O Baralho do Mágico Demônio
13 O Festival Arruinado
MESES ATRÁS
CIDADE DE BLACKTHORN
Já havia se passado da meia-noite, a lua cheia a única coisa o qual iluminava a escuridão que caía sobre a cidade. Então, o céu noturno foi cortado por uma silhueta desconhecida, passando entre nuvens, antes de aos poucos se aproximar da cidade.
“Que merda, bicho maldito. Não é pra descer ainda.” O homem reclama para sua montaria, segurando com força nos pelos do animal. Não era um simples homem, entretanto, mas sim um demônio.
O demônio era extremamente alto, definitivamente estando acima dos 2 metros de altura e com um físico musculoso. Sua pele era alaranjada, cabelos longos abaixo dos ombros de cor escura, suas escleras eram negras com suas írises sendo de um verde neon, dentes afiados. Além disso havia seus chifres, quatro deles para ser exato, nascendo no topo da cabeça com dois se curvando para frente e dois para trás, e sua cauda, que era extremamente longa e elástica, definitivamente mais longa do que ele próprio, enrolado ao redor de si mesma para manter um tamanho mais manejável. Ele usava roupas escuras, botas, calça e jaqueta de couro, que claramente estavam apertadas contra seu físico.
O animal abaixo de si voava com dificuldade, claramente cansado e ferido, carregar o demônio definitivamente não era uma tarefa fácil para si.
No topo dos prédios abaixo, uma silhueta completamente diferente se movia com surpreendente agilidade, pulando de telhado em telhado com graça, claramente seguindo aquele homem. O animal estava cada vez mais baixo, mal conseguindo se manter, e a agressividade do demônio que o montava obviamente não o ajudava.
Finalmente, ambos estavam apenas um pouco acima da altura dos prédios, e aquilo era tudo que seu perseguidor necessitava. Com um boost de velocidade, ele correu até a borda de um prédio e saltou, metros de distância sendo alcançados com facilidade inumana.
“MAS QUE MERD-” O demônio mal teve tempo de reagir, com seu perseguidor o atingindo, fazendo ambos caírem do pobre animal para um beco abaixo.
O alívio do peso extra foi o suficiente para dar um pouco mais de energia para o animal, que conseguiu manter seu voo por alguns minutos adicionais, antes de voltar a descer, tendo uma aterrissagem brusca e difícil na grama de uma pequena fazenda nos arredores da cidade.
O pobre animal cambaleou, se levantando com dificuldade, antes de andar um pouco mais, até cair encostado em uma árvore próxima da casa da fazenda. Uma única luz se acendeu, uma pequena silhueta olhando pela janela. Poucos minutos depois, essa mesma figura se esgueirou para fora da casa, um casaco sobre seu pijama e uma lanterna em mãos, com ela se aproximando do barulho com cautela e curiosidade.
A luz da lanterna cai sobre o animal cansado e ferido. Ele estava claramente assustado, até tentou se mover, mas não conseguia. A criança se aproximou lentamente, olhos arregalados de surpresa, antes de tocar o animal gentilmente.
“Você tá bem? Você tá machucado? Calma, eu vou cuidar de você, tá bom?” A voz da garota chegou nos ouvidos do animal, um pouco nervosa, mas gentil e determinada.
Ele se acalmou por um momento, a voz gentil um alívio. Porém, pouco tempo depois o cansaço finalmente o tomou, o fazendo ficar inconsciente.
PRESENTE
As garotas acordaram cedo, ou quase todas. Novamente, as quatro amigas estavam dividindo um quarto juntas, dessa vez separadas em duas camas de casal, mais que o suficiente para elas. Não era necessariamente luxuoso, mas o hotel ainda era bom e confortável, surpreendente para algo pago pelo próprio Torneio das Flores. Eles realmente não pareciam economizar em dar algo bom e confortável para os participantes.
Elloise foi a primeira a acordar, oito da manhã, as outras amigas ainda dormindo. Amanda estava na mesma cama que ela, dormindo calmamente, Joker também presente, dormindo nos braços de Amanda. Enquanto isso, Arya e Seira dividiam a outra cama. Arya apesar de tudo dormia quase que de forma decente, mesmo que o movimento durante a noite tinha feito uma perna e braço dela balançarem para fora da cama. Seira era diferente, algo que elas já haviam visto quando dividiram um quarto na cerimônia de abertura. A garota estava completamente esparramada na cama, braços e pernas abertos para todo lado, formando uma estrela, roncando baixinho, babando um pouco e cabelo desgrenhado, com o melhor sendo uma mão dela segurando a mão de Arya.
