Cena VIII

Entra a atriz de novela, toda elegante e maquiada, usando um belo vestido azul.

DIABO – Oh, mas agora estou prosa. Que defunta mais formosa!

ATRIZ – Tudo saiu fora do plano! Tomei veneno por engano!

DIABO – Foi seu amante quem fez isso, voltou-se contra ti todo o feitiço.

ATRIZ – Maldito, canalha! Merece no peito uma navalha!

DIABO – Tenha calma, agora tu é alma.

ATRIZ – Para onde leva esse ônibus de terceira? Não cairá na ribanceira?

DIABO – Leva ele ao inferno, com castigo e fogo eterno.

ATRIZ – Santo Deus, cruzes! Meu destino são só luzes! Sou atriz de novela, não prostituta da favela!

DIABO – Sua lista é bem extensa, decretada está a sentença. Entre logo no busão, iremos para baixo do chão.

ATRIZ – Mas o que há de errado comigo, para receber tamanho castigo?

DIABO – Participou da alienação da televisão, portanto entre na condução.

ATRIZ – Eu sempre segui o texto, e isso não é pretexto! Castigue então o autor da obra, não me use como manobra!

DIABO – Você, cheia de asco, arderá como churrasco! Vamos entrando que o tempo vai passando...

ATRIZ – Vou até o outro busão, lá me darão razão!

DIABO – Pode ir, mas prepare-se para partir!

ATRIZ, se aproximando do Anjo – Seu motorista, esse ônibus segue que pista?

ANJO – A trilha celestial, iluminada pelo sol divinal.

ATRIZ – Deixe-me entrar, já estou a tardar!

ANJO – Não posso permitir, terás que com o chifrudo ir.

ATRIZ – Mas o que fiz de errado? Qual foi o meu pecado?

ANJO – Entrastes no esquema daquela emissora, sempre vil e opressora. Defendendo opiniões da classe dos ricos e repetindo seu credo, indo a público em horário eleitoral falando “Eu tenho medo!”. Desviando a atenção da opinião pública com o reality show e as trocas de namorado, enquanto o povo era ignorado pela mídia e seguia massacrado. Em programas de entrevistas criticava passeatas e manifestações, para entrar no discurso de “vândalos” defendido por seus patrões. Infelizmente é uma vendida artista, assim como muitos com a profissão de jornalista. Arderás no fogo infernal, triste e deprimente capítulo final.

ATRIZ, voltando para o Busão do Inferno – Vamos logo, chifrudo! O que tinha, perdi tudo! Minha preciosa beleza já era! Meu corpo derreterá como vela!

DIABO – Vamos, então, não tenho o dia inteiro não! Vem rápido aí mais alguém, vamos ver que destino terá no além. (A atriz entra no busão).