Notas iniciais
Boa leitura!

Há mais de três séculos o primeiro antepassado Alpha dos Nara foi salvo da morte por um membro real do clã Hyuuga ao chegar em Satis. Esse parente distante fez um pacto com o rei daquelas terras: prometeu que todos os seus descendentes, em especial os nascidos na casta a qual ele pertencia, zelariam pela segurança do governante e de toda sua progênie, até o fim dos tempos. Nascia assim o primeiro hachiko do Egito…

— Papai falta muito?

Shikaku sorriu diante da impaciência do filho. O líder dos hachikos e braço direito do rei Hizashi não podia esperar que um shifter de apenas cinco anos pudesse absorver toda a magnitude contida na história que acabara de ouvir. Shikamaru estava ansioso demais para iniciar seu dia, escutar uma lenda repassada há séculos por seus ancestrais não mudaria isso.

— Espere só mais um instante meu filho… — Shikaku abotoou o último botão da farda de gala do pequeno Alpha. Seu menino estava uma graça, todavia não fazia a menor ideia da grande responsabilidade que estava prestes a assumir daquele dia em diante. — Pronto, rapazinho.

Ao olhar para si, Shikamaru arregalou os olhos de puro encanto. Sua farda era igual a do seu pai!

— Agora sim! Meu pequeno Alpha é o hachiko mais bonito de toda Satis.

— O mais bonito?

— Sim, o mais bonito!

‒ Meu Ômega irá gostar de mim?

Pela primeira vez desde que acatou a ordem do rei Hyuuga, que consistia em preparar seu filho unigênito para ser o Hachiko do herdeiro real de Satis, o general sentiu algo diferente de orgulho em relação a seu pequeno Alpha. A forma como Shikamaru referiu-se a Neji, o preocupou. Não que existisse qualquer teor de maldade contido naquelas inocentes palavras, pelo contrário, a naturalidade com a qual a frase foi proferida que lhe fez acender o alerta. Abençoados por Hathor, a deusa do amor, da beleza, alegria e fecundidade, nascer um Ômega numa das famílias reais, era um sinal auspicioso. Um motivo de grande celebração para o povo, em especial em um clã como o Hyuuga, que há mais de trinta anos não tinha um shifter desta casta como descendente direto da família principal. Certamente Hizashi teria muitos planos para seu rebento no futuro, e estes deveriam incluir um casamento centrado na realeza, não com um reles plebeu, por mais honrado que este fosse.

‒ Sim, ele irá gostar muito de você. — Shikaku ergueu-se da cama e segurou a canhota do filhote. Desde que Hyuuga Neji nasceu, Shikamaru estava sendo preparado para ser seu hachiko pessoal. Uma responsabilidade que ele jamais confiaria a outro shifter que não fosse seu garoto. — Hora de irmos, guardião do príncipe. É hora de conhecer seu pequeno Ômega…

Aquela lembrança que invadia sua mente lhe enchia de forças, ainda mais por estar naquela masmorra imunda, era mais que bem-vinda! Shikamaru jamais esqueceria a primeira vez que viu Neji. Ele era o shifter mais perfeito que o Alpha já tinha visto em toda Satis. O Hachiko podia passar horas admirando-o que jamais cansaria. Os anos se seguiram e sua admiração pelo príncipe do Norte só fez crescer e amadurecer, até o dia em que Shikamaru compreendeu que o que sentia não poderia ser reduzido a simples apreço, no entanto, sempre soube seu lugar e manteve em segredo o que sentia, até o dia em que Neji disse que o sentimento que havia em seu coração era recíproco.

— Não pensei que receberia sua visita num dia tão importante como este. — Embora lhe doesse a face, devido aos ferimentos em seu rosto, ao sentir uma forte presença do lado de fora da cela onde se encontrava, Shikamaru abriu os olhos e sorriu sarcástico. — Afinal é o segundo dia de festejos do seu enlace.

Tomado de desprezo, Hidan, que estava acompanhado de Momoshiki Ōtsutsuki , olhou-o de cima a baixo. Havia uma nobreza na aura de Nara Shikamaru que o Ōtsutsuki viu em poucos monarcas. Mesmo estando numa masmorra fétida e sua aparência não sendo das melhores, considerando as lacerações visíveis em seu corpo, era notório que o homem atrás daquelas grades pertencia à casta tida como a mais poderosa na hierarquia shifter. Sua postura altiva e olhar desafiador não era apenas questão de casta. Era só observá-lo com atenção e até quem não o conhecesse veria o grande líder que aquele Hachiko nasceu para ser. Não lhe surpreendia que Hizashi confiasse a vida de seu único filho a um homem assim.

— Mesmo sendo educado por grandes mestres, não lhe ensinaram o básico: um escravo como você deve se comportar como tal e desviar o olhar para o chão, estando diante de seu rei e do general do exército, afinal estes shifters estão num nível superior ao seu. — Momoshiki deu um passo à frente e falou com arrogância.

