O Assassino de Düsseldorf
1 Prólogo: Introdução ao caso Düsseldorf
Notas iniciais
01
Foi só o velho mestre se calar após uma longa explicação que os alunos começaram a atirar seus materiais dentro das mochilas. Os corredores da faculdade estavam cheios de alunos cansados e esperançosos em chegar em casa e esquecer por alguns minutos das coisas que haviam aprendido a manhã inteira.
O adolescente magro colocou sua bolsa nos ombros e com um sorriso fraco de despediu do professor que também caminhava até a porta. Caminhava até o estacionamento onde suas amigas o esperavam ansiosamente.
– Subam a bordo, meninas. — Disse imperativo colocando os óculos de sol e subindo em seu SUV. As amigas o acompanharam. Rachel havia sentado no banco do passageiro, e Dani havia ficado no banco de trás.
Kurt e Rachel se conheciam desde o ensino médio, e haviam conhecido Dani em uma festa de calouros três anos atrás, quando começaram a faculdade. As meninas cursavam Música e Interpretação, enquanto Kurt cursava Psicologia na Faculdade Estadual de Ohio, em Lima. Desde então, os três eram inseparáveis. Não havia um dia da semana em que não se encontravam em um bar para conversar e curtir. Se consideravam irmãos, se não mais do que isso.
– Finalmente sexta-feira! — Rachel relaxou no banco, colocando os pés pra cima apoiados no painel do carro. Kurt rapidamente repreendeu a menina.
– Rach, esse não é o seu carro. Tire os pés do meu painel e se comporte como uma mulher! — A morena gargalhou e se sentou corretamente.
– Planos pra hoje a noite? — A judia continuou.
– Consegui hoje com o Jackson três ingressos para a Noturn. — Dani interviu. — Estão esgotado há semanas, e nós, conseguimos. Vocês ainda tem suas carteiras de identidade falsas? — Rachel assentiu. — Então hoje a noite é nossa!
– Eu adoraria, mas tenho um trabalho pra entregar segunda-feira e ele parece ter sete cabeças. Desculpa meninas, mas hoje a noite estou fora. — Kurt suspirou enquanto dava a partida no carro.
– Kurt, você não pode! — Rach gritou. — É a Noturn, a melhor balada de Ohio. Você sabe como é difícil conseguir ingressos? Ainda mais quando tem DJs nacionais.
– Vamos, Kurt. Te ajudamos com seu trabalho, seja lá do que ele for. — Dani insistiu. — Não queremos um cara de 24 anos entocado em casa em plena sexta-feira a noite.
– Aceitarei o convite se vocês souberem alguma coisa sobre Teoria Cognitiva-Comportamental. Caso contrário, convite negado. — Sorriu.
– Ah... O wikipedia está aí pra isso... — Rach parecia confusa apenas de pensar no assunto do trabalho do amigo. — Vamos, Kurt. Por favor! — Insistiu a amiga.
– Infelizmente não dá, garotas. Mas eu prometo que na próxima eu vou, e ainda pago a bebida das duas! — Kurt estacionou o carro na frente da casa da Berry. — Por mais que isso signifique torrar a mesada, já que vocês não tem limites para a bebedeira.
– É melhor pagar mesmo. — Rachel desceu do carro e acenou enquanto o veículo sumia rua acima no rumo da casa de Dani. O Hummel deixou a garota de cabelos azuis em casa e seguiu até o centro da cidade. Antes de ir para seu apartamento, passaria na casa do pai para almoçar com a família. Era um ritual, uma vez por mês, almoçava com Burt e Carole.
Rachel e Dani se encontraram na porta da boate quase às onze da noite. As luzes apontavam para o céu e sumiam entre as nuvens. A música conseguia ser ouvida ao lado de fora da pequena boate nos arredores de Enderville, a cidade vizinha de Lima. As amigas, com o ingresso que havia sobrado, resolveram chamar um amigo que Rachel estava afim.
A música era alta e quase ensurdecedora na parte de dentro da boate, e minutos após terem entrado, Dani já não conseguia mais achar Rachel e Jesse no meio da multidão. A menina de cabelos azuis ficou perto do bar dançando com alguns homens que apareciam por ali, mas o segredo que escondia de seus amigos era que na verdade, gostava de meninas.
Uma loira alta, que estava do outro lado do bar, a encarava com desejo. Dani sentiu um calor percorrer seu corpo quando a loira lhe deu um sorriso e piscou.
– A moça do outro lado do bar lhe pagou esse drink. — O barman entregou um copo à Dani assim que ela se aproximou do balcão. A mulher agradeceu e caminhou até a loira apaixonante.
– Não é muito desse século pagar um drink à alguém. — Sorriu enquanto se sentava ao lado da mulher.
– Digamos que eu sigo as tradições antigas. — Sorriu sem os dentes. — Sou Lolry.
– Dani. — Gritava para ser escutada.
– O que uma menina indefesa está fazendo sozinha em uma boate como essa? — A loira sorriu enquanto brincava com o canudo do seu drink, deslizando em seus dedos.
– Eu não sou indefesa.
A loira abriu um sorriso enorme.
Depois de muita conversa, Dani e Lolry dançavam juntas no meio da boate trazendo olhares de desejo para duas mulheres esculturais dançando tão próximas. Rachel estava sendo prensada contra a parede do banheiro por Jesse, que sugava seu pescoço.
