O Baralho do Mágico Demônio
16 Uma Batalha e Uma Promessa
As garras de Chase perfuraram o chão, antes que ele abrisse os olhos, então, com uma garra, escrevesse um símbolo no ar com energia demoníaca. O símbolo brilhou intensamente, antes de uma fruta aparecer e cair em sua mão. Cabia perfeitamente na palma de sua mão, o fruto de uma cor dourada, com sua superfície sendo quase que esculpida com linhas que se pareciam com veias ou raízes. O demônio olhou para a fruta por alguns segundos, antes de sorrir e começar a devorá-la com ferocidade.
A energia que fluiu por seu corpo segundos depois era intensa, dolorosa, queimava por suas veias, atingindo as profundezas de sua alma. Ele se esforçou para se levantar, cambaleando para ficar de pé, terminando de devorar a fruta até que não sobrasse nada.
“O quê...? T-tem algo errado, eu consigo sentir.” Arya diz, assustada. A aura emanando do demônio era intensa, poderosa. “O que tá acontecendo?”
“Um Fruto do Éden. E-ele... Ele comeu um Fruto do Éden.” Aether gagueja, olhos arregalados, obviamente assustado também, suas mãos tremendo levemente. “Isso não é bom. Não é mesmo.”
“O que é isso? Explica de uma vez!” Eli pergunta, alarmada, seus olhos indo do demônio para Aether.
“Eu disse que essa é uma mini Eva. Então... A Eva verdadeira, mais especificamente a que tá no Submundo, dá um certo tipo de fruto, que é só chamado de Fruto do Éden.” Joker explica, nervoso. “Esse fruto é especial, capaz de dar poderes especiais pra qualquer demônio que come um. É por isso que ele tinha aquela cauda-chicote, não é natural, mas o poder dado pela fruta. Mas agora ele comeu uma segunda...”
“Quer dizer que ele vai conseguir outro poder?” Arya pergunta, punhos cerrados. Seu corpo ainda doía, e agora o inimigo não só tinha voltado, mas estava mais forte.
“Não é simplesmente outro poder... Comer um Fruto do Éden por si só é algo que só é permitido pra alguns demônios, mas independente disso, comer um segundo fruto...” Aether começa, cerrando os punhos para tentar parar o tremor em seus braços. “É proibido. Comer um segundo Fruto do Éden não dá um novo poder, ele amplia o poder já adquirido, só que... Esse poder adicional é grande demais, ele desperta os instintos mais primitivos de um demônio, consome a mente e-”
Chase cai de joelhos, grunhindo de dor, seu corpo se transformando. Ele cresceu de tamanho, chegando até pelo menos três metros de altura, seu corpo deixando de ser humano, se tornando mais animalesco, as escamas crescendo, cobrindo boa parte de seu corpo novamente. Seus três chifres cresceram, mais longos e grossos, se contorcendo, seus dentes afiados agora se tornado presas, seus olhos completamente negros. Sua cauda antes cortada, não só havia crescido para um tamanho ainda maior que o anterior, mas se divido em três, cada uma se movendo com vontade própria, rachando o chão com uma chicotada.
Demônios apesar de tudo ainda possuíam uma aparência humanoide similar a humana, porém agora... Chase havia se tornado algo diferente. Não era humano, não era demônio, o que ele um dia teve de vontade parecia ter sido tomada completamente, deixando nada além de um monstro. Ele se levanta, para sua altura quase total, curvado, antes de soltar um rugido que ecoou em toda a catedral.
“E cria um monstro.” Aether termina, se levantando. “Isso é muito pior que antes. Muito pior. Ele não devia ter um Fruto do Éden assim, mas... Faz sentido com o que a gente tem investigado.” Ele murmura para si mesmo. “O tráfico das cartas, ter um fruto consigo... Okay, isso não importa, a gente tem que dar um jeito nele. Imediatamente. Não importa o que faça, não se segura. Ele vai lutar pra matar e mais nada, não tem consciência mais, só um monstro. Joker, a barreira vai se manter por quanto tempo mais?”
“Não tenho certeza, eu coloquei ao redor da catedral inteira, deve aguentar meia hora talvez? Não consigo garantir.”
“Certo. A gente não pode deixar ele sair, a gente tem que capturar ou... Matar ele. Antes que ele arrisque alguém lá fora.” Aether diz, determinado olhando para as garotas. “Vocês conseguem lutar ainda?”
“Pessoas tão em perigo, é óbvio que consigo.” Arya responde, se levantando, mesmo que desse para ver que seu corpo tremia levemente, mesmo que ela tentasse se controlar. Seus punhos se cerram, seus olhos encontrando os de Aether com determinação. “Não vou perder enquanto meus amigos precisarem de ajuda.”
Aether sorri.
“Cambion. Eu sabia... Lutar por seus amigos tá literalmente no seu sangue e alma.” Ele diz, antes de acenar com a cabeça.
“Não sei o que é isso, mas tem gente pra caramba lá fora no Festival. A gente precisa acabar com esse bicho de uma forma ou de outra.” Eli se levanta com a ajuda de Seira. “Eles precisam da gente.”
“Sim! Eu vou proteger minhas amigas e todo mundo, com meu melhor.” Seira concorda, sorrindo, a mesma determinação das amigas.
“Certo.” Aether fecha os olhos, respirando profundamente, juntando as mãos como em oração. “Do Amor, Pela Inocência."Uma aura rosada emana dele, cobrindo o grupo, as garotas sentindo parte de sua energia voltando. Mesmo que não fosse completamente, era algo que as ajudaria a continuar. “Desculpa, não consigo fazer muito agora, já usei muita energia hoje lutando e curando o Pêssego e o Joker.”
