O Apocalipse do Sangue | Dramione
15 Tᴇᴍᴘᴇsᴛᴀᴅᴇ ᴅᴇ Pʀᴀᴛᴀ
Notas iniciais

O som da madeira quebrando e do ferro colidindo ecoava pelas escadas em espiral da Torre de Astronomia. Draco, Harry e Blaise montaram uma barricada improvisada com armaduras antigas, gárgulas desativadas e pedras soltas, transformando o corredor estreito e circular em um funil mortal.
As primeiras criaturas começaram a subir. Elas não sentiam dor nem medo, e sua velocidade era amplificada pela magia corrompida, que fazia seus tendões esticarem além do limite humano. O coro de rosnados ecoava nos degraus de pedra, um som agudo, úmido e ensurdecedor.
— Sectumsempra! — Draco rugiu, brandindo a varinha com fúria gélida. O feitiço de corte profundo atingiu os dois primeiros infectados, mutilando seus corpos em jorros de sangue envelhecido, mas eles continuaram a rastejar pelos degraus, com as unhas arrancadas arranhando o chão e os dentes estalando na direção das botas dele.
— Reducto! — Harry disparou logo em seguida, pulverizando o crânio de uma criatura que tentava saltar sobre a barricada. O sangue escuro e viscoso espirrou nas paredes de pedra, tornando o chão escorregadio, inclinado e perigoso. — Eles estão usando as próprias carcaças como escada, Malfoy! Não vão parar!
— Bombarda! — Blaise gritou, conjurando um feitiço de impacto no topo da escadaria. Pedaços de rocha maciça desabaram sobre a horda, esmagando os primeiros da fila. Ele imediatamente emendou com uma barreira de chamas azuis para criar uma contenção temporária nas escadas inferiores. — A barricada não vai aguentar a pressão física! São centenas deles empurrando lá de baixo!
Enquanto isso, lá embaixo, no pátio interno de Hogwarts, a situação era ainda mais desesperadora. O caos instalara-se por completo. Neville e Pansy lutavam lado a lado, cercados por infectados que romperam a linha de contenção dos Grifinórios. A espada de Gryffindor brilhava na penumbra, decapitando monstros com força, enquanto Pansy disparava feitiços de corte que despedaçavam os membros das criaturas antes que pudessem encurtar a distância.
Um infectado veloz e de braços longos arremessou-se de uma pilastra, mirando as costas expostas do Grifinório.
— Neville, atrás de você! — Pansy gritou. Sem hesitar, ela deu um passo à frente e lançou um feitiço de impacto que jogou o morto-vivo contra a parede, quebrando-lhe as costelas antes que ele alcançasse o pescoço do bruxo.
Antes da guerra, Pansy fora pragmática, seguindo à risca os planos dos pais. Casar-se com Draco Malfoy era o destino traçado, e ela não achava ruim; por um tempo, fora terrivelmente apaixonada por ele. Tiveram um caso nas sombras do castelo, mas a guerra estilhaçou tudo, reduzindo o romance a uma amizade leal. Depois disso, Draco perdera-se para sempre, trancando-se nas próprias cicatrizes.
Mas agora, o que crescia no peito de Pansy ao olhar para Neville era algo novo: uma admiração profunda, um desejo adulto, brutalmente diferente da fantasia adolescente que um dia sentiu por Malfoy.
Do outro lado, Neville também percebeu que havia muito mais em Pansy Parkinson do que a fachada de garota cruel.
Ele vira Harry enfrentar o impossível para ficar com Theo, mas, para si mesmo, o Grifinório nunca pensara em romance. Sua vida resumia-se a manter os sobreviventes a salvo e cuidar das plantas que salvou nas estufas blindadas. No entanto, durante o convívio exaustivo do confinamento, passou a observar aSonserina de perto, admirando sua resiliência e a forma como ela jamais desistia.
O desejo entre os dois crescera rapidamente, impulsionado pela urgência do apocalipse.
Afinal, o fim do mundo deixava todos os sentimentos à flor da pele. Quando as estruturas desmoronam e o amanhã deixa de ser uma garantia, o ser humano busca instintivamente por conexão, tateando no escuro por qualquer faísca de vida. Cada olhar compartilhado no caos e cada esbarrão nos corredores serviam como âncora emocional, uma prova física de que não tinham sucumbido ao desespero.
Ainda havia esperança.
