O Apocalipse do Sangue | Dramione

8 Pᴇsᴏ ᴅᴏ Sɪʟêɴᴄɪᴏ


Notas iniciais
Para entrar na vibe: https://tinyurl.com/ismrf-writing

Hermione aproximou-se com os instrumentos. Suas mãos, antes trêmulas pelo cansaço, encontraram uma precisão cirúrgica imposta pela urgência. Dispôs sobre a mesa três frascos de vidro reforçado com runas de contenção, uma agulha de prata e o cristal de quartzo que serviria como condutor para a ligação de seus conteúdos mágicos. Cada movimento dela era milimetricamente calculado, uma fachada de controle para esconder o peso da responsabilidade que esmagava seus ombros.

Draco acompanhava cada gesto dela. O silêncio era tão espesso que o som metálico dos frascos batendo na mesa parecia ecoar. Ele notou o vinco de preocupação na testa dela e a forma como ela respirava pausadamente para não deixar os dedos vacilarem.

— Se continuar manuseando esses frascos com a delicadeza de quem carrega ovos de dragão prestes a explodir, Granger, vamos ficar aqui até o próximo apocalipse — ele comentou, a voz mansa, um tom sutilmente irônico que buscava apenas aliviar o clima tenso que se instalara no ambiente.

Hermione parou e olhou para ele, com os olhos carregados de uma seriedade quase dolorosa.

— Eu sei exatamente o que estou fazendo. Só estou garantindo que as runas de contenção aguentem a pressão. A magia residual de um feitiço necromântico de Voldemort não é algo que se possa subestimar.

— Eu sei — ele respondeu, e pela primeira vez, não havia escudos em sua voz. Ele estendeu o braço esquerdo, apoiando-o firmemente sobre a mesa, expondo a pele alva e a cicatriz acinzentada. — Mas eu confio em você. Então, pare de hesitar.

— Certo, vou começar a extração — ela explicou, com a voz assumindo o tom técnico que usava para conter o pânico que ameaçava transbordar. — Quando a agulha entrar, o feitiço vai tentar extrair não apenas o sangue físico, mas a assinatura mágica residual que Voldemort deixou em você. Vai doer, Draco. Vai parecer que o seu braço está pegando fogo de dentro para fora.

Draco a observava; ele notou a linha rígida de sua postura e o suor frio que brilhava em suas têmporas. Havia uma dignidade indomável nela que o fascinava profundamente.

— Eu era o brinquedo de tortura favorito da minha tia, Hermione — Draco respondeu, chamando-a pelo nome próprio com uma gravidade que arrepiou a nuca da bruxa. Seus olhos estavam fixos nela, determinados. — Uma agulha de prata não vai me fazer chorar. Apenas faça.

Hermione respirou fundo. Ela segurou o pulso dele com a mão esquerda, sentindo a pulsação rápida, um ritmo sob seus dedos que denunciava a adrenalina correndo nas veias dele. Com a mão direita, posicionou a agulha sobre a veia principal que cruzava a Marca Negra e murmurou o encantamento em latim antigo, uma prece de separação e purificação que aprendera nos tomos restritos de medicina neuro-mágica:

— Sanguis et anima, segregate...

No instante em que a ponta de prata perfurou a pele, um estalo de magia ecoou pela sala, fazendo as chamas das velas tremularem violentamente. O sangue que começou a fluir pelo tubo transparente não era vermelho vivo; era de um escarlate escuro, quase purpúreo, espesso, e fumegava levemente ao tocar o vidro do frasco, liberando um odor ácido de magia corrompida.

Draco não gritou, mas sua mandíbula se contraiu com tanta força que Hermione ouviu o ranger de seus dentes. Os músculos de seu braço ficaram tensos como cabos de aço, com as veias saltando sob a pele alva. Seus dedos livres enterraram-se no estofado da poltrona, danificando o material sob a pressão de sua força desmedida; uma gota de suor escorreu por sua têmpora, traçando um caminho sinuoso pela cicatriz que ele carregava no rosto.

— Concentre-se em mim — Hermione pediu, lutando para manter a própria mão firme enquanto o frasco vibrava. Ela pegou o cristal de quartzo e o pressionou contra a sua própria mão, enquanto mantinha o contato físico com a pele dele. — Olhe para mim, Draco. Não deixe a magia dele te puxar.

Ele ergueu os olhos. Havia uma tempestade cinzenta naquelas íris, um misto de dor física lancinante e memórias de terror que o feitiço estava desenterrando do fundo de sua alma. Através da conexão estabelecida pelo quartzo, a mente de Hermione foi subitamente arrastada para o abismo dele.

Foi avassalador.

Hermione vacilou, com seus joelhos enfraquecendo sob o peso do trauma dele. Ela se viu empurrada para dentro de uma sala fria e escura na Mansão Malfoy. O cheiro de mofo e sangue impregnava o ar; ela ouvia, em um eco torturante, os gritos de pessoas morrendo nas masmorras, o som da risada sibilante e cruel de Voldemort reverberando pelas paredes, e o peso sufocante da culpa que Draco carregava, sozinho, por todos aqueles anos.