“E o Bob!” Melanie adiciona.
“Tá beleza, tô me sentindo bem melhor. Ele não vai ter nenhuma chance contra a gente.” Arya garante, massageando os ombros, um sorriso no rosto.
“Não acho que consiga usar Diamond Rush de novo, mas pelo menos vou conseguir lutar.” Eli adiciona, puxando sua carta e voltando a se transformar.
“Isso aí! Meter porrada em bicho mal!” Seira concorda, saltando de animação, escudo pronto.
“Okay... Eu não sei o quanto consigo manter, mas eu vou lutar também.” Aether assobia, os dois borrões reaparecendo, se movendo e diminuindo, até estarem em seus ombros, antes de Fenrir e Garm assumirem formas físicas.
Fenrir era um lobo filhote de pelos negros que fluíam como fumaça, seus olhos grandes, com chamas saindo deles, presas afiadas, garras pareciam incandescentes, mesmo que não queimassem o moletom de Aether, além de que por entre seus pelos, era possível ver que suas veias brilhavam através da pele, como se rios de lava percorressem seu interior.
Garm também era um filhote de lobo, porém com uma aparência como se houvesse sido mumificado. Seus pelos eram de um azul bem pálido, com geada cobrindo suas pontas. Seus olhos chamavam atenção, ou ao menos a falta deles, com ele tendo apenas dois grandes buracos profundos e sem fim no lugar. Sua boca se mantinha um pouco aberta, com uma névoa fria saindo constantemente de dentro. Suas garras pareciam quase que feitas de gelo, azuis, que também não cortavam o moletom de Aether de alguma forma.
“Ele tá bem?” Seira questiona, assustada, principalmente com a aparência de Garm.
“Parece mumificado.” Eli adiciona, surpresa.
“Ah! Sim, ele tá. Eles são Fenrir e Garm, dois lobos demoníacos. É diferente, eu sei, mas eles são assim mesmo. Coisa do Submundo. Fenrir veio do Inferno, e o Garm do Purgatório, mas eles são legais! Só meio bagunceiros as vezes...” Aether explica, antes de sacudir a cabeça, focando no que importava. “Okay, não é hora pra isso. Eu vou tentar de novo... Tomara que funcione. Fenrir, Garm, SOULBOND!”
Ambos os lobos se tomaram novamente suas formas não físicas, fumaça e névoa, antes de cobrirem Aether. O garoto caiu de joelhos, agonizando, mas se mantendo firme, resistindo enquanto seu corpo mudava.
Ao invés das manoplas de antes, seu corpo em si mudou. Pelos em uma mistura entre negro e azul pálido crescendo e cobrindo seus braços e pernas, com suas mãos e pés se tornando patas de lobo, com garras afiadas. Seu cabelo cresceu, negro com mechas no azul pálido, completamente selvagem e espetado. Seus olhos sumiram, deixando os mesmos buracos vazios que Garm, porém com as chamas de Fenrir queimando de dentro. Em sua boca, presas afiadas, com a névoa gelada saindo de dentro. As orelhas de lobo reapareceram, com a mesma mistura de pelos, enquanto ao invés de uma única cauda, ele possuía duas, uma de pelos negros que fluíam como fumaça, e outra de pelos azuis pálidos com geada os cobrindo.
“Aether? Você tá bem?” Arya pergunta, dando um passo hesitante para mais perto.
“Bem menos fofo...” Seira pensa, nervosa.
“Eu tô, mas não consigo manter por muito tempo. A gente tem que acabar com isso rápido.” Ele grunhe, se levantando, em uma pata garras incandescentes, na outra garras de gelo. “Matar ele antes que ele consiga machucar alguém.”
“Certo, você tem razão. Espero que todo esse treino recente tenha melhorado nosso trabalho em equipe...” Eli concorda, seus seis espelhos aparecendo, flutuando atrás dela. O cansaço ainda era grande, mas o dever era o foco.
“Vai sim. Ele é grande, mas não é três.” Arya diz, estalando os punhos. Mesmo que não entendesse tudo sobre ainda, sua forma demoníaca persistia, o que por si só era uma vantagem adicional, mesmo que seu corpo doesse.
“Feio. Não gosto. Não vai machucar ninguém mais.” Seira adiciona, escudo pronto. Ter as amigas ao seu lado lhe dava coragem para continuar.
“Esse arrombado vai aprender uma lição por toda essa merda.” Aether rosna, assumindo uma posição de corrida.
“Ele fica com a boca suja quando se transforma, né?” Arya sussurra para Eli, que dá de ombros.
Chase – ou ao menos o monstro que ele havia se tornado – rugiu novamente, uma de suas três caudas destruiu uma mesa, mandando frutas para todo o lado, outra chicoteou o chão, partindo a pedra, a terceira segurou uma das mesas, antes de lançá-la contra a árvore.
Aether pula múltiplos metros, cortando a mesa com suas garras de gelo, a partindo em pedaços congelados. Então ele avançou rapidamente, uma velocidade surpreendente, saltando para o lado para desviar de um chicote, então dando um mortal para trás para desviar de uma patada do monstro, apenas para retribuir com um corte de suas garras incandescentes, atravessando até mesmo as escamas mais espessas do demônio, o fazendo rugir de dor.
O Monstro gira, usando dois chicotes por lados opostos em ataque em tesoura, tentando pegá-lo desprevenido, porém Aether salta, aterrissando em um dos espelhos de Eli, que estava voando ao redor do monstro sobre dois de seus espelhos novamente. Aether usa os outros espelhos como plataforma para se mover acima de Chase, pulando sobre ele, cortando com ambas as garras, porém o Monstro foi mais rápido dessa vez, usando seu outro punho para segurar Aether. Sua mão era enorme, grande o suficiente para agarrar a perna do garoto e jogá-lo contra uma parede da catedral, porém sua agilidade felizmente era grande o suficiente girar antes do impacto, pousando na parede com suas patas, antes de usar aquilo para sua vantagem, se jogando de volta contra Chase.