— Escravo? — Debochado, Shikamaru continuou a sorrir. — Diante de um rei e um general, sim, até mesmo um Hashiko como eu deve desviar o olhar, contudo, não vejo à minha frente um rei, muito menos um general, apenas um usurpador e um oportunista!

Momoshiki olhou com desdém para os pés e as mãos de Shikamaru, onde jaziam grilhões e correntes e gargalhou.

— A era dos hachiko findou-se juntamente com seu pai, quando, após a queda de Satis, o corpo dele foi descartado junto aos corpos de muitos de seus leais cães de guarda em uma vala comum.

— Desgraçado! — Irado, Shikamaru avançou sobre o ex-hachiko, mas as correntes e os grilhões não foram os únicos a impedi-lo de chegar ao outro, as grades fizeram Shikamaru parar a um passo de Momoshiki. Uma das maiores tristezas do Nara era o fato do Ōtsutsuki , a quem seu pai adotou como um filho, ter culpa em sua morte. Pensar no carinho com o qual seu genitor falava, orgulhoso da evolução que aquele canalha mostrou ao longo dos anos de treinamento…

— Farei com que pague por sua traição a meu pai e meu rei, e não somente a ti. — Nesta instante, Shikamaru dirigiu o olhar para Hidan, que estranhamente permanecia em silêncio até aquele momento, apenas acompanhando a interação dos dois.

— Deixe-me a sós com o prisioneiro, general! — O faraó ordenou a Momoshiki, que se inclinou e na sequência deixou a masmorra.

Por alguns minutos, Hidan ainda continuou encarando Shikamaru em total silêncio.

— Há alguns anos, durante o baile de apresentação do herdeiro do norte, você não me passou despercebido. Em meio a tantos hachikos que faziam a guarda de Hyuuga Neji, sua presença se destacava devido ao sentimento de posse que direcionava ao herdeiro do trono. Contudo, pensei que um simples soldado jamais poderia ser páreo a um pretendente real, mas naquele dia esqueci de algo de suma importância. Ômegas são seres burros. Na maioria das vezes fazem escolhas pautadas na emoção.

Orgulhoso, Shikamaru ergueu o canto dos lábios, mas Hidan o imitou.

— Momoshiki descobrir seu paradeiro há uma semana do meu casamento, não foi surpresa para mim. O que me surpreendeu, foi o fato dele ter posto correntes em suas mãos e pés tão facilmente.

De fato, Hidan tinha razão. Shikamaru jamais se deixaria prender tão facilmente se este não fosse seu plano desde o início. Assim que foi obrigado a deixar Satis, ele, Chouji e Asuma foram para a Líbia, a intenção dos três era conquistar aliados entre os herdeiros reais do Egito. Todavia, Uchiha Itachi e Aburame Shino, filhos dos saudosos Fugaku e Shibi, já estavam estruturando uma insurreição com a ajuda dos governantes de seus anfitriões, que além de não apoiar as atitudes de Hidan, não queriam que o faraó dominasse ainda mais territórios no futuro.

— Seus dias como faraó do Egito estão contados! — Shikamaru estava imenso em ódio.

Hidan encarou-o de modo estranho e um alerta instintivo foi ativado em Shikamaru. O faraó estava calmo demais para alguém que sabia estar sob a ameaça de uma revolta.

— Audácia…— Hidan soou enigmático. — Foi essa bravura indômita e territorialista pertencente apenas aos Alphas, que no passado denunciou seus sentimentos pelo príncipe de Satis. — O faraó exalava desprezo pelo hachiko. — É a mesma coragem in natura e destemida que o príncipe projetou contra mim essa manhã durante minha visita, quando quis reivindicar meus direitos de cônjuge.

Shikamaru arregalou os olhos ao compreender o que o faraó queria lhe dizer com aquela conversa.

— Você não sabia, não é mesmo? Partiu antes que seu amado descobrisse sobre o bastardo. — O faraó gargalhou alto diante ao silêncio do outro. — Pois é, talvez essa informação lhe ajude pensar melhor no que pretende fazer nas próximas horas.

Hidan terminou de falar e seguiu para as escadas, deixando para trás um atônito Shikamaru, que ainda digeria tudo que ouviu.

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— Te amo!

De olhos fechados, enquanto apreciava a brisa do final de tarde que pairava sobre si, Shikamaru saboreou as palavras que haviam sido sussurradas em seu ouvido. Talvez o Hachiko estivesse apenas sonhando, no entanto, o contato com a pele quente de Neji revelava que tudo que vivia naquele instante era real.