Eli não conseguiu segurar a risada, até assim elas pareciam um casal. Ela lembrou da reação de Arya quando Eli e Amanda decidiram dormir na mesma cama e deixar Seira e Arya juntas – obviamente planejado. Arya tinha ficado tão vermelha só de se sentar ao lado de Seira na cama, que Seira se desesperou, preocupada, e quase ligou para Emergência, tendo que ser impedida pelas outras duas.
Amanda acordou alguns minutos depois, bocejando e se levantando, deixando Joker dormindo na cama. Eli já havia tomado banho e se trocado, Amanda indo fazer o mesmo logo depois.
“Arya, acorda. Ei, acorda caramba... OH GADA, ACORDA!” Eli grita, sacudindo a garota.
“Mais um minutinho... Ahn? Oi? Bom dia...” Arya se senta, bocejando. “Que sacanagem, tava tendo um sonho tão legal.”
“Deixa eu adivinhar, você e a Seira dormindo abraçadinhas?” Eli sugere, sorrindo maliciosamente.
“Como se isso fosse acont-” Arya se vira, percebendo que Seira estava segurando sua mão enquanto dormia ainda, antes de ficar completamente vermelha de novo. Elloise ri.
Foi aquele momento que o celular de Seira despertou, o alarme tocando perfeitamente as 8:30, o som dele um grito alto de alguma música de Heavy Metal que ela gostava, a música logo em seguida tocando no volume máximo. Seira abriu os olhos, piscando algumas vezes antes de sentar-se calmamente, alongando os braços e parando o alarme com um sorriso calmo no rosto.
Enquanto isso, as outras três olhavam para ela, olhos arregalados. Eli havia dado um salto para trás com o susto, caindo na própria cama, óculos caídos de lado no rosto. Arya havia caído da cama com o susto, se levantando logo depois, massageando as próprias costas, grunhindo de dor. Amanda saiu correndo do banheiro, assustada, já havia trocado de roupa, mas os cabelos ainda estavam meio molhados, secador na mão.
“Mas o que foi isso?” Ela pergunta, confusa.
Seira olha para elas, inclinando a cabeça para o lado como um cachorrinho, confusa por si só.
“O que houve? Tá tudo bem?” Ela questiona, mesmo que ninguém pudesse realmente entend-
“Sim, tá tudo bem. Só... Por que seu alarme é tão alto, em? Caramba. Acordar com Heavy Metal definitivamente não era o que eu esperava.” Arya responde, ajeitando a própria roupa.
“Desculpa. Eu costumo ter sono pesado, é uma das poucas coisas que me acordam no horário.” Seira continua, sorrindo um pouco envergonhada.
“Faz sentido, eu acho.” Arya dá de ombros.
Elloise e Amanda enquanto isso se entreolham, antes de encararem Arya.
“Quê?” Ela as encara de volta.
“Você... Tá entendendo a Seira?” Eli questiona.
Só então Arya se toca, olhando para elas, então para Seira, antes de franzir o cenho, confusa.
“Eu... Sim? Acho? Só... Sei lá, só meio que veio na cabeça.” Ela explica, esfregando o rosto. “Acho que realmente to ficando estranha faz um tempo. Talvez seja coisa da minha cabeça, né? Ou... Tudo sobre usar Heavy Metal no alarme por ter sono profundo é verdade?”
Seira concorda com a cabeça, também surpresa ao finalmente se tocar. Realmente, Arya havia compreendido seus pensamentos de alguma forma.
“Tenta isso! Três tigres tristes... Como era mesmo? Três trigues, não trigres, tigres tristes... Por que é tão difícil? TRÊS TIGRES TRISTES!”
Arya não consegue segurar a risada por um momento.
“Três trigues tistres. Calma, três tigres tri-tis-tistres.” Arya começa rir ainda mais.
“Três tigres tristres. Não, três trigres. AAAAH!” Amanda tenta, também falhando antes de respirar profundamente. “Três. Tigres. Tristes.”
Eli tenta segurar o sorriso, antes de sacudir a cabeça.
“É pra ser rápido, não devagar assim, né?” Eli lembra. “Três tri- Oh, droga. Três tigres tristes para três pratos de trigo. TRÊS TIGRES TRISTES PARA TRÊS PRATOS DE TRIGO! Foi.” Ela ri também.
“Odeio trava-línguas.” Arya reclama, antes de perceber Seira choramingando. “Ué, o que foi, Seira?”
“Eu imaginei três tigres tristes. Por que eles tão tristes? A gente pode adotar um?” Seira pergunta, fungando.
Arya ri de novo, antes de se sentar ao lado dela e abraçá-la.
“Tá tudo bem, eles tão tristes mais não. Tão bem felizes agora.” Ela diz, sorrindo.
“Jura?”
“Sim, juro.”