As três caudas do Monstro se moveram rapidamente para interceptá-lo, porém antes que conseguisse Seira ficou no caminho, segurando as três com seu escudo. O impacto fez a garota ser arrastada múltiplos metros, porém ainda conseguindo se manter de pé.
“Meus bracinhos vão cair, definitivamente.” Ela choraminga, massageando o local, ao menos o escudo havia crescido bastante com o impacto.
O monstro ignorou a interrupção, ainda focado em Aether que voava em sua direção, atacando com ambas as garras contra o garoto para tentar pegá-lo novamente. Porém, pouco antes que conseguisse, Arya apareceu, usando um dos espelhos de Eli para impulso, voando alto o suficiente para interceptar Aether, segurando sua perna e girando no ar, antes de lançá-lo para a direita de Chase, com ela mesma sendo lançada para a esquerda dele. Ambos usaram outros espelhos estrategicamente colocados por Eli como suportes para se jogarem contra o monstro pelos lados.
Aether pousou nas costas de Chase, suas garras perfurando as escamas para se manter firme, antes de cravar suas presas no pescoço no monstro, arrancando as escamas do local agressivamente. Arya por outra vez se segurou em um dos chifres do monstro, a adaga na outra mão, que foi coberta de sombras, antes da garota perfurar um dos olhos dele com ela, o fazendo rugir de dor, com ele se debatendo ferozmente.
As caudas dele se moverem agressivamente, atacando a si mesmo. Uma atingiu Aether, mas ele se manteve firme no lugar, a adrenalina e ferocidade de sua forma ignorando a dor, enquanto ele arrancava as escamas do pescoço do monstro. Arya, entretanto, não teve a mesma sorte, sendo atingida por uma das caudas, sendo lançada voando, apenas para ser pega por Seira – se usar Seira de almofada conta como pegá-la – antes de atingir o chão.
“Ai... Pesada... Socorro.” Seira geme de dor, no chão, após Arya cair com tudo sobre ela. “Escamas extras pesam mais?”
“Desculpa, Seira. Cê tá bem?” Arya se levanta, antes de ajudar a amiga. “Valeu pela ajuda.”
Chase continuou se debatendo, Eli flutuando fora da área de alcance, dando alguns tiros de luz contra ele, mas ela sabia que aquilo não seria o suficiente para pará-lo, ainda mais agora.
Aether finalmente havia conseguido tirar escamas o suficiente de Chase para expor a pele por baixo, antes de cravar suas garras nela. A garra incandescente queimou a pele, mas não o suficiente, chama do inferno contra Abbadon, óbvio que não seria o suficiente. Ele então crava sua garra congelada no local, o gelo do purgatório fez mais efeito, a região necrosando em segundos. Infelizmente, o demônio conseguiu finalmente por suas mãos em Aether, o arrancando de suas costas antes de o jogar contra o chão com força. O primeiro impacto fez um som agonizante soar do corpo do garoto, sangue escorrendo de sua boca, ossos provavelmente quebrados. Ele tenta se libertar cortando com suas garras, mas a fúria do monstro era maior, com ele levantando Aether e o jogando contra o chão novamente.
Porém, antes que o conseguisse, os seis espelhos de Eli apareceram na frente do rosto de Chase, lançando rajadas de luz contra seu olho ainda intacto, o cegando temporariamente, parando seu ataque no meio do caminho. Ele não soltou Aether ainda, mas o ataque não havia acabado, pois os espelhos de Eli mudaram de posição, rodeando o pescoço do demônio antes de lançarem vários raios concentrados contra a parte exposta sem escamas, conseguindo causar algum dano. Não só isso, mas aproveitando a dor e distração do demônio, Arya e Seira avançaram para a parte de trás dele. Seira defendendo chicotas perdidas no caminho, até que ambas chegaram perto o suficiente. Seira novamente dá suporte para Arya saltar mais alto, sua espada de trevas se formando, antes da garota conseguir decepar uma das caudas bem na base. O rugido do demônio ecoou, com ele jogando Aether para longe, o garoto aterrissando na grama próxima a árvore, saindo de sua transformação, ambos os filhotes, Fenrir e Garm aparecendo ao seu lado, cansados e fracos.
Aquilo havia sido o limite de Chase, que ficou de quatro, antes de girar ambas as caudas restantes ao seu redor em alta velocidade. As caudas cortaram o chão como manteiga. Eli conseguiu desviar por pouco, antes de uma atingir sua perna de raspão, o suficiente para tirá-la do ar, a garota caindo perto de um pilar, grunhindo de dor, osso quebrado. Seira conseguiu levantar seu escudo a tempo, ficando na frente de Arya, porém a força do ataque foi o suficiente para lançarem ambas para longe, com Seira caindo sobre Arya.
“Droga... A gente... Tá quite agora.” Arya grunhe, antes de rir secamente.
“É... Haha... Meus braços tão doendo muito. Não sei quanto eu aguento.” Seira geme, cambaleando para se levantar. O escudo estava grande, quase do seu próprio tamanho. Pesado, principalmente com a dor em seus braços após tantos impactos.
