O Assassino de Düsseldorf
10 #10 Eu gostei da sensação de morte
Notas iniciais
10
– Agora você quer me explicar por que você estava tentando atirar em Finn? — Kurt apareceu na sala repreendendo o namorado. O irmão estava no banheiro da suíte com uma compressa de gelo sobre os hematomas no rosto que haviam sido feitos por Blaine.
– Eu achei que ele fosse te matar. — Assumiu.
– Você achou que meu irmão fosse me matar?
– Kurt, a cidade estava sem luz e você é uma das próximas prováveis vítimas. O que eu deveria pensar ao ver um homem que nunca vi, tentar entrar em seu apartamento no meio de um blackout? — Disse tentando se defender. — Eu fiquei com medo Kurt. Sinto que estou falhando em te defender. Em defender todos... — Blaine respondeu com a cabeça afundada entre as mãos.
Kurt forçou um sorriso e se abraçou com o namorado no sofá, enquanto sons de gemidos dolorosos vindos do corredor anunciavam o Hudson no cômodo.
– Cara, você é louco. — Disse o grandalhão gargalhando e se sentando na poltrona próxima do detetive, que apenas tinha um olhar desolado no rosto. — Eu também vim proteger Kurt. — Revelou. — Burt estava preocupado com os assassinatos e que o filho era obviamente uma das próximas vítimas, por causa das coincidências e tal. — Finn deu de ombros. — Não esperava ser recebido com um revólver apontado pra minha cabeça.
– Desculpa. — Blaine suspirou.
– Foi divertido. Faz tempo que eu não lutava com alguém. Acho que desde o exército, sabe? — Gargalhou. — Se quiser uma dica, você tem que fechar mais a guarda, senão fica fácil de reverter.
– Finn... — Kurt suspirou. — Você pode nos deixar sós?
– Ah, claro. Foi mal. Eu não queria... Bem... — Se atrapalhou. — Acho que posso tomar um café com Rachel... Posso pegar seu carro emprestado...?
– As chaves estão na vasilha perto da porta. Por favor, coloque gasolina depois que usar... — Kurt suspirou, entregando uma nota de cem dólares ao irmão que sorriu contente e saiu do apartamento deixando apenas os dois namorados. — Você quer realmente me contar o que aconteceu?
– Mas eu... — Kurt o interrompeu.
– Blaine, eu sei quando alguém está mentindo pra mim. — Kurt suspirou, pegando a mão do namorado para si. — Eu não sinto como se te conhecesse. Eu não sinto como se você fosse real. Seu apartamento não tem uma foto sua, não tem nada sobre você na internet... Você é como um fantasma e isso me assusta um pouco.
O Anderson encarou Kurt por alguns segundos e logo fitava o chão, tentando achar alguma maneira de impedir as palavras que sairiam de sua boca naquele momento.
– Blaine. — Kurt continuou. — Por favor. Eu quero conhecer você, quero conhecer o cara que está apaixonado por mim... Isso só irá acontecer se você me contar a verdade. Toda a verdade.
– Tudo bem. — Suspirou. — Eu sou um fantasma, Kurt.
– Você está me assustando um pouco, Blaine. — Kurt disse sorrindo, se afastando um pouco do namorado. Sabia que o homem em sua frente não era um real fantasma, mas o tom frio qual o namorado havia dito aquelas palavras era um tanto amedrontador.
– Eu tenho um passado ruim, Kurt... Muito ruim, mas acho que é a hora de te contar. Eu preciso que você confie em mim de verdade. — Resolveu finalmente contar sua história para o namorado, sabendo que poderia perdê-lo ali naquele momento. — Eu tinha quatorze anos quando todo esse inferno começou. Eu era um garoto normal como todos os outros daquela classe, mas aos olhos deles ser gay me fazia abominante. Eram sempre as mesmas coisas, os mesmos apelidos e a humilhação de sempre encontrar algum desenho erótico no meio de minhas coisas e ouvi-los gritar "mas você não gosta?" quando me viam jogar fora todos eles. — Engolia seco. — Até que um dia eu voltava pra casa depois do ensaio da turma de teatro, era inverno e nevava, um dos garotos me parou durante o caminho para me provocar. Não nevava, mas estava frio como se caísse uma tempestade de neve.