“Essas duas são fofinhas juntas até.” Amanda sussurra para Eli, que concorda com a cabeça.
“Okay, vocês duas. Vão tomar banho e se trocar de uma vez. A gente vai sair daqui a pouco.” Eli as lembra.
As duas concordam, indo se arrumar também para saírem em breve.
“Será... Que dá... Pra sair... De cima... De mim?” A vozinha de Joker pede, abafada. Só então Elloise percebe que ela havia caído logo em cima de Joker, o pobre coelho só tinha as orelhas aparecendo de baixo dela.
“Opa, desculpa. Você tá bem?” A garota pergunta, se levantando.
“Um... Coelho Triste. E Dolorido. E com Fome.” Ele grunhe, as quatro garotas se segurando para não rir.
Algumas horas depois, o grupo estava andando pela cidade de Blackthorn.
Algo do Torneio das Flores era que as coisas mais importantes eram não só o senso de união e a promoção de esportes, mas também uma forma de expandir os horizontes dos participantes. Por isso, era permitido que os alunos participantes pudessem aproveitar ao menos um dia em cada cidade que visitavam durante a competição.
Normalmente, as competições aconteciam em uma sexta ou sábado, dando ao menos sábado ou domingo como um dia de folga para os alunos descansarem e explorarem. Era uma forma de deixá-los ver mais do país, suas cidades e sua cultura, algo que fortalecia o senso de união e os deixava ver a beleza do país o máximo possível.
Obviamente não era algo completamente despreparado. New Kingdom era um país extremamente seguro, mas ainda assim, precauções existiam. As garotas usavam uma variação do mesmo bracelete que usaram na Cerimônia de Abertura. Era um bracelete prateado, chamativo, nele uma tela, que os alunos podiam utilizar para múltiplas coisas. As informações de estudante e cidadão de New Kingdom estavam nele, cada um com seu próprio, eles tinham um localizador poderoso que funcionava de forma independente da internet, podia realizar chamadas, e enviar um sinal por ajuda de prioridade alta. Era uma tecnologia bem avançada, que poucos realmente conseguiam manipular de qualquer forma, produto único da Whirl Corp., e da mente brilhante que comandava os avanços tecnológicos constantes da empresa.
A outra coisa necessária era apenas o uso do uniforme da escola, mesmo que não completamente, apenas alguma das partes que mostrasse o brasão da escola, de forma que fossem facilmente identificadas se necessário. Arya usava uma camiseta e short-saia rodado, e havia simplesmente amarrado a jaqueta da escola na cintura, o brasão do colégio grande e visível nas costas da roupa. Eli estava usando o blazer do uniforme por cima de uma camiseta de jogo e shorts, mochila nas costas com Joker dentro. Amanda apenas uma camiseta da escola com o brasão no lado esquerdo do peito e saia, os olhos azuis pelas lentes de contato que ela gostava tanto de usar. Enquanto Seira também vestia apenas o blazer por cima de seu vestido rodado com estampa de corações.
As quatro garotas andavam pela cidade, explorando o lugar. Blackthorn era uma das cidades mais antigas de New Kingdom, estando na Província Rosa. A província por si só era famosa principalmente pelo plantio, especialmente de árvores frutíferas e coisas similares. Enquanto isso, por Blackthorn ser uma das cidades mais cercadas de pomares diversos, era um local extremamente famoso por múltiplos festivais pelo ano todo em celebração desse cultivo vasto.
A própria arquitetura da cidade o demonstrava. Era mais clássica, feita de tijolos, com os edifícios em si sendo em sua maioria bem coloridos e chamativos. Era comum ter detalhes esculpidos em cercas, grades, até mesmo em janelas, normalmente relacionados a plantas, frutas e flores. A própria arquitetura da cidade realmente era uma peça de arte por si só.
E mesmo a modernização do local era não invasiva, com prédios mais modernos não sendo parte dessa área em si, mas sim tendo sido construídos em áreas expandidas da cidade. Mesmo os poucos edifícios mais modernos que estavam nessa área, como hospitais, por exemplo, tinham levado em conta a arquitetura do local e a seguido o melhor possível para se misturar quase que perfeitamente. Sem contar o quão verde partes da cidade eram. Uma visão de beleza antiga e modernização que se respeitavam.
As garotas caminharam por alguns minutos, até entrarem em uma rua de tijolos brancos, se deparando com uma larga praça, o qual cercava um enorme edifício, uma espécie de catedral que seguia o mesmo estilo de arquitetura. Elas não hesitaram em entrar no local.