De repente, o teto daquela mesma sala pareceu girar, e Hermione sentiu o terror paralisante de um Draco de dezoito anos, obrigado a assistir à tortura da própria Hermione. Ela sentiu o pânico sufocante dele, o estômago revirando ao som dos gritos dela e a desejo urgente de querer intervir, mas sabia que um único passo em falso significaria a execução da mãe dele.

O cenário mudou abruptamente para a Torre da Astronomia, sob o céu gélido daquela noite fatídica. Hermione sentiu o suor frio nas mãos de Draco, o peso insuportável da varinha apontada para Alvo Dumbledore e o desespero de um garoto encurralado que não queria se tornar um assassino, mas que carregava a sobrevivência da família nas costas. Ela ouviu o choro dele no banheiro, misturado à água e ao sangue.

Então, a escuridão da guerra cedeu lugar a um luto cinzento e silencioso. Hermione viu Draco sozinho em um quarto vazio, com os olhos fixos na cama arrumada após a morte de Narcisa Malfoy. Restara apenas ele, desamparado na imensidão de uma Mansão que parecia um túmulo, sem o único porto seguro que conhecera na vida.

Por fim, o labirinto de memórias a cuspiu no pós-guerra. Ela sentiu a amargura de Draco ao assistir, das sombras, a todo o mundo bruxo seguindo em frente. Viu Harry, Ron e a própria Hermione sendo condecorados, reconstruindo suas vidas e respirando a liberdade, enquanto ele permanecia congelado no tempo, acorrentado aos olhares de desprezo, aos sussurros de "Comensal" e à solidão desesperadora de um condenado a pagar uma penitência eterna sem nunca alcançar o perdão.

Mas o que mais doeu em Hermione foi senti o vislumbre de Theo, Pansy e Blaise; ela viu os três tentando, de todas as formas, manter contato com Draco, tentando puxá-lo para a nova realidade deles, tentando fazê-lo viver. Eles estavam conseguindo seguir em frente, mas Draco simplesmente não sabia como fazer o mesmo. Ele se isolara dos próprios amigos por achar que sua presença os mancharia com o seu passado, condenando-se a uma cela invisível porque a sua mente não entendia como pertencer a este mundo.

Era uma solidão desesperadora, um labirinto de arrependimento que a fez perder o fôlego.

Mas ela não soltou o braço dele.

Em vez de recuar diante da escuridão, Hermione fincou os pés na realidade, sentindo uma onda de admiração pela força silenciosa que permitiu a ele sobreviver a tudo aquilo sem se perder por inteiro. Ela enviou sua própria magia através do cristal, um fluxo torrencial de energia pura, uma magia que cheirava a páginas de livros, a grama molhada após a chuva de outono e à resiliência teimosa que sempre a definira. Ela ofereceu a ele o seu próprio equilíbrio, a sua própria força, envolvendo os fantasmas dele com uma barreira inquebrável de luz.

Os olhos de Draco se arregalaram levemente quando a magia de Hermione o alcançou. O calor dela invadiu a frieza de suas memórias, agindo como um bálsamo reconfortante, a sensação de não estar mais sozinho naquele inferno pessoal fez a tensão em seus ombros ceder aos poucos. Ele fixou o olhar no dela, segurando-se àquela conexão.

O choque de sair daquela mente quase a fez cair para trás quando o elo foi cortado. Hermione arfou, puxando o ar para os pulmões como se estivesse afogando. Ela olhou para Draco, assimilando a escala da dor que ele mascarava com desdém todos os dias. O garoto arrogante de Hogwarts havia morrido de formas que ela nunca pôde conceber.

O primeiro frasco se encheu com o fluido escuro.

O segundo também. À medida que o sangue purpúreo e contaminado era extraído, a cor do fluido que corria pelo tubo começou a clarear gradativamente, tornando-se o vermelho vivo e brilhante de um homem comum. A Marca Negra no braço de Draco pareceu perder o relevo, com suas bordas tornando-se ainda mais difusas e acinzentadas, como se o veneno que corrompia sua existência estivesse finalmente sendo drenado de seu sistema de uma vez por todas.

Quando o terceiro frasco estava pela metade, mostrando um sangue perfeitamente limpo, Hermione murmurou o feitiço de encerramento e, com um movimento rápido, removeu a agulha. Ela aplicou uma essência de ditamno sobre o pequeno ferimento, fechando a pele com um chiado suave e uma leve fumaça curativa.

Draco desabou contra o encosto da poltrona, com a respiração arfante e o peito subindo e descendo sob a túnica. Ele estava pálido, exausto, mas havia uma clareza cristalina em seus olhos que Hermione nunca vira antes. O peso dos fantasmas que nublavam seu semblante parecia ter diminuído drasticamente, deixando apenas o homem real por trás da armadura.

— Caralho — ele sussurrou, com a voz mais rouca que o normal, usando a mão trêmula para limpar o suor que inundava seu rosto.

