O Baralho do Mágico Demônio
14 Mel, Pêssego e... Bob?
ARREDORES DE BLACKTHORN
HORAS DEPOIS
O grupo acabou pedindo um táxi para ir até a borda cidade, antes de percorrer o resto do caminho a pé, fazendo o possível para manter o foco na trilha deixada pela dupla anterior. Arya conseguindo ver uma fraca trilha de aura sombria no céu, as guiando para os arredores da cidade.
Finalmente elas se viram em frente a uma fazenda, preenchida por um largo pomar, a entrada a sua frente com uma larga placa escrito ‘Fazenda Greenwood’.
Arya e Eli se entreolharam, enquanto Seira olhava admirada para todas as árvores que preenchiam o local, com diferentes frutos em diferentes estados de crescimento em seus galhos. A entrada dava para um largo caminho de terra, que levava até uma casa de fazenda de dois andares centenas de metros à frente. Caminho um pouco grande, mas já estavam aqui. Elas começaram a segui-lo.
De repente, Joker põe sua cabeça para fora da mochila de Eli, ofegante, boca ainda coberta de geleia.
“A gente... Precisa... De uma forma melhor... De me carregar...” Ele reclama.
“Você é um coelho de pelúcia, sequer precisa respirar?” Eli pergunta.
“Não, mas ainda assim. É desconfortável ficar assim o tempo todo! E apertado.” Ele rebate, rolando os olhos, braços cruzados.
“Você literalmente vive entrando na sua cartola.” Arya lembra.
“É, mas minha cartola é confortável, tem uma casinha dentro.” Ele explica, como se fosse algo óbvio.
“Então só ficar nela, coelho pateta.” Arya sugere.
“É, mas é difícil de ouvir se eu tô na cartola e na mochila! No mínimo usa minha cartola ou algo assim.”
“Nem ferrando. Não combina comigo.” Eli recusa.
“Seu uniforme de garota mágica literalmente tem uma cartola!” Ele grita, balançando os bracinhos, irritado.
“É, mas ela combina com meu uniforme de garota mágica, não comigo normalmente.” A garota dá de ombros, indiferente, ajeitando seus óculos.
“Vocês só não têm estilo, isso sim! Idiotas.” Joker cruza os braços novamente, emburrado.
“Tá bom, eu vou te carregar por aí. Só não faz bagunça demais.” Eli desiste, pegando Joker nos braços.
“Má vontade pra fazer um favor, em? Quem não iria querer ter um coelho fofo como eu de companhia o tempo todo?”
“Eu posso carregar!” Seira oferece, pegando Joker de Eli, o abraçando com força contra si, um sorriso no rosto. “Fofinho.”
“Pelo menos alguém... Me aprecia...” Joker diz, orgulhoso, ou estaria, se não estivesse sufocando com o abraço de Seira. “Tá... Forte né... Ser goleira deu uma fortalecida nos músculos... Haha... Socorro.”
“Também, segurando vários chutes da Arya e do Steven quase todo dia. Até o fim do ano ou vai perder os braços ou vai ficar musculosa igual aquele demônio.” Eli comenta, dando de ombros.
“Perder os braços? Eles vão cair se eu continuar sendo goleira? Como eu vou cozinhar depois? E abrir meu pingente? E segurar a mão da Arya? E abraçar minhas pelúcias? Eu não quero perder meus braços! E musculosa igual ele? Aquilo não combina comigo, eu não quero. Socorro, por favor, não basta a dor nos meus bracinhos, eu não quero ficar de nenhum dos dois jeitos.” Seira começou a tremer e choramingar novamente, criando um cenário pior que o outro, enquanto apertava Joker ainda mais sem perceber.
“Ela... Disse segurar minha mão?” Arya murmura, corando de vergonha, um sorriso bobo começando a se formar.
“Arya, dá pra fazer sua namorada parar de enforcar nosso coelho?” Eli pede, cruzando os braços.
“Q-quê? Ela não- Oh caramba! Seira, Seira! Ei, tá tudo bem, nada vai cair, nenhum músculo, você vai ser fofa e linda pra sempre e, e... Ahn... Quer dizer. Vai ficar tudo bem. Dá pra soltar o Joker um pouco, por favor?” Arya diz, mais vermelha que as maçãs das árvores ao redor.
“Promete? Fofinha pra sempre é legal, quero ser fofa, tipo minhas pelúcias... Pelúcia... AH!” Seira diminui o aperto, deixando Joker respirar. “Ai, desculpa! Você tá bem? Santa Perséfone, você tá sangrando? Desculpa, desculpa.” Ela só confundiu a geleia com sangue.