A catedral por si só era vasta, circular, com alguns pilares ao redor de seu centro, onde vinhas cresciam, com flores crescendo ao longo delas. O próprio centro da catedral possuía uma grande árvore, seu tronco formado por múltiplas raízes grossas que se interligavam, cada raiz se dividindo no topo em um galho, cada galho tendo um tipo de fruta completamente diferente crescendo de si. Algo único, sobrenatural até. Um raio de luz generoso caia sobre essa árvore de uma grande abertura no topo da catedral, iluminando seus galhos de forma quase que divina.
Pessoas vestidas com trajes cerimoniais colhiam os frutos dos galhos da árvore, os colocando em cestas e pondo sobre as mesas espalhadas pela catedral. Uma mulher olhou o grupo, antes de se aproximar.
“Novas aqui, né? Dá pra ver.” Ela ri levemente. A mulher devia estar nos vinte e poucos anos, não muito alta, cabelos e olhos negros, alguns piercings e ambos os braços completamente cobertos de tatuagens. Ela estava vestida no traje cerimonial, um vestido largo que quase se parecia com um kimono, branco e roxo, com laços verdes e estampa de flores de goivo roxas.
“É tão óbvio assim é?” Arya pergunta, rindo, antes de olhar admirada ao redor.
“É, toda pessoa que vê esse lugar pela primeira vez fica assim... E vocês tão com o brasão de Dahlia, isso também deixa óbvio. Eu vi o jogo de vocês pra falar a verdade, divertido.” A mulher dá de ombros.
“Faz sentido.” Eli concorda, antes de olhar ao redor. “Esse lugar é lindo.”
A catedral possuía múltiplas pinturas em suas paredes, todas sendo cenas antigas relacionadas com a natureza. Uma mulher com uma flor sobre um olho e vestida com roupas parecidas com esses trajes cerimoniais presente em quase todas. Árvores crescendo, campos inférteis sendo cobertos por flores, e pessoas claramente desnutridas sendo alimentadas por ela.
“Sim. É a deusa da vida, Perséfone. A própria mãe-natureza, que dá vida a tudo e protege a todos. Essa catedral é em homenagem a ela. Muito tempo atrás, quando a fome atingiu essas terras, ela foi a responsável por trazer a vida novamente a nós, e deixou essa árvore como presente.” A mulher diz, guiando o quarteto até a árvore, parando um pouco antes do limite ao redor dela. Uma cerca esculpida com folhas cercava a área de grama onde a árvore estava, mas só os que trabalhavam naqueles trajes colhendo os frutos podiam entrar. “A chamamos de Eva.” Ela pega uma cesta de frutas, oferecendo as garotas.
“Quanto que é?” Eli pergunta.
A mulher ri.
“Nada. Os frutos de Eva são pra todos, é gratuito. Claro, se quiser dar uma ajudinha pra economia local, lá fora tem bastante coisa pra fazer e dinheiro pra gastar. Só que aqui dentro, isso tudo é pra todos.” Ela explica, oferecendo a cesta.
As garotas dão de ombros, pegando a fruta que preferissem e dando uma mordida.
“Caramba... É melhor que qualquer outra que eu já comi.” Arya comenta, comendo um pêssego.
“Realmente. É tão diferente, todas essas frutas vindas de uma única árvore. E tão gostoso também.” Seira concorda, comendo uma cesta de cerejas inteira sozinha.
“Perséfone e Eva...” Eli murmura, olhando para as artes ao redor.
Joker decide por sua cabeça para fora da mochila nesse momento, olhando ao redor e então para a árvore.
“Eva. A Árvore da Vida. Essa é só uma versão pequena dela, mais simples que a verdadeira, tipo um filhote.” Ele explica.
“Verdadeira? Tem mais?” Eli pergunta, olhando para ele por cima do ombro.
“Sim, uma. Duas se quiser, mas tecnicamente é uma. É uma árvore criada pela deusa Perséfone faz tempo. Ela é gigantesca, um lado fica no meio da Floresta Amazônica, e o outro fica no Submundo. As raízes da árvore conectam as duas, por isso tecnicamente é uma árvore só. É uma das passagens daqui pro Submundo.” Ele responde, seus grandes olhos se movendo pelas pinturas ao redor. “Já havia ouvido falar das coisas que ela fez, mas isso é incrível. Os humanos realmente gostam de criar arte sobre o que admiram, né?”
Eli sorri, concordando com a cabeça.
“Sim... Bastante.”
Amanda por si só estava quase em transe, seus olhos focados na árvore, passos lentos a levando a se aproximar.
“Opa, foi mal aí, mas você não pode passar da cerca.” A mulher lembra, colocando um braço na frente de Amanda.
“Ah, é, sim. Desculpa...” Amanda cora um pouco de vergonha, dando um passo para trás.
“Tá tudo bem?” Arya pergunta.
