Notas iniciais
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A manha chegara límpida e fria, com seu ar gélido que denunciava o fim do verão. Saiu ao raiar do sol de sua casa, um lugar simples, com algumas madeiras soltas e ratos no porão, porem bastante acolhedora. As ruas estavam começando a se encher apesar da hora, mercadores, soldados da guarda do rei e alguns mercenários já ocupavam os bares da pequena cidade apelidada como ‘’Punho do Rei’’. Axel caminhava por entre os comerciantes sem esboçar nem mesmo um discreto sorriso, estava bastante cansado e sem animo para uma caminhada matinal, ainda mais com a futura companhia desagradável que avista saindo da casa do açougueiro.

- Olá armeiro – disse o garoto, loiro de rosto fino que cuspia as palavras com tom de deboche.

Os punhos de Axel se fecham nas mãos, os olhos negros tomam vida, e as rugas na testa eram claras agora apesar da pouca idade . –Alvor – disse ele, tentando demonstrar que não se importava com pequenos deboches.

O sorriso em meio a lábios finos do garoto chamado Alvor era cortante como uma faca bem amolada. – Está indo comprar algo para seus pais? – ele gargalha a cada letra proferida, até se conter e limpar as poucas lagrimas de alegria que escorriam por suas bochechas. – Desculpe-me, acho que esqueci que eles não estão mais entre nos desde o ultimo cerco – zomba ele, enquanto coloca as mãos nos bolsos da calça de algodão cinza.

As pontas dos dedos de Axel eram queimados e calejados devido as horas de trabalho nas forjas e agora estavam colocados nas costas de modo tirar seu martelo que usava para moldar alguns tipos de armaduras porem agora seria uma ótima arma para quebrar alguns dentes de Alvor, nem ele mesmo consegue perceber que seu rosto estava molhado com as lagrimas que escorriam por todo o rosto, definitivamente os fantasmas de seus pais ainda o assombravam. Somente percebeu que perderá o controle quando dois dos guardas do rei o seguram pelos braços e o jogam ao chão. Alvor também estava sentado, com as mãos postas frente a boca que escorria sangue, Alguns metros a esquerda do armeiro estava seu martelo também manchado com o liquido viscoso vermelho, porem não era dele, era o mesmo sangue que escorria de Alvor. Levantou-se de vagar enquanto recolhia seu material de trabalho e cuspia no chão.

- Desculpe-me –disse Axel aos guardar que permaneceram em silencio e assentiram com a cabeça.

- Meu pai vai saber disso – diz Alvor, enquanto se levantava e bate suas roupas de algodão fino e deu as costas a todos enquanto volta a caminhar em direção de sua casa como se nada tivesse acontecido.

Os negociantes aparentemente não se espantam com uma briga em plena praça de comercio. Na verdade não eram tão raras assim embora poucas acabassem em morte. Alvor era conhecido como um cara que provocava a todos, seu pai possuía muitas terras além das paredes de pedra do ‘’Punho do Rei’’, o que o deixava em uma zona confortável. Enquanto Axel, não era rico e também não passava fome, apesar da pouca idade era bem habilidoso nas forjas e conseguia tirar o próprio sustento.


Horas depois quando o jovem armeiro retornava para sua casa carregando poucas sacolas de comida, ele consegue ouvir algumas risadas dos soldados que ainda comentavam algo sobre como o filho do dono das terras férteis havia merecido a martelada. Mas nenhum deles se da ao luxo de ir falar com Axel que apenas continua sua caminhada pelo mesmo caminho que veio.

Ele então adentra sua casa jogando as sacolas sobre a mesa de madeira que ele mesmo fizera a alguns poucos anos quando encontrou algumas toras de madeira jogadas frente a sua casa após a retirada de uma arvore que atrapalhava alguns moradores. Rapidamente comeu qualquer coisa e caminhou até seu quarto. O lugar cheirava a mofo, e o cobertor era abrigo de um pequeno felino de coloração negra que dormia tranquilamente se escondendo do sol, Axel pareceu não se importar e apenas trocou sua roupa. Agora com seu avental de trabalho e com os finos cabelos morenos presos ele sai novamente de sua casa indo em direção ao seu local de oficio.

O sol bate atinge diretamente seu rosto logo que Axel da seus primeiros passos para fora de casa, com as mãos tenta inutilmente tapar os raios de luz que atingem seus olhos negros dando-lhes um brilho bonito e incomum, o jovem garoto pragueja alguma coisa e se coloca a caminhar. Novamente da de ombros a todos a sua volta, a forja onde trabalhava não era muito distante, apenas teve que passar novamente pela praça dos comerciantes localizada no centro da cidade, e cruzar algumas torres de vigília, de longe era possível concluir onde era as forjas, o cheiro de carvão queimado e o som de martelos se chocando contra metais soava em um musica inconfundível.

- Espero não fazer todos os pedidos sozinho – brinca Axel, entrando no grande galpão escuro, iluminado apenas pelas brasas nos fornos.