“Pensei que meu estofamento ia sair pelas orelhas.” Joker diz, recuperando o fôlego.
“É só geleia. Joker só não consegue comer direito mesmo.” Arya corrige, fazendo Seira se acalmar.
“Ei! Não é culpa minha se minhas patinhas não conseguem segurar coisas direito! Eu definitivamente preciso pedir mãos decentes pro meu Mestre.” Ele cruza os braços, emburrado. De novo. “Por isso a Seira é a melhor! Mais fofa, mais legal, me dá comida.”
“Ei, eu te dei comida também!” Arya protesta.
“Você literalmente botou fogo na minha capa enquanto fazia miojo!” Joker grita, sacudindo sua capa, que realmente tinha uma pequena marca de queimado. “Eu sou de pelúcia, fogo não é legal. Por que acha que fui morar com a Eli, em?
“Coelho ingrato, coelho tapado. Seu mestre devia ter botado um botão de mudo também. Tão inteligente e incrível, podia ter jogado uma magia de resistência a fogo ou sei lá.” Arya mostra a língua, irritada também.
“Eu sou imune à fogo! Minha capa não. É delicada.” Ele diz, abraçando a capa dele.
“Desse jeito você e essa capa vão ser o noivinho e a noivinha do casamento da Arya e Seira.” Eli fala, sacudindo a cabeça.
Arya ri por um segundo, antes de se tocar.
“EI!” Joker e Arya gritam em uníssono.
“Pelo menos vai combinar com o casamento de você com o Steven.” Arya rebate.
“Nem fodendo, cruz credo.” Eli nega, fazendo cara de nojo.
“Ha! Falou palavrão.” Arya zomba.
“Você fez o mesmo ontem, não mete uma de santa.” Eli rebate.
As garotas finalmente haviam chegado na casa de fazenda, parando na varanda, antes de Eli bater na porta.
“O Steven tá todo caidinho por você, e você aí fingindo que não percebe.” Arya provoca, mãos na cintura.
“O nome é ignorar mesmo. Ele é idiota demais, não dá não, tentando parecer maneiro toda hora. Chato.” Eli rola os olhos, batendo na porta de novo.
“Tem gente que gosta de cara estranho, sei lá, combina com você.” Arya comenta, dando de ombros.
“Tipo você com seus homi 2d? Tudo cara estranho. Tomara que Seira curta gente estranha, única forma de vocês casarem mesmo.” Eli retruca.
“Ei, não fala dos meus homi! Eles são incríveis! Só porque são um pouco diferentes não quer dizer que são ruins. Você mesma vivia babando naquele cara motoqueiro do seu jogo gacha lá.”
“Pra sua informação, primeiro eu nem jogo aquele jogo mais faz um mês! E segundo, ele era skatista!” Elloise corrige.
“Oh, que diferença. Babava igual. Lembro daquela vez que você tava lendo uma fanfic dele no intervalo, toda animada.” Arya ri, Eli corando envergonhada. “Adora o cabeludinho com pinta de durão, mas com o coração mole.”
“Foi só uma vez! E ela era muito boa, tá? E você aí? Vi que você tava lendo e vendo um monte de mangá e anime de romance yuri recentemente. Quer falar de mim, mas tá babando nessas coisas desde que conheceu a Seira.” Eli rebate, Arya fazendo uma expressão de indignação, boca aberta.
“Como você- Não é verdade! É só... Curiosidade. Gosto de tentar coisas novas as vezes, nada demais.” Arya mente, cruzando os braços, tentando parecer não afetada, mas seu rosto a entregava, estando todo vermelho de vergonha.
“Esqueceu que a gente se segue no app lá? Dá pra ver o que a outra tem visto, sua trouxa.” Eli lembra, rindo e rolando os olhos, antes bater na porta mais uma vez.
“Pelo menos não é fanfic de motoqueiro estranho, babaca!” Arya retruca.
“Já falei que é skatista! E foi uma vez!” Eli rebate.
“Por que eu tive que pedir ajuda pra um bando de adolescentes hormonais? Socorro.” Joker suspira.
“CALA BOCA, COELHO TAPADO!” As duas gritam em uníssono, o encarando.
“Eu tô com fome. Acho que quero comer sushi.” Seira pensa, mais distraída com os próprios pensamentos do que com as duas garotas.
Latido. As três garotas e o coelho olham para a porta, que agora estava aberta. A garotinha, Melanie, as encarando, uma mão ainda segurando a maçaneta. Pêssego atrás dela, ofegando, sua cauda/cobra balançando de um lado para o outro, cabeça inclinada para o lado com curiosidade.
