O Assassino de Düsseldorf
2 #02 O padrão dos serial killers
Notas iniciais
02
O adolescente deu uma mordida na maçã, colocou a bolsa do ombro e foi até a garagem pegar seu carro para mais um dia de faculdade. O céu estava nublado e as nuvens impediam a passagem do sol, o clima estava seco e quase não haviam carros na rua. O ipod de Kurt ligado no rádio de sua SUV tocava alguma versão remixada de Iggy. Nos olhos do Hummel enormes olheiras de estudar até tarde na outra noite. Fora dormir perto das quatro da manhã, após seu ritual de limpeza de pele.
Estacionou seu carro na mesma vaga de sempre e entrou no colégio. Todos os alunos da Universidade o olhavam com certa pena, e curiosidade, o que deixou o adolescente ainda mais intrigado. No fim do corredor, avistou Rachel sentada de olhos inchados sendo amparada por seu meio-irmão e um homem de terno.
Kurt se aproximou com passos lentos.
– Rachel? O que aconteceu? — Finn olhou o irmão com um olhar preocupado. Saíra de casa mais cedo que o irmão para conversar com o treinador sobre alguns lances de bloqueio e nem chegou a se preocupar com Kurt descobrindo o que realmente havia acontecido.
– K-Kurt... — E então a judia caiu em lágrimas novamente. Finn a puxou pra perto, impossibilitando a garota de tentar falar alguma coisa. Doía demais.
– Sr. Hummel? — Um homem de terno segurou o braço de Kurt gentilmente.
– Alguém pode me dizer o que está acontecendo? — Disse um pouco irritado enquanto olhava fundo nos olhos cansados daquele homem.
– Eu sou o Delegado Underwood.
– Eu sei quem o senhor é. — Interrompeu.
– Talvez o senhor queira me acompanhar até a sala da reitoria. — O homem de cabelos grisalhos deu um sorriso torto para Hummel que o acompanhou até onde a diretora o esperava com alguns policiais fardados.
Assim que os homens entraram, as portas foram fechadas. Kurt se sentou esperando saber o motivo daquela reunião solene. O delegado hesitou antes de começar a falar.
– Creio que o senhor não saiba porque está aqui... — Kurt negou com a cabeça. — Hoje pela manhã nossa delegacia recebeu uma chamada de uma ocorrência em uma das casas em Upper Lima. A faxineira entrou no apartamento para limpar e... E acabou achando a patroa... Como podemos dizer... Morta.
– Upper Lima...? Dani...? — Kurt deixou as sobrancelhas caírem e congelou na cadeira assim que o delegado assentiu com pêsames. Demoraram alguns segundos apenas para Kurt mudar de surpreso para agressivo. — O que aconteceu? Quem foi o monstro?
– O corpo de Daniela Susan Harper foi encontrado no quarto dela hoje pela manhã, é tudo que você precisa saber. — O delegado contornou a mesa da diretora e se apoiou na madeira crua. — Já nós, precisamos saber o que você sabe sobre a noite passada. Mesmo as coisas que parecem não terem importância, elas são cruciais.
– M-mas... Por que eu? — Perguntou atordoado.
– Você é o melhor amigo da vítima, estamos coletando informações.
– E-eu... — Kurt tentou respirar fundo. — Eu não sei muita coisa. — Dizia com calma, havia aprendido a trabalhar sua própria mente pelas aulas de Psicologia. — Ele e Rachel foram a um bar no canto da cidade, eu fiquei em casa. Recebi uma mensagem dizendo que ela estava sendo seguida, mas logo recebi outra avisando que era um alarme falso e que nos veríamos hoje na faculdade...
– Posso ver essa mensagem?
– Claro. — Kurt entregou o celular para o policial ajudante do delegado.
– Senhor Hummel, você sabe de alguém que iria querer o mal da Senhorita Harper? Ou alguém com quem ela tenha discutido recentemente, que seria capaz de fazer tal ato, ou contratar alguém para fazê-lo? Talvez um ex-namorado.
– O quê?! Não. — Pareceu ofendido. — Dani era uma pessoa maravilhosa, todos a amavam. Ela nunca namorou, era amiga de todos. E-eu ainda não acredito como isso aconteceu. — Deixou uma lágrima escapar, mas ainda se mantinha estável com os truques psicológicos que aprendera nas aulas.
