O Bailarino
20 Ode às Memórias Trancafiadas - Parte II
Notas iniciais
Sala do piano – 20:34 hrs
Seguiu até o cômodo sem desviar do caminho. Bateu à porta com violência, exprimindo toda a sua mágoa. Fez a poeira levantar e, em passos duros, extravasou a fúria no que encontrava pela frente. Dor e mais dor era o que sentia por dentro. Diria a si mesmo que não houve outro dia em que se sentiu mais vivo senão aquele fatídico. Afinal, os vivos sentem. Faltava-lhe aquilo.
Deixando escapar alguns gemidos de lamúrias pelos lábios entreabertos, levou as mãos aos cabelos mais uma vez e caminhou de um lado para o outro, sem rumo certo para tomar. Sabia que havia um piano ali e uma opção para escolher: contar-lhe-ia a verdade ou insistiria na omissão. Ela já sabia demais, porém a história ainda estava farta de percalços que ele muito tentou esquecer e apagar de sua existência. E nunca conseguiu.
Aproximou-se do piano. Lançou longe a coberta alaranjada que o protegia da poeira. Olhou para o teclado de cores monocromáticas e pensou mais uma vez se devia fazer isso.
Não queria, mas devia. Ele sabia que devia. Ela não era sua Helena. Sua Helena estava no escuro da própria alma, trancafiada em uma memória, aprisionada por sua causa. Sabia que, em todos esses meses, por mais que tentasse despertar a sua Helena em Anelise, por mais que tentasse resgatar apenas a inocência e poupá-la da desgraça, sabia que era uma ideia fadada ao fracasso. A traria de volta, ela o odiaria, e aquilo terminaria de matá-lo por dentro, mas Helena só seria Helena se pudesse acessar todas as suas alegrias e traumas. Afinal, o que é o ser humano senão as suas vivências?
— Por favor… por favor, Helena, me perdoe…
Chorando, sem nenhum esforço para impedir tal sentimento, Michael acomodou-se defronte do piano e deslizou as pontas dos dedos pelas teclas empoeiradas. Pensou novamente se devia fazer isso, aguardou por um sinal divino, até ouvir o toque dos ruídos e perceber que a única pessoa na casa, naquele exato momento, estava a perambular por aí. Não havia sinal mais convidativo que aquele.
— ... Michael?
E tocou.
Anelise, ainda perambulando pelos corredores, coberta por um manto quente que buscara no quarto do casal e acompanhada de um candeeiro, procurou pelo amado em passos calmos e ombros encolhidos. Já não tinha tanta fúria, já não tinha ódio, apenas mágoas e confusão. Nada naquela história parecia ter algum sentido, porque ele era bom, era diferente, era contra o mundo, as dores, as regras, o preconceito e a amargura. Por que, por um segundo, se igualar a eles? Ela não conseguia entender.
Ouviu as notas tímidas fluírem do piano no quarto ao lado. Estava fechado, sabia que era ele, mas não ousou interromper. Eram as notas da melodia da felicidade, aquela que jamais a faria chorar. Anelise reconheceu cada uma, embora nunca tenha ouvido ao som do piano, e, mesmo assim, sentiu algo diferente emanar de seus pensamentos.
— Michael…
Ela se aproximou. Deixou o candeeiro no canto, aproximou-se da porta e utilizou da luz vinda da janela do corredor para iluminar o espaço da fechadura. Queria olhar e pensou seriamente nessa questão, entretanto, sentiu subitamente o ambiente turvar e as paredes se distorcerem quando ouviu a voz dele no piano.
"Você viu a minha infância?
Estou procurando pelo mundo de onde venho
Porque eu estive buscando
Nos Achados e Perdidos do meu coração"
Sentiu-se tragada para outro lugar. Os corredores, antes escuros e de cor verde esmeralda, eram claros como amarelo mostarda. Anelise sentiu uma presença emanar do quarto à sua frente, ouviu o estalar de uma lareira, viu a neve cair do lado de fora, pelas janelas tomadas pelos flocos brancos, e então adentrou sem pensar duas vezes.