Arya e Eli se entreolharam, se aproximando para sussurrar.
“Quanto tempo você acha que ela...?” Arya pergunta baixinho.
Eli olha para a garota, então de volta para a amiga.
“Mais que o suficiente.” Eli responde, também sussurrando.
Seira olha para Melanie, sorrindo, antes de acenar com a mão.
“Oi!” Ela pensa, o que não importa muito para a garotinha, mas intenção é o que vale. A criança levantou uma sobrancelha, antes de acenar de volta, hesitante e confusa.
“Ahn... Eu... Tenho que ir.” Melanie tenta fechar a porta rapidamente, mas Arya colocou um pé na frente para impedir.
“Calma! A gente só quer conversar, é sério!” Eli chama, abrindo a porta novamente.
Melanie tinha corrido para Pêssego, tentando puxar ele pela coleira para a saída de trás, mas o marchosias não parecia interessado em fugir. Na verdade, ele estava focado em Joker, cabeça inclinada para o lado.
“Veeeeeem! A gente tem que fugir, não é seguro aqui, Pêssego!” Melanie pede, puxando com tudo que tinha, mas não era muito para alguém tão pequena, especialmente em comparação com o tamanho enorme dele. No fim ela acaba caindo de bunda no chão, grunhindo de dor. “Ai! O esconderijo tá comprometido, a gente tem que fugir, seu besta!” Ela reclama, até perceber o olhar do lobo no coelho. “Ei, não faz isso! Não é hora de brincar de pega, Pêssego, parado!”
Bem, ele não ouviu. Pêssego imediatamente corre em direção a Seira, a derrubando, fazendo Joker sair voando.
“QUÊ? EI, EU NÃO SOU BRINQUEDO! Droga... DE NOVO NÃAAAAAAAAAAAOOOOOO!!!!” Joker grita, antes de correr em disparada ao redor da casa e por entre as árvores a mil por hora, com Pêssego o perseguindo sem desistir. “SOCORROOOOOOOOOOOO!!!”
Arya e Eli olharam para a situação, impassivas, antes de darem um suspiro profundo juntas.
“Às vezes só precisa da motivação certa né? Tipo a treinadora falou. Até um coelho tapado consegue virar um atleta de primeira.” Arya lembra, mãos na cintura, olhando Joker correr pelo pomar.
“Verdade. Perninhas curtas e mesmo assim corre mais que atleta olímpico quando precisa.” Eli concorda, a mesma reação e calma.
Melanie olha para a situação, horrorizada, mas ao mesmo tempo confusa com a reação calma das duas.
“Vocês... Tão acostumadas com isso?” Ela pergunta, apontando para o caos ocorrendo ao redor da casa.
“É, acho que sim.” As duas concordam.
“Oh, droga! Ei, Seira, tá tudo bem?” Arya pergunta, finalmente ajudando a amiga a se levantar com ajuda de Eli. Seira, coitada, toda tontinha.
“Alguém anotou a placa? Acho que fui atropelada por um grifo.” Seira pensa, alucinando levemente, as duas garotas a deitando no sofá da sala.
“Que grifo nada, foi um marco- Um lobo com asas.” Arya corrige, colocando uma almofada embaixo da cabeça da garota, tendo certeza de que ela estava confortável.
“Desculpa, o Pêssego é bem legal, mas um pouco animado demais as vezes. É difícil segurar ele, ele tá sempre bagunçando.” Melanie explica, envergonhada.
“Tá tudo bem, acontece. A gente definitivamente lidou com pior.” Eli garante.
“Lidamos nada...” Arya murmura, antes de levar uma cotovelada de Eli. “Ai! Isso dói... É. De boa, dia comum pra gente.”
“Ahn... Querem beber alguma coisa? Eu vou... Pegar limonada, é.” Melanie diz, indo até a cozinha próxima.
As duas se entreolham, antes de dar de ombros e se sentarem no outro sofá, olhando ao redor. Era uma casa de fazenda bem normal, feita de madeira, decoração simples. Em uma estante próxima tinham algumas fotos de família. Em uma foto tinha um homem de cabelos laranjas e sardas com uma mulher morena de olhos azuis ao seu lado, junto deles tinha um garoto adolescente, de cabelos laranjas e olhos azuis, e uma Melanie alguns anos mais nova. Outra foto tinha apenas o homem e a mulher com a Melanie de idade mais próxima da atual, com Pêssego como um husky junto deles, todos vestidos no tema de Natal, o garoto não estava presente.
