O Bambolê Azul

1 Capítulo UMnico


Notas iniciais
Boa leitura o/

Pinga. Pinga. Pinga.

Essa manhã amanheceu um pouquinho diferente. Não chove tanto assim aqui em Tokyo, e quase nunca chove de manhã. Parecia que o dia estava contrariando a realidade. A chuva caia delicadamente sobre as árvores verdes e as flores coloridas da primavera. Essa é a minha primeira primavera na Terra, estamos aqui desde que os meus irmãos malucos resolveram ficar por aqui mais um tempo. Me bati na cama e olhei para o despertador – eram 6 e meia da manhã. Tenho certeza de que qualquer pessoa normal não desperdiçaria uma manhã de domingo chuvosa, e voltaria para a cama. Mas para começar... Eu não sou um humano, sou um alien.

Cocei um pouco os olhos, isso era uma coisa normal para se fazer – e tenho certeza de que cumpriria a minha cota diária de 5% de “coisas normais que eu fiz”. Levantei-me da cama, coloquei minhas pantufas azuis de coelhinho e desci as escadas para ir á cozinha. Fui na maior lerdeza possível – eu não tinha pressa de nada mesmo. Pensei em começar uma barulheira no segundo andar e acordar os meus irmãos para eles morrerem de raiva de mim e me perseguirem até o fim do dia, seria divertido. Mas eu sei como os adultos são, eles odeiam brincadeiras e desistem de uma assim que começam. OK, eles não são adultos. Mas pra mim são, não se esqueça que eu tenho só 10 aninhos.

Eu mudei de idéia quanto a fazer a barulheira no segundo andar. Desci as escadas – ou melhor, flutuei escada abaixo – e fui para a cozinha. Achei mais seguro flutuar porque o chão estava todo molhado. É CLARO que o imprestável do Kisshu furou o telhado de novo e o Pie ficou com preguiça de consertar. Eu flutuei até a prateleira mais alta – eu juro que quando for mais alto nunca mais vou flutuar para chegar até aquela prateleira – pegar a minha caneca verde-limão de ursinhos. Enchi ela de leite até a boca, coloquei umas colheres de Nescau e corri para frente da TV. Hoje passa maratona de filmes da Disney, e eu não tenho mais nenhum plano genial para o meu dia.

Então, depois que o filme A Dama E O Vagabundo acabou, começou O Rei Leão. Para a minha decepção, era uma maratona de filmes CLÁSSICOS, e eu não gosto muito de filmes clássicos. Porcaria de pressa que nunca me faz ler as coisas direito. Enfim, eu continuei assistindo. Era O Rei Leão 2, e daqui a pouco passou uma frase que me fez tirar a boca da caneca para prestar atenção no filme. O diálogo era assim:

“-ALGUÉM POR FAVOR QUER ME OUVIR??

-Ah, desculpe. Disse alguma coisa, princesa?

-Eu não sou só uma princesa, isso é só METADE do que eu sou!

-Então quem é a outra metade?”

E eu fiquei pensando nisso por um tempo. Eu sou um alien, OK, sei disso, mas eu não sou SÓ isso. Isso é só METADE do que eu sou. Talvez minha outra metade ainda esteja escondida em algum lugar. Debaixo da cama é que não.

Então eu escutei um barulho vindo da escada. Me virei para ver o que era, e era só um Kisshu. Ele estava todo descabelado, usando aquele velho pijama verde-claro. Acho que ele podia ter feito uma ponta em “Monstros S.A.”.

-Ei, já está acordado, Dumbo? – Ele disse com cara de quem estava zoando do que eu estava assistindo – e das minhas orelhas.

-Olha quem fala! – Eu retruquei, mostrando a língua.

-E então, porque estava com a TV ligada e os olhos para a caneca? Pois é, acho que até a caneca é mais interessante que esses filmes aí.

-Eu... Só estava pensando um pouco.

E ele partiu para a cozinha, e voltou para se sentar no pufe ao meu lado com um pote de Sucrilhos chocolate. Sabe, os meus irmãos reclamam de mim, mas eles são tão infantis quanto eu.

-Kisshu... – Eu comecei – Eu andei pensando...

-Ah, andou e pensou ao mesmo tempo? Que milagre!

-PARE DE ME INTERROMPER!! POSSO FALAR AGORA??

-Claro, claro... Fale o quanto quiser. – Disse ele com um sorriso, levando uma colherada imensa de Sucrilhos para a boca.

-Quem será que é a minha outra metade?