“A gente... Espera, Eli?” Arya percebe a amiga caída, tentando se levantar. A garota mal consegue desviar de uma pata de Chase, rolando para o lado por pouco, antes de se segurar em dois espelhos, os usando para tentar carregá-la para longe, porém o monstro conseguiu segurar sua perna quebrada, a fazendo gritar e a puxando de volta. Arya correu em direção a amiga o mais rápido que pode, porém estava longe demais. A outra pata do demônio se ergueu, antes de descer com tudo contra Elloise... “ELI!”
A pata estava a centímetros de esmagar a cabeça de Elloise, quando foi parada abruptamente. Uma barreira feita de sombras estava entre a garota e o monstro, se rachando aos poucos. Steven estava em uma das entradas na catedral próximas, mãos estendidas, claramente suando com o esforço de criar aquela barreira. Amanda com ele.
“Não sei qualé a tua, bicho feio, mas não vai nem fodendo.” Ele rosna, esforçando tudo que tinha para manter a barreira de trevas.
A barreira claramente não iria aguentar, porém era tudo o que Arya precisava. Tempo. Ela conseguiu saltar nas costas de Chase, correndo até seu pescoço, antes de enfiar sua espada na área necrosada no local, fazendo sangue jorrar e a criatura rugir, se sacudindo, felizmente se movendo para longe de Eli antes que a barreira se quebrasse.
Arya saltou dele, correndo até Eli, Seira conseguindo alcançar um pouco depois, mais lenta sem agilidade demoníaca e um escudo grande. Seira imediatamente se põe entre Eli e o monstro, tendo certeza de que os outros podiam ajudar ela de forma mais segura.
“Eli, você tá bem? Sai da transformação!” Arya se ajoelha ao lado de Elloise, preocupada. “Você vai se curar dos ferimentos, lembra?”
“Se eu sair, eu não vou voltar de novo. Não dá pra deixar vocês lutando sem mim.” A garota nega, se sentando, sua perna inchada no local do osso quebrado. “Eu não consigo andar, mas ainda consigo lutar de longe.”
“Cacete, quando a Amanda falou o que vocês tavam fazendo, não pensei que ia ser lutar contra um boss de Dark Souls.” Steven diz, se ajoelhando ao lado da garota. “Ainda bem que eu cheguei na hora, né?”
“Não se acostuma...” Eli rebate, antes de olhar pra ele. “Valeu. Não sorri igual um idiota enquanto eu tô ferrada aqui, babaca!”
“Foi mal, foi mal!” Ele levanta as mãos em rendição, mesmo que um sorriso escapasse. “Beleza, vem.” Steve pega Eli, a carregando em suas costas.
“Ei! Que merda é essa? Sou criança mais não.” Elloise reclama.
“Quê? Você precisa lutar, mas não vai conseguir parada ali. Minha carta da força, resistência e essas barreiras. Parece perfeito pra ser sua montaria agora, né não?” Ele argumenta.
Eli rola os olhos, mas não podia ignorar os fatos, colocando os braços sobre os ombros dele para se segurar.
“Beleza. A gente tem que dar um jeito de matar ou prender aquele bicho.” A garota explica, olhando ao redor. “Só que o Aether já se esgotou demais. Meus raios de luz não são fortes o suficiente pra matar aquilo. Seira só pode defender. A única opção é a Arya e a espada dela.”
“Ahn... Minha espada ainda tá nele.” Arya responde, apontando para o demônio confuso, a espada cravada no pescoço dele, o fazendo sangrar sem parar. “Talvez já seja o suficiente?”
“Droga! Okay... Matar ele, ou capturar ele. Como a gente...”
“Eu tenho uma ideia!” Amanda oferece, levantando uma mão timidamente. Todos olhando para ela. A garota explicando o que ela tinha em mente.
“Vai ser difícil, mas se funcionar...” Eli murmura.
“Vale a pena tentar, não é como se a gente tivesse muitas opções.” Arya adiciona.
“Vou dar meu melhor!” Seira concorda.
Eles rapidamente assumem suas posições. Steven carregando Eli em suas costas estando de um lado da catedral, Seira à frente de Amanda para defendê-la, ambas do lado oposto da catedral e Arya sozinha, pronta para avançar.
Amanda usa sua carta, o Três de Paus, Instinto Floral, a habilidade de sentir e manipular plantas ao seu redor. Ela faz várias das frutas ao redor da catedral flutuarem, antes de as lançar contra o demônio, chamando sua atenção. Ele olha ao redor, confuso, até se virar para Amanda e Seira, antes de dar uma chicotada em direção as garotas, atingindo o escudo de Seira, que agora já estava completamente de seu tamanho, tendo que ser apoiado contra o chão para segurá-lo propriamente.
Antes que ele pudesse dar outra chicotada, Eli guia seus espelhos, os fazendo darem ataques contra o pescoço e o olho ferido do monstro, propositalmente chamando sua atenção para ela e Steven. O jovem rapidamente criando uma barreira para defender outra chicotada dada pelo monstro.
Ambos os lados mantiveram os ataques coordenados, distraindo e confundindo o monstro, que continuava a tentar a atacar ambos. Isso foi o suficiente para Arya, que nesse meio tempo usou suas garras para escalar um dos pilares da catedral, então os arcos de pedra próximos do topo para se mover até estar em uma posição mais vantajosa acima de Chase.
O demônio já estava perdendo sua paciência, prestes a avançar contra um dos dois grupos, quando Arya finalmente salta sobre o monstro abaixo. Ela carregava um dos espelhos de Eli consigo, enfiando um braço dentro. Elloise por sua vez, havia guiado um espelho para perto do pescoço de Chase, e então, usando o Portal de Espelhos, conectou aquele espelho com o que Arya carregava, deixando a garota passar o braço pelo portal e recuperar sua espada no meio da queda.