— Obrigado! — Neville gritou. Com os ombros largos e a mandíbula suja de sangue, ele exalava uma força bruta que fazia Pansy perder o fôlego por motivos bem distantes do medo. Os dois compartilharam um olhar de cumplicidade no massacre. — Temos que recuar para o saguão! Estamos sendo flanqueados pelo jardim interno!
Neville puxou Pansy pela cintura quando um pedaço de gárgula explodiu. O toque foi rápido, mas a firmeza da mão dele contra o couro da jaqueta fez o coração da Sonserina disparar. Eles cobriram as costas um do outro, movendo-se em uma dança sincronizada de lâmina e varinha, recuando em direção às portas duplas do castelo e deixando um rastro de corpos inertes pelo caminho.
De volta à estrutura claustrofóbica da Torre de Astronomia, a barreira de fogo de Blaise começou falhar sob o peso esmagador da horda. Uma criatura de tamanho impressionante, que ostentava vestes rasgadas de um antigo bruxo das Terras Altas, chocou-se contra a barricada com tanta força que o bloqueio cedeu com um estrondo de ferro retorcido.
A barricada explodiu. O gigante saltou sobre os escombros, atingindo Blaise e derrubando-o de costas nos degraus de pedra. A varinha dele rolou escada abaixo.
— Blaise! — Harry urrou, mas estava ocupado demais segurando outros três infectados que avançavam pela brecha à esquerda, usando um feitiço de escudo para empurrá-los contra o despenhadeiro da torre.
Draco moveu-se com a agilidade letal de um predador. Sem pensar, colocou a varinha entre os dentes e sacou a adaga de prata oculta na bota. Atirou-se sobre as costas do monstro e cravou a lâmina na cabeça da criatura, girando o metal com as duas mãos para destruir o córtex cerebral dopado por magia negra.
O morto-vivo estremeceu e desabou, um peso morto sobre Blaise, que empurrou o corpo putrefato para o lado com uma expressão de nojo e profunda gratidão.
— Essa porra foi por muito pouco — Blaise arfou, limpando a gosma preta da bochecha e recuperando a varinha.
Draco puxou a adaga com um estalo seco e limpou a lâmina na barra da túnica. Seus olhos cinzentos fixaram-se nas escadas, onde dezenas de silhuetas retorcidas continuavam a subir.
Poucos metros acima, no topo da Torre, o chão tremia com a violência da batalha abaixo. Ginny mantinha a varinha erguida, os olhos fixos na escada. Ao seu lado, Theo cerrava os dentes, lutando contra o instinto de descer e lutar ao lado de Harry. Ele queria desesperadamente ser a retaguarda do marido, cobrir seus pontos cegos no meio daquele inferno. Mas Theo sabia que tinha um trabalho crucial a fazer ali em cima: ser a última barreira entre os monstros e a cura. Além do mais, ele confiava em Draco.
Nott tinha a certeza absoluta de que Malfoy assumiria esse papel, protegendo as costas de Harry com a mesma ferocidade e lealdade com que daria a própria vida por Hermione.
— A fumaça precisa subir mais rápido, Hermione! — Ginny berrou por cima do caos que ecoava em espiral pelo corredor. — Eles não vão aguentar muito tempo, a linha de defesa deles está por um fio!
Mantendo-se firme no centro do feitiço, Hermione ignorava o caos abaixo, ela empunhava a varinha com ambas as mãos, forçando sua magia através das runas desenhadas no chão até que elas queimavam em um tom incandescente. O líquido azul-turquesa no caldeirão ferveu de forma violenta e sibilante. Em vez de apenas subir, uma névoa espessa e prateada começou a transbordar pelas bordas do ferro, derramando-se pelo chão da torre como gelo seco antes de ser sugada para cima em um vórtice veloz, alimentando a atmosfera cinzenta de Hogwarts.
Malfoy estava exausto. O suor frio escorria por sua testa, os músculos de seus braços queimavam como se tivessem sido atingidos por uma maldição Cruciatus, e o cheiro acre da morte e da decomposição estava impregnado em seu corpo. Suas roupas estavam rasgadas e manchadas. Mas cada vez que suas pernas ameaçavam vacilar pela fadiga, o rosto de Hermione surgia em sua mente. O gosto do primeiro beijo deles ainda estava quente em seus lábios.
Ela estava lá em cima.
Ele não deixaria absolutamente nada subir aquelas escadas.
Nada tocaria nela.
— Fiquem atrás de mim! — Draco ordenou aos berros, a voz áspera. — Vamos segurar esses filhos da puta aqui nem que eu tenha que quebrar cada degrau dessa porra de Torre com as minhas próprias mãos! Confringo!