Da cozinha, elas ouviram sons de arrastar, portas batendo, gavetas abrindo e fechando, talheres, um som de vidro quebrando junto de ‘Ai, droga!’. As duas se olham novamente.
“Você... Precisa de ajuda?” Eli pergunta, preocupada.
“N-não! Tudo certo. Só- Ai, ai... Nada demais.” Melanie diz da cozinha, antes de lentamente ir até a sala carregando uma bandeja com uma jarra de limonada e três copos. “Então... O Pêssego não tem medo de vocês, acho que é porque são legais.” A garota diz, pegando um copo para si mesma com cuidado e tomando um gole. “Eu espero...” Ela sussurra para si mesma, ainda um pouco ansiosa.
“Não- Quer dizer, sim! A gente é as mocinhas aqui. Ajudando e tudo mais, a gente lutou com aquele cara estranho e tudo.” Arya explica, pegando um copo para si e tomando um gole, antes de fazer uma careta, muito azedo. Ela começa a colocar açúcar na própria bebida.
Eli por sua vez decide colocar açúcar antes de tentar, levando a reação da garota como base. Melhor prevenir.
“É, a gente tá tentando impedir que uma galera ruim faça besteira com as cartas, igual a sua. A gente até tem também.” Eli adiciona, mostrando sua própria carta para Melanie. Arya já estava na quinta colher de açúcar, experimentando sua bebida, colocando mais uma, antes de finalmente estar satisfeita. Eli a encarou, Arya encarando de volta, antes de se tocar e mostrar a própria carta também. Elloise suspira, antes de olhar para Melanie novamente.
“Vocês também...?” Melanie hesita por um segundo, antes de puxar a própria carta, um Sete de Espadas, com uma forte aura sombria, a fonte da barreira ao redor de Pêssego. “O Pêssego caiu no quintal faz uns meses, essa carta tava na bolsa estranha com ele. É estranha, mas quando eu tentei brincar com ela eu descobri como fazer essa barreira. Ajuda pra esconder o Pêssego de todo mundo! Mamãe e Papai me deixaram ficar com ele e tudo mais.”
“Essas cartas são tão estranhas, parece que vem com um tutorial embutido.” Arya comenta, antes de rir. “Imagina se aparecesse uma telinha explicando como usar? Seria útil.”
“Provavelmente. Pelo menos a gente tem o Joker pra isso.” Eli dá de ombros.
“SOCORROOOOO!!!”
“É, ainda bem. Imagina ter que descobrir tudo sozinhas.” Arya concorda.
“Larga minha capa! Mal! Mal!”
“Hm? Limonada? Eu quero.” Seira se senta no sofá, esfregando a cabeça, um pouco confusa, mas melhor. Ela pega o copo da mão de Arya, dando um gole. “Falta açúcar.” Ela coloca mais quatro colheres antes de experimentar, satisfeita. “Gostoso.”
Melanie olha para Seira preocupada.
“Não é demais?” A garota pergunta para Eli, que só dá de ombros.
“Nem sei mais.”
“MINHA CARTOLA NÃO! VOLTA AQUI!”
“Joker tá bem? O Pêssego tá correndo com a cartola dele na boca... Por que ele se chama Pêssego?” Seira questiona, olhando pela janela, Joker sendo o perseguidor agora, com Pêssego correndo ao redor de um pessegueiro com a cartolinha do coelho entre as presas.
“Realmente, por que Pêssego?” Arya concorda, tomando um gole da limonada. “Hm... Melhor ainda. Gostoso.”
“É que o Pêssego adora pêssegos! E torta de maçã, mas principalmente pêssegos. Comeu uma caixa inteira quando acordou depois de cair aqui.” Melanie explica, rindo.
“Não é como se eu fosse melhor dando nome.” Arya comenta.
“EI!” Melanie faz bico.
“E a cobra? Ela é fofa, qual o nome dela?” Seira pergunta, vendo como Pêssego estava deitado embaixo do pessegueiro, Joker entre as patas, o lobo lambendo a geleia do pelo do coelho, enquanto isso a cobra pegou a cartola do chão com a boca e a colocou na cabeça de Joker de novo.
“Cobra? É só Pêssego, não é tudo parte dele?” Melanie pergunta, confusa. “Sempre pensei que era a mesma coisa.”
“Ela parece ter mente própria pra falar a verdade.” Eli responde.
“Tem cara de Bob.” Seira diz.
Arya ri, antes de concordar com a cabeça.