– Vamos pra minha casa, por favor. — Jesse suspirava com a morena apertando seu quadril contra o dele. — Não quero fazer nada com você aqui nesse banheiro imundo.
– Ah... — A morena gemia baixinho. — E... E Dani? — Os três amigos haviam ido apenas com um carro para a boate, o carro de Rachel. Dani e Jesse haviam ido de carona com a judia.
– Ela mora aqui perto, não mora? — Beijava os lábios de Rachel com vontade. — Ela não vai se importar de ir a pé para o benefício da amiga. — Sussurrava.
– Eu não sei...
– Vamos, Rach. — Jesse colou mais o corpo contra o da Berry, se isso ainda fosse possível. - Eu estou tão louco por você.
Então Rachel soltou um sorriso enorme. O celular de Dani vibrou com uma mensagem vindo da judia, se explicando e pedindo desculpas por ter deixado Dani sem carona, mas a menina de cabelos azuis entendia. Rachel estava de olho em Jesse por um longo tempo. Queria apenas ver a amiga feliz.
Era perto da três da manhã quando Dani deixou a boate. Lolry já havia ido embora com alguns amigos, e a festa havia perdido a graça para a estudante de Música. Puxou a gola do casaco de couro para tampar o pescoço que se arrepiava ao vento frio da rua e caminhou até a avenida vendo se conseguia alguma carona, mas a rua estava deserta.
Suspirou e resolveu ir para casa caminhando. Não morava muito longe, apenas alguns quarteirões da boate.
A noite estava escura e silenciosa. Conseguia ouvir uma sirene policial bem longe, mas era tudo. Caminhava com os ombros altos e as mãos no bolso, se encolhendo contra o frio da madrugada. Sorria ao se lembrar da noite maravilhosa e olhava para a palma da mão de minuto em minuto, onde o número do celular de Lolry estava.
Mais algumas quadras e Dani já estaria em casa.
A luz do poste começou a piscar, mas Dani não se importou. Morava na parte esquecida da cidade pelo prefeito, e provavelmente as reformas aconteceriam apenas nos meses perto da eleição.
Um frio diferente percorreu a espinha da moça, que por instinto parou de andar imediatamente. Era como um sentimento de ser observada, seguida. Olhou para todos os lados e se arriscou em chamar por alguém:
– Olá. — Disse com a voz trêmula. — Tem alguém aí?
Ninguém respondeu.
– Que patético, Dani. Uma mulher com vinte e dois anos morrendo de medo do escuro. — Brigou com si mesma e continuou a andar no mesmo ritmo.
A luz do poste que piscava finalmente se apagou, queimando. Dani bocejou com sono, e ao virar a esquina percebeu uma silhueta diferente. Uma silhueta que não estava ali antes quando a mulher olhara para trás. E aparentemente, essa pessoa seguia o mesmo caminho de Dani.
Talvez agora fosse uma boa hora para se preocupar. Dani, sem demonstrar medo, atravessou a rua com intenção de despistar a pessoa. Não conseguia ver ao certo quem era, a luz do poste falhava e o rosto da pessoa não estava iluminado. Então a pessoa atravessou também.
Dani resolveu mudar o rumo e entrou em uma rua qualquer, esperando que a silhueta passasse reto. Caminhou um pouco mais rápido e se escondeu atrás de um poste largo, olhando pra trás. A silhueta havia sumido, mas ainda conseguia ouvir a respiração de alguém, os passos.
Pegou o celular rapidamente no bolso, e antes de pensar em ligar para a polícia, discou o número da melhor amiga.
– Atende, Rach... Atende! — Dizia nervosa para si mesmo, irritada da morena ter um celular mas não atender as ligações. Então se lembrou que provavelmente a morena estaria muito ocupada com Jesse para prestar atenção no celular vibrando no chão.
Olhou rapidamente para trás e ainda não via a silhueta, mas ouvia os passos ainda mais perto.
– Vamos, vamos. — Discou o número de Kurt, que depois de alguns segundos caiu na caixa postal.
Os dedos deslizaram pela tela escrevendo uma mensagem. E logo o celular foi à orelha novamente, clamando para o amigo atendê-la.
– Vamos, Kurt. Vamos!
Nada. Tentou mais uma vez, em vão.
Fez a coisa mais óbvia que alguém poderia fazer nesse momento, discou o número da polícia e aguardou ser atendida.
"Olá, você ligou para a Delegacia de Polícia de Ohio. Se você quer denunciar um crime, digite 1. Para assuntos com a contabilidade, digite 2. Para acompanhar um boletim de ocorrência, digite 3. Para..." Desligou o celular, parecia estar "salva" da silhueta.
Dani suspirou com medo, parando para observar o local. Olhou pra trás e não via mais a silhueta, e o som de passos havia parado. Talvez fosse só um medo idiota, algo que sua própria mente havia criado.
Então se virou para continuar andando, mas bateu contra um corpo em sua frente. Dani tentou correr, mas suas pernas não correspondiam. Antes de tentar correr ou gritar, sua cabeça foi acertada com uma espécie de pedra, ou algo duro. E a mulher caiu no chão.
Kurt saiu do banho e jogou sua toalha na cama, enquanto procurava seu pijama para vestir. Desligou a televisão e pegou o celular em mãos, onde mostrava algumas chamadas perdidas de Dani e uma mensagem.
"de Dani (03:45): Socorro, acho que estou sendo seguida."
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