Deparou-se com uma criança de longos cabelos ruivos. Sabia quem era, pois reconheceu imediatamente o pequeno quebra-cabeça iluminado pelas cores laranjas do fogo. Anelise lentamente se aproximou, em passos cuidadosos, olhar fixo, curiosa, quando viu a menininha se virar em direção à porta. Sentiu uma presença atrás de si, sabia que era ele.
Michael estava lá. Machucado, fendas sobre a pele, cabelos curtos de cachos fechados, olhar curioso e assustado, mas era ele. O fitou com vontade, notou as suas vestes esfarrapadas, manchas vermelhas evidentes nos tecidos brancos, e uma bandeja com guloseimas nas mãos. Serviu a menina e voltou para a escuridão da sala, e foi ali que a ruiva percebeu um elo se formando quando viu a menininha do seu passado o chamar para a luz. Ela não o reprimiu, não teve medo, apenas uma certeza ingênua de que as coisas ficariam bem a partir dali.
Eram memórias. Entendeu isso quando olhou para o escuro do corredor e tentou examiná-lo. Deixou o quarto e seguiu em direção ao lugar de onde o moreno havia saído. Ouviu alguns barulhos vindos do que parecia ser a cozinha, pois eram ruídos de talheres arrastados pelo chão, mas não conseguiu enxergar nada, afinal, a sua menininha não presenciou nenhuma daquelas coisas, apenas ouviu, e eram sons que ela jamais esqueceria e jamais saberia do que se tratava.
Ouviu uma voz no seu inconsciente.
"Ninguém me entende…
Eles vêem isso como excentricidades tão estranhas
Porque continuo brincando como uma criança
Mas, me perdoe"
E, novamente, tudo mudou.
Estava numa manhã fora de casa, em um espaço amplo e coberto de neve. Ao fundo, pôde ver muitas árvores secas e contorcidas, esperando ansiosamente pela primavera, quando poderiam reaver suas majestosas copas coloridas. Anelise caminhou por poucos instantes, pois seu olhar logo alcançou quem estava procurando: duas crianças rolando sobre a neve. Uma, a menininha ruiva de cabelos desleixados, flocos presos pelas madeixas, roupas simples, mas bem apresentadas, e rostinho vermelho pelo frio. A outra "criança", um pouco mais velha, um pouco maior, era Michael, com o seu jeitinho bobalhão e os cabelos cobertos de branco, jogava algumas bolinhas de neve na garota e gargalhava com as suas risadinhas infantis.
— Não valeu! Eu tô atolada na neve!
— Eu ajudo! — ele se levantou e, com um pouco de dificuldade, caminhou até a menina, pegou-a pela cintura e a puxou rapidamente. — Viu? Nem doeu.
Helena, que não era boba, levou as duas mãos cheias de neve aos cabelos do moreno e os bagunçou freneticamente, tinha-lhe preparado uma armadilha.
— Te peguei! — ela exclamou, em altas risadinhas.
— E você acha isso justo, é? Na próxima, vai ter revanche! — ele a colocou no chão e, diferentemente dela, passou a mão pelos seus cabelos lisinhos, limpando a neve dos fios. — Vamos voltar, está frio. E eu acho que ele já acordou…
— Ele quem?
O rapaz sorriu e, sem dizer mais nada, a levou consigo. Anelise os acompanhou apressadamente até os flagrar adentrando na antiga casa do rapaz, na comunidade. Seguiu os seus passos e abriu a porta sem maiores dificuldades.
Dentro, tudo mudou. Ela não apareceu na pequena sala de estar que possuíam — o primeiro cômodo da casa —, mas diretamente no quartinho onde estavam. Michael havia trazido a menina para um cômodo onde, na cama, dormia um garotinho de mais ou menos 5 anos de idade.