Arya puxa sua espada do pescoço do monstro, que rosna de dor com o sangramento ainda pior, porém já era tarde demais, com a garota caindo sobre o demônio. Com um corte, ela corta outro chifre, deixando apenas dois chifres em um lado sobrando, então com outro corte ela aumenta o sangramento no pescoço ainda mais e por último, um corte final decepa mais uma cauda do monstro, o deixando com apenas uma sobrando.
O rugido de Chase era ensurdecedor, a fúria dele imensa, e a agressividade também, porém era aquilo que eles queriam afinal.
Arya consegue desviar de uma garra, então rolar para fora do caminho de uma chicotada. Seira estava se aproximando lentamente, escudo maior que ela, e muito pesado. Steven mantinha Elloise próxima, em uma distância segura o suficiente. Perto da árvore, Melanie havia levado Aether para fora do jardim com ajuda de Pêssego. A única próxima agora era Amanda, que estava escondida atrás de um pilar perto do jardim. Caminho limpo.
Os ataques do demônio eram mais agressivos, sim, mas também mais previsíveis. Eli usava sua Luz do Vidente, guiando os movimentos de Arya, que a ouvia através do espelho que carregava consigo. Patada lateral, chicotada por cima, patada dupla, chicotada lateral. A garota desviava com precisão, seu corpo gritando de cansaço, mas ela não iria cair ainda.
Seira havia finalmente assumido posição, alguns metros longe do monstro, direcionada para a árvore, com ele no caminho. O escudo enorme após tantos ataques pesados, ela mal conseguia levantá-lo mais. Era a hora do final do plano entrar em ação. Arya desviou de outro golpe, antes de levantar o espelho que carregava, bem perto do olho restante de Chase, antes do espelho disparar um raio concentrado, perfurando o olho, o cegando completamente.
Steven carregou Elloise para longe, enquanto Arya correu até Seira. A garota se posicionou ao lado da amiga, a olhando.
“Pronta?”
“Pronta!”
Arya segura o escudo com Seira, ambas usando toda a força restante que possuíam juntas, o levantando, antes de começarem a se mover. Passos lentos, então mais rápidos. O escudo ameaçou cair algumas vezes, mas elas se mantiveram firmes, se movendo ainda mais rápido, com o escudo a sua frente como um aríete.
“EI, GIRAFA DE SALTO ALTO!” Arya grita, chamando a atenção do monstro, que se vira até elas, usando os sentidos restantes para tentar identificar sua localização. “TOMA ESSA NA CARA!”
“ESCUDO DO AMOR-" Seira começa, determinada.
“HEARTBREAK!” Arya conclui, assim que o escudo atinge o monstro diretamente. Mais de uma tonelada de força, com o impacto de toda a energia absorvida pelo escudo sendo devolvida de uma única vez. O som das escamas se quebrando veio primeiro, então ossos, antes do demônio descontrolado ser lançado voando através da catedral, rolando na grama do jardim ao redor de Eva, até que ele atingiu a árvore em cheio.
Chase tentou se mover, os instintos e agressividade dadas pelo consumo excessivo do Fruto do Éden tudo que restava e o guiava, porém algo o impedia. Ao tentar mover um braço, percebeu que uma das raízes que formava a árvore estava se dividindo, se enrolando ao redor dele. O demônio tentou se libertar cortando a raiz, porém mais raízes se dividiam, se enrolando ao redor de seu corpo conforme ele se debatia. Mais e mais ele tentava, porém todos os danos e as restrições constantes das raízes eram demais, em questão de um minuto, Chase havia sido completamente coberto pelas raízes, com pouco de seu corpo visível por baixo.
Amanda cai de joelhos na grama. Seu plano havia funcionado. Eles haviam conseguido enfraquecer Chase o suficiente para capturá-lo com as raízes da árvore usando o poder dela.
“Deu certo... DEU CERTO, MESMO!” Arya comemora, antes de cair de cara na grama. Seu corpo inteiro estava dolorido, definitivamente iria sentir isso amanhã, e provavelmente pelo resto de sua vida.
“FUNCIONOU MESMO! Igual quando eu taquei aquela piranha no lixo!” Seira comemora, dando saltinhos e batendo palminhas.
“Aquela piranha... É... Mereceu o lixo.” Arya concorda, não movendo um músculo mais.
“Essa ‘piranha’... Tá falando da minha irmã?” Amanda pergunta.
“Oh... É verdade... Desculpa.” Seira cora de vergonha, antes do cansaço também a tomar, com ela caindo ao lado de Arya, saindo da transformação. “Soninho... Fome... Sushi...” A garota cai no sono logo em seguida.
“Ela tentou matar a gente, é uma piranha mesmo.” Arya murmura, antes de olhar para os outros que se aproximavam. Eli havia saído da transformação, o osso quebrado recuperado, mas o cansaço definitivamente havia a acertado com força, mal estava acordada, ainda sendo carregada por Steven. “É sério, como eu saio dessa forma?” Ela pergunta, gesticulando fracamente para si mesma, ainda na forma de demônio.
Aether se senta na grama, havia recuperado a consciência, mas claramente sangrando um pouco ainda.
“É só... Se concentrar. Lembra da sua forma humana e volta ao normal.”
“Tipo com minha transformação? Entendi.” Ela se concentra, fechando os olhos, antes de sair de ambas as transformações, uniforme de garota mágica e forma demoníaca se foram por agora. “Eu também tô com fomeeeeeee! Que droga, a treinadora vai brigar com a gente ainda, né não? E amanhã tem escola. Não gostei.”
“Isso importa? Não é melhor explicar por que você tava daquele jeito? Carta nova ou o quê?” Steven pergunta, colocando Eli na grama cuidadosamente.
