O Bailarino

2 Baile da Noite - Parte I


Notas iniciais
Ooi, gente, obrigada pelo engajamento no capítulo anterior! Fiquem com mais um capítulo e boa leitura ♡ ♡ ♡

Quarto de Sofia, Casa dos Marlborough – 11:42 hrs

O bailarino.

Já ouviu aquele título antes. O artista que havia encantado a todos no cortejo de finados do ano passado. Anelise não tinha presenciado, ficara de cama. Boatos circularam pelos corredores daquela casa e diziam que aquele homem conseguiu levar consigo todas as lágrimas dos parentes mais próximos do falecido, apenas com intermédio de sua arte maravilhosa. Seus movimentos eram de estranha sutileza, seu corpo contorcia como uma onda, como se estivesse sendo conduzido pelas mãos do próprio Deus.

Obviamente, Anelise não acreditava em nada daquelas bobagens… não até que ela mesma presenciasse, e, finalmente, aquele dia havia chegado.

— Apenas um bailarino?

— Não, mamãe. Não "um". "O" bailarino! Aquele que não precisa de companhia para dançar! Eu quero ele!

Sim, aquilo era intrigante, Anelise ouvira que o homem havia atuado sozinho. Era estranho imaginar um bailarino sem a sua parceira. Acreditava que, no balé, os homens serviam apenas para ajudar a dar ainda mais ênfase às performances das mulheres. Dificilmente um dançarino de trajes discretos chamaria mais atenção que uma moça de tutu cintilante.

— Entendi. O que esteve na reunião de finados. Eu vou providenciá-lo para hoje, minha princesinha! Feliz aniversário!

A mulher depositou um beijinho na fronte de sua filha e se retirou, sem notar Anelise a espreitar a brecha.

— Hum? Onde esteve? Troque de roupa, daqui a algumas horas os seus parentes chegarão.

— Sim, mamãe.

A mulher suspirou discretamente e se aproximou da garota, levou sua mão ao rosto dela, fez um carinho em sua bochecha, em seguida beijou também a sua fronte.

— Cuide da sua irmã, tudo bem? Me promete isso?

— Prometo.

Matilda sorriu e, por fim, afastou-se, seguiu em direção à porta. Saiu.

— Irmã?

Sofia veio logo após.

— Ouviu a conversa?

— Sim… vai chamar "o bailarino misterioso", não é?

Logo, a euforia pareceu tomar conta da menor mais uma vez. Com alguns pulinhos e palminhas, ela exibiu sua inquietude.

— Sim! O que eu vi naquele dia foi coisa de outro mundo, irmã, você precisa ver!

— Eu espero que seja melhor que ter que te suportar abrindo os presentes.

Provocou, arrancando uma gargalhada contagiante de sua irmãzinha.

— É muito melhor! Até porque… é um bailarino, não é?

— O que tem?

Sofia revirou os olhos.

— Ah, irmã, nem parece que você é mais velha! Por favor! Um bailarino… trajes justos… corpo musculoso…

— Sofia!

Exclamou a ruiva, surpreendida pela maturidade da sua irmã menor. Sofia estava crescendo mais rápido do que ela esperava, ou, talvez, ela própria estivesse parada no tempo. Anelise suspirou, temia ser a segunda opção.

A menor cortou seus pensamentos.

— Você verá quando ele chegar! Agora eu vou me trocar, mamãe disse que os nossos primos e tios virão nos ver.

— Sim, também preciso ir.

Murmurou a garota, enfim saindo, deixando Sofia só. Anelise estava pensativa… não pela visita dos parentes ou pela atração extravagante da noite, mas pelo futuro incerto que a aguardava. A queridinha dos pais está crescendo, está se tornando moça, está interessada em rapazes e, brevemente, em casamento. Quando ela se for, os olhares, enfim, se concentrarão em si própria? Ela, enfim, deixará de ser apenas a "babá" de sua irmãzinha?

Tentou não se estressar com essas coisas. No fim das contas, aquele dia não seria diferente dos outros: Sofia seria o centro das atenções, e Anelise, a sua sombra.

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Quarto de Anelise – 18:24 hrs

Aquela reflexão perturbadora não saía de sua mente.

Enfurnada em seu quarto, com apenas a empregada a perambular pra lá e pra cá, Anelise se admirava no espelho de sua penteadeira. O vestido vermelho vinho exibindo a sua maturidade, o desespero de sua mãe por desposá-la logo, destacava-se em sua pele pálida e a lembrava o tempo todo para onde o seu destino apontava.

Suspirou, até que a empregada retornou com algumas joias. Começou a enfeitar a menina com as mais discretas, não queria transformá-la numa meretriz. Anelise apenas mantinha-se em silêncio, observando sua aparência rebelde se transformar. Os cabelos ruivos e bagunçados, agora, eram um coque perfeitamente posicionado e adornado com uma fitinha rosa, os olhos azuis e as bochechas rosadas lhe traziam um ar inocente, os brincos discretos de pérola diziam que ainda era solteira.