“Sim, tem cara de Bob. O lobo-alado Pêssego e a cobra-cauda Bob.”
“Poxa, o Bob é legal, pega as coisas no alto pra mim e tudo.” Melanie conta, pensativa. “Eu nem percebi, mas realmente são bem diferentes.”
“Cérebro menor e ainda assim mais inteligente.” Eli murmura, terminando de tomar sua limonada. “Certo... A gente tem que lidar com esse problema agora. A gente precisa da carta, mas sem ela a Melanie não consegue esconder o Pêssego...”
“E ainda tem aquele cara, demônio, o que for. Ele definitivamente quer a carta e o Pêssego, e agora as nossas cartas também. A gente tem que acabar com ele, talvez entregar pra polícia ou algo assim.” Arya argumenta.
“E você acha o quê? Que a polícia vai ter um Departamento Especial de Monitoramento e Orientação de Não-Humanos?” Elloise pergunta, mãos na cintura.
“Sei lá! Pessoal parece de boa com magia e deuses, por que não? No mínimo eles prendem ele por bater em crianças.” Arya retruca.
“Nem me lembra, faz minhas costas doerem.” Eli se joga no sofá. “E a gente só tem mais algumas horas antes de anoitecer, tem que voltar logo.”
“Tá dormindo, tão fofinho.” Seira pensa, vendo Pêssego calmo, respiração lenta, Bob o cutucando. “Espera... Ele tá bem?” Ela pergunta, preocupada, indo para fora rapidamente.
“Quê?” Arya olha para ela, antes de a seguir. Eli as segue logo em seguida, Melanie correndo atrás delas.
“G-gente! O Pêssego não tá bem!” Joker exclama, olhando para as garotas, assustado. “Quanto tempo ele tá aqui, você sabe?” Ele pergunta para Melanie.
“PÊSSEGO!” A garota corre até o lobo, o balançando. “Acorda, Pêssego! Ele- Ele... Faz uns meses. No final do ano passado, em outubro.”
Os olhos de Joker se arregalam.
“São acho que cinco meses? Seis? Ele tá ficando fraco. Não tem comido direito.” Joker diz, pensativo.
“M-mas eu dou comida. Eu dou carne, e pêssegos, eu até dou torta de maçã em segredo pra ele, ele adora!” Melanie fala, lágrimas prestes a cair.
“Isso não seria ruim pra ele, talvez? Lobos são carnívoros, então talvez não seja carne o suficiente?” Arya sugere.
“Talvez o tamanho também... Eles o veem como Husky, mas o Pêssego é bem maior do que isso, e pode precisar de mais do que tem dado.” Eli adiciona.
“Não, isso não importa. Comida humana não afeta muito os animais demoníacos. Não tem a ver com a comida só, mas o tipo dela. Animais demoníacos também precisam de magia demoníaca pra sobreviver. Carne, fruta, o que seja ou como não importa, a questão é que esse tipo de coisa não tem aqui, só no Submundo. Magia demoníaca é uma das principais fontes de energia pra qualquer ser que vive nele, principalmente animais, é basicamente igual vitaminas, sem ela eles ficam fracos e doentes.” Joker explica, balançando a cabeça, suas orelhas baixas de tristeza. “Seis meses é muito tempo, sem uma fonte de magia demoníaca, ele vai morrer.”
“É por isso... É por isso que ele tem estado estranho? O papai disse que o veterinário tinha dado remédios pra ele. Ele parecia tá melhor.” Melanie fala entre lágrimas.
“Eles sequer sabem o que ele realmente é, os remédios humanos podem até ajudar um pouco, mas é impossível ajudar realmente sem magia demoníaca. Provavelmente a única razão dele ter aguentado tanto é por causa da sua carta, mas isso não é o suficiente, especialmente a longo termo.” Uma expressão de determinação toma a face de Joker, antes dele colocar suas patas no pescoço de Pêssego. Energia roxa e azul emanando delas. “Eu vou tentar manter ele bem, mas a gente tem que levar ele pro Submundo ou uma fonte forte de magia demoníaca o mais rápido possível.”
“Mas como a gente sequer entra no Submundo? A gente não é demônio, nem tá morta.” Arya pergunta, preocupada, tentando pensar em uma solução.
“Eva!” Eli sugere. “Você disse que a Árvore Eva tá conectada pro Submundo, não disse?”
“É, mas só a da Amazônia que tem passagens pra lá, a da cidade não-” Os olhos dele se arregalam. “A energia da árvore. Perséfone é uma das três Lordes Demônio, a magia dela é uma mistura de divina e demoníaca. A mini Eva definitivamente tem magia demoníaca fluindo dela.”
