O Apocalipse do Sangue | Dramione
12 Vᴏᴏ sᴏʙʀᴇ ᴏs Iɴғᴇᴄᴛᴀᴅᴏs
Notas iniciais

As lareiras do Ministério da Magia haviam se tornado poços de fuligem fria e silêncio. Sem a Rede de Flu, o mundo bruxo encolheu para as distâncias físicas da Idade Média, mas com os perigos de um apocalipse que não poupava a carne nem a magia.
Antes de sequer pisarem na área de decolagem, o laboratório do Departamento de Mistérios transformou-se em uma colmeia de preparação militarizada. Theodore Nott liderava o inventário de campo com uma precisão que poucos associariam ao seu habitual desdém Sonserino. Ele conjurava feitiços de compressão espacial nas maletas, organizando fileiras de frascos de acônito, essência de ditamno e os preciosos estabilizadores alquímicos que ele e Hermione haviam desenvolvido nas últimas horas.
— Se um desses frascos quebrar devido à altitude ou ao impacto de um feitiço perdido, Hermione, o sangue modificado do Malfoy vai evaporar antes de tocarmos o solo de Hogwarts — Theo advertiu, a voz ecoando grave entre as paredes de pedra enquanto selava a tampa de vácuo mágico. Seus olhos acompanhavam cada miligrama de reagente.
— Amor, pare de andar de um lado para o outro e verifique os feitiços de blindagem desses compartimentos. Eu preciso de um feitiço de contenção cinética em cada um deles.
Harry, que limpava sangue e sujeira de sua própria túnica de auror com um feitiço desleixado, obedeceu imediatamente. Ele apontou a varinha para as maletas que Theo organizava, murmurando os encantamentos estruturais. Havia uma cumplicidade silenciosa e absoluta entre o herói da Grifinória e o Sonserino; uma sintonia forjada não pela iminência do apocalipse, mas pelos anos de casamento e pela confiança inabalável que haviam construído juntos desde o fim da guerra.
Eles haviam se apoiado mutuamente para seguir em frente, escolhendo ser quem realmente eram e não o que o mundo bruxo esperava deles.
— O perímetro do Ministério está caindo por completo — Harry informou, a testa franzida de preocupação enquanto ajustava as alças de couro de seu próprio equipamento de combate.
— Kingsley me enviou um patrono antes de as comunicações caírem. Eles vão trancar as portas principais por dentro e lacrar os subsolos. O auror que foi curado e os últimos civis já foram evacuados para as abóbadas de segurança máxima no nível dez. Mas se não dispersarmos a cura a partir da Torre de Astronomia nas próximas doze horas, não haverá mais um Ministério para onde voltar. Nem um mundo bruxo.
Theo assentiu rigidamente, fechando o último fecho com um estalo metálico definitivo.
A poucos metros dali, afastado da bancada de poções, Draco Malfoy ignorava completamente os preparativos dos outros dois. Toda a sua atenção estava centralizada na mulher à sua frente. Hermione estava sentada na ponta de uma mesa de exames, os ombros levemente caídos pelo cansaço acumulado, os olhos fixos nas próprias mãos que ainda guardavam resquícios da adrenalina de ter finalmente descoberto a cura e salvado a vida do infectado.
Draco aproximou-se sem fazer barulho. Ele trazia consigo uma poção revigorante e um pedaço de pano limpo. Sem pedir permissão, ele segurou suavemente o queixo dela, forçando-a a erguer o rosto. Com uma delicadeza que contrastava brutalmente com sua postura ríspida habitual, ele começou a limpar os resquícios de fuligem e sangue seco que tinham respingado no rosto dela.
— Beba isso, querida — ele ordenou baixinho, estendendo a poção com a outra mão. — Suas mãos estão tremendo e eu não preciso de uma curandeira desidratada desmaiando no meio do caminho.
Hermione aceitou o frasco, com seus dedos roçando os dele. O calor da pele de Draco tinha o poder de confortá-la; ela estava bem e centrada como nunca estivera desde a guerra. Ela tomou a poção de um gole só, sentindo o calor artificial se espalhar por seus músculos exaustos.
