O Sol do alvorecer se derramou pela janela do quarto dele; era um cômodo quadrado cuja parede do fundo, onde a cabeceira da cama estava recostada, era uma rocha com brilho que o fazia lembrar glitter. Do outro lado havia um armário de portas duplas, feito de madeira escura. Rente a parede, sob a janela e ao lado do armário, uma mesinha, sobre a qual estavam um tinteiro e uma pena, acompanhada de uma cabeira de madeira delicada. Ao lado da porta havia uma haste dourada que sustentava a gaiola da coruja dele. O animal por sua vez era de porte médio; as penas negras brilhantes com olhos como se fossem duas pérolas negras.

Bem ao lado da haste estava uma estante de prateleiras com vários livros.

Na cama ele abria os olhos vagarosamente enquanto se acostumava com a luz solar branda transpassando a cortina clara.

Sentiu a folha de mandrágora na boca e pensou que finalmente estava acabando. Aquele era o penúltimo dia que precisaria permanecer com aquilo.

Ele se levantou e esticou os músculos. Havia sobre a mesinha da sala um envelope com um selo.

Quando ele abriu o envelope viu um papel amarelado escrito com tinta dourada.

“Senhor Diadmoon,

Reúna-se com os demais alunos às 9 horas em ponto no Salão Comunal de Uagadou. Para a cerimônia de boas-vindas. Seus trajes da escola já estarão no seu armário.

Novamente seja bem-vinda ao Instituto de Magia e Bruxaria de Uagadou”

Logo abaixo das inscrições estava o emblema da escola.

Ele dobrou o papel, e olhou para o relógio analógico, os ponteiros marcavam oito horas e trinta minutos.

Ele sacou sua varinha e fez abrir o armário e suas roupas flutuaram enquanto as dele foram saindo de seu corpo como se ele mesmo as tirasse, em seguida as roupas saídas do armário o vestiram magicamente.

A roupa consistia em uma camisa de linho branca onde a borda da gola, que era larga, exibia um detalhe dourado. As calças eram do mesmo material e cor, o padrão em dourado da gola da camisa, se repetia descendo pela lateral da calça. Compondo o uniforme vinha um sobretudo azul escuro cujo fundo parecia um céu estrelado ele também tinha um capuz e botões que poderiam fechá-lo até a altura da cintura. As mangas eram longas e sem punhos, mas largas.

As roupas eram leves e preciosamente confortáveis.

Ele desceu as escadas e seguiu até o Salão se orientando pelo mapa que surgiu no papel da carta que estava sobre a mesinha.

O que a carta chamava de salão comunal era uma grande sala redonda, com o teto abobadado enfeitiçado para parecer o céu noturno com as constelações em suas formas representativas interagindo entre si.

Nesse contexto ele viu a constelação de Leão acalentando a de Leão Menor como os animais reais fariam com os filhotes e no mesmo passo a constelação de Peixes saltou para dentro de Aquário.

Haviam tochas ao longo de todas as paredes; paredes que pareciam muito com as do fundo de seu quarto em rocha cheias de pontos brilhantes. Ao fundo da imagem mágica do céu ele conseguiu distinguir estalactites de tamanhos diversos.

Haviam mesas onde, pela sua percepção, ele inferiu que os alunos estavam separados de acordo com seus anos. Em geral as roupas eram iguais salvo pelo detalhe das golas que variava de aluno para aluno, com o que ele concluiu também estar ligado ao ano letivo cursado pelo aluno.

Identificando por este detalhe ele se sentou na mesa junto dos alunos que tinham o detalhe dourado em suas roupas.

— Com licença… — ele se sentou no lugar ofertado por uma das garotas.

Ela tinha a pele cor de chocolate e os olhos verde musgo, seus cabelos eram de cachos cheios e volumosos. Usava dois anéis em seus dedos finos e tinha dentes muito brancos.

— Você é novo aqui! — ela afirmou olhando diretamente para ele com cara de curiosidade.

— Sim.

— Você tem um sotaque… — ela riu achando engraçado. — De onde você é e não vale mentir…

— Eu sou do Brasil, América do Sul.

— Espera… então é verdade? — a curiosidade foi rapidamente substituída por uma surpresa notória.

— Ham… não sei, o que?

— Temos um aluno de intercâmbio na escola esse ano?

— Bom eu originalmente sou aluno de Castelobruxo, então creio que sim o boato é verdadeiro e sim é sobre mim.

— Uau! Disseram que você foi expulso e Uagadou te acolheu. Outros falavam que você saiu de lá porque um Caipora te atacou e seus pais pediram transferência.

Ele sorriu com leveza.

— Nada disso eu apenas pedi um intercâmbio, pois gostaria muito de me especializar em transfiguração. Sempre tive esse desejo.

— Na minha opinião eu prefiro a defesa contra as Artes das Trevas, mas aqui no hemisfério sul é tão complicado, é uma tradição muito mais do hemisfério norte onde houve as grandes guerras bruxas.

Ele afirmou com a cabeça.

De repente as chamas das tochas se apagaram e o som de um rugido ecoou pelo salão; um leão imenso caminhou lentamente até a uma das escadas e começou a descê-la.

