca tinha forçado nada comigo, o que de fato era verdade porque quando nós conhecemos e eu não sabia que ele era um assassino, eu realmente queria. Então de certa maneira ele estava certo.
Apesar de todas as coisas mórbidas ali, de toda aquela podridão, Bo sabia fazer Carly se sentir bem. Ela se perguntava como um assassino podia ser tão bom nisso, mesmo em uma situação tão ruim como esta. _ Ele me disse que nunca houve outra mulher que ele quisesse tanto, que o'que havia entre nós era diferente, especial, nunca tinha acontecido com ele antes. Por isso não pode me matar e nem me deixar ir embora.
— Ele podia ser psicopata, assassino, serial killer, mas estuprador, não era! Acrescentou Carly firmemente.
Ela se alterou com as perguntas dos psiquiatras, especificamente com essa, Carly não queria imaginar que não fosse à única.
— Não houve nenhum indício de possíveis estupros. Afirmou um dos médicos a mesa.
O que fez com que a serenidade de Carly voltasse.
— Podemos prosseguir? Perguntou o mesmo.
— Sim. Carly respondeu secando uma insistente lágrima.
— Então, segundo você disse, ele te levava para passear na cidade, você tinha acesso livre a cidade? Poderia ter escapado em algum momento?
— Não, eu não poderia, ele me amarrava a ele e então ás vezes me tirava para fora para tomar sol, ou pra me mostrar como a cidade estava bonita.
— Então ele passeava com você como quem leva o cachorro no parque? Indagou friamente outro psiquiatra.
Carly não aceitava muito bem certas colocações dos médicos, e na maioria das vezes defendia Bo e Vincent.
As marcas recentes nos pulsos de Carly comprovaram sua versão de que ficará presa a maior parte do tempo.
— Essas perguntas estão a afetando, porque não a deixamos contar a sua versão dos fatos desde o princípio, no seu tempo de sua maneira. Indagou o psiquiatra, mas observador da sala.
Havia quatro homens na sala, Carly com o passar do tempo, já criou uma identidade para eles.
O Observador, o sem noção, língua afiada e o acusador.
Ela não gostou de nenhum deles. Mas queria ver até onde eles iriam e o'que eles seriam capaz de descobrir sobre ela.
— Você se sente mais confortável Carly em nós contar de sua maneira? Mas precisamos que você não nos poupe de detalhes, todos eles são de extrema importância para chegar a um diagnóstico.
— Acho que posso fazer isso. Preciso de uma xícara de café. Suspirou _ Será uma longa história.
Mesmo que não tivesse sido, para Carly aqueles dois anos e meio presa naquela relação doentia pareceram uma eternidade.
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