– Sentimos muito. — O delegado tentou dar um sorriso confortante, mas Kurt não ligava. Sua melhor amiga acabava de ter sido encontrada morta. Nada mais importava. — Você já pode voltar à aula, Senhor Hummel.
– Meu celular. — Exigiu.
– Sinto muito, ele é parte das provas agora. Dentro de duas semanas você poderá pegá-lo, mas por enquanto ele nos ajudará a solucionar esse mistério.
Kurt caminhou pra fora da reitoria com seus passos lentos, ajeitou a bolsa no ombro e se dirigiu até a sala. Não estava com cabeça para ouvir a aula, mas precisava da presença para não reprovar por faltas. A aula demorou anos, os alunos sabiam da amizade de Dani com Kurt, mas mantinham distância. Estudavam Psicologia, sabiam que a melhor coisa era deixar Kurt sozinho e que palavras não trariam sua amiga de volta.
O adolescente ficou até o final das aulas. O velório de Dani aconteceria na pequena capela da cidade, os pais da amiga viajaram de Paris até Ohio para a cerimônia. Kurt ainda não entendia o motivo de Dani ter sido assassinada. Queria saber detalhes, entender o motivo.
Quando se deu conta, estava estacionando o carro em frente ao apartamento onde a amiga morava. Encarou a fachada do prédio com certa dúvida, aquele local não parecia o local de um assassinato. Suspirou, pensou uma, duas, três vezes e alcançou no porta-luvas uma caixinha de veludo, tirando uma chave lá de dentro.
Rachel, Dani e Kurt tinham a chave do apartamento um do outro. O castanho deu um jeito de passar pela portaria desapercebido pelo homem de óculos grandes e bigode penteado e logo subia pelo elevador com a chave deslizando em suas mãos suadas de nervosismo. Em frente ao apartamento de Dani, fitas amarelas indicavam que ali havia acontecido um crime e o local não deveria ser violado, mas Kurt não se importava. Porra, era sua melhor amiga. Ele não ligava pra nenhuma lei, apenas pra descobrir o que tinha acontecido.
Desviou das fitas, destrancou a porta e entrou no local. O apartamento parecia igual, nada quebrado e nenhum sinal de luta aparente. Os policiais provavelmente já teriam pegado todas as dicas e encerrado a vistoria pela manhã. O cheiro de Dani ainda estava impregnado naquele lugar e Kurt se perguntava se tudo não seria apenas uma pegadinha de halloween, já que Outubro estava no fim.
Entrou no quarto da garota e viu a marcação na cama, em um spray policial o contorno do corpo da garota junto a várias placas de identificação. Mas tinha alguma coisa errada naquele lugar, aquilo não era o lugar de um assassinato. Era diferente, era algo...
– Confuso, não?
Kurt levou a mão ao peito e se virou rapidamente, encarando um homem vestindo um terno encostado no batente da porta do quarto da amiga do Hummel. O castanho olhou o homem jovem dos pés à cabeça. Um metro e setenta, cabelos cacheados escondidos em um gel barato, olhos verdes (castanhos?) e um olhar calmo sobre si.
– Quem é você? O que está fazendo aqui? — Kurt se afastou com medo, não sabia quem era aquele homem ou porque estaria no apartamento da melhor amiga após sua morte. — E-eu vou chamar a polícia.
– Você não vai. — O homem sorriu torto. — Você invadiu a cena de um crime também, não se arriscaria desse jeito, não é, Senhor Hummel?
– Quem é você? — Insistiu.
– Detetive Blaine Anderson. — Estendeu a mão. — Fui contratado pela família Harper para achar o assassino. Estava dando uma olhava pelo apartamento quando ouvi você entrando.
– Por que eles contratariam um detetive? O delegado está tentando resolver esse caso. — Cruzou os braços na altura do peito.
– Com todo o respeito, digamos que o detetive Underwood não seja o especialista em serial killers, e que sua investigação está mais dispersa a cada minuto que passa.
– Serial Killers? — Perguntou Kurt com medo.
