Notas iniciais
Bom, eu nunca escrevi nada parecido com isso. Sou uma pessoa medrosa, detesto filme de terror e etc. Mas a musica que eu coloco durante a historia foi a causa de eu ter escrito isso. Pode não estar apavorante nem assustadora demais como os amantes de terror gostam, mas eu gostei de como ficou e por isso estou postando. A musica pertence a banda japonesa Sound Horizon e se chama Kuroki Okami no Yado. Quem tiver interesse de ouvir, aqui esta: http://www.youtube.com/watch?v=z3iAkQSPFRI
Sem mais delongas: Boa Leitura!

"Balança... Balança... Se o vento sopra ele balança. Ele dança, o balanço negro..."


Abri os olhos assim que minha mãe me cutucou, avisando que já tínhamos chegado. Bocejei, esfregando os olhos em seguida, tentando despertar da sonolência, olhando em volta. Realmente estavam em um novo lugar que eu não conhecia. Meus pais decidiram se mudar e vir para uma cidade próxima a uma grande floresta. Eu não estava muito contente com isso, afinal deixei tudo que eu mais gostava na grande cidade. Mas não tinha como bater de frente com meus pais, afinal eu não era maior de idade e meu pai havia conseguido um ótimo emprego naquela região. Olhei para meu novo lar nada atraente, descendo do carro para pegar minhas coisas.


A cidade tinha todo o ar do interior, tranquila demais, pacifica demais... Talvez o que diferenciasse era o ar úmido e o cheiro de algumas plantas, trazidos da floresta. Aliás, a casa onde meus pais compraram era no fim da rua principal, a mais próxima da floresta. Praticamente as costas da casa batiam em algumas arvores... A casa era antiga, grande, com uma varanda extensa na frente, cômodos maiores ainda, móveis de madeira e um sótão onde poderia colocar um monte de coisas. Minha mãe estava tão animada com a mudança que me fez caminhar com ela pela casa toda, contando como iria arrumar tudo para deixar perfeito.


Depois dos homens do caminhão com o resto de nossa bagagem desembarcar a ultima caixa, meus pais me liberaram para um descanso e corri ao subir a escada, doido para deitar e esquecer que estava em um lugar totalmente diferente do que eu era acostumado, que não teria nenhum amigo por perto para me ajudar e que teria que conviver naquele ambiente tão... Tedioso. Meu quarto era maior do que eu tinha na outra casa, mas nem isso me animava, deixando a mochila no chão de qualquer jeito e logo meu corpo caiu sobre o colchão. Suspirei profundamente, fechando os olhos e não demorando a cair num sono profundo.


Os primeiros dias naquele lugar não foram fáceis, me adaptar a nova escola, a novas pessoas, tentar fazer colegas, ganhar inimigos... Simplesmente não conseguia me adaptar facilmente a aquela cidade. Fora que depois do colégio, não havia mais nada para se fazer. No começo eu até ajudava meus pais a arrumar todas as coisas no lugar, mas agora que tudo estava em seu devido canto, eu passava o resto do dia trancado dentro de casa. A janela do meu quarto dava para a profunda floresta, tão silenciosa e grandiosa, completando minha insatisfação com o lugar. Se pelo menos acontecesse algo... Emocionante...


–x-


“Dançando no vento do crepúsculo. Um feliz, balanço negro”


Me revirava na cama, tendo um sono inquieto. No meu sonho não havia nada, apenas a escuridão. E mesmo assim algo me afligia, tinha a sensação de que havia alguém naquela escuridão, me olhando com atenção, me chamando, cantando por mim... Arrepios percorriam meu corpo molhado de suor enquanto um medo estranho se apossava de meu corpo. Num movimento rápido, despertei e sentei na cama, o peito subindo e descendo em uma respiração irregular e meus olhos arregalados procuravam algo no quarto que eu não fazia ideia do que fosse, mas estava ali pelo menos há um minuto atrás.