Ele não respondeu nada, só ficou olhando o pote de Sucrilhos. E depois ele reclama que EU olho a tigela em vez da TV.

-Está me ouvindo?

-Claro que estou... – ele disse, sem tirar os olhos da tigela. Quero saber qual é o problema daquele garoto.

-Acha que eu tenho uma outra metade?

-Com certeza... – Ele disse, finalmente levantou a cabeça e olhou para a janela. – Todos temos uma metade. Eu acho. Eu ainda acredito que a Ichigo possa ver algo de bom em mim. Eu sei que vai.

- Como eu vou saber quem é a minha metade?

Ele deu uma risadinha e disse, pronunciando cada palavra com cuidado:

-Vai saber. Não conseguirá mais tirá-la da cabeça. É algo que mexe com você completamente. Não existem palavras para isso.

É raro ver ele assim filosófico. Parabéns, parece que alguém acaba de ganhar um 10 em filosofia.

-Kisshu... – eu percebi que estava enrolando – Será que vai demorar para mim achar a minha outra metade?

Ele continuou parado olhando para o pote. Deu um sorrisinho e disse:

-Talvez sim, talvez não. Tudo virá quando é para vir. Tenha paciência. Talvez encontre algum sinal, ou coisa do tipo.

Eu fiquei pensando no que ele tinha dito. Algum dia vai chegar. Mas eu odeio esperar! Então, levantei-me do sofá e coloquei a caneca vazia de Nescau na pia. Depois, corri para o meu quarto e troquei de roupa. Pensei em colocar a roupa de sempre, mas estava muito frio; Coloquei uma jaqueta bem comprida, uma calça e o meu boné vermelho da sorte. Depois fiquei sentado na cama olhando para a janela por um tempo. Eu não sabia o que estava procurando – talvez uma resposta para todas as minhas perguntas que eu nem sequer sabia quais eram. É uma merda você não saber o que está fazendo, faz você se sentir um retardado total. Mas eu sabia. Em meio ás árvores verdes, arbustos de frutinhas e pingos de chuva havia alguma coisa especial lá fora. Eu não sabia bem o que era nem onde encontrar, mas eu sabia que devia procurar o mais rápido possível.

Calcei meus tênis preferidos e corri para fora – sim, eu lembrei de pegar um guarda-chuva dessa vez, Pie. Eu fiquei parado procurando por algum ruído, alguma coisa que me desse uma pista do que eu precisava encontrar, mas não achei nada. Se fosse um ruído de passarinho, o que eu procurava era provavelmente um passarinho. Mas não havia nenhum barulho lá fora, além do barulho da leve e graciosa chuva caindo sobre as folhas das árvores.

E se fosse uma pessoa em perigo? Um animalzinho em perigo? Uma catástrofe a acontecer? Talvez o que eu senti não passasse de uma premonição boba. Ou não. E se o que eu procurava fosse algo que eu nem conhecia? E se fosse alguma coisa simples, sem catástrofes ou desastres naturais?

Talvez eu estivesse ficando louco. Ou talvez algo bom fosse acontecer. Talvez a minha vida mudasse dali pra frente. Talvez fosse um sinal. O que quer que seja é meio incomum. Acho que o destino está brincando comigo. Ele é a criança, e eu sou a marionete.

Eu peguei o guarda-chuva e saí andando na maior lerdeza possível. Eu queria prestar atenção em tudo o que podia. Procurei por entre as árvores molhadas, embaixo dos arbustos cheios de frutinhas cor-de-rosa, em cima dos telhados. Mas não achei nada de mais além de sujeira, água empoçada e uma balinha velha e cheia de formigas. O que está acontecendo afinal?

-KISSHU!! – eu chamei, estava ficando impaciente.

-O QUE FOI?? – ele berrou da cozinha.

-VOCÊ ESTAVA FAZENDO ALGUM BARULHO?

-NÃO!!

-HUMM... OK, TA BOM!!