“Pelo jeito ela é um demônio. Meio? Sei lá. Nem ligo mais. Só quero minha cama.” Eli responde, tentando se manter acordada, mas o cansaço havia a deixado grogue.
“Cambion. É um meio demônio. Ela é meio humana e meio súcubo.” Aether explica, Fenrir e Garm confortáveis em seu colo.
“Meio o quê? Súcubo não são-” Steven começa, antes de ser interrompido.
“NÃO SÃO NÃO!” Joker interrompe, irritado, patas na cintura. “Sinceramente, essas safadezas todas são de vocês humanos! Não conseguem fazer nada sem transformar em coisa estranha, bando de doente.” Ele rola os olhos, cruzando os braços. “Pra sua informação, súcubo são uma das raças de demônio. Se alimentam de emoções, tem poderes emocionais, além de serem Metamorfos, eles conseguem mudar de forma e tudo. E SÓ! Tira essas histórias bizarras que vocês humanos inventaram da cabeça!” O coelho termina, apontando uma pata acusatória contra Steven, que só levantou os braços em rendição.
“Bom, pra ser justo. Isso também é culpa da Lilith...” Aether comenta, claramente envergonhado. “Mas Joker tem razão, súcubo é só uma das sete raças de demônios. Metamorfos que se alimentam de emoções fortes, só isso. O pai da Arya deve ser um.”
“Então tá, né. Eu vou ficar fora disso, é melhor. Confusão demais, prefiro focar em futebol, vocês que lidem com os demônios.” Steven dá de ombros, pegando uma maçã de uma cesta que sobreviveu de alguma forma.
“Quem raios é Lilith?” Arya pergunta, curiosa. “Melhor ainda, o que isso tudo implica? Eu sou meio demônio? E a transformação? Se súcubos são metamorfos, quer dizer que eu consigo?”
“Bom, melhor não falar mais da Lilith...” Aether diz, bochechas coradas, focado em acariciar os filhotes em seu colo. “Mas você é um Cambion, como eu falei. Não, você não tem os poderes de um súcubo, normalmente o resultado de um filho de demônio e humano é bem inusitado. Cambion tem instintos extremamente afiados, além das conexões emocionais que conseguem formar. É por isso que eu percebi, porque sua força é bem grande quando lutando por suas amigas, e Cambion ficam mais fortes nesse tipo de situação. Suas emoções e a conexão que você tem por alguém alimentam sua força além do normal.”
“Quando eu me transformei... Foi pra salvar o Joker e os outros.” Arya se lembra, olhando para o céu noturno pela abertura no topo da catedral. “Só senti uma energia enorme fluindo em mim quando vi ele em perigo, quando percebi já tava lá, segurando o ataque daquele babacão.”
“Isso não vai ter alguma consequência estranha bizarra, vai?” Eli pergunta. “Espera. É por isso que ela é tão forte e tudo mais? Por ser meio demônio? Por que agora?”
“É, demônios são mais fortes que humanos, então sim, mas pra ser só agora, eu não tenho certeza. Talvez as cartas? Elas são criadas com magia demoníaca, pode ter despertado o poder dela.” Aether dá de ombros. “A natureza de meio demônios podem ser despertadas de várias formas, essa pode ser uma delas.”
“E eu conseguir entender a Seira? É pela conexão emocional?”
“Um pouco, definitivamente facilita. Só que acho que é porque eu tô aqui. Minha conexão com o poder da carta dela e sua conexão emocional, deve ter ampliado o suficiente pra você entender ela.” Ele explica.
Arya se senta em um sobressalto.
“Quer dizer que eu não vou conseguir entender ela quando você for embora?” Ela pergunta, decepcionada, olhando para a garota, que ainda dormia. “É só que... É legal... Entender ela, e tal.”
“Essa não é a única forma de fazer isso. Você gosta dela, e se importa.” Aether segura a mão de Arya, sorrindo. “Você consegue, se você se esforçar. Tenho certeza disso. Palavras não são a única forma de se conectar com alguém afinal.”
Arya olha para ele, então para Seira, antes de sorrir e concordar com a cabeça.
“É. Tem razão.” Arya se estica, antes de se deitar na grama novamente. “Vou continuar tentando.” Seira segura a mão da garota inconscientemente, Arya cora de vergonha, mas não resiste, sorrindo. “Vale a pena.”
Não demorou muito para a barreira ao redor da catedral finalmente se quebrar, desaparecendo. Pouco tempo depois, aquele mesmo grupo da D.E.M.O.N. aparece, com mais membros dessa vez. Alguns deles carregavam marcas, claramente da luta que tiveram anteriormente com Chase. No lado de fora, a catedral estava cercada por um perímetro, mantendo todos os civis do lado de fora.
“Ah é, esqueci de falar. A polícia tá lá fora.” Amanda diz, olhando para as amigas. “Entrar não foi muito fácil, mas que bom que a gente conseguiu.”
“Uau, a cavalaria chegou... Depois da batalha acabar. Que úteis.” Arya suspira, cansada demais para se importar.
“Bom, eles tão tentando, mas não é muito fácil lidar com demônios. Tem um limite de quanto treinamento eles conseguem ter, principalmente... Com isso.” Aether gesticula para o demônio inconsciente, preso pelas raízes. “Abbadon são o menos comum de aparecer aqui na superfície ainda.”
“Grupo Alfa e Beta, preparem as algemas de contenção para o monstro. Grupo Gama, capturem o animal.” A líder ordena, a mesma mulher de antes, mesmo que claramente ferida e sem seu drone.
“Quê? Não, não, não. Não chega perto do Pêssego!” Melanie diz, ficando no caminho, braços abertos.