Faz exatamente um mês que vim morar nessa cidade com os meus pais e nada de diferente aconteceu. Até consegui me adaptar ao colégio e aos poucos estava conhecendo melhor a vizinhança, mas tinha algo que estava começando a me perturbar. Já fazia alguns dias que eu tinha a sensação de estar sendo vigiado, seguido por olhos atentos, sussurros vindos entre as copas das arvores da floresta e por duas ou três vezes, pensei ter visto a silhueta de uma garota em meu quarto. No começo eu pensava que era pura imaginação minha, por estar em um lugar novo e desconhecido. Mas isso não para, ao contrario! Só vem piorando...


Depois do colégio, decidi caminhar um pouco pela cidade para aliviar a mente e parei em uma sorveteria, saindo com um picolé. Enquanto mordia o doce gélido, fui caminhando pelas ruas, observando a arquitetura das casas mais antigas, admitindo que eram bem bonitas. Por fim, me deparei com uma velha senhora tentando arrancar uma erva daninha que havia nascido no pé de sua roseira. Era realmente bem velhinha já curvada pela idade e com o rosto enrugado como uma uva passa. Me aproximei e me ofereci para retirar a erva daninha, pegando a pequena pá de jardinagem que ela tinha em mãos, passando a retirar a planta. Os lábios miúdos e secos dela se curvaram num sorriso gentil, agradecendo.


– Já estava preocupada dessa erva matar minha roseira...


– Não se preocupe, já estou retirando tudo. – comentei, já puxando a erva daninha pela raiz, terminando de retira-la.


– Você é um menino gentil... E pelo visto é novo na cidade, não me lembro de você.


– Me mudei faz um mês apenas, também não conheço tantas pessoas aqui. – sorri, colocando a planta no lixo e lhe devolvendo a pá.


A velha senhora me levou até a mangueira para lavar as mãos sujas de terra e logo um vento forte passou por nós, vindo da floresta. Ambos olhamos para as copas das arvores ao longe se agitando e o cheiro de umidade aumentar, sinal de uma chuva próxima. O que me chamava à atenção era um barulho estranho que acompanhava o vento, ressoando em meus ouvidos e me fazendo tentar identificar o que era. Ela também parecia ouvir, mas ficando com a expressão mais dura, parecendo até preocupada.


– Eles estão cantando outra vez... – a ouvi dizer e rapidamente olhei para ela, curioso.


– Cantando? Quem?


– Os mortos. Aquela floresta é um lugar de mortos.


– Como assim? – um arrepio percorreu minha espinha com sua explicação, mas ainda curioso.


– Aquela floresta... Foi palco de muitas atrocidades em uma época muito antiga de guerras. Todos sabiam que foi usado para muitas torturas e muitos corpos foram enterrados lá sem que nem soubessem o seu nome. Mas...


– Mas?


– Hm... – ela ponderou um pouco antes de continuar, me olhando no fundo dos olhos – Um crime mais chocante parece ter despertado algo diabólico naquela floresta.


– Que crime?


– Bem, talvez seja um pouco forte demais pra você meu jovem, mas há muitos anos, antes mesmo de eu nascer, um restaurante era muito famoso não só nessa cidade, como nas outras mais próximas. Diziam que servia a melhor carne de todas, principalmente o fígado! Diziam que as pessoas recuperavam até o bom humor quando comiam essa carne tão deliciosa. Mas o desaparecimento de uma criança fez com que a policia descobrisse que a dona do estabelecimento usava carne humana, de crianças, para fazer seus pratos.


Um gosto amargo invadiu minha boca e meus olhos se arregalaram com tal ideia. Que horror, como alguém conseguia ser tão monstruoso assim? Quantas crianças haviam perdido a vida nas mãos dessa mulher? Claro que o estabelecimento deve ter sido fechado, os clientes ficaram enojados e os policiais prenderam essa criminosa. Pelo menos é o que eu esperava que tivesse acontecido. O olhar da velha senhora voltava a cair na floresta e acabei perguntando.