— Também te amo. — Shikamaru confessou no mesmo tom. Deitado sobre a capa real do príncipe de Satis, às margens do rio Nilo, tendo o herdeiro deitado sobre seu peito nu, o Nara se sentia o homem mais feliz de todo o Egito. O hachiko sabia ser indigno de tocar o outro como havia feito há alguns minutos e que deveria manter segredo sobre isso, mas não resistiu. — Eu te amo, Hyuuga Neji! Príncipe de Satis, herdeiro do reino do Norte!

Tomado de felicidade, o Alpha anunciou ao vento, em seguida, após abrir os olhos o soldado real inverteu suas posições:

— Amo! Amo! Amo! — A cada exclamação Shikamaru deixava um beijo sobre os lábios do Ômega, que envergonhado gritou:

— Louco! — Neji tapou os lábios do Alpha, forçando-o a se calar. — Alguém pode te ouvir!

Neji o empurrou, mas Shikamaru estendeu o braço direito sobre a capa do outro e puxou o Hyuuga para que este acomodasse a cabeça em seu membro. Nus, príncipe e hachiko, passaram a observar o céu. O Egito estava uma loucura, Hidanheb havia tomado os reinos do Leste e do Oeste, assassinando os reis de ambas as regiões e condenando seus herdeiros a se exilar no país vizinho. Uma afronta imperdoável aos deuses. Hizashi, após saber que o exército do sul estava marchando para suas terras, arquitetou o contra-ataque.

— Amanhã, ao nascer do sol, Asuma, Chouji e eu levaremos você e suas primas para a Líbia a pedido de seu pai. Momochiki e meu pai ficarão aqui, guardando o castelo.

— Eu não quero ir, quero lutar ao lado de meu pai e do meu tio. — Neji confessou. O Ômega tinha uma angústia estranha em sua aura.

Shikamaru diria o mesmo, mas se conteve. Ele também não desejava partir, queria lutar ao lado de seu pai, no entanto era egoísta, temia pela vida de Neji, em especial após tê-lo em seus braços e saber que seu sentimento era recíproco. Assim que ele o deixasse na Líbia, em segurança, retornaria para lutar ao lado de seu pai.

— Sabe que isso é impossível. — Shikamaru não queria dizer aquilo, mas Neji tinha consciência de que se acontecesse algo com seu pai e com seu tio, o governo de Satis passaria para suas mãos, Hizashi estava certo de protegê-lo a todo custo.

— Eu sei.

Nos segundos de silêncio que se seguiram a fala do Ômega, Shikamaru olhou para Neji, que encarava o céu com um olhar perdido. O Alpha sentiu um aperto que lhe implorava para que ele registrasse cada detalhe do delicado rosto do Hyuuga, que acariciava o colar que ele havia lhe dar há alguns minutos. O futuro deles era incerto, bem como o destino do reino do Norte, mas no peito do Alpha nascia uma única certeza: quando retornasse da Líbia, embora ele fosse um mero hachiko, se ajoelharia diante de Hyuuga Hizashi e pediria a mão do príncipe herdeiro em casamento…

— Acorda calaceiro! — Chouji abriu os grilhões que prendiam seus pés, ao ditar a ordem. — Terás tempo para sonhar quando acabarmos com aquele usurpador desgraçado e com aquele traidor asqueroso.

— Por que demorou tanto? Ao que saiba, um defunto é capaz de percorrer longas distâncias num piscar de olhos. — Shikamaru sorriu e acariciou o pulso da destra assim que o outro hachiko o libertou por completo.

— Um defunto talvez, mas um homem do tamanho do Chouji, ainda tendo que se manter invisível, é mais difícil, quase impossível. — Sarutobi Asuma provocou, aparecendo logo atrás do Akimichi.

— É bom revê-los, meus amigos. — Shikamaru abraçou seus companheiros.

De fato, era bom ver ambos após a emboscada que sofreram na qual quase perderam a vida e foram dados como mortos, ocasião em que a mãe e a tia de Neji foram mortas, e o príncipe e suas primas terem sidos sequestrados e levados para Unas. Na época, recuar não foi um ato de covardia de nenhum dos três, pelo contrário, encurralados, desarmados e feridos como estavam, seria impossível vencer os mercenários que serviram ao lado deles por tantos anos e por dinheiro se bandearam para o lado do faraó.

— Os príncipes do leste e do oeste estão na floresta, muito hachikos leais e soldados líbios estão com eles e dispostos a lutar. Itachi e Shino apenas aguardam nosso sinal para cruzar os muros do palácio. — Asuma sorriu largo e se encaminhou para o corredor, tendo Akimichi no seu encalço.

— Asuma… — Shikamaru não saiu do lugar, vendo sua aflição ao se virar e olhar para ele, Chouji tentou o acalmar.

— Você não precisa se preocupar com o príncipe, ele sabe usar a espada, não se deterá em desembainhá-la contra o faraó, se for necessário.

— Neji, jamais levantará a espada contra o faraó… pois ele temerá pela vida do filhote que traz em seu ventre.

Notas finais
Espero que tenham gostado!