Uma gargalhada feminina contamina o local e logo uma doce voz ecoa pelas paredes .– Achei que anões fossem menores – Liz sorri abertamente, para o amigo enquanto bate vorazmente seu martelo contra um elmo da guarda que deveria ser reparado.

- Não sou um anão – Responde ele.

- Apenas um excelente armeiro – retruca a garota, enquanto arruma o cabelo de forma prender os finos fios em um rabo de cavalo.

O garoto sorri enquanto concorda com a cabeça e caminha lentamente para seu posto, com as mãos firmes e calejadas agarra algumas barras de ferro dos fornos ardentes e as joga sobre a bigorna, com golpes fortes de seus braços torneados as barras se unem formando uma única peça que dentro de algumas horas seria uma nova espada para a guarda do Rei.

- Já que tocamos no assunto – diz Liz, caminhando para um boneco de madeira colocando o elmo sobre a cabeça do mostruário e concluindo seu pensamento. – A tempos não se tem noticias de um anão.

- A grande barreira de Gelo vai começar a se formar, eles devem estar estocando comida e metais para o inverno – responde Axel, sem desviar o olhar do metal que começa a tomar forma.

- É verdade, o inverno é pior nas minas não é? – pergunta ela, caminhando até um dos armários e retirando uma lima de ferro logo se sentando sobre um banco toscamente feito e iniciando o um árduo trabalho de afiar sua adaga pessoal.

- Como vou saber? – diz ele, rindo de sua própria ignorância. – As minas estão a vinte dias a cavalo no mínimo, os anões definitivamente não devem gostar de visitantes – conclui ele, voltando a moldar a lamina em que trabalhava.

- Ainda vou forjar nas minas – diz ela, com os olhos agora cheios de brilho.

- Você pode forjar aqui – responde ele, tentando entender o motivo de alguém andar tanto apenas para bater alguns martelos.

- Axel!- exclamou, com voz forte e imponente como se advertisse ele de algum perigo. – Não deve dizer tais coisas, sabe que os anões que ensinaram a todos a arte de dobrar o metal e transforma-lo em armas e proteção-

- Tá, não está mais aqui quem falou – diz ele, sorrindo para ela.

As horas seguintes correram em silencio total, exceto pelo bater de martelos e o crepitar das chamas nos braseiros. O suor escorria pelo rosto de ambos, e o mal cheiro começava a exalar dos corpos do casal de ferreiros.

- Nossa, passou tão rápido – diz Liz, tirando suas luvas e as atirando sobre um armário. – Tenho que ir, você fica para fechar tudo, sabe que ele não gosta que o galpão fique aberto- diz ela, agora colocando um manto acinzentado sobre os ombros e abanando as mãos em despedida enquanto some pela porta da frente.

- Excelente, sozinho novamente – Resmunga ele, voltando ao trabalho o mais rápido possível.

Mais algumas horas passam lentamente, Axel cantarolou boa parte do tempo e a outra parte se dedicou a apenas resmungar e reclamar sozinho sobre diversas coisas.

- Finalmente – diz ele, alegre ao ouvir o som das trombetas da guarda que anunciava o fim da jornada de trabalho de praticamente toda a população de ‘’Punho do Rei’’.

Rapidamente ele junta suas coisas e guarda os materiais de trabalho, com grande agilidade nas mãos varre o chão jogando a fuligem para fora do galpão e com um pano humedecido limpa todas as ferramentas e as mesas de trabalho. Por fim coloca sua manta cinza sobre os ombros e parte para sua casa, não esquecendo de trancar as forjas antes de ir.

O caminho de volta foi bastante tranquilo, novamente ninguém diz uma palavra a ele, e Axel também não se importa em falar com ninguém. As crianças aproveitavam o fim do dia para brincar, se escondendo nas torres da guarda que agora estava mais tranquila, os comerciantes vendiam sua mercadoria mais barata para não terem de carregar peso para casa e as donas de casa aproveitavam a situação para encher seus armários.

No fim de uma pequena estrada deserta estava sua casa a sua espera, mesmo de longe parecia aconchegante, o cheiro de mofo podia ser sentido de longe, mas não incomodava Axel, ele estava até contente de poder deitar sobre seus cobertores velhos e descansar as costas doloridas de um dia árduo de trabalho, entrou pela porta com grande entusiasmo passou pela cozinha improvisada e foi direto ao quarto, onde se despiu completamente e jogou-se sobre as cobertas da cama, seu suor apenas intensificava o cheiro ruim da casa, mas não havia ninguém para se incomodar, apenas ele e seu felino fiel que ainda dormia ao pé da cama. Passou o resto da tarde deitado, refletindo sobre seu dia e sobre as brigas constantes com Alvor, mas deu de ombros com a chegada da lua, finalmente consegue relaxar e pegar no sono com o suave som das corujas que agora voavam sobre os telhados gélidos.


Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.