O feitiço de explosão de Draco iluminou a escadaria em tons de laranja e vermelho, lançando pedaços de carne e rocha para o ar. Harry se posicionou ao seu lado, as varinhas dos dois se movendo em um ritmo frenético de ataque e defesa, enquanto Blaise cobria os flancos. Eles eram a linha de defesa entre o horror que subia e a salvação que fervia no caldeirão acima deles.
No topo da Torre, o metal do caldeirão ameaçava derreter, o atrito brutal de duas magias ancestrais colidindo dentro do caldeirão gerava um calor sufocante, distorcendo o ar em ondas grossas.
Hermione operava muito além do seu limite físico. Com as mãos estendidas sobre o círculo, seu núcleo mágico estava prestes a se romper. As veias nos braços dela pareciam queimar de dentro para fora. Do outro lado, Theo tentava ancorar a estabilidade do artefato, cravando as duas mãos trêmulas na borda de bronze fervente, o suor rasgando caminhos claros em seu rosto.
— Granger, a pressão atmosférica está mudando — Nott avisou, a voz quase sumindo sob o barulho do vento, os olhos cravados no céu acima deles. As nuvens cinzentas haviam começado a girar em um turbilhão denso, assumindo uma coloração prateada e luminescente. — O feitiço de expansão funcionou. A chuva vai começar, mas você precisa aguentar mais trinta segundos!
— Eu, eu não vou soltar! — Hermione gritou de volta, os dentes trincados com tanta força que sua mandíbula doía, os olhos fixos na fumaça azul-turquesa que agora ganhava fios dourados.
De repente, o chão sob seus pés vibrou. O som de passos pesados e metal colidindo nas escadas tornou-se insuportável. A porta de madeira maciça que dava para as escadas foi estilhaçada por um feitiço de impacto violento, vindo de dentro para fora.
Draco foi jogado para dentro da sala com o impacto da explosão, rolando pelo chão de pedra calcária e arrancando lascas do mármore. Ele se ergueu imediatamente sobre os joelhos, tossindo sangue, a túnica rasgada no ombro. Harry e Blaise surgiram logo em seguida, recuando, com as varinhas estendidas, disparando feitiços cegamente para trás.
Atrás deles, a horda de infectados finalmente rompera a barricada das escadas. Sem o funil para segurá-los, a maré de mortos-vivos transbordava livremente para dentro da Torre.
— Eles entraram! — Theo gritou, sacando a varinha do caldeirão por um segundo e apontando para a soleira da porta.
As primeiras criaturas invadiram o topo da Torre com uma velocidade assustadora, os membros tortos se chocando contra as paredes. Seus olhos leitosos e injetados de sangue fixaram-se imediatamente no caldeirão brilhante e nos vivos que o cercavam. Elas emitiram aquele sibilar agudo e faminto e avançaram em bando.
— Protego Totalum! — Harry gritou, canalizando cada gota de energia que lhe restava. Uma redoma translúcida e azulada ergueu-se ao redor de Hermione, Theo e do caldeirão.
No momento seguinte, três infectados se arremessaram contra a barreira. A força combinada do impacto físico das criaturas fez o feitiço estalar como vidro trincado. Harry caiu de joelhos com o ricochete mágico, o nariz sangrando pelo esforço.
Draco levantou-se com dificuldade, o sangue escorrendo de um corte profundo em sua própria testa, misturando-se à sujeira e ao suor que cobriam suas feições. Ele ignorou a dor de suas costelas provavelmente trincadas. Ele olhou para Hermione.
O olhar entre os dois cortou o caos como um feixe de pura cumplicidade. Draco viu o medo cru nos olhos castanhos dela, mas também a confiança férrea de quem se recusava a perder. Ela não quebrou o círculo rúnico; permaneceu indefesa, se colocando em risco porque sabia que precisavam salvar aquele mundo para erguerem o próprio futuro juntos. Aquela entrega mútua, a convicção de que teriam um amanhã, acendeu um instinto protetor violento no peito de Malfoy.
Ele avançou sem hesitar, postando-se como uma barreira humana e intransponível exatamente na frente do escudo de Harry.
Hermione sentiu o seu núcleo mágico vibrar como uma corda esticada até o ponto de ruptura, Ela fechou os olhos e, com um movimento lento e deliberado, não apenas canalizou sua energia, ela a despejou nas runas rúnicas desenhadas no chão.
