O Aroma do Gelo : Entre Contratos e Cicatrizes

12 ​Capítulo 12: O Gosto Amargo da Vitória




​O eco do silêncio na suíte real do hotel após a festa em Milão era ensurdecedor. Claire Sterling entrou em seus aposentos e fechou a porta, encostando o corpo contra a madeira fria. O triunfo que sentira no salão, ao ver Ethan humilhado diante da elite europeia, começou a evaporar, sendo substituído por um vazio dilacerante.

​Ela caminhou até o espelho e começou a retirar as joias de diamante. Suas mãos tremiam violentamente. Ao soltar o fecho do vestido de vinho, ela desabou no tapete de seda. Ali, protegida pela escuridão do quarto, a máscara de "imperatriz da moda" caiu.

​Claire chorou. Não eram lágrimas de tristeza comum, mas soluços convulsivos que pareciam rasgar seu peito. Ela o odiava pelo que ele fizera, pela forma como a tratara como um objeto, mas vê-lo naquele salão — ver o desespero nos olhos de gelo que uma vez foram seu mundo — quebrou algo dentro dela que ela jurava ter curado.

​— Por que você voltou, Ethan? — ela sussurrou na escuridão, abraçando os próprios joelhos. — Por que me obrigou a ser tão cruel quanto você?

​Ela se sentia suja. Ao humilhá-lo publicamente, ela sentiu que tinha descido ao nível dele. Ela havia vencido a guerra financeira, mas perdera a paz que levara cinco anos para construir. O arrependimento a sufocava: ela queria odiá-lo puramente, mas o grito de "Eu te amo" que ele soltara no salão ainda ecoava em seus ouvidos como uma ferida aberta. Ela nunca, jamais permitiria que ele soubesse disso. Para o mundo, e para ele, ela continuaria sendo a rocha inabalável. Mas naquela noite, Claire Mackenzie, a menina que um dia acreditou no amor, lamentou a morte da última faísca de esperança que restava em sua alma.

​A Queda do Titã

​Enquanto Claire chorava em sua torre de marfim, Ethan D’Strass estava destruindo a sua.

​Ele não voltou para Nova York. Ele se trancou em uma suíte decadente em um hotel de segunda classe em Milão, recusando-se a atender as chamadas urgentes de seu conselho administrativo. A notícia da sua humilhação e do erro bilionário correu o mundo. As ações da D’Strass Cosmetics despencaram. O "Rei do Gelo" estava derretendo sob o escrutínio público, e ele não se importava.

​Ethan mergulhou em uma espiral de autodestruição que assustaria até seus piores inimigos. Ele bebia até apagar, apenas para acordar e beber novamente, tentando silenciar a imagem de Claire derramando champanhe em seus pés com aquele olhar de desprezo absoluto.

​Três meses se passaram. Ethan tornou-se uma sombra. Ele perdeu peso, a barba estava por fazer e seus olhos, antes cortantes, agora estavam injetados e perdidos. Ele começou a frequentar os subúrbios de Milão, envolvendo-se em brigas de bar apenas para sentir a dor física, uma distração bem-vinda para a dor que sentia na alma.

​Ele gastava fortunas em informações inúteis sobre o paradeiro de Claire, apenas para saber que ela continuava brilhando, cada vez mais longe dele. Ele era um homem que tinha bilhões, mas não tinha uma razão para respirar.

​O Fundo do Poço

​O ápice da queda aconteceu em uma noite chuvosa. Ethan, embriagado e desorientado, sofreu um grave acidente. Ele dirigia em alta velocidade pelas estradas sinuosas da periferia de Milão quando perdeu o controle. O carro capotou, transformando o veículo de luxo em um amontoado de metal retorcido.

​Ele foi levado para um hospital público como um "indigente de luxo", já que não portava documentos no momento, apenas o relógio caro que Claire uma vez tocara.

​A notícia demorou dois dias para chegar a Arthur Sterling. Quando ele contou a Claire, ela estava em uma sessão de fotos para a capa da Vogue Global.

​— Ele está morrendo, Claire — disse o tio, com a voz carregada de pesar. — O hospital disse que ele não tem ninguém. O conselho da empresa o destituiu ontem. Ele não tem mais o império, não tem mais o nome. Só tem uma pneumonia severa e as lesões do acidente. Ele desistiu de lutar.

​Claire sentiu o mundo girar. A câmera caiu de suas mãos.

​— Por que está me contando isso? — ela perguntou, tentando manter a voz fria, mas falhando miseravelmente.

​— Porque os médicos dizem que ele chama um nome em meio ao delírio. E não é o nome de uma modelo ou de uma empresa. — Arthur suspirou. — Ele está pagando o preço, Claire. Mas se ele morrer lá, a culpa será sua ou dele?

​O Resgate por Piedade

​Claire tentou resistir. Passou a noite em claro, andando de um lado para o outro em seu closet imenso. Ela o odiava. Ele merecia aquilo. Ele a humilhara, a comprara, a traíra. Mas a imagem de Ethan, o homem que um dia a cobriu com seu paletó na chuva, sozinho e morrendo em uma cama de hospital público, foi demais para sua essência suave.

​Ao amanhecer, ela colocou um par de óculos escuros e dirigiu ela mesma até o hospital.

​Quando entrou na enfermaria simples, seu coração quase parou. O homem na cama não parecia o CEO impiedoso. Ele estava pálido, com tubos o ajudando a respirar e curativos por todo o rosto. Ethan parecia pequeno. Quebrado.

​Claire sentou-se na beira da cama e, pela primeira vez em cinco anos, tocou a mão dele. Estava quente de febre, mas a pele ainda tinha a mesma textura que a fazia estremecer no passado.

​— Você é um idiota, Ethan D'Strass — ela sussurrou, as lágrimas escorrendo por trás dos óculos escuros. — Você tentou comprar o mundo e acabou sem nada.

​Nesse momento, os olhos dele se abriram minimamente. O cinza estava nublado, mas quando ele a focou, uma lágrima escapou do canto de seu olho.

​— Claire... — a voz dele era apenas um sopro quebrado. — Você... veio... para rir?

​— Eu vim para te tirar daqui — ela respondeu, a voz embargada, recuperando sua postura de força. — Não porque eu te perdoei. Mas porque eu não vou deixar você morrer antes de ver o que se tornou. Você vai se levantar, Ethan. E você vai aprender a ser um homem, nem que eu tenha que te ensinar cada passo.

​Ela chamou os médicos e ordenou a transferência imediata para a melhor clínica particular da Europa, sob os cuidados dos médicos de sua família. Ela seria sua guardiã, sua enfermeira e seu pior pesadelo. Ela o salvaria, mas ele teria que enfrentar cada demônio que criou.

​A guerra entre eles tinha mudado. Agora, ela tinha o poder da vida dele nas mãos. E Ethan, pela primeira vez, não queria lutar. Ele só queria que ela não soltasse a sua mão.