Em seguida os olhares dos alunos atravessaram o salão para o lado oposto seguindo o som inconfundível de um elefante. E foi exatamente o que viram passando pela grande porta. De uma das outras escadas eles viram um babuíno que com uma cara de poucos amigos também desceu em direção ao centro do salão. Vindo de outra porta um avestruz também adentrou o salão. O último animal a tomar o salão foi um guepardo que saltou pela janela principal estilhaçando o vidro. Em perfeita sincronia as feras se juntaram no centro do salão onde o chão sob eles se elevou formando um palanque sobre o qual se materializou um púlpito esculpido em formas de diversos animais e no centro deles o emblema da escola. Os animais se transformaram então em humanos. Bruxos concluiu ele. O elefante era uma mulher de ancas largas e seios fartos, com bochechas rechonchudas. O avestruz se transfigurou num homem de porte imponente esbelto a cabeça raspada que parecia até mesmo reluzir a luz do salão, em seu pescoço um colar de pequenos crânios que pareciam humanos por tal ele concluiu que fossem de primatas. O Leão por sua vez se transformou em outro homem este por sua vez era forte e tinha os cabelos em dreads jogados para trás presos por uma fita larga preta. O babuíno se materializou num senhor de barba branca que usava um bastão, tinha os cabelos brancos e curtos. Finalmente o guepardo se transfigurou na, já conhecida dele, diretora da escola, Senhorita Fadiya Asma.

Passado o alvoroço do show e a empolgação dos alunos no salão, em principal os do primeiro ano e ele próprio, a diretora encheu pulmões e falou em alto e bom som.

— Bom dia alunos de Uagadou! — a resposta recebida foi um bom dia alto e uníssono dos alunos. — Sejam bem-vindos. Antes de eu começar a me pronunciar…— ela se virou para a janela que quebrara ao passar na forma animago — Reparo… ­- como um vídeo sendo rebobinado os cacos de vidro subiram pelo ar se unindo novamente às armações que formavam a janela imensa.

— Todo ano eles fazem uma entrada sensacional para os alunos, a desse ano foi realmente uma apresentação e tanto. — a menina comentou com ele.

— Espero que todos os veteranos tenham tido ótimas férias e estejam preparados para mais um ano aqui conosco. Aos novatos desejo que tenham tido ótimos sonhos. — ela sorriu.

A diretora estava fazendo uma alusão para a forma como a escola de Uagadou comunicava aos selecionados para ser seus alunos que começariam o ano letivo.

O método usado por Uagadou era único no mundo. Os alunos que eram selecionados pela escola recebiam em seus sonhos mensageiros dos sonhos que lhes entregava a pedra gravada com a runa que simbolizava sua aceitação na escola.

A diretora falou um pouco sobre o calendário escolar e como as coisas funcionariam ali.

— Aliás, alguns avisos importantes. Os alunos que irão se inscrever para o processo do Animago deverão fazer uma matrícula posterior junto do Departamento de Matrículas para o Curso de Animago. Gostaria de apresentar aos novatos alguns dos professores de nossa escola.

Os professores, antes animais, aparataram para lugares específicos na parte baixa das cadeiras numa mesa circular.

— Junto da mesa do primeiro ano, antes na sua forma animago Leão o professor Nyamu Nyachae de Alquimia. Junto do segundo ano nosso professor de Defesa Contra as Artes das Trevas e animago Avestruz, Nyaga Muthee. A professora de Poções Awena Ndembo, está junto do terceiro ano, este ano ela preferiu não entrar pela janela ainda bem… O professor Baakir Rafiki, nosso babuíno que ensina Astronomia. Mas eu deixei o melhor para o final…

Majestosamente uma serpente num tom de verde brilhante adentrou o salão. Seu comprimento era tão grande que conseguiu circundar todo o palanque circular onde estava a diretora. Ela subiu se arrastando; em sua cabeça ele percebeu algo diferente das demais serpentes; eram chifres. Chifres curvos para trás em caracol como de um carneiro ou bode. Não era uma serpente comum, ele havia estudado sobre aquela espécie no seu quinto ano em Castelobruxo, era uma Horned Serpent, ou Serpente Chifruda. O réptil majestoso se converteu num homem, aparentemente jovem, tinha os cabelos cacheados cheios como as copas de árvores frondosas, a pele era achocolatada, os olhos de um verde vivo sem igual. O corpo de músculos definidos, usava um manto verde como seus olhos por sobre um hábito em tom de verde mais desvanecido. No pescoço um cordão em contas de um azul muito vivo e de uma das orelhas um brinco de pena da mesma cor. Tinha o rosto sereno e límpido e emoldurando um sorriso branco e brilhante um cavanhaque fino.

— O professor Hector Ejomu.

Um animago que podia assumir a forma de uma criatura mágica?!



Notas finais
Proximo Capítulo: Capítulo 5: O Fim do Processo Não é comprovado que algum Animago, possa assumir a forma de uma Criatura Mágica, contudo baseado no fato de que a forma Animago normalmente é a mesma do Patrono e que o Patrono de Dumbledore, por exemplo, é uma fênix, podemos aferir que essa possibilidade existe.