“Acho que sim, só... Sei lá. É quase como se ela tivesse me chamando.” Amanda explica, um pouco confusa.
“Faz sentido. As cartas do naipe de Paus foram criadas usando as folhas de Eva. O mesmo poder que dá vida a árvore é o mesmo que você carrega. Ser atraído por esse poder é normal.” Joker revela.
“Entendo... É bonito. Como... Como se ela estivesse cantarolando. Consigo sentir no meu corpo todo. Ela parece feliz.” Amanda sorri, pegando uma maçã e dando uma mordida. “Acho que ela gosta daqui.”
“Bom, a cidade inteira claramente respeita tudo que eles receberam. E esse lugar é uma prova disso.” Eli concorda, comendo uma maçã também. “Vem, a gente devia ver o festival. Ouvi dizer que eles fazem um monte de comida boa.”
“Espero que tenha torta de morango. E maçã do amor. E jogos, ainda quero uma pelúcia nova pro meu quarto.” Seira segue a frente das outras, animada.
“Ei, espera a gente!” Arya grita, correndo atrás dela.
“Já vi que vou virar babá de novo.” Eli suspira, antes de as seguir.
Amanda olha uma última vez para a árvore, sorrindo, antes de seguir as amigas.
HORAS DEPOIS
O grupo tinha aproveitado o máximo que podiam do festival, desde saborear todo o tipo de pratos únicos, até participar dos diferentes jogos que eram oferecidos.
“Seira! Seira!” Arya chama, correndo até a garota, que estava escolhendo uma maçã do amor. “Aqui, eu... Eu consegui isso aqui. Pra você.” Ela diz, oferecendo uma pelúcia. Era um gato de pelúcia vermelho, com óculos escuros em formato de coração e segurando um coração, com várias flores de cerejeira entre o coração e suas patas.
Os olhos de Seira se iluminaram como uma criança no Natal. A garota pegou a pelúcia, a abraçando com força, um sorriso largo nos lábios. Então Seira abraçou Arya forte, beijando sua bochecha.
Seira se virou para o vendedor, comprando duas maçãs do amor e dando uma para Arya.
“Obrigada. Você é a melhor! Vou cuidar bem dele, pra sempre, prometo!” Seira garante, comendo sua maçã enquanto abraçava a pelúcia com força com o outro braço.
Arya corou forte, sorrindo igual boba, dando uma mordida exagerada na maçã do amor e quase se engasgando.
“Que bom que gostou.” Arya sorri, tossindo um pouco antes de recuperar o fôlego, logo depois seguindo Seira para encontrar as outras duas. “Valeu a pena ficar tanto tempo naquele jogo desgraçado pra conseguir isso pra ela.”
A dupla caminhou pelo festival, múltiplas tendas, jogos e vendas com comida por todo lado. Pessoas se divertindo, aproveitando a variedade. Um casal mais a frente estava compartilhando um algodão doce, conversando e rindo, um pouco distraído, até que a mulher acaba esbarrando em um cara alto e carrancudo.
“Ah! Desculpa.” Ela diz, surpresa.
“Tá, tá, só sai do caminho.” O homem alto responde, continuando a andar.
“Ei, ela pediu desculpas, não precisa ser babaca, cara!” O namorado dela fala, irritado.
O homem alto para, olhando para ele, expressão irritada.
“Algum problema com isso?” Ele pergunta.
“Não, nenhum!” A mulher diz, antes de se virar para o namorado. “Deixa isso pra lá, não vale a pena.” Ela sussurra, o puxando para longe antes que a situação piorasse.
Arya franze o cenho, rolando os olhos, mas preferindo não se envolver.
‘Cara babaca.’ Ela pensa, dando outra mordida na maçã do amor e seguindo em frente com Seira.
Poucos metros à frente, seus caminhos se cruzaram. Arya tomou cuidado para manter distância, passando pelo homem com um metro entre eles. Foi quando ela sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo. Novamente, igual havia acontecido durante a cerimônia de abertura. Como foi ao ver Reynard, agora ela havia tido a mesma sensação com esse homem.
Arya parou poucos passos após passar por ele, e ela sentiu que o homem fez o mesmo. Só agora ela realmente parou para reparar nos detalhes. O homem era realmente alto, mais de dois metros de altura e de corpo musculoso. A pele tinha um bronzeado leve, os cabelos escuros e emaranhados caindo abaixo dos ombros, olhos verde neon e barba cheia. A roupa era praticamente a de um motoqueiro, com botas, camisa preta, calça e jaqueta de couro que claramente estavam apertadas em seus braços.