– O que esse crime tem a ver com a floresta?


– Ela levava as crianças até lá para que pudesse mata-las sem chamar a atenção. Pendurava os pequenos pelo pescoço nas arvores e depois que morriam sufocados, ela os abria e retirava seus órgãos para levar para o restaurante.


– Que horror... Ela foi presa não é?


– Não conseguiram... Não a tempo de algo pior acontecer.


– Algo pior...?


– A mulher escapou para a floresta no meio da noite. Os policias procuraram por tudo até que a encontraram enforcada em uma arvore e com o corpo estraçalhado. Seus órgãos estavam espalhados pela terra enquanto o sangue fazia uma poça embaixo do corpo. Nunca entenderam como ela ficou naquele estado... Idêntico ao que ela deixava as crianças. E seus corpos nunca foram encontrados, a floresta é enorme e pelo visto ela os enterrou em outro lugar.


Engoli em seco, fitando a floresta ao longe também. Ainda podia ouvir o som estranho junto ao vento, mas agora ele me trazia apenas uma sensação ruim. Me despedi da senhora e tomei o rumo de casa, só querendo um bom banho e dormir um pouco antes do jantar. Subi os três degraus da varanda, pronto para abrir a porta quando a forte sensação de que estava sendo observado me tomou novamente, me fazendo correr os olhos pelo local. Tive a máxima certeza de ver novamente uma silhueta feminina entre as arvores ao longe e decidi entrar de uma vez, sem olhar para trás.


–x-


Não tive uma única noite de sono decente nas duas semanas seguintes, apenas revirando na cama e acordando no meio da madrugada, suado e com aquela terrível sensação de estar sendo vigiado. Eu queria que aquilo parasse... Eu queria ter paz. Me amaldiçoei pro dizer que aquela cidade era um tedio no começo, por que agora tudo o que eu queria era uma vida pacata como todos tinham. Meus pais haviam notado que eu fiquei um pouco mais "arisco" nos últimos dias, sempre olhando para os lados com extrema atenção. Acordei mais uma vez, sentindo falta de ar, mas dessa vez meus olhos enxergaram algo naquele quarto.


A garota estava de pé a poucos metros da cama, me olhando com extrema atenção. Os cabelos castanhos eram presos em duas tranças que chegavam à altura dos cotovelos e caiam na frente do corpo. A pele pálida e os olhos sem vida estavam fixos no meu sem demonstrar nada. Trajava um vestido longo preto com detalhes laranja e seu estilo era dos antigos. Tentei puxar o ar sem me mover, paralisado ao vê-la e pensando no que ela faria. Minha surpresa foi ver ela me dar às costas e caminhar até a porta. Pensei que iria embora, mas parou no batente, me olhando por sobre o ombro. Um claro convite mudo para acompanhá-la.


Não sei o que me fez ir atrás dela... O medo, o pânico, o pavor deveriam ser mais fortes dentro de mim. Mas o pensamento do que ela poderia fazer caso eu não fizesse o que ela queria me deu as forças que meu corpo precisava para levantar e sair de casa. Tomei cuidado para não acordar meus pais, não queria que eles se envolvessem nisso. Quando fechei a porta de casa, vi que ela já estava na entrada da floresta, me esperando. Caminhei lentamente lá, vendo-a desaparecer a cada passo que eu dava. Olhei pra trás, vendo ali minha chance para voltar, mas o vento forte trouxe o lamento oculto dentro daquela floresta, também me convidando a entrar.


Dei alguns passos, avançando floresta adentro, cada vez mais longe da luz da rua e do conforto do meu lar. Eu deveria ter voltado e tentado esquecer, tentado dormir de novo... Mas eu sabia que não ia conseguir. Que no dia seguinte viriam atrás de mim de novo, e de novo, e de novo até que me levassem a onde queriam. Melhor encarar isso de uma vez... Se estou ficando louco ou não, eu não sei. Só quero minha paz novamente.