“Certo, certo! A gente só precisa levar o Pêssego daqui até a catedral...” Arya olha para o horizonte, a cidade há quilômetros de distância de sua posição atual. “Como a gente faz isso? Não dá pra só carregar ele. Cadê seus pais, afinal?”
“O papai tá viajando, entregando as frutas da colheita com o caminhão dele. E a mamãe tá trabalhando no festival...” Ela explica, fungando, abraçando Pêssego.
“Que... Merda. Okay, sei lá. Um táxi, Uber, qualquer coisa, tem que ter um jeito.” Arya diz, antes de olhar para o próprio bracelete. “Eles enviam um sinal de prioridade alta, né? Com localizador? Então...”
“Você não tá pensando em...” Eli não termina a frase, Arya mexendo em seu bracelete.
“Não importa, salvar o Pêssego é prioridade. Eles iam acabar vindo atrás da gente de qualquer forma, a gente meio que não tem muito jeito de voltar até anoitecer e a treinadora colocar a gente como desaparecida.” Arya dá de ombros.
“Meus deuses, um pedido de ajuda desses é caso de vida ou morte, ou sei lá.” Eli lembra, inconformada.
“É. Vida ou morte.” Arya concorda, apontando para Pêssego, o marchosias respirando com dificuldade, enquanto Joker fazia o que podia, uma expressão séria no rosto.
A expressão de Elloise se acalma, substituída para um de tristeza.
“É, tem razão. Só que se a gente se meter em problemas por isso, você vai tomar toda a culpa.” Ela cruza os braços, se sentando na varanda da casa.
“O livro de orientação sobre o torneio dizia que sair do perímetro da cidade atual ativaria o sinal de alerta imediatamente.” Seira comenta, pensativa. “Então eles provavelmente já sabem e mandaram alguém vir atrás da gente.”
“É o quê? Por que só agora que tô sabendo disso?” Arya pergunta. “Manual idiota.”
“Todo mundo recebeu uma cópia, você devia ter lido.” Eli diz.
“E você leu é?” Arya levanta uma sobrancelha, cabeça inclinada.
Eli olhou para o lado, ignorando a pergunta, o que só a tornava ainda mais culpada.
“Muitas palavras pra nerd do grupo, em? Quer me dar lição de moral, incompetente igual.” Arya revira os olhos.
E Seira provavelmente estava certa, pois não demorou mais do que alguns minutos até o som de sirenes, então dois carros policiais entrarem no caminho de terra, até estacionarem poucos metros de distância do grupo.
Quatro policiais saíram de dentro, dois de cada, mãos em seus coldres, mantendo atenção nos arredores antes de um deles se aproximar do grupo.
“Garotas, eu sou a Oficial Anderson, vocês estão bem? A central recebeu um sinal de que vocês haviam saído da fronteira da cidade, então um sinal de emergência. O que aconteceu?” A mulher pergunta.
“Então... Ahn... A gente tá bem. Foi meio que um acidente e tal... A gente... Veio visitar uma amiga, e acabou esquecendo desse detalhezinho.” Arya inventa, tentando não parecer ainda mais desesperada. “Foi mal?”
A mulher suspira, se acalmando.
“É literalmente dito pra vocês nunca saírem da cidade durante as viagens do torneio. Isso é só pra sua segurança, você tem que tomar cuidado.” Ela lembra, um pouco frustrada, mas aliviada. “Alarme Falso!” A policial grita, antes de encarar as garotas. “Independentemente do motivo, vocês continuam não podendo sair assim, vem, nós vamos levar vocês de volta pro seu hotel. A pessoa responsável por vocês já foi informada.”
Um dos policiais foi até sua viatura, atualizando as informações com a central, a mulher se virando para voltar até o carro.
“Espera! A gente não pode ir embora ainda.” Eli nega, se levantando. “O cachorro da nossa amiga tá doente, a gente precisa levar ele pra cidade. Vocês têm que ajudar a gente.”
“Quê? Olha, vocês podem tentar chamar uma ambulância veterinária ou algo do tipo, esse não é o motivo de estarmos aqui.” A mulher nega.
“Vocês são policiais! Seu trabalho é salvar vidas, não é? E a vida dele tá em perigo. Eu sei que eu não vou sair daqui se ele não for junto.” Arya retruca, batendo o pé no chão.
A mulher bufa, antes de olhar para Pêssego, e Melanie chorando.