— Quem é? — ela sussurrou, curiosa. Tinha os olhinhos brilhantes e um pequeno receio do desconhecido.
— É um amigo — ele sussurrou, em seguida a puxou para mais perto e pôde conversar com mais franqueza. — Helena, ele vai ficar com a gente por um tempo, tudo bem? É só até eu conseguir um lar. Ele estava sofrendo muito no lugar em que estava…
A menina ponderou um pouco.
— Tipo… tipo eu? Eram malvados com ele, como o papai era comigo?
— Shh — ele acariciou a bochecha esquerda da menina, deslizando delicadamente o dorso da mão sobre a pele dela. — Esqueça aquele homem. Nós estamos juntos agora. Nós, e o nosso novo amiguinho. E, quem sabe, apareçam mais pessoas? Vamos ser muito felizes aqui, eu prometo.
Anelise ficou ali, estagnada, admirando aquela cena e absorvendo cada lembrança como se fosse a primeira vez. Então, deu uma olhada à sua volta e percebeu que, embora pouco dotada de dignidade, a sala remetia ao quarto de brinquedos que havia encontrado momentos antes da briga. E as palavras que ele proferiu como promessa eram a pista do que se repetiu nos anos seguintes: os risos infantis pela casa, o avistamento do garotinho com os mesmos olhinhos verdes do filho do barão acompanhado de outra família, o quarto de brinquedos e as distrações, tudo agora fazia sentido.
Ela foi o estopim para tudo aquilo.
"As pessoas dizem que eu não sou normal
Por amar coisas tão elementares
Tem sido o meu destino tentar compensar
A infância… que eu nunca tive"
Mas aviso algum poderia prepará-la para a última lembrança de que teve acesso.
A voz embargou seus pensamentos mais uma vez. Foi tragada para outro lugar, para uma casa. Era uma casa diferente, era uma memória completamente desconhecida, pois nunca teve sequer uma faísca de recordação daquele momento. Olhou ao redor por alguns instantes e percebeu se tratar de uma casa de classe média: paredes pintadas de vermelho, decoração de madeira e ouro, o patrão tinha um gosto refinado. Caminhou por mais um tempo, sabia que, não importava para onde fosse, aquele lugar faria questão de levá-la até quem deveria assistir.
E assim foi. Encontrou Helena. Tão pequena, frágil, encolhida, e com medo. Anelise não a viu, mas sentiu sua presença e o temor em seu coração ao se aproximar da cozinha do lugar. Era uma porta marrom entreaberta, as paredes do interior tinham as cores claras, diferentemente dos outros cômodos, e era exatamente pelos tons brandos da sala que ficou evidente o que havia acontecido ali: sangue. Sangue para todos os lados. Anelise, mesmo que não participasse fisicamente daquela recordação, sentiu o horror daquela cena ao contemplar o balcão, as panelas e os talheres abarrotados de sangue, como se tudo fosse parte dos preparativos de um repulsivo jantar.
Lentamente abriu a porta e, assim que adentrou, percebeu que a situação era pior do que parecia. O que quer que Michael tenha feito, o fez com brutalidade, com ódio, sentimentos que jamais imaginou terem espaço em coração tão amável como aquele. A cada passo, tinha acesso à imagem de partes de um crime que não conseguia mensurar. O que era um homem, ali, já não existia mais, já não parecia mais. Era disforme, era nauseante. A panela posta sobre o fogão fervilhava um líquido espesso e de cor indefinida, que se misturava ao sangue e a algumas cartilagens. Músculos eram perceptíveis, ainda havia um pouco de pele. Não teve sequer o trabalho de despir, era notável uma ou outra joia no que tinha o formato de um dedo. A ruiva levou a mão à boca, sentia que ia seriamente vomitar, mas algo conseguiu lhe tirar a atenção daquela cena de terror.