— Eu estou bem, Draco — ela sussurrou, a voz rouca carregando uma nota de exaustão, mas também uma profunda gratidão. — Só estou pensando no tamanho do território que precisamos cobrir. Se falharmos em Hogwarts...
— Nós não vamos falhar — ele a interrompeu, os olhos cinzentos fixos nos dela com uma intensidade possessiva e feroz. Ele ajoelhou-se brevemente à frente dela para ajustar as amarrações das botas de viagem rústicas que ela usava, garantindo que estivessem firmes o suficiente para protegê-la do frio das altitudes. O destino final deles pairava como um fantasma não dito no ar entre os dois.
A Torre de Astronomia.
O exato lugar onde a alma de Draco quase fora partida ao meio e mergulhada nas trevas anos atrás, agora seria o pedestal de sua redenção.
— Eu passei os últimos anos limpando a sujeira que a marca no meu braço causou. Não vou deixar que um vírus de merda estrague a única coisa que me fez querer continuar vivo neste lugar. Entendeu?
Hermione sentiu o coração acelerar, a barreira do medo já inexistente, subjugada pelo cuidado dele. Ela estendeu a mão, tocando o cabelo loiro do bruxo, desalinhado pela batalha anterior, em um gesto silencioso de cumplicidade.
Minutos depois, o grupo deslocou-se para a plataforma de lançamento, uma rampa de pedra que dava acesso direto aos túneis de ventilação mecânica que se abriam para os céus de Londres.
— Vassouras? Sério? — Hermione olhou para os cabos de madeira polida que Nott trouxera do depósito dos aurores antes de recuar com a última unidade de defesa. Ela detestava voar. Desde os onze anos, a sensação de não ter os pés firmes na terra a preenchia com uma vertigem que nenhuma poção conseguia acalmar.
Draco soltou um riso curto, terminando de ajustar as alças da mochila de couro enfeitiçada sobre os ombros. Theo carregava a segunda mochila de contingência, dividindo com Malfoy a responsabilidade vital de transportar e proteger a matriz principal do sangue modificado. O vento frio do subsolo de Londres agitava seus cabelos loiros, agora úmidos da chuva que começava a cair lá fora.
— A menos que você queira caminhar quilômetros por estradas cheias daqueles desgraçados famintos, Hermione, sugiro que suba na ponta da Firebolt — ele respondeu, jogando uma capa de viagem impermeável sobre os ombros dela.
Ele deu um passo à frente, estreitando o espaço entre eles. Seus dedos longos e pálidos demoraram-se ao ajustar o capuz ao redor do rosto dela; ele inclinou-se ligeiramente, testando com as pontas dos dedos a temperatura das bochechas dela antes de puxar o tecido. Murmurou um contra-feitiço rápido com a varinha e tocou de leve a lateral do pescoço de Hermione, garantindo que o feitiço de aquecimento estivesse correndo de forma estável por suas vestes.
— Você vai comigo. Não vou arriscar você caindo — ele completou, sua mão descendo pelo ombro dela em um aperto firme, uma promessa silenciosa de que ele seria a sua estabilidade no meio daquela tempestade.
— Eu sei voar, Draco — ela mentiu, a voz tensa vacilando enquanto olhava para a tempestade que aguardava além das portas de segurança do Ministério. Draco sequer se deu ao trabalho de discutir a mentira frágil, focado apenas em mantê-la segura.
Harry e Theo já estavam montados. Theo mantinha a varinha em punho, traçando feitiços de desilusão sobre o grupo para que cruzassem os céus de Londres sem chamar a atenção dos trouxas, ou das coisas que rastejavam no escuro.
— Nos vemos nos limites de Hogwarts — Harry disse, os óculos agora limpos pelo feitiço Impervius. — Se o sinal de Blaise estiver correto, Ginny conseguiu manter as barreiras do castelo erguidas, mas os portões estão cercados. Temos que entrar por cima.
Draco montou na vassoura com uma fluidez natural. Por muitos anos, voar havia sido sua maior fuga, o único santuário de paz onde o peso do seu nome e os fantasmas de seu passado não conseguiam alcançá-lo. Percebendo a rigidez quase estática de Hermione no chão de pedra, ele estendeu a mão pálida para ela, mas não esperou que ela fizesse todo o trabalho. Draco segurou a mão dela com firmeza, puxando-a com cuidado.