‘A aura dele é familiar. Não algo conhecido, só... Familiar.’ Arya respira profundamente, tentando se manter calma, punho cerrado, sua outra mão pronta para invocar sua carta. Seira ainda estava andando, muito focada em sua maçã do amor e pelúcia. ‘Bom, é melhor assim. O problema é que tem gente perto...’ Ela olha por cima do ombro, seus olhos se encontrando diretamente com os do homem, que fazia o mesmo, cenho franzido.
“Ei, pirralha. Já te vi em algum lugar? Porque você me é familiar...” O homem questiona, sério.
“Duvido muito. Ia lembrar de ter visto um poste como você antes.” Ela responde, seca.
O homem ri.
“Audácia. Muita audácia. Ou você é bem estúpida, ou... Você é diferente do resto.” Seu punho se cerra, escamas dracônicas se formando, garras aparecendo, mão quase como a de um dragão. “Qual dos dois é você?”
Arya estava pronta para se transformar. Seira finalmente havia percebido que Arya tinha ficado para trás e olhou para os dois, preocupada. Metros à frente, Eli e Amanda também tinham parado sua conversa, sacolas em mão, mas atentas ao que fosse acontecer.
Foi então que algo chamou a atenção de todos.
“Para Pêssego! Não... Come... Sem... Pagar...” Era uma voz nova, de uma criança. Todos viraram sua atenção para o que estava acontecendo. “Saaaaaaaaai!”
Para as pessoas ao redor, tudo que elas reparavam era um cachorro husky, que havia pulado sobre a mesa de uma tenda e estava devorando as tortas de maçã expostas com vontade. Uma garotinha de uns dez anos segurava sua coleira, o puxando com tudo que tinha, mas ele mal se movia, pelo menos até ter acabado com todas, finalmente voltando, lambendo os restos no focinho, claramente feliz.
“Pêssego, você prometeu que ia se comportar! O que eu vou dizer pro papai agora?” A criança esconde o rosto entre as mãos, frustrada. “Eu não tenho dinheiro pra pagar por tudo isso.”
O cachorro inclina a cabeça para o lado, confuso, antes de lamber o rosto dela e a cutucar com o focinho, tentando acalmá-la.
“E-ei, para! Você não... Vai me comprar... Com isso!” Ela diz, mesmo assim ela ria, antes de abraçar o cachorro. “Cachorro mal. Vai ficar de castigo. Sem torta da mamãe por uma semana.”
Pêssego, o cachorro dela, choramingou, orelhas abaixadas e cauda parada.
“Sem choramingar, é só o justo. Você comeu um monte já!” Ela lembra, tentando se manter firme.
A garota tinha cabelos laranjas curtos, olhos azuis, sardas, pele levemente bronzeada por passar bastante tempo no sol. Usava uma regata laranja com shorts verde-escuro e sandálias.
“Mas que droga, Melanie! De novo, é sério? Já pedi pra você controlar seu cachorro.” O dono da tenda reclama, limpando a bagunça que Pêssego havia feito.
“Aquilo... Não é um cachorro.” Arya murmura para si mesma. Apesar de conseguir identificar auras, algo estava interferindo naquele momento, e mesmo assim, ela podia ver a aura negra que cercava os dois.
Para Elloise, entretanto, era outra história. Diferente dos outros, ela conseguia ver o que realmente estava acontecendo, por causa do Três de Ouros que havia obtido no dia anterior. Pêssego não era um cachorro, nem perto disso. Primeiramente, ele era bem maior do que a forma de Husky que outros viam, na verdade tendo no mínimo o tamanho de um felino de grande porte. Segundamente, sua aparência, ela era bem mais similar a de um lobo, porém seus pelos eram únicos, parecia quase como o céu estrelado, pelos de cor preta, azul escuro e roxo escuro, que brilhavam levemente como se feitos de areia. Terceiramente, suas asas, elas eram enormes, mas estavam dobradas contra seu corpo, as penas eram de cores mais claras, acinzentadas como uma nuvem de tempestade. E por último, sua cauda, não era simplesmente uma cauda comum, mas sim uma serpente, longa de escamas com a mesma textura similar a areia, porém tendo uma cor branca.
“Que coisa é essa?” Eli pergunta, surpresa.
Joker pôe sua cabeça para fora da mochila da garota, boca toda manchada de geleia após comer uma torta. Seus olhos se arregalam com ainda mais surpresa.
“Um marchosias?!” Ele exclama.
A serpente percebeu primeiro, olhos focados em Eli e Joker, antes de se virar e sibilar para o lobo, que levantou sua cabeça e olhou para os dois também. Melanie, a garotinha, completamente surpresa, olha para Pêssego, então para Eli, antes de seu olhar finalmente cair sobre o homem de antes, olhos arregalados de medo.