Helena estava encurralada. Com os cabelos desgrenhados, o peito arfando em medo, os olhos arregalados quase saltando das órbitas, a respiração oral desenfreada e os lábios levemente entreabertos, eram os puros e genuínos sinais de pavor. Michael estava logo à sua frente, com pouco mais de 1 metro de distância. Tinha uma faca de açougue, e todo o sangue no seu corpo revelava a sua real culpa. Todavia, fora pego, e pela pessoa que muito tentou esconder a sua pior aparência.
— Helena… Helena, eu… eu não queria… que tivesse visto…
Não fazia ideia do monstro que havia se tornado até olhar para aqueles lindos olhinhos azuis e inocentes, e ver como os seus atos tocaram o coração da pessoa por quem mais zelava. Ou assim acreditava. Ele a amava, a amava com tudo o que era, mas não podia negar para si mesmo que, se a amasse de verdade, não teria deixado a situação pender para esse desfecho. Se a amasse de verdade, pensaria na decepção e no medo que traria à sua alma doce e infantil se visse tais barbaridades.
Todavia, se não a amasse de verdade, não sacrificaria todas essas coisas para protegê-la.
— Eu fiz isso… para cuidar de você…
Ele soltou a faca, e o barulho do metal tilintando violentamente ao chocar-se com o chão acabou por assustar a menina, que piscou uma vez e encolheu-se ainda mais, na parede, sem emitir nenhum som.
— Eu te amo. Eu nunca machucaria uma pessoa inocente, Helena. Eu… eu nunca… Eu sei… que eu sou um monstro — ele começou a chorar. Ajoelhou-se, levou as mãos ensanguentadas para o rosto e cobriu-se de vergonha. — Mas eu fiz isso pra te proteger. Essas pessoas más… o seu pai… o homem que deveria cuidar de você… eles te machucaram, eles machucaram crianças. O meu pai me machucou. Nós… nós não merecemos isso, Helena.
Era tanto para uma garotinha assimilar. Pouco a pouco, aquelas palavras ecoavam na mente da ruiva como se retornassem para o seu consciente, para o lugar de onde não deviam ter saído. Cada palavra daquela, da menor para a maior, da menos para a mais impactante, marcaram a sua vida como uma cicatriz profunda e irreparável. E agora, ela estava se lembrando.
Entregou-se às lágrimas silenciosas, diferentemente de sua pequenina, mais expressiva, mais verdadeira, que chorava baixinho e apertava os olhinhos de aflição.
— ... não… não entendo… Você vai me machucar?
— Nunca. Nunca te machucaria. Eu te amo — ele lentamente abriu os braços, queria abraçá-la, mas sabia que as chances de acontecer eram irrisórias. Ainda sim, com lágrimas nos olhos, tentou. — Eu te amo muito, muito mesmo. Eu…
Ele pensou se deveria falar, mas a euforia do que havia acabado de fazer e o seu pensamento transtornado e infantil não permitiu ponderar por muito tempo. Confiava cegamente na menina, mesmo que esta fosse apenas uma criança.
— … eu cortaria os meus pulsos… se machucasse você de alguma forma.
Helena não reagiu, sua face havia estagnado na expressão melancólica que fez ao indagar o rapaz. Pensou por alguns instantes, sem tirar o olhar do seu. No fim das contas, aquela frase absurda para ser dita a uma criança passou despercebida pelo seu cérebro já assombrado por tantos outros traumas.
— … Você promete?
— Eu prometo.
Ele sussurrou. Por fim, depois de alguns segundos de silêncio, a garotinha cedeu e se aproximou, o abraçando como ele pediu. Michael levou as mãos sujas de sangue aos lindos cabelos alaranjados dela: os afagou e os manchou com a impureza do seu crime enquanto seu olhar se mantinha fixo para a parede, onde havia respingos por toda parte como uma arte abstrata.
— Vamos embora… e não vamos falar sobre isso. Somente sobre coisas boas.