“Por favor, ele... Ele precisa de ajuda. Por favor, ajuda ele.” Melanie implora, fungando.
A mulher suspira.
“Certo. Na outra viatura, rápido.” Ela concorda, acenando para os colegas ajudarem.
Os três policiais foram até Pêssego, tentando levantar ele, mas falhando.
“Mas que... Droga.”
“Quão... Pesado... Um Husky consegue ser?”
“Óbvio que tá doente, tem dado o que pra ele comer? Um boi inteiro?”
“Eu ajudo!” Seira se oferece, Arya vai com ela, as duas se juntam, antes de levantar Pêssego com certa facilidade, principalmente Arya, que mal teve dificuldades, carregando o marchosias até a viatura, o colocando no banco de trás. Os três policiais se entreolhando surpresos. “Talvez ser forte não seja algo tão ruim...”
“O que eles têm dado pras crianças hoje em dia...”
Melanie corre para subir na viatura.
“Ei, garota! Cadê seus pais? Você não pode sair de casa assim.” A mulher pergunta.
“Eu tô sozinha em casa, mas a mamãe tá no festival! E minha tia tá na catedral também.” Ela responde. “Ah! O médico do Pêssego fica perto da catedral também!” Melanie mente, pensando rápido.
“Okay, tudo bem. Mas você não vai sair de perto de mim, e nós vamos ligar pra ela no caminho.” A policial concorda. Melanie sorrindo e rapidamente subindo na mesma viatura que Pêssego. A mulher entra no lado do motorista, olhando para trás pelo retrovisor, vendo Pêssego deitado no banco, Joker agarrado nele, e Melanie fazendo carinho no lobo. “E essa pelúcia?”
“Ah... É... A favorita dele, pra acalmar.” Ela inventa, forçando um sorriso, seu véu escondendo a verdade o suficiente, fazendo a mulher nada além de um husky e uma pelúcia inanimada.
“Certo, se segura garota, a gente vai levar seu cachorro até o veterinário.”
Enquanto isso, Arya, Seira e Elloise se sentaram no banco de trás da segunda viatura.
“A gente provavelmente vai tomar uma bronca e tanto da treinadora.” Arya sussurra, um pouco nervosa.
“Isso não importa agora, só lidar com o problema de verdade.” Eli sussurra de volta.
“Tomara que o Pêssego fique bem...” A barriga de Seira ronca. “Fome. Quero sushi.”
“A gente pode pedir alguma coisa quando voltar pro hotel, não se preocupa.” Arya a acalma, colocando uma mão em seu ombro.
As duas viaturas seguiram em direção à cidade, o céu se tornando alaranjado, a luz do sol criando sombras largas ao atingir os prédios da cidade. Quando estavam se aproximando da praça e catedral, a viatura que as garotas estavam se separou da outra, seguindo a rua, enquanto a outra ia até a praça.
“O que você tá fazendo?” Arya pergunta para o policial dirigindo, se inclinando para frente.
“Levando vocês para o hotel. Não se preocupa, a sua amiga vai ficar bem. Meu trabalho é garantir que vocês fiquem sãs e salvas com seu responsável.” Ele responde, calmo.
Arya bufa, antes encostar no banco novamente, irritada.
“Era óbvio... A gente tem que dar um jeito de voltar quando descer.” Eli murmura.
“Vocês nem conseguiram levantar o Pêssego, deviam ter deixado a gente ir junto pelo menos pra carregar ele.” Arya argumenta, cruzando os braços. Seira faz carinho na cabeça dela para acalmá-la, a fazendo corar.
“Isso foi... Só cansaço. Dia longo. Conseguiria qualquer outro dia.” O policial rebate, claramente corando levemente de vergonha após duas adolescentes terem carregado algo que três adultos não conseguiram. “Eles têm macas e bastante ajuda nessas clínicas de qualquer forma.”
“Deixa isso pra lá, Arya. Não tem por que insistir nisso, é melhor só voltar pro hotel e torcer pelo melhor.” Eli fala para a amiga, mentira, definitivamente vão tentar fugir.
“É melhor ouvir sua amiga. Você é jovem, tem que tomar cuidado, ser inconsequente não é uma boa ideia.” O homem diz.
“Devia ouvir dele, se tem alguém que conhece rebeldia e inconsequência é ele, devia ver quando a gente tinha 15 anos e-” O outro começa, antes de ser interrompido.
“E-ei, não precisa mencionar isso! Já faz tempo, calma aí. Coisa do passado. Esquece essa história, caramba, tem que falar pra todo mundo.” O motorista reclama, envergonhado.