“Espera, espera!” Aether cambaleia para ficar de pé, procurando em sua roupa, antes de puxar um cartão de identificação. “Aether Helborn, da D.E.L.T.A., o demônio e o marchosias estão sob minha jurisdição.”
“D.E.L.T.A.? Por que exatamente eu não recebi informações sobre algum de vocês na região?” A mulher pergunta, séria.
“E-eu tenho certeza de que vocês foram... Eu acho. Demônio Abbadon em fuga, voando em um Marchosias, carregando possíveis artefatos mágicos. Deviam ter recebido essa informação faz um tempo? Tipo... Meses.” Aether explica, nervoso. A dúvida de a quanto tempo ele estava nesse trabalho era relativamente grande a esse ponto.
“Isso é verdade?” Ela questiona, se virando para o líder do grupo Gama.
O homem busca informações na tela do bracelete em seu pulso, alguns minutos depois ele finalmente responde.
“Mensagem de Urgência. Meses atrás. Parece ter sido vista, mas não foi encaminhada por algum motivo.” Ele responde, sério.
“Quem? Foi o Dave, não é? Aquele inútil, é o que dá botar o sobrinho imbecil do chefe pra trabalhar com assuntos importantes.” A mulher suspira profundamente, claramente irritada, antes de olhar para Aether. “Certo, você está no comando, o que devemos fazer?”
“Ahn, é... O demônio já foi derrotado, inconsciente. Ah! O Marchosias é um animal protegido, sob minha proteção, ele é seguro, inofensivo.” Aether responde, gesticulando mais que o necessário.
“Certo.” A mulher faz um gesto com a mão, o grupo Gama se afastando de Pêssego, Melanie os encarando, tentando parecer ameaçadora com todos os seus dez anos de idade e 1,30 metro de altura. “E sobre a contenção do demônio?”
“Ah, sim... Ele comeu um segundo Fruto do Éden, então ele tá meio... Grande. E monstruoso. Suas algemas de contenção não vão funcionar.”
“Como se tivessem antes...” Arya murmura, rolando os olhos, Eli rindo.
“Tá tudo bem! Eu tenho algo pra-” Ele corre em direção do demônio, tropeçando no caminho, quase caindo, antes de se recuperar e alcançar a Mini Eva. Ela era enorme em comparação a árvores normais, isso definitivamente. “Algo pra isso.” Aether cora de vergonha, antes de desenhar símbolos no ar com magia demoníaca, de onde múltiplos braceletes foram invocados. Todos eles partidos em dois, pareciam quebrados.
“Isso tá certo?” Eli pergunta, inclinando a cabeça para o lado.
“Sim, sim! Elas são algemas de energia.” Ele garante. Os grupos da D.E.M.O.N. cortam as raízes com cuidado, libertando o monstro inconsciente, antes de Aether se aproximar e colocá-las nele. Braços, pernas, pescoço. Ao serem colocadas no lugar, linhas de energia roxa fluíram dos braceletes, conectando as partes uma à outra. “São feitas especialmente pra demônios, absorvem e usam a própria energia do demônio pra prendê-los. Deixa bem mais fácil de se lidar, mais fracos e tudo.”
“Certo. Criem o veículo de transporte.” A mulher ordena para o grupo. “Vamos levá-lo para contenção. Mais alguma ordem?” Ela adiciona, olhando para Aether.
“Quê? Ah, não. Tá tudo bem. Vou falar com meu irmão mais tarde, pra levar ele de volta pro Submundo...” Aether deixa a D.E.M.O.N. levar Chase, antes de se virar para o grupo, então para Melanie.
A garotinha estava abraçando Pêssego forte, o marchosias lambendo o rosto da garota, Bob a cutucando carinhosamente. Aether se aproximou, um pouco ansioso.
“Eu-”
“Você vai levar o Pêssego... Não vai?” Ela pergunta, voz fraca, fungando. Melanie olha para ele, lacrimejando. “Pra casa dele... Longe daqui.”
Aether abre a boca para falar algo, antes de fechá-la novamente e se sentar ao lado deles. Uma mão acariciando o pelo do lobo gentilmente. Ele fecha os olhos, suspirando, antes de olhar para Melanie novamente.
“É mais seguro. Mesmo a Mini Eva não é o suficiente sem eu aqui pra transferir a energia propriamente. Seria só atrasar o inevitável, e ele sofreria demais.” Aether coloca uma mão na cabeça de Melanie, fazendo carinho nela, um sorriso gentil no rosto. “O Submundo é lindo, sabia? Tecnicamente é uma caverna sem fim, bem no centro do planeta. Existem cidades no chão, parecidas com as humanas e tudo mais. O Palácio Dawnveil, onde o Deus da Morte reina. O Lago das Almas, e seus rios de névoa que fluem pelo ar em todo o Submundo. E então a Árvore da Vida, Eva, absolutamente gigantesca, crescendo de cabeça para baixo do teto do Submundo.”
Melanie olha para ele, olhos arregalados. Tudo isso parecia até fantasia.
“Uma árvore crescendo do teto?”
Aether ri, concordando com a cabeça.
“Sim. O chão é onde ficam as cidades, mas no teto do Submundo é onde a verdadeira beleza existe. A gravidade do Submundo é dupla. Tanto o chão quanto o teto têm gravidades próprias. O teto do Submundo é completamente coberto de florestas, rios, montes. As plantas são únicas e completamente diferentes das daqui! E os animais? Incríveis! O Pêssego é só uma das espécies que existem de muitas. É lindo ver matilhas de marchosias voando sobre as florestas e cidades, girando e se adaptando as duas gravidades como se fosse nada. Quase como estrelas cadentes se movendo pelo céu noturno.” O garoto explica, olhos brilhando ao se lembrar de sua casa. “Acho que ao pensar em Submundo, pessoas costumam pensar em um lugar assustador, morto ou violento, mas é provavelmente um dos locais mais belos que eu já vi. Apesar do que o Chase mostrou, demônios são só uma espécie como qualquer outra, que comete erros, mas tem muitos bem legais.”