Tudo estava em harmonia por fora.

— Está linda, senhorita!

Disse-lhe a empregada, sorrindo. Anelise devolveu o gesto e se levantou.

— Espero que essa noite não perdure…

E, após isso, saiu.

O baile de aniversário começou instantes depois. A casa era enorme e estava cheia. No salão principal havia parentes, amigos próximos e alguns desconhecidos que, sem dúvida, não passaram despercebidos pelos patrões. Certamente era obra de sua filha mais velha, mas era tarde demais para se fazer alguma coisa, seria constrangedor "desconvidar" alguém.

Anelise rapidamente correu para o lado de Sofia.

— Atrasei?

— Não muito… Uau, você está linda! Sabe, irmã, mesmo velha, é capaz de você conquistar alguém!

A ruiva gargalhou.

— Não antes de você, parece uma princesa real! Pelo menos mamãe não está te fazendo passar vergonha com um vestido colorido.

— Ah, não se estresse por isso. Tem um monte de outras mulheres vestidas com cores extravagantes na festa.

— Hunf, todas velhas…

Sofia moveu os ombros, não podia negar. Buscou mudar de assunto, mas não precisou ir muito longe, a monotonia da festa não durou muito tempo. Assim que os convidados socializaram e os empregados já serviram as taças, as luzes gradativamente se apagaram.

— Sente-se, Sofia! Anelise, fique ao lado dela! As atrações de aniversário vão começar agora!

Exclamou Matilda, disfarçando o máximo que pôde com os seus modos de condessa, mas não poupando a firmeza da voz de uma mãe. Sofia prontamente correu para sua cadeira, e Anelise logo sentou-se ao seu lado.

— O primeiro é o bailarino?

— Sim, sim, sim!

Sussurrou a menor, eufórica. O público abriu espaço, todos com uma taça de champanhe nas mãos, curiosos sobre o que ia acontecer ali. No enorme salão, apenas o lustre central permaneceu aceso e intocado, iluminando o centro da pista.

Ali, solitário, estava ele.

O bailarino.

A ruiva o analisou rapidamente, antes que sua performance iniciasse. Era um homem de belo porte, aparentemente alto, postura ereta, peito estufado, braços para trás e rosto levemente abaixado.

Não conseguia ver o seu rosto com muita nitidez, mas era um homem de traços delicados. A pele absurdamente pálida, os lábios levemente avermelhados, os cachos escuros e perfeitamente modelados caindo sobre os ombros, o maxilar e as maçãs perfeitamente esculpidas, e, por fim, o olhar sereno a fitar o chão, os cílios arrebitados que destacavam-se em suas pálpebras, e a maquiagem preta que rodeava seus grandes olhos e realçavam-os por completo.

Anelise ficou em silêncio.

— Eu acho ele bonito.

Sofia sussurrou. A ruiva abriu um leque e disfarçou.

— Dançarino, cabelos longos e de rosto pintado… deve ser sodomita.

— Eu não sei o que é isso, mas eu acho que ele deve ser francês, na frança esse estilo é bem comum.

— Depois não diga que não avisei.

Murmurou Anelise, rindo baixinho pela inocência da irmã. Aquele dançarino misterioso havia lhe dado ideias para muitas outras conversas, porém, não conseguiu seguir em frente com o papo quando viu aquele par de olhos negros como a noite levantarem na direção de sua irmã. O olhar foi para Sofia, afinal, era a aniversariante, mas Anelise sentiu-se profundamente intimidada, como se aqueles olhos, de alguma forma, estivessem escondidos nas profundezas do seu inconsciente. Sentiu como se aquele olhar fosse direcionado especificamente para ela.

E então, alguém passou a tocar o piano. Era uma melodia agradável: Liebesträume No.3, de Franz Liszt.

Logo após a primeira nota, os passos se iniciaram. Naquele instante, todos voluntariamente ficaram em silêncio.

Não foi necessário um pedido, uma súplica, uma apresentação prévia. Quem pôs os olhos naquele homem não conseguiu desviar, não conseguiu transferir sua atenção para outro ponto. Talvez fosse esse o motivo de toda a euforia da pequena Sofia, talvez fosse essa a emoção que ela sentia — e não conseguia explanar — quando estava sob o feitiço dos passos daquele exímio dançarino. Não, Anelise não sabia, mas tinha quase certeza que o que estava sentindo naquele momento era totalmente diferente.

Ao contrário dos seus companheiros de plateia, ela não estava hipnotizada, perdida no meio daquela dança. Não… ela sabia dos passos. Ela sabia das notas. Seu cérebro concentrava cada arte e decodificava em palavras, como se ela estivesse em uma sala de aula. E aquilo de forma alguma a impedia de desfrutar daquela apresentação que havia lhe arrancado a voz.

Acidentalmente deixou o leque cair. Resvalou de seu colo até o chão e sumiu pela barra de seu vestido. Seus olhos se concentraram nas pernas e nos pés daquele homem, em seus movimentos sutis. Ela quase se sentia instigada a repeti-los.

