09

Após tomar café e se despedir de Blaine, que saíra rapidamente pois o delegado o chamara, Kurt ficou observando o quadro de vítimas com sua foto. Aquilo era um tanto perturbador para o castanho, era como se ele precisasse se cuidar para não aparecer morto em qualquer vala ou algo parecido. Se livrou de seus pensamentos e tirou sua foto daquele quadro, deixando apenas as reais vítimas aqui.

Voltou para a sala em passos lentos. Blaine prometera que não demoraria a voltar e poderiam passar o dia inteiro juntos vendo filmes, saindo em um encontro ou algo que o castanho quisesse fazer, então Kurt pôs-se a esperar.

A sala do apartamento do detetive era fabulosa. As paredes brancas cheias de quadros com diplomas de cursos e seminários. A decoração impecável agradava o gosto do Hummel, e isso era algo a dar um ponto para Blaine. Havia acertado em cheio.

O mais engraçado era que aquele apartamento, por mais que fosse de Blaine, não parecia pertencer à alguém. Os papéis nos quadros pareciam vagos e não parecia um lar, era algo mais como se fosse um quarto de um hotel de luxo. Não havia nada ali que pudesse prender o lugar ao detetive. Nenhuma foto, nada.

Lembrou-se de Blaine não ficar muito tempo em Lima, já que atuava como detetive na capital. Porém deveria haver alguma foto por ali, não? Uma lembrança de escola, uma foto na formatura... Algo! Logo uma lembrança passou rapidamente pela mente de Kurt: o dia que ele encontrou Blaine no apartamento de Dani. Suspeito.

Seu celular vibrou tirando o castanho de seus pensamentos.

"Reunião regional sobre o serial killer, vou ficar preso na delegacia o dia inteiro. Me desculpe. Passo na sua casa à noite, tudo bem?"– Blaine

Kurt respondeu um breve "tudo bem" e caminhou até o quarto para pegar suas coisas e deixar o apartamento de Blaine por ali. Do caminho da sala até o cômodo, as mesmas coisas se repetiam. Quadros com diplomas de presenças em congressos e palestras, porém ainda assim nenhuma foto.

Kurt pegou suas chaves e saiu, pensante.

[...]

A reunião havia ocorrido pelas últimas oito horas seguidas, porém havia se encerrado por conta da tempestade que estava chegando em Lima. A chuva estava forte e apenas deixava o cenário pronto pra mais uma morte na cidade, na opinião dos detetives e promotores que estavam naquela sala minutos atrás. Haviam ocorrido doze mortes e o Estado ainda não havia uma pessoa para culpar, e aparentemente aconteceriam mais oito nos próximos meses.

Um estrondo no céu tirou a atenção de Blaine. A chuva batia forte contra o vidro do para-brisas do carro do Anderson e os raios iluminavam o céu naquela noite que havia acabado de cair.

A alguns metros do carro de Blaine, um raio atingiu bem em cheio um poste de energia, fazendo-o pegar fogo e consequentemente acabar com a energia da rua, e aparentemente da cidade inteira. O detetive, porém, ignorava o acontecido e continuava a pensar.

A pressão para descobrir quem estava cometendo os homicídios apenas aumentava e o prefeito de Lima estava desesperado com o turismo na cidade caindo por conta dos boatos percorrendo os jornais e a internet. Fora anunciado naquela reunião uma grande recompensa por informações quaisquer sobre o assassino, mas Blaine sabia que isso não funcionaria.

Aproveitadores dariam pistas falsas pelo dinheiro e acabariam atrapalhando ainda mais as investigações, que na verdade estavam paradas. Fazia uma semana e o assassino ainda não havia matado mais ninguém e isso preocupava demais o detetive. Sentou-se em seu carro pensando em como o assassino estava agindo, como estava fazendo as vítimas.

"Não há nenhum padrão" dizia o único bilhete deixado pelo psicopata. Mas haveria de ter algum. Não era possível existir uma pessoa sem escrúpulos o suficiente à ponto de matar pessoas aleatórias por diversão, certo? E Blaine já havia achado o padrão: a turma de 2010. Todos os mortos estavam relacionados à turma de Kurt. E Kurt... Kurt!

Seu cérebro voltou a funcionar como um jato em segundos ao pensar no homem por quem supostamente estava apaixonado.

Kurt estava na turma de 2010, Kurt tinha envolvimento com todas as mortes e tudo indicava que Kurt poderia ser a próxima vítima do assassino. Lembrou-se então de que o Hummel estava em seu apartamento escuro, sem luz por conta do raio que havia caído minutos atrás. O estudante de psicologia estava totalmente vulnerável e sem condições de se proteger caso o assassino resolvesse aparecer.

Blaine ligou o carro rapidamente e saiu aquaplanando pela rua escura de frente da delegacia. Sentiu um frio na barriga só em pensar que poderia perder Kurt por uma incompetência sua de ainda não ter descoberto quem era o serial killer com quem estava lidando.

As ruas estavam cheias de carros e as únicas luzes eram os faróis que iluminavam as gotas de chuva caírem com força contra o asfalto frio. Blaine buzinava, porém os carros andavam devagar com medo de provocar um acidente ou algo do tipo, já que sabiam como era perigoso correr em uma tempestade com essa. Bem, Blaine não se importava e continuava parado naquele trânsito infernal do centro de Lima.