– Não neva em San Francisco. — Kurt assentiu, sabendo que o detetive vivera a infância naquela cidade. Haviam conversado sobre isso algumas vezes e o moreno havia citado, nada de mais.
– Sim, não neva. — Blaine brincava com os dedos e desviava os olhos dos do namorado. — Era frio e as pessoas evitavam sair na rua, então ele achou que seria um dia maravilhoso pra me espancar já que ninguém poderia me achar a tempo de incriminá-lo. Foi num beco ali perto. Ele e mais dois colegas me levaram pra lá e gritaram coisas como Jesus me odiar, e sobre eu queimar pra sempre no inferno. Naquele momento o inferno me parecia uma ideia melhor do que apanhar de cinco adolescentes menores do que eu. Eu queria revidar, eu queria bater em todos eles e mostrar que eu não tinha nada de errado...
– Você os machucou? — Kurt perguntou preocupado.
– Não, eu apenas fiquei lá deitado recebendo os chutes. Cheguei em casa um pouco depois do amanhecer, cheio de hematomas, sangue em minhas roupas... Minha mãe ao me ver ficou desesperada e me levou para um banho e me medicou. Ela era a médica da cidade e tinha gazes o suficiente em casa para não precisar me levar ao ponto socorro... — Blaine suspirou. — Logo depois meu pai chegou para jantar. Ele perguntou o motivo de estar todo machucado e todo quebrado e fui obrigado a contar. Eu nunca havia contado à ninguém sobre as ameaças que eu recebia pelo simples fato de ninguém da minha família saber sobre minha sexualidade. Nem todos tem um pai tão legal como o seu, Kurt. — Blaine disse como se conhecesse Burt, então continuou. — Fui obrigado a contar, e durante toda a história eu chorava e implorava pra ninguém ir atrás de Thod e dos amigos. Eles não tinham culpa se a educação dentro de casa era falha. Meu pai apenas me olhava com nojo e no fim da história começou a rir, falar que eles estavam certos e que, no lugar deles, faria até pior. Que ser gay era horrivel e que ele não poderia aguentar a dor de ter um filho quebrado em casa, que poderia fazer outro se quisesse. Que tudo isso era falta de mulher e que ele me levaria à um desses lugares onde pagam as mulheres para transarem, e que enquanto isso, eu poderia ficar trancado em meu quarto até que aprendesse a ser um humano normal.
– Blaine, isso é horrível. — Kurt sussurrou, se aproximando desta vez.
– Éramos só nós três em casa. Meu irmão Cooper havia fugido alguns meses antes por passar pelo mesmo problema. Não que ele fosse gay também, mas é que nosso pai era ignorante com muitos assuntos, e ao saber que Cooper queria ser um astro dos palcos e não seguir com os planos da família, ele enlouqueceu. Batia em Coop quase todos os dias... Aquela casa era um inferno. Minha mãe ficou ao nosso lado o tempo todo e eu pude ouvir toda a briga pela parede do quarto. Ele culpando minha mãe, falando que ela trabalhar na empresa havia a feito largar os filhos, e que nós dois éramos uma decepção por não termos uma mãe decente. Eu o ouvi por muito tempo berrando e xingando a mulher que mais me amava naquele mundo, K. Eu não poderia deixá-la sofrer por uma escolha minha, você entende? — Kurt assentiu enquanto olhava Blaine contar tudo aquilo sem sequer deixar uma lágrima cair. — Saí do meu quarto pronto para impedi-lo de continuar gritando com ela, foi quando eu a ouvi gritar. Ele estava batendo nela, Kurt. Batendo em minha mãe por uma coisa qual ela não tinha controle. Eu arrombei a porta daquele quarto sem sequer me importar com a dor das minhas costelas quase quebradas. Eu fiquei furioso ao ver minha mãe no chão, com lágrimas nos olhos. Ela implorava pra eu sair dali. Ela preferia apanhar do que enfrentá-lo... — Blaine choramingou pela primeira vez.