Ele até podia ter ensaiado, mas não existia coreografia para aquela melodia específica. Era perceptível como o seu corpo conversava naturalmente com a música, como se cada movimento fosse a letra daquela canção sem palavras, como se tudo aquilo originasse de sua alma, não de um treino árduo e técnico. Anelise entendeu dessa maneira quando viu o seu corpo bailar em sintonia com a escala cromática de do a mi, quando Liszt — na composição — desliza os dedos pelos teclados de cores neutras em uma técnica e domínio invejáveis.

A cada terça, uma pirueta. O corpo falava com cada nota.

— Double pirouette, double pirouette. Une, deux, une, deux…

Inconscientemente sussurrava. O bailarino girou algumas incontáveis vezes, com maestria, até o seu corpo treinado perfeitamente repousar e finalizar a sua performance.

Assim que o piano cessou, a plateia parecia ter retornado de seu transe.

Todos aplaudiram. Sofia se levantou, encantada, e acompanhou os convidados na reação. Anelise permaneceu em seu lugar, continuou a olhar para aquele homem, que a ignorou completamente, recebeu os aplausos com uma inclinada formal e se retirou, sem mais exibições.

— Antes de nossa próxima atração, por favor, bebam, dancem e se divirtam!

Anunciou o conde Herder, e logo outra música iniciou. A euforia, aos poucos, deixou os pensamentos das irmãs de Marlborough, que ainda arfavam com o que haviam acabado de presenciar.

— Nós… estávamos conversando sobre alguma coisa?

Indagou Sofia. Anelise não respondeu, não sabia, o que quer que estivessem falando antes da apresentação, já não se lembrava mais. Ela suspirou e apertou os apoios da cadeira com os seus dedos frágeis.

— Eu vou vomitar…

— Eca! Se vai mesmo, então volta pro quarto. Não quero que nada estrague a minha festa.

A ruiva lentamente se levantou, as pernas ainda estavam bambas, mas ela as forçou a seguir os seus comandos, precisava sair daquele salão o quanto antes.

E, é claro, sabia que não seria fácil.

— Madame de Marlborough!

Brincou Thomas, logo avançando em seus braços, posicionando-a para uma dança. Ela estava tentando atravessar o salão para chegar ao corredor de seu quarto, mas já notou que precisaria ser mais discreta que aquilo se quisesse realmente sumir daquela festa.

— Não abusa, Thomas, eu não quero dançar!

— Ora, não foi você que me convidou para "desencalhar" a sua irmã? Não pensa realmente que eu iria conseguir sozinho, não é?

Ele a fez dar um rodopio e, em seguida, tornou a segurar sua cintura.

— Você não vai conseguir conquistar nem a minha avó com essas roupas de maltrapilho.

— Você me deu cinco moedas para almoçar. Acha mesmo que eu iria comprar roupas novas?

Anelise suspirou.

— Acho que eu posso fuçar nas coisas dos meus primos que estão passando o dia aqui, em casa. Eles não vão dar por falta de uma peça.

— Você é sempre tão bondosa, vai ser uma excelente condessa, hein?

— Não vem não, detesto bajulador — disse ela, não conseguindo segurar uma risada. — Me espera no corredor, eu preciso passar no quarto antes. Volto com as roupas novas.

— É pra já, senhorita!

Os dois disfarçaram mais um pouco até estarem próximos o suficiente do corredor para o quarto de Anelise. Ela o deixou esperando bem na entrada e seguiu adiante, passando pelas diversas portas e janelas que havia ali.

— Ta nana na…

Cantarolava a música do salão, enquanto caminhava. Aproveitou que estava sozinha e ajeitou o corpete sob a roupa, levantou mais os seios, precisava admitir que era um vestido excitante, embora não tivesse a intenção de provocar.

— Hum, mamãe… o feitiço virou contra a feiticeira.

Ela brincou, rindo baixinho, mas a vergonha bateu-lhe ao mesmo tempo que o susto tomou conta do seu coração quando viu, não muito longe, alguém a admirar uma das grandes janelas que enfeitavam os corredores. Um homem.

Notas finais
Próximo capítulo: Ainda com as mãos nas dela, a puxou carinhosamente para perto. Ao notar, Anelise prontamente se afastou. — Não — murmurou, em seguida pigarreou — … Eu sou uma… uma dama solteira. Eu não devia nem estar falando contigo. Novamente ele não reagiu, nada nas palavras da ruiva realmente o pareciam abalar. Tornou a puxá-la para perto de si, dessa vez com maior delicadeza [...] Deixou que ele a conduzisse até estarem próximos o suficiente. Desconhecia suas intenções, mas tinha a suspeita de que aquele seria o seu primeiro beijo. [...] Contudo, ao contrário do que pensava, o bailarino não tinha pressa alguma. Segurou suas mãos e as guiou até o próprio corpo. Anelise congelou [...]