“O que mais? Como são os demônios?” Melanie pergunta animada, seus olhos brilhando tanto quanto os de Aether, até Pêssego e Bob pareciam felizes em ouvir mais de sua casa.
“Existem sete raças principais de demônios na verdade, cada um com suas peculiaridades.” Aether continua, sorrindo. “Tem Succubus que são metamorfos com conexões bem fortes com sentimentos. São sempre os mais carismáticos, ou mais caóticos, você nunca vai ficar entediada ao estar perto de um. Então tem os Grigori, demônios com habilidades mágicas incríveis! Eles podem fazer todo tipo de truque que te deixaria de boca aberta. Outra são os Baphomet, eles são demônios com características de animais, e extremamente conectados com a fauna e a flora demoníaca, um deles é quem cuida do Pêssego inclusive.”
“Características de animais? Tipo você com as orelhas e cauda de lobo?” Melanie pergunta, curiosa.
“Não, eles são mais que isso. Costumam ter cabeça de animal e tudo. Já ouviu falar da mitologia egípcia? São tipo os deuses deles.” Ele corrige. “O que mais? Aé! Os Belial! Sabia que eles evoluíram igual os humanos? Eles acabaram perdendo boa parte da conexão com magia demoníaca, mas por outro lado os Belial estudaram muito a ciência humana, misturaram com magia demoníaca e criaram tecnologia que mistura ambas. Aqueles braceletes é um exemplo. O Submundo tem tecnomagia basicamente.”
A boca de Melanie se abriu em surpresa. Aether riu.
“Tem os Djinn também. Eles têm conexão bem forte com elementos. Os próprios corpos são feitos em parte de elementos, e eles também são bons pra caramba em alquimia. Deixa eu ver... Aé, os Abbadon. Grandes e assustadores, igual o Chase, mas nem todos são maus! Talvez um pouco esquentadinhos, mas ainda assim.” Ele pensa um pouco mais. “Ah, sim. A última raça de demônio são os Tennin. Na verdade, eles são bem parecidos com anjos. Tem aureolas que flutuam sobre suas cabeças, e ao invés de escamas, eles têm penas que crescem em seu corpo. Eles não têm asas em si, mas usam as penas deles pra criar mantos que permitem que eles flutuem e até voem, é bem legal.”
“A casa do Pêssego parece tão legal... Eu queria poder ver.” Melanie diz, fazendo carinho no marchosias, que inclina sua cabeça, aproveitando o toque da amiga.
“E se puder? Bom, você não pode só ir e tudo mais, tem algumas regras e tudo, nem humanos nem demônios podem só ficar entrando e saindo. Só que talvez um dia... Pelo menos eu posso trazer o Pêssego pra te ver, o que acha?” Aether sugere.
Melanie se levanta, surpresa.
“Sério? Você promete? Vai trazer ele pra me ver? De verdade?” Ela pergunta, lágrimas ameaçando cair, agora de felicidade.
“Sim. Eu prometo!” Aether garante, segurando o mindinho dela com o próprio. “Eu prometo que vou trazer o Pêssego pra te ver sempre que puder! Ele precisa voltar e se recuperar completamente, mas depois disso? Sem problemas. Ficar alguns dias fora do Submundo não vai ser problema, e tenho certeza que ele e o Bob vão ficar bem felizes de poder voltar também.”
“De mindinho. É uma promessa. Não quebra tá?” Melanie funga, limpando as lágrimas, antes de abraçar Aether. “Obrigada. Cuida bem dele, tá? Ele é bagunceiro, mas legal. Adora pêssegos, e torta de maçã. E ronca alto também, mas dá pra acostumar.”
Aether gargalha, claramente se segurando para não chorar também.
“Okay, vou cuidar muito bem dele, você vai ver. Já já vocês vão se encontrar de novo.”
“Promete falar mais da casa do Pêssego também?”
“É claro! Vou falar da minha família na próxima, todos diferentes, mas todos bem legais.” Aether acena com a cabeça, antes de se virar para o grupo, apenas para ver que as garotas todas estavam dormindo, com Joker junto delas. Arya segurando a mão de Seira, Eli deitada de lado, óculos tortos e abraçando Joker, e Amanda que caiu de cara na grama, dormindo pesado. Steven estava de pé, desconfortável, sem saber exatamente o que fazer. “Oh... Ahn... Tem alguém...?”
“VOCÊS CINCO, O QUE PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO?” A voz de Ekaterina soa de uma das entradas da catedral, ecoando pelas paredes do local, a mulher claramente furiosa.
“É, acho que sim... Sacanagem, por que fui me meter nessa?” Steven suspira, já sabendo o que estava por vir.
“Bom, então, eu... Vou indo...” Aether diz, se virando e indo embora, trazendo Pêssego consigo.
“É, eu... Vou me despedir do Pêssego e do Bob, e... Ver minha tia. Diz obrigado pra elas, tá?” Melanie olha para a mulher furiosa indo em direção ao grupo, olhos arregalados. “Tchau!” Ela termina, antes de correr atrás de Aether.
Steven olha para o quinteto dormindo, antes de rolar os olhos. Pelo jeito ele que teria que lidar com a fúria da treinadora. Sozinho. Cada um com suas próprias batalhas no fim das contas, não é?
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