– Você não precisa me contar o resto. — Kurt respondeu.
– Eu quero. Eu preciso que você saiba das coisas que eu fiz, Kurt... — Blaine tinha os olhos vagos e aquilo estava começando a assustar o estudante de psicologia, que não tinha mais controle sobre o namorado. — Os dois gritavam comigo, me mandavam ficar fora daquele quarto. Ele falava que minha mãe aprenderia uma lição. Eu não poderia... Eu não poderia deixá-la ali, você entende? Então eu pulei em cima dele, falei para largá-la. Mas eu era um garoto franzino de quatorze anos, o que eu poderia fazer? — Suspirou com as lembranças. — Ele me jogou em outro canto do quarto, gritando sobre como aquela família o impedia de ser feliz. Sobre como atrapalhávamos sua vida e como gastávamos seu dinheiro com coisas super fulas, sendo que minha mãe não comprava sequer uma roupa pra ela... Ele estava louco. Ele não parava em casa a semana inteira e eu não poderia aceitar ele dizer aquelas coisas. Me levantei e fui até ele enfrentá-lo novamente, mas ele me jogou no chão outra vez. Deixou claro que aquele era meu lugar e que eu não deveria sair dali. Logo meu pai chorava, dizia na decepção que seria quando descobrissem que seu filho era um bichinha... Ele enxugou as lágrimas e caminhou pra fora do quarto. Eu achei que aquilo havia acabado, que ele havia ido embora. Mas quando tentei ir até minha mãe o ouvi berrar pra eu ficar onde eu deveria estar, que logo chegaria a minha hora... — Uma só lágrima escorreu pelo rosto de Blaine. — Ele apontou uma arma pra ela. Ele apontou uma arma. Pra minha mãe, Kurt. — Disse sentindo seu coração parar por alguns segundos, sem saber ao certo se relembrar aqueles momentos era a melhor coisa. Kurt tinha uma feição surpresa e continuou ouvindo a história. — Eu queria morrer naquela hora. Ele não poderia fazer isso com ela... Então ele fez. Ele disparou duas vezes contra ela, fazendo-a cair finalmente no chão. Foram dois tiros no peito, creio que ela tenha morrido na hora, eu não sei... — Dizia com a garganta seca. — Então eu surtei ao ver seu corpo começar a formar uma poça de sangue... Ela estava morta, Kurt. Minha mãe... Ela que havia cuidado de mim horas atrás, colocado curativos em mim e prometido que tudo iria se ajeitar... Ela estava morta, morta pelo meu pai. — Disse sem pensar nas forças da palavras ou se elas assustariam Kurt, continuando. — Eu tirei forças de onde achei que não teria e corri até ele, o derrubando no chão. Ele bateu com a cabeça no canto da cama e ficou desacordado, mas mesmo assim eu não pensei naquela hora. Eu peguei a arma que estava em sua mão e atirei nele. Eu atirei nele uma vez, depois duas e depois três. Eu não estava pensando, eu... Eu queria que aquele inferno acabasse, sabe? Eu não podia... Ele havia matado minha mãe, Kurt. — Disse engolindo o choro. — Então eu descarreguei todas as balas em sua cabeça. No primeiro tiro eu sabia que ele já havia morrido, mas eu queria me certificar. — Disse Blaine sem nenhuma expressão. — Eu... Eu queria que ele nunca mais voltasse, que fosse para o inferno e que ficasse por lá durante toda a eternidade... Eu sequer pensei, Kurt. Eu tinha quatorze anos... Eu matei meu pai, e poderia afirmar que havia sido por legítima defesa, mas... Eu havia gostado. Eu gostei daquele sentimento. O alívio me preencheu quando vi seu sangue escorrendo pelo chão...