O ar na sala mudou instantaneamente. Uma onda de choque silenciosa, mas brutal, irradiou de seu peito. Hermione arqueou o corpo, enquanto a sua essência vital alimentava as runas com uma voracidade selvagem.
O teto da Torre de Astronomia, forjado por séculos de magia de retenção, reagiu à sobrecarga, o teto não explodiu por um feitiço; ele desabou sob a pressão de um poder que não cabia mais naquelas paredes, a tempestade externa invadiu o ambiente com a força devastadora de um furacão, eliminando qualquer barreira entre o céu e o salão.
E com o vento, veio a primeira gota.
Não era água comum. Era uma gota de chuva pesada, prateada, brilhante como mercúrio vivo, saturada até o núcleo com os anticorpos extraídos do sangue de Draco e expandida pela magia curativa de Hermione.
A gota caiu diretamente sobre a testa do primeiro infectado que esticava os braços podres para tentar quebrar o escudo de Harry.
O efeito foi instantâneo e absolutamente devastador para a necromancia. O monstro parou seu avanço no mesmo segundo, soltando um rugido que não era de raiva, mas de uma agonia física purificadora. A luz prateada espalhou-se por seu tecido em decomposição como fogo líquido, correndo por suas veias, queimando a necrose e dissolvendo as marcas negras da magia das trevas. Em segundos, o corpo desabou no chão, não mais como uma abominação faminta, mas como um cadáver limpo, em paz, desprovido da força profana que o animava.
Lá fora, as nuvens negras abriram-se por completo numa tempestade torrencial de chuva de prata sobre Hogwarts, cujas bordas luminosas já começavam a se expandir velozmente pelo horizonte, varrendo os vales e as montanhas em direção ao resto do mundo.
O som do massacre, dos gritos e do metal que ecoava nos terrenos do castelo foi subitamente substituído por um coro ensurdecedor de lamentos purificadores. À medida que as gotas de chuva tocavam os milhares de infectados acumulados no pátio interno, nas pontes, esmagados contra os portões de ferro, a infecção era neutralizada em massa. As criaturas caíam no chão, a magia escura deixando seus corpos em espirais densas de fumaça preta que eram imediatamente dissipadas pelo vento da tempestade.
No pátio inferior, Pansy Parkinson, com as roupas encharcadas de água prateada, parou a varinha no ar. Ao seu lado, Neville fincou a espada de Gryffindor no chão, usando-a como apoio enquanto olhava ao redor, arfando. Os monstros que os cercavam simplesmente desabavam, curados da maldição.
Pansy olhou para Neville, com a adrenalina ainda correndo em suas veias, ela deu um passo à frente, segurando o colarinho da camisa dele com as duas mãos e puxando-o para um beijo rápido, caótico. Neville arregalou os olhos por um momento, mas imediatamente envolveu a cintura dela com o braço livre, correspondendo com uma intensidade que limpou qualquer dúvida sobre o que sentiam.
— Se você achar que isso foi só por causa da adrenalina de quase morrermos, Longbottom, eu azaro você — ela avisou, a voz rouca, os olhos fixos nos dele sem recuar.
— Eu não me atreveria, Pansy — Neville respondeu, usando o primeiro nome dela com uma naturalidade que fez o peito dela aquecer. Ele sorriu, um sorriso largo e cansado que iluminava seu rosto sujo. — Nós temos um mundo inteiro para reconstruir agora. E eu não quero fazer isso sozinho.
Os que haviam sido mordidos recentemente dentro do castelo e cujos núcleos mágicos ainda lutavam para funcionar, como os alunos encurralados no saguão e os refugiados, começaram a tossir o fluido escuro e espesso. Suas peles recuperavam a cor humana, a febre cedia instantaneamente e suas mentes voltavam à lucidez sob a água que escorria pelas frestas e janelas do castelo.
Dentro da Torre, os três monstros restantes que haviam cruzado a porta caíram inertes no mármore à medida que a chuva os alcançava pelas arcadas abertas. As veias negras em seus pescoços sumiram.
O silêncio voltou a reinar em Hogwarts.
Um silêncio profundo, limpo, lavado pela água que brilhava como estrelas caídas no chão de pedra molhado.
Hermione não caiu de joelhos. Ela despencou de uma só vez, como uma marionete cujos fios tivessem sido brutalmente cortados. O baque surdo de seu corpo inerte contra a pedra calcária ecoou mais alto que o vento.
— HERMIONE! — Draco urrou, a voz rasgando a garganta, o som carregado de um terror animal que fez o sangue de todos congelar.
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