Ele sussurrou, recebendo o consentimento dela. Segurou-a no colo e empurrou carinhosamente sua cabeça para o ombro, escondendo seus olhos, a impedindo de ver o resto da cena desprezível mais uma vez
Anelise soltou um longo suspiro. Queria despertar daquele inferno a qualquer custo, no entanto precisava ver outras coisas, aquela outra realidade paralela ansiava para que ela visse mais.
Os viu passar pela mesma porta que entrou, e os seguiu. Já estava em outro lugar. Era um quartinho velho, voltaram para a comunidade. Ele a limpou com um pano umedecido em água quente — devido às baixas condições climáticas —, a colocou na cama e lhe deu um beijo de boa noite na fronte. Seguiu para a cama e foi dormir, mas não demorou muito para que ouvisse gritos ecoarem desesperadamente do quartinho dela. Michael se levantou no mesmo instante e colheu a faca jazida por debaixo de seu travesseiro improvisado. Correu como se sua vida dependesse disso, entrou no recinto com sede de matar, porém não havia nada anormal ali, senão a ruivinha debatendo-se como se estivesse sendo asfixiada.
— Helena!
Ao ouvir o seu chamado, ela despertou. Suava muito, a pele cintilava, o peito arfava e as expressões eram dolorosas de se perceber. Ela estava cansada e abatida.
— O que foi?
— Eu… eu tive um pesadelo.
Ela murmurou, em tom choroso. Michael suspirou, repousou o objeto cintilante na cômoda velha ao lado e se aproximou dela, que estava encolhida nos lençóis.
— Quer dormir comigo?
Ela negou freneticamente, algo que era novidade em seu comportamento. Ele arqueou a sobrancelha.
— Com o que você sonhou, Helena?
— Sonhei que você me matava — murmurou, sem nenhum sentimento de culpa. — Sonhei que você pegava a faca e me matava várias vezes.
Aquelas palavras o surpreenderam da pior maneira possível. Não teve reação por alguns instantes, não sabia como iria responder aquilo, não sabia sequer o que falar. Ele era um homem machucado e destruído, e Helena havia consertado muitas coisas dentro do seu coração, mas aquela afirmação — do principal às entrelinhas — havia dilacerado o que quer que ainda estivesse inteiro lá dentro.
— Eu não vou matar você.
Helena não respondeu, apenas olhou para a faca que estava no móvel próximo à porta, e ele entendeu onde ela queria chegar.
— Eu achei que você estava em perigo…
— Eu sei que você dorme com a faca na cama.
Ele congelou mais uma vez.
— Como… como você sabe?
— Eu sei porque, um dia, quando você demorou pra chegar em casa, eu fui brincar lá e achei — ela ficou em silêncio. Refletiu sobre se deveria falar mais, todavia, criança funcionava de uma maneira diferente, e, por não ter sido repreendida nenhuma vez, acostumou-se a falar a verdade na sua frente, custe o que custasse. — Você vai me matar com essa faca.
— Eu não vou… eu já disse que não vou te machucar, eu prometo.
Disse novamente, mas sabia que ela não acreditaria mais. Estava assustada, com medo, porém ainda era uma criança, e era questão de tempo até que a confiança fosse restabelecida. Afinal, ele estava certo ao dizer que a conhecia, e que ela era ingênua, inocente. Sabia que ela ainda o amava. Ele tinha esperança.
— Bom… como foi um alarme falso, vou ficar acordado um pouco. Pelo menos até nos certificarmos de que estamos seguros na casa, não é?
Ele sorriu e se levantou, queria passar leveza e tranquilidade, todavia, ao se aproximar do móvel e pôr a faca de volta à cintura, virou-se e teve a certeza de que ela jamais o perdoaria, pois manteve-se alerta, ainda o encarando, ainda de ombros rígidos. Michael suspirou uma última vez, realmente cansado.
— Vou fazer um lanche. Tá com fome?
— Não.
— Tudo bem. Me chame se precisar, certo? Vou deixar uma velinha aqui, assim você não fica no escuro.