“P-Pêssego!” Melanie sacode o marchosias, que olha na direção que ela aponta, antes de se levantar rapidamente. A serpente se move rapidamente, agarrando Melanie e a colocando nas costas do lobo, antes dele se mover em disparada para a direção oposta, desviando de pessoas no caminho.
“EI! EU VOU FALAR COM SEUS PAIS SOBRE ESSA BAGUNÇA, MELANIE!” O vendedor grita, irritado.
O homem alto ao ver Melanie e Pêssego imediatamente se vira para persegui-los, só para ser bloqueado.
“Você não vai não!” Arya havia usado aquela chance para se transformar em garota mágica, adaga em mãos, já transformada em sua espada de sombras que desceu sobre o homem. Ele levantou sua mão, a lâmina de trevas parada pelas escamas duras que cobriam sua pele.
“Portadora de Carta, era óbvio. Você não tem noção do que tá fazendo, pirralha.” O homem rosna.
“Sei sim, babacão. Eu tô ajudando uma criança e o cachorro dela.” Arya responde, sorrindo.
Arya usa Investida Obscura para se mover para trás do homem, tentando acertar sua perna, porém sua cauda de demônio havia reaparecido, se desenrolando rapidamente antes de se enrolar ao redor dela e a jogar para longe, a garota aterrissando sobre várias pelúcias prémios de um jogo de derrubar copos.
“Não... Não é assim que joga. Eu sei, tentei pra caramba pra ganhar.” Ela grunhe, se levantando. “Como ele faz isso?”
“É UM DEMÔNIO, CUIDADO! É UM ABBADON, ELES SÃO MUITO FORTES PRA COMBATE DIRETO!” Joker grita, preocupado.
“Segura aqui.” Eli dá suas sacolas e mochila com Joker para Amanda segurar, antes de puxar sua carta. O portal de luz aparece a sua frente, com a garota o atravessando transformada, seis espelhos flutuavam ao seu redor, uma adição de três após adquirir o Três de Ouros.
“Mais de uma, é sério? Beleza então, se eu pegar vocês também, só vou sair ganhando.” O homem diz, avançando contra a garota.
“Vai precisar me pegar primeiro, Pernalonga.” Elloise provoca, pulando para trás para desviar de um soco, então se abaixando para desviar da cauda atacando como um chicote. ‘Luz do Vidente. Como Finn conseguia usar em uma área tão grande? Talvez treinos, mal consigo usar alguns poucos metros, mas é melhor que nada. Pelo menos consigo desviar mais facilmente.’
As mãos de Eli se levantaram, guiando os espelhos. Desviou de um soco antes de devolver com um raio de luz que foi defendido pelas escamas. Então saltou, usando dois espelhos de plataforma para flutuar um pouco acima do chão e se mover como se skiando no gelo, ainda bem que ela fazia isso todo inverno.
O demônio claramente estava ficando irritado com a dificuldade de capturar Eli, que apesar de não conseguir fazer muito contra as escamas espessas que se formavam acima da pele dele, definitivamente era algo difícil de só se ignorar. Foi então que ele se virou para Amanda e Joker, correndo até eles, sua cauda se movendo como chicote até eles, porém no último segundo Seira pula na frente. Seu escudo defende o golpe, a arrastando alguns centímetros para trás, a pelúcia de gatinho ainda no outro braço.
“Segura aqui.” Ela coloca a pelúcia nos braços de Amanda – que já estava carregando coisas demais, coitada – antes de avançar, defendo socos com dificuldade, mas o fazendo se afastar dos outros dois.
Arya finalmente volta para a batalha, Eli usando um dos espelhos de plataforma para que ela pulasse sobre, dando altura extra necessária. A espada de Arya desceu com tudo, cortando um dos chifres do demônio, o pedaço decepado saindo voando, com sangue escorrendo do local.
Os olhos de Joker se arregalam.
“Okay, isso foi uma péssima ideia. Abbadon tem orgulho pra caramba dos chifres, isso só vai deixar ele ainda mais bravo.” Ele explica.
Arya e Eli o encaram, incrédulas.
“SÓ AGORA QUE VOCÊ DIZ ISSO?!” Elas gritam em uníssono.
O demônio ao ver um de seus chifres ser cortado dessa forma fica ainda mais furioso, gritando de raiva, antes de segurar a própria cauda e a usar como um chicote, atingindo Eli e Arya que saem voando. Seira consegue se defender e proteger Amanda e Joker, sendo arrastada pelo impacto até quase bater neles.
“O Quatro! Usa o Quatro nele!” Joker ordena a Seira, que acena com a cabeça.
A garota invoca a carta de Quatro de Copas, Mudança de Coração.