"Balança... Balança..."


Vozes? Sim... Tinha quase certeza de que à medida que me embrenhava na floresta, começava a ouvir vozes, ainda que distantes. Pareciam cantar alguma coisa... Uma cantiga estranha e triste. Como não tinha mais pistas nem ideias para onde andar, então simplesmente me deixei levar pelas vozes que ficavam cada vez mais nítidas enquanto eu andava em direção a elas. Já conseguia entender melhor as palavras daquela musica...


"Se o vento sopra ele balança... Ele dança, o balanço negro..."


Não eram só algumas vozes. Logo eu podia perceber que era um coral inteiro de crianças cantando em uníssono, tão bem afinadas como anjos cantando nos céus. Se o momento não fosse tão assustador, provavelmente eu estaria apreciando melhor a canção que ficava cada vez mais alta e nítida, podendo gravar cada palavra dentro da minha mente até ter a sensação que cantavam ao meu redor.


"Balança... Balança... Se o vento sopra ele balança. Ele dança, o balanço negro..."


O silencio da floresta chegou a me assustar assim que eles pararam de cantar. Não se ouvia mais nada, nem um único ruído, nem mesmo o farfalhar das folhas nas copas das arvores. O vento também ficou mudo e fui engolido pela escuridão do lugar até que pude enxergar varias silhuetas a minha frente. Me aproximei um pouco mais e prendi a respiração ao ver varias crianças, incluindo a garota que me trouxera ali, mas todos ensanguentados e com o corpos abertos sem seus órgãos.


A sensação de náusea e a vontade de vomitar me atingiram como um golpe, mas me segurei para ficar atento caso algum deles fizessem alguma coisa. Mas nada... Apenas olhavam para mim com os olhos tristes demais e parecendo pedir ajuda em silencio. Por fim tomei coragem e perguntei o que queriam de mim, por que haviam me trazido naquele lugar. As crianças olharam entre si e deram passagem, a garota se aproximou e segurou minha mão. Senti um arrepio com o contato de sua pele fria com a minha.


Fui levado por ela, passando pelas crianças e por fim dando de cara com uma parte de terra cedida, formando um buraco cheio de grandes raízes das arvores. Demorei a enxergar algo diferente, até que notei o braço de um esqueleto despontando de uma das raízes. Agora claramente eu podia ver... Por toda aquela parte, milhares de esqueletos e pedaços de roupas estavam jogados, escondidos por aquela parte íngreme e protegido pelas raízes. O quão fundo eu fui naquela floresta? Não sabia dizer, só sabia que havia encontrado todos os corpos daquelas crianças.


–x-


O policial agradeceu mais uma vez, apertando a mão dos meus pais e por fim a minha, caminhando para a viatura e partindo dali. Consegui voltar para casa e informei as autoridades sobre minha descoberta. Disse que havia saído para caminhar naquela noite, pois havia perdido o sono e que por coincidência havia achado aquele local. Logo todos os esqueletos seriam removidos e identificados para que voltassem para suas devidas famílias e terem um enterro digno. Meus pais e toda a cidade ficaram surpresos com a descoberta e rapidamente ganhei o respeito de todos ali.


Quando a agitação passou e pude relaxar, fui ate meu quarto, sentando na cama e olhando as copas das arvores que apareciam em minha janela. O vento farfalhou as folhas, mas com ele não veio nenhum lamento, nenhum choro, nenhuma canção... Ele simplesmente soprava tranquilo. A musica do coral de crianças mortas invadiu minha mente e lembrei-me de cada palavra. O balanço negro era o enforcamento a que foram submetidos, tendo seus corpos balançando no ar enquanto suas vidas se esvaiam e seus órgãos eram arrancados sem piedade. Suspirei uma ultima vez, deixando que a canção escapasse por meus próprios lábios.


"Balança... Balança... Se o vento sopra ele balança. Ele dança, o balanço negro..."

Notas finais
Reviews?
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