O detetive então decidiu ligar o giroflex que estava guardado no porta-luvas — todo detetive particular tinha um — e viu rapidamente os carros dando passagem para si na rua. Não demorou muito até chegar em frente ao prédio de Kurt.

Subiu as escadas rapidamente, mas xingou o namorado mentalmente por morar em um andar tão alto e em um condomínio onde não havia gerador para fazer os elevadores funcionarem em uma queda de energia como essa.

Chegando no andar certo, Blaine hesitou em sair das escadas. Desejava que aquilo tudo fosse imaginação, coisa de sua cabeça. Que Kurt estivesse lendo um livro à luz de velas quente pela lareira da sala... Seu coração não acreditava nisso e batia na velocidade de mil cavalos.

Blaine então tirou sua arma da cintura e empunhou em mãos. Sim, ele tinha uma arma e só a usava em momentos cruciais. Esse era um deles, não? Ou poderia ser tudo coisa de sua cabeça e ele poderia ser flagrado apontando uma arma para um corredor de um condomínio com crianças e ter a licença de porte de armas caçada, porém resolveu arriscar.

Abriu a porta que dava acesso às escadas lentamente, com a arma a um palmo do seu peito. Olhou para os dois lados e viu um corredor vazio e escuro, apenas iluminado pela luz da lua e dos carros que eventualmente passavam pela rua principal. Com passos lentos Blaine ia até o corredor, onde viraria e encontraria no final dele a porta do apartamento de Kurt.

Seu coração lutava contra sua mente. Um deles dizia e torcia que Blaine não encontraria nada e Kurt estava a salvo. O outro, porém, torcia para que encontrasse o assassino e pudesse dar um fim à essa sequencia idiota de mortes.

Blaine encostou suas costas na parede assim que ouviu passos no corredor do apartamento de Kurt. Respirou fundo, engatilhou sua pistola e hesitou alguns segundos até se virar e dar de cara com um homem alto indo em direção à porta do apartamento do Hummel.

Era obvio que aquele não era Kurt pela altura e pela estatura.

O homem vestia uma mochila suspeita e a escuridão dificultava em Blaine reconhecer aquele rosto que era coberto pela penumbra do local.

Blaine continuou estático no fim do corredor. Havia apenas mais uma porta entre o homem e o apartamento do estudante de psicologia e Blaine torceu com todas as forças para que esse tal homem suspeito e estranho entrasse no apartamento vizinho ao de Kurt, porém o mesmo não o fez.

O homem deu passos firmes até a porta e olhou as horas seu relógio iluminado por um led fraco. Blaine hesitou, porém a mão que segurava a arma suava frio. Ele desejava que fosse apenas um engano. Kurt estava em perigo.

O homem colocou lentamente a mão sobre a maçaneta.

Blaine deu mais alguns segundos até ter certeza que aquilo era o que estava parecendo. Finalmente o homem finalmente girou a maçaneta e então Blaine sabia o que fazer. O detetive correu até o homem o passou seu braço pelo pescoço do mesmo, o imobilizando e apontando a arma para sua cabeça.

– Isso acaba agora. — Blaine sussurrou.

O detetive apenas não esperava que o homem de capuz fosse tão rápido, a ponto de perceber um segundo específico que Blaine estava distraído em falar aquela frase, para conseguir com sua mão livre jogar a arma no chão e se desvencilhar dos braços de Blaine.

Em um ato defensivo, o homem tentou correr pra longe daquele cara que havia acabado de o atacar, porém Blaine bloqueou o caminho. O Anderson tentou acertar um soco no suposto assassino, porém o mesmo segurou o punho fechado do detetive. Tentou chutar então a lateral do assassino, mas o homem se desviou do chute rapidamente.

Estava acuado e não tinha pra onde ir. Seus olhos rolaram até um canto iluminado por uma janela, onde podia se ver a pistola no chão. Pensou em se soltar para pegar a arma, porém antes de qualquer movimento o assassino proferia um soco no seu estômago que fez Blaine se esquecer de como se respirava por alguns segundos.

O homem encapuzado socou o estômago do detetive mais algumas vezes, porém foi obrigado a parar ao sentir um punho fechado lhe acertar em cheio o rosto o fazendo perder o equilíbrio e cair no chão naquele momento. Blaine então aproveitou o momento para correr até a arma e a pegar, apontando rapidamente para o homem que estava no atordoado no chão.

Antes que pudesse fazer qualquer coisa, a porta do apartamento de Kurt se abriu com um castanho um tanto confuso lá dentro pelo barulho que vinha do corredor.

– O que está acontecendo aqui e...? — Kurt se viu perplexo ao dar de cara com um homem desnorteado no chão e Blaine apontando uma pistola engatilhada para o mesmo. — Meu deus!!! — Gritou em desespero.

A luz voltou naquele momento, iluminando o corredor e o rosto do suposto assassino. Kurt arregalou os olhos e foi socorrer o homem que tinha a boca sangrando e um olho um pouco arroxeado pelo soco recente.

– Kurt, saia de perto do assassino! — Blaine gritou como um instinto.

– Assassino? Este é Finn, o meu irmão!

Notas finais
EITA