– Blaine, você não teve culpa... — Kurt dizia tentando confortar o namorado, porém sua mente gritava. Blaine havia assassinado seu pai.
– Eu fugi depois disso. Peguei todo o dinheiro que meu pai guardava no cofre e sumi de San Francisco. Mudei de nome, mudei de identidade e tentei recomeçar. Tudo que eu via no jornal era que as investigações do crime da família Theodore havia se encerrado, já que o mais provável era que o assassino houvesse fugido e sequestrado o filho mais novo da família. Eles sequer desconfiaram de mim, Kurt. Eles acharam que uma criança não poderia ter feito aquilo, mas eu fiz... Eu fiz... — Afundou a cabeça nas mãos. — E eu sei que poderia estar morto se não tivesse o feito, mas eu me sinto culpado por tudo. Minha mãe poderia estar viva, sabe? Por isso eu sou um fantasma. Eu resolvi sumir e o passado sumiria junto com o antigo Devon. Adotei um novo nome e foi fácil invadir o registro de identidades de SF e fingir que eu nunca havia existido. Devon Theodore não existia mais, apenas Blaine Anderson. Mas eu ainda era fascinado com tudo aquilo, mesmo não querendo. Então comecei a pesquisar sobre outras mortes, comecei a ir atrás de casos como o meu e comecei a me interessar. Foi quando decidi me tornar um detetive. — Suspirou. — Eu não quero que você sinta medo de mim. Eu quero você me entenda, só isso.
– Eu não tenho medo de você. — Kurt sorriu sem força.
– Obrigado. — Suspirou. — Por isso eu quase matei Finn hoje. Eu vi as histórias se repetindo. Eu sabia que você poderia estar em perigo, assim como minha mãe, e eu nunca pude ajudá-la. Eu não pude ajudar nenhuma das vitimas até agora... Eu não queria te ver morto, Kurt. Eu te amo demais pra descobrir que te perdi. — Suspirou sem se dar conta do que havia falado. — Eu só quero te proteger, entende?
– Você não pode ficar na minha guarda vinte e quatro horas por dia, B. Eu tenho faculdade, minhas coisas. E eu agradeço sua preocupação, mas você tem que deixar as coisas acontecerem. — Kurt soltou a mão do namorado. — Você poderia me ajudar me ensinando alguns golpes. Acho que seriam de bom proveito até a polícia chegar... Se bem que, pelo o que eu vi no corredor, seria mais eficaz eu pedir à Finn... — Gargalhou baixo.
– Eu sou um detetive, não sou um policial. — Blaine fingiu parecer ofendido com o comentário sobre seus golpes, mas logo sorria fraco e selava os lábios com o namorado. — Obrigado por entender.
[...]
Era noite e Kurt estava deitado em sua cama com o notebook em seu colo, fazendo a resenha do livro que seu professor havia passado dias atrás. Era sobre um caso de assassinato e Kurt escrevia com os olhos fixos na tela, tentando usar algumas das coisas que havia aprendido com Blaine para completa-la, quando seu celular tocou.
– Alô? — Respondeu sem muita vontade, ainda encarando a tela do notebook com a página de editor de textos abertas.
"Sr. Hummel?" Perguntou a voz desconhecida.
– É ele.
"Boa noite, Sr. Hummel. Meu nome é Policial Erick. O senhor é proprietário do veículo SUV TR4 de cor prata e placa BKWM 5339, da cidade de Lima?" Perguntou o oficial.
– Sou eu... — Disse largou o notebook dessa vez, prestando atenção na ligação. A ultima vez que havia visto seu carro havia sido pela manhã, um pouco antes de emprestar para seu irmão.
"Você poderia se dirigir à delegacia civil? Ele foi rebocado."
– Rebocado? O que aconteceu? — Perguntou se levantando.
"Aparentemente ele foi cenário de um crime."
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