O que será que estava fazendo o barulho? Talvez um carro passando? Minhas hipóteses estavam todas erradas... Então, eu só fiquei com UMA opção: Era algo que eu não conhecia. Algo que eu nunca tinha presenciado. A catástrofe natural que vai eliminar todos os humanos da face da Terra. E vai levar a gente junto. Então, pensei em voltar para o meu quarto, onde é quentinho e seguro. Só que, por burrice, eu acabei indo andando. Isso seria desnecessário, já que eu posso me teletransportar. De repente, enquanto estava olhando para as nuvens de chuva, eu tropecei em alguma coisa, do lado do arbusto. Caí em cima de uma poça de lama. Levantei-me e limpei os olhos. Não era no arbusto que eu tinha tropeçado, e sim no objeto EMBAIXO dele, que ia escorregando para fora com a lama. Era algo redondo, como um arco, cheio de lama. Fiquei olhando-o reluzir por algum tempo, até perceber que ainda estava no jardim, e estava chovendo. Peguei o grande arco sujo nas mãos e fiquei olhando para ele, tentando achar alguma etiqueta ou botão. Nada. Era só um arco velho. De qualquer forma, fiquei olhando para ele, enquanto a lama escorria e ele revelava uma cor azul por baixo da sujeira.

Eu não sabia o que era; Mas era bonito. A cor azul que ia aparecendo aos poucos era linda. Era quase um azul-celeste, com um toque de azul-piscina. Eu me perguntava o que ele estava fazendo ali. Mas eu não sabia se deveria pegar para mim. Poderia ser uma bomba, ou uma arma, ou algo perigoso. Ou um brinquedo. Eu não entendo muito de coisas da Terra, mas poderia ser algo para divertir. Não machucar. Mas, de um jeito ou outro, não era completamente confiável. Decidi perguntar ao Kisshu o que ele achava daquilo. Sabe como é, conselho de irmão mais velho.

Entrei correndo na cozinha, e o Kisshu estava lá, sentado na mesa, fazendo uma cruzadinha de jornal.

-Hmmmm... – Ele coçava a cabeça – Filme de cantor morto recentemente... Essa é difícil.

-THIS IS IT, do Michael Jackson, seu burro – COMO ALGUÉM PODE SER TÃO ANTA??

-Hm, valeu. – Ele completou a cruzadinha. Então, eu joguei o arco velho em cima do jornal.

-O que foi, guri?

-O que é isso??

-Um objeto!! – Não, decerto um passarinho.

-Eu sei, mas eu quero saber O QUE é.

Ele pegou o arco nas mãos, olhou por todos os lados e começou a pensar. Depois de um tempo, ele me entregou o arco de volta.

-É um objeto terrestre. Mais precisamente, um brinquedo.

-BRINQUEDO?? – Como uma coisa redonda de plástico pode ser um brinquedo?

-É, os terráqueos o chamam de BAMBOLÊ.

-E como se brinca com um bambolê?

-Descubra você mesmo. – Foi o que ele disse, antes de subir correndo para o quarto, com uma monte de revistas da Capricho. E DEPOIS EU QUE SOU ESTRANHO.

Eu pensei em jogar aquele troço fora. Mas achei melhor não. Fui para fora, a chuva tinha passado. Sentei na calçada e comecei a pensar no que iria fazer com aquilo. Até que eu ouvi alguém se aproximando... E lá estava ELA. Seus cabelos loiros estava amarrados em duas maria-chiquinhas, e ela usava uma blusa vermelha e uma calça cinza.

-O que está fazendo aí sentado, Taru-Taru? — Pudding perguntou.

-Eu já disse pra não me chamar assim!! Enfim, eu sei lá. Eu achei isso no chão e comecei a pensar no que eu ia fazer com ele.

-Ah, então você conhece o bambolê?? — Ela arrancou o troço da minha mão e começou a olhar com atenção.

-Troço, bambolê, ameba, tanto faz. Eu só sei que ele não serve pra nada, pode ficar com ele pra você.

-Ah, Tarutooo... — Ela deu uma risadinha e me puxou pelo braço — Vem brincar de bambolê comigo!

-Você sabe brincar com isso?

-Sim. É assim... Você coloca na cintura... E começa a girar. — Ela era especialista nisso, admito. E eu não sabia girar aquilo, admito.

Naquela tarde aprendi o valor de pequenos objetos que ás vezes a gente não dá muita importância. A Pudding é incrível, ela sabe de tudo. Acho que seremos ótimos amigos. E eu acho que finalmente descobri o que significa \'ancontrar sua metade\'. É estar perto de alguém especial. E agora, quando encontrar uma coisa no chão, não vou jogar fora... Porque quem diria que um pedaço de plástico azul, que poderia muito bem ser uma arma, é, na verdade, um simples bambolê azul?

olhando para ele, tentando achar alguma etiqueta ou boteluzir por algum tempo, at coisa, do laod do arbusto.

Notas finais
Tomara que tenham gostado G_G

MANDEM REVIEWS E FAÇAM A TIA NATHY FELIZ
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!