“Que nada, não falo tanto assim disso.” O outro nega, rindo.
“Você literalmente contou a história toda pros dois caras que a gente prendeu semana passada, no caminho pra delegacia!” Ele lembra.
“Você tá exagerando.”
Naquele momento, Arya sentiu um arrepio percorrer seu corpo, novamente. Seus olhos percorreram toda a região ao seu redor.
“Tem algo errado.” Ela diz.
“O quê?” Eli pergunta, confusa, antes de seus olhos se arregalarem, sua Luz do Vidente se ativando por conta própria ao sentir o perigo. “PARA O CARRO!” Ela grita.
“Quê?” O policial dirigindo ficou confuso por um segundo, antes de pisar no freio, não rápido o suficiente.
O demônio pulou na rua poucos metros à frente do carro, completamente em sua forma demoníaca. Suas mãos — ou garras – seguraram o carro, que levantou com a pausa repentina, a traseira subindo alguns metros antes de cair novamente sobre suas rodas.
No banco traseiro, a situação estava no mínimo desconfortável. Arya havia ido de cara no vidro que separava a traseira da frente. Eli era ainda pior, estava de cabeça para baixo, em uma posição bem desconfortável. Seira, entretanto, estava bem, usando cinto de segurança, os óculos de Eli de alguma forma voaram perfeitamente se posicionando em seu rosto.
“Cinto de segurança é bem importante.” Seira comenta, ajeitando os óculos que caiam até a ponta de seu nariz.
“É... Percebi.” Arya esfrega o próprio rosto, antes de olhar para Seira, corando. ‘Fica tão fofa de óculos...’
“Saco. Eu prefiro andar.” Eli se vira, se sentando no banco novamente, outro estalo nas costas. “Duas vezes? Que desgraça. Tá, eu tô velha pra isso já.”
“Central, solicito reforços da D.E.M.O.N., repito, solicito reforços da D.E.M.O.N. Ataque de demônio próximo à Praça Hawthorn e a Catedral de Perséfone.” Um dos policiais chama no rádio da viatura, enquanto o outro libera as portas.
“Saiam daqui imediatamente, é perigoso!” Ele ordena.
“ÓBVIO, PORQUE ELE TÁ ATRÁS DA GENTE!” Arya grita, abrindo a porta e saindo rapidamente. Seira não hesitando em segui-la junto de Eli.
“O que um grupo de adolescentes fez pra serem perseguidas por um demônio?” Ele pergunta, antes de sair, puxando a arma. “Parado imediatamente!”
O demônio estalou os punhos.
“Você realmente acha que tá pronto pra isso, é?” Ele pergunta, só para ser atingido por um tiro, que infelizmente foi desviado por suas escamas grossas.
“Tá de brincadeira... Quão forte essas coisas são?”
“Mais que suas arminhas humanas conseguem lidar.” O demônio responde, pegando a arma das mãos do policial e a esmagando facilmente. “Sorte sua que tenho coisa mais importante pra fazer do que brincar com humanos.” Ele joga o policial para longe, antes de segurar a viatura, suas garras cavando fundo na lataria, antes que ele finalmente a levantasse com certo esforço, pronto para jogá-la em direção ao trio que tentava fugir, o segundo policial caindo de dentro do carro.
“Tá de brincadeira, quão forte é esse cara?” Arya pergunta, vendo a situação por cima do ombro, puxando sua carta.
“Fenrir, pega! Garm, congele!” Uma nova voz ordena de um telhado próximo, antes de dois borrões se moverem, saltando e aterrissando na rua.
O primeiro borrão é escuro, se movendo em velocidades surpreendentes e pegando o policial lançado antes que atingisse o chão.
O segundo borrão era claro, se movendo até o demônio, deixando uma trilha de gelo no caminho. A mesma trilha se acelerando e prendendo as pernas dele.
“QUE MERDA! VOCÊ DE NOVO, MOLEQUE?!” Ele grita, irritado, mudando de alvo, lançando a viatura em direção ao prédio em que a figura estava.
“Fenrir. Soulbond.” O borrão negro se move novamente, em velocidades extremas, enquanto isso a figura salta do prédio. O borrão o atinge pouco antes da viatura atingir o prédio, porém ao invés do carro acertar o alvo, ela é partida em três, seus pedaços caindo na rua, longe das pessoas que agora fugiam do local, o aço claramente cortado por algo extremamente quente. A figura pousou na calçada em silêncio, antes de se levantar. “Em nome de Hel, você está preso!” Ele anuncia, apontando um dedo na direção do demônio.
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