– Você não reparou? Não há sangue. — Antes que Kurt pudesse responder, Blaine continuou. — Acho que você deve ir embora, garoto. O local do crime foi fechado, mas os policiais podem nos encontrar aqui em qualquer momento.
Blaine levantou as sobrancelhas triangulares em um aceno e se virou para a saída, mas Kurt o segurou pelo braço com um pouco de autoridade. — Você vai tomar um café comigo e vai me explicar exatamente o que aconteceu com a minha amiga.
E então caminhou até a porta.
[...]
– Então? — Kurt colocou seu copo de café na mesa e encarou o homem sentado em sua frente. A família Harper era uma das mais ricas e influentes dos Estados Unidos da América, e o Hummel sabia que não poupariam forças para encontrar o assassino da filha. — Que tal começar por serial killer?
– Certo. — Blaine colocou os braços sobre a mesa. — Há uma semana foi encontrado um corpo em Fort Shawnee. Parecia um homicídio qualquer, um contador foi achado morto pela diarista.
– E por que isso faz do assassino um serial killer? Há vários assassinatos todos os dias por todo o país. — Kurt deu um gole longo do seu café.
– Você lembra a cena do crime? Sem sangue, sem sinais de luta? Apenas um corpo deitado na cama? — Kurt assentiu. — Aconteceu a mesma coisa com Dani. Eu estava investigando o assassinato de Fort Shawnee quando os Harpers me contataram. Já trabalhei com alguns casos do governo, e o senador Harper pediu meus serviços.
– Então há um padrão? — Blaine levantou as sobrancelhas curioso tentando entender como Kurt sabia sobre serial killers manterem padrões. — Qual é, eu assisto CSI.
– Sim. — Blaine não sabia se seria certo contar os detalhes da morte da melhor amiga pro Hummel e revelar os acontecimentos da investigação, mas lembrou-se de Kareen falando que a Berry e o Hummel eram confiáveis. — Não há ligação entre as vítimas por enquanto, mas o modo em como foram achadas passou a ser o padrão do assassino.
– Como assim?
– Os corpos são encontrados sempre deitados na cama, alinhados com um lençol de seda branco. Roupas também brancas. Cabelos penteados, com as feições tranquilas. Mas o mais interessante é que o assassino consegue ser um puta sociopata. Ele coloca as mãos das vítimas sobre o peito, e entre as duas mãos há uma foto polaroid.
– O que há na foto? — Kurt perguntou curioso.
– A vítima amarrada, com cordas nas mãos e mordaças a impedindo de gritar. O assassino consegue ser tão frio, que fotografa a vítima minutos antes de asfixiá-la.
– Isso é desumano.
– E não é só isso. — Blaine se inclinou na mesa, olhando aos lados antes para ver se alguém os escutava. — Ele ainda assina as fotos com uma caneta preta. E está fazendo uma contagem regressiva.
– Uma contagem regressiva?
– Na foto do contador, no verso, havia o número 20. Já na de Daniela, o número 19. O assassino está solto, e pretende matar mais 18 pessoas, e não temos a minima ideia de quais serão as vítimas.
– Por que você está me contando isso?
– Você é estudante de Psicologia, não é? Achei que talvez pudesse ajudar. É sua amiga, é sua sede de vingança de ver o psicopata atrás das grades. — Deu um gole do café.
Kurt suspirou.
– Qual o nome dele? — Disse com os dentes cerrados.
– Oi?
– O nome do assassino. — Disse pausadamente.
– Não sabemos.
Kurt estava quebrado. Blaine tinha razão. Esse maldito assassino era um psicopata, um serial killer que estava matando pessoas por aí sem motivo nenhum. Estava claro, não havia ligações entre as vítimas. Isso era um lazer para o maldito, matar pessoas o divertia.
Kurt sentia aquilo, e sabia que não deixaria nenhum amigo ficar sem a melhor amiga, ou nenhuma mãe ficar sem a filha. Ele não havia entrado no curso de Psicologia para ser um herói, mas ele sabia como funcionava a cabeça das pessoas... E dos psicopatas. Ele poderia ajudar. Ele iria ajudar.
– Você disse que ele assinava as fotos. Qual o nome dele?
– Düsseldorf. — Respondeu. — Ele se apelida de Düsseldorf.
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