“Okay, como quê...? Certo, uh... Se acalma! Você tá bem feliz! E é nosso amigo! É, a gente faz coisas juntos tipo pescar e... Tricotar!” Ela pensa, tentando usar a carta.
“Por Lúcifer, por que a única muda tem essa carta? Você precisa falar em voz alta! Me dá aqui.” Joker dá um facepalm, antes de pegar a carta de Seira. “Você... ODEIA BICHOS DE PELÚCIA!” Ele grita, até perceber o demônio o olhando com mais ódio ainda, se olhando ele lembra, ele também é uma pelúcia. “PELÚCIAS NÃO SENTIENTES, ESPECIFICAMENTE URSINHOS DE PELÚCIA! ODEIA ELES MUITO!”
O demônio sacode a cabeça, confuso por alguns segundos ao ser atingido pelo efeito da carta, antes de se virar para um dos jogos onde havia vários bichos de pelúcia e começar a destruir eles com absoluto ódio.
“Esquece ele, a gente tem que fugir! Agora!” Joke ordena, gesticulando desesperadamente para as garotas.
“Ótima ideia... Eu acho que tô ficando velha pra isso.” Arya grunhe, cambaleando.
“A gente tem 14 anos e mal começou isso de garota mágica, não exagera.” Eli responde, até ouvir um estalo no próprio corpo em algum lugar. “Certo, talvez um pouco.”
As duas correm até o resto do grupo, saindo da transformação, ajudando Amanda pegando algumas das sacolas antes de correrem na direção onde Melanie e Pêssego haviam ido, tentando alcançá-la o mais rápido possível.
Elas puderam ver Pêssego correndo para fora da área do festival, abrindo suas longas asas e alçando voo, Melanie firme em suas costas, conforme eles voavam para o horizonte.
O grupo parou por um momento.
“Que droga, eu não consigo ver direito, por quê?” Arya reclama.
“Escuridão da Irrelevância. Sete de Espadas. É uma carta com a habilidade de criar véus de irrelevância. Basicamente o poder de esconder certas coisas ou fazer pessoas a ignorarem completamente. O marchosias tá sendo escondido dessa forma, qualquer pessoa normal não consegue nem sentir o véu, enquanto portadores de carta tem mais facilidade, só que aquela é bem forte, completamente focada só nele. A Eli conseguiu ver por causa do Três de Ouros dela.” Joker explica.
“Então foi assim... Faz sentido.”
“O que é um marco- marco- o lobinho?” Seira questiona, confusa.
“A Seira tem razão, o que raios é um marco- o lobinho!” Arya concorda.
“Um animal demoníaco. É parte do Submundo, não devia ter um aqui na superfície. Marchosias, lobos grandes com asas. Costumavam ser bastante usados como montaria antes de motos voadoras ficarem populares no Submundo.” Ele responde, como se fosse algo normal.
“Calma ai! Demônios usavam lobos enormes com asas e caudas de serpente como montaria?” Elloise pergunta, confusa e incrédula.
“É, até motos voadoras ficarem pop-”
“Eu já ia chegar nisso! Okay... O Submundo é mais estranho ainda do que você já tinha dito. Eu vou fazer tantas perguntas quando a gente voltar pra casa.” Ela corta, suspirando antes de focar novamente na dupla – ou trio? — fugitivo, agora só um ponto pequeno no horizonte. “A gente tem que ir atrás deles. Descobrir o que tá acontecendo, pegar a carta e impedir que...” Eli olha por cima do ombro, vendo o demônio Abbadon fazendo um pobre ursinho em pedaços, um fraco ‘eu te amo’ saindo do bichinho antes dele ser esmagado. “Ele chegue neles. Seja lá o motivo, ele definitivamente não é alguém legal.”
“Verdade, e ele é meio estranho também. Não gosto dele.” Arya concorda, junto de Seira que faz o mesmo com acenos de cabeça.
“Certo... Amanda, é melhor você voltar pro hotel. Explica o que aconteceu pro Steven, e... Se a gente não voltar antes de anoitecer, você chama por ajuda.” Eli diz, se virando para a garota e entregando as sacolas para ela.
“O-O quê? Mas eu quero ajudar também.” Amanda pede, preocupada.
“Ei, eu sei, mas... É perigoso. A gente tem transformação, mas você só tá com uma carta de número, se ele te pegar você pode se machucar muito.” Arya concorda com a amiga, colocando uma mão no ombro de Amanda. “É sério, a gente vai ficar bem, e é melhor se você não ficar por perto agora.”
Amanda abaixa a cabeça, um pouco triste, mas concorda.
As três abraçam ela, antes de correrem na mesma direção que a dupla havia fugido, deixando Amanda para trás.
“Tomem cuidado...” A garota sussurra, antes de suspirar e voltar para o hotel sozinha.
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