Ele se retirou para buscar a vela, e, a partir daí, Anelise não conseguiu acompanhá-lo, pois não tinha lembranças da sua ida à cozinha. Helena, ainda com medo, apenas criou coragem para segui-lo alguns minutos depois, quando a vela que ele havia deixado em seu quarto estava um terço desgastada. A menininha, um pouco anestesiada com tudo o que já havia vivenciado, calçou seus sapatinhos de pano, feitos por ele para aquecer os seus pés, e seguiu para fora do quarto, a fim de ficar ao seu lado. A pureza de uma criança tão pequena era algo inexplicável, pois, ainda sim, queria o conforto do seu colo. Anelise a seguiu e parou quando viu a garotinha espiar pela brecha da porta da cozinha. Michael estava lá, com o olhar vago e vazio, e a mente atormentada por tudo o que havia feito para ela. Em pé, diante da mesa de madeira, uma única vela a iluminar o lugar, as janelas fechadas e um pedaço quase findo de manteiga por perto, Michael estava a passar o alimento no pão seco com uma faca de serra que possuía. Anelise o olhou com atenção, assim como Helena, que compartilhava do mesmo interesse. Olhou bastante para suas mãos, o suficiente para perceber as cores quentes da iluminação muito se esforçando para ofuscar o vermelho do sangue que saía dos seus braços, dos cortes feitos nos pulsos pela pequena faquinha de serra, e para ofuscar os respingos escarlate na manteiga.
— Michael…
Anelise murmurou. Sentiu um nó na garganta, os lábios tremerem, jamais imaginou que ele chegaria a esse ponto de culpa. Tentou se aproximar do homem daquela memória, mas apenas ganhou uma vertigem severa por estar manipulando excessivamente os próprios pensamentos.
Gritou, e percebeu o ambiente mudar mais uma vez para um quarto muito iluminado de velas coloridas e brinquedos variados. Já não suportava aquelas memórias, queria voltar para casa e vomitar tudo o que não tinha no estômago, porém, sentia em seu coração que aquela seria a última lembrança que precisava ver, pois o seu eu estava numa cama, e o seu amado, defronte de um piano.
— Você vai me matar?
— Não. Não vou. Eu… vou salvar você. Com a nossa canção, se lembra? Não fique com medo, apenas durma e vai dar tudo certo.
A menina aquiesceu e tentou relaxar, embora ele soubesse que isso custaria tempo. Helena segurou uma bonequinha com muito afinco, juntou as duas mãozinhas no cobertor, o puxou para aquecer-se completamente e fechou os olhos. Michael a observou de soslaio, notando cada trejeito seu e guardando em seu coração, pois tinha consciência de que seria a última vez que a veria. Ele a perdeu, e fora sequer por razão de outra pessoa. Ele a perdeu por razão de si próprio.
Suspirou.
— Um… dois… três.
Iniciou a melodia suave de um piano. Anelise reconheceu as primeiras notas, e então, quando tudo findou, viu aquele homem na sua frente se transformar no amado que conhecia, de cabelos longos e pele clara, ainda de costas, a tocar o instrumento. Chorando, sem permiti-la ver as suas lágrimas, ele finalizou a canção.
"Antes de me julgar…
Tente me amar…
A juventude dolorosa que eu tive.
Você viu… a minha infância?"
No término das últimas notas, levou as mãos ao colo e esperou pela reação dela. Ainda sem olhar em seus olhos, apenas sentindo todo o peso de seu coração, Michael deixou que sua pequena Helena retornasse para o corpo de Anelise, mesmo com os traumas, com a dor da verdade e com a desilusão. Ela, por outro lado, estava sobrecarregada. Sua mente pesou, a expressão em seu rosto era indistinta e a canção de ninar que a fazia sorrir, subitamente, se tornou a pior melodia da Terra.
Ajoelhou-se e, então, sentiu a mente entrar em pane. O escuro veio imediatamente, os neurônios estavam desgastados, o corpo entrou em curto circuito e ela rapidamente apagou.
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