— Venha — ele disse, a voz subitamente suave. Quando ela se acomodou, Draco pegou as duas mãos trêmulas de Hermione e as puxou para a frente, guiando-as pessoalmente ao redor da cintura dele. Ele pressionou as mãos dela contra a própria túnica, segurando-as ali com as palmas quentes. — Segure em mim e não solte por nada. Eu não vou deixar você cair, bruxinha.
Hermione assentiu contra as costas dele, os dedos enterrando-se na sua túnica. Ela apoiou o rosto entre as escápulas de Draco, sentindo o calor firme de seu corpo e a batida regular de seu coração. Draco tencionou os músculos por um segundo, absorvendo a proximidade e o peso da confiança dela, antes de dar o impulso em direção ao céu cinzento.
O voo foi um mergulho no inferno. Londres, vista de cima, parecia uma colmeia moribunda. Fumaça negra subia de bairros trouxas e bruxos de forma indistinta; as luzes da cidade estavam falhando, deixando o cenário em uma penumbra gótica.
À medida que avançavam para o norte, a paisagem tornava-se ainda mais desoladora. O Beco Diagonal era uma cicatriz escura na terra. Vilarejos que antes fervilhavam com o comércio mágico agora eram pontos de silêncio absoluto. Do alto, Hermione conseguia ver pequenas manchas escuras movendo-se pelas estradas, os infectados, caminhando sem rumo, guiados apenas pela fome residual e pela magia apodrecida que os mantinha de pé.
Draco voava baixo, usando as copas das árvores e as colinas como cobertura. Cada vez que a vassoura inclinava de forma mais violenta para desviar de um obstáculo ou de uma corrente de ar descendente, os braços de Hermione se apertavam ao redor de sua cintura. Ele respondia cobrindo as mãos dela com as suas por um breve segundo, um lembrete físico de que ele a tinha segura.
A tensão emocional que os unia não precisava de palavras. Naquele céu cinzento, cercados pela morte de um mundo e pelo luto de suas próprias perdas pessoais, o espaço entre a proteção dele e a confiança dela abrigava um sentimento que eles ainda não ousavam nomear, mas que já não podiam esconder.
Mais atrás, Theo Nott mantinha sua vassoura alinhada à de Harry, atuando como o escudo de retaguarda. Ele observava a silhueta de Draco e Hermione à frente, as capas pretas agitando-se contra a tempestade de inverno. Mesmo voando no meio de turbulências severas, Draco mantinha o corpo ligeiramente inclinado para trás, servindo deliberadamente de quebra-vento para que Hermione sofresse menos com o impacto do granizo fino que começava a cair.
Piscando contra os pingos gelados, Harry observava a forma como as duas capas pretas quase se fundiam contra o céu. Era uma ironia que os céus de Hogwarts, outrora o palco de suas rivalidades juvenis, agora fossem a rota para a salvação deles.
Ele conhecia Hermione melhor do que ninguém; sabia o quanto ela odiava voar e o pavor que aquela altitude lhe causava. Mas vê-la agarrada à túnica de Malfoy, entregando-lhe uma confiança rara, reafirmava a decisão de Harry de colocar a vida de sua melhor amiga nas mãos dele. Tendo trabalhado ao lado de Draco por anos, Harry conhecia bem a faceta letal e cruel do auror no campo de batalha. No entanto, vendo a devoção com que ele agora a blindava contra a tempestade, Harry teve a clareza cristalina de que toda aquela crueldade seria usada como escudo; o Sonserino morreria antes de permitir que qualquer mal a tocasse.
Theo olhou de soslaio para Harry. O Grifinório não desviava os olhos do caminho, mas sua postura irradiava a determinação de um homem que sabia que aquela era a cartada final. Um trovão ecoou pelas colinas que começavam a se erguer no horizonte. As silhuetas pontiagudas das torres de Hogwarts surgiram entre as nuvens carregadas, cercadas por um anel cintilante de magia de proteção antiga. Mas abaixo das barreiras, o chão fervilhava.
A verdadeira batalha estava prestes a começar.
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