— Nós conseguimos, você conseguiu — ela disse, com a voz caindo para um tom cheio de uma admiração suave, quase reverente. Ela selou os três frascos com cera mágica usando a varinha e os colocou cuidadosamente no suporte de metal na mesa. — O seu sangue está completamente limpo da influência dele agora, Draco. E nós temos o antígeno. O mundo tem uma chance.

Draco olhou para os frascos e depois voltou os olhos para ela, vendo as olheiras profundas que marcavam seu rosto cansado. Ele estendeu a mão longa e puxou-a pela cintura com uma firmeza delicada, fazendo-a sentar-se em seu colo.

No instante em que foi puxada, o primeiro reflexo da mente hiperativa de Hermione foi o de resistir. Seus músculos se tencionaram, e ela abriu a boca para protestar, para dizer que aquilo era inadequado, que eles precisavam processar o antígeno, ou que Harry e Theo podiam entrar a qualquer momento, mas o pensamento morreu antes mesmo de se transformar em palavras.

Ao olhar para baixo, ela encontrou os olhos dele fixos nela. Não havia escudos ali; o homem que partilhara sua mente segundos atrás estava completamente exposto. Hermione percebeu que a ligação mágica fizera mais do que drenar a necrose: ela dissolveu as defesas de ambos. Ela vira o pior dele, e ele recebera dela o melhor que sua magia conseguira canalizar. Tentar manter a distância habitual de colegas de trabalho ou antigos rivais de escola agora parecia bobo e exaustivo.

Ela estava cansada demais para mentir para si mesma.

O cansaço que Hermione vinha acumulando desde o isolamento na Austrália, o luto silencioso pelos pais e o peso insuportável de carregar a busca pela cura do mundo nas costas desabaram sobre ela de uma só vez. Suas pernas pareciam feitas de chumbo, e sua mente, que nunca parava, implorava por uma trégua.

Ela olhou para os ombros largos de Draco e compreendeu, com uma clareza desarmante, que ele era a única pessoa ali que não esperava que ela fosse perfeita. Ele não precisava da "heroína do Trio de Ouro"; ele a vira fraquejar e a amparou. Ceder àquele abraço não era uma fraqueza; era a primeira vez em anos que ela se permitia ser cuidada por alguém. Deixar-se cair contra ele era aceitar que, no meio daquela desolação, ela finalmente encontrou um lugar seguro, onde pudesse descansar, nem que fosse por apenas alguns minutos.

Hermione não protestou; a exaustão física venceu, e o calor do corpo dele era o único refúgio que ela queria. Ela apoiou a cabeça no peito de Draco, bem na abertura de sua túnica, e ouviu a cadência forte e regular de seu coração.

Enquanto o calor do corpo dele a envolvia, uma voz sombria e terrivelmente familiar sussurrou nos cantos mais profundos de sua mente. Era o pânico de se permitir sentir aquilo. Percebeu, com clareza, que estava cruzando uma linha sem volta; no entanto, ela precisava apenas daquele segundo de paz, mesmo que fosse um empréstimo perigoso do destino.

— Agora você precisa descansar, Hermione — ele disse, com os dedos longos traçando círculos lentos em suas costas, um gesto de carinho que parecia natural demais para duas pessoas que até poucos dias mal se falavam. — Você está acordada há dias. Se você desmaiar, nem eu nem o Nott saberemos o que fazer com esses frascos; vamos acabar jogando tudo no caldeirão errado.

— Só por um momento — ela pediu baixinho, com a voz sumindo no tecido da túnica dele enquanto se aconchegava mais. O cheiro marcante que emanava dele a acalmava de uma forma profunda, uma paz que nenhum feitiço calmante ou poção jamais conseguiu proporcionar em sua vida inteira. — Só por um momento, deixe-me ficar aqui, assim.

O tempo que você precisar — Draco sussurrou, mantendo os lábios encostados no topo da cabeça dela, em um beijo carinhoso e cheio de significado que ambos começavam a entender.

Os braços dele se fecharam ao redor dela com mais força, puxando-a de encontro ao seu peito de um jeito que a fez se sentir incrivelmente pequena e protegida. Os dedos de Draco subiram até os cabelos cacheados dela, desfazendo nós dos fios com uma lentidão, acariciando o couro cabeludo em um ritmo suave que parecia desarmar as últimas engrenagens de alerta da mente dela.

Eles ficaram ali, duas almas quebradas no subsolo de um mundo em ruínas, enquanto lá fora, as estrelas empalideciam diante da chegada de um novo dia.

Notas finais
E o Draco beijando o topo da cabeça da Hermione, provando ser o porto seguro que ela tanto precisava?! Me conte nos comentários o seu nível de surto com essa cena em que eles finalmente cederam ao cansaço e aos sentimentos! Se está com vontade de ler mais, não se esqueça de favoritar, comentar e acompanhar a fanfic! São essas pequenas ações que ajudam a plataforma a recomendar a história para novos leitores. Nos vemos no próximo capítulo! 🐍🦁 ─── ❖ ── ✦ ── ❖ ─── Ainda não quer sair desse universo? Me acompanhe no TikTok para ver a estética dos personagens, spoilers e descobrir quando sai o próximo capítulo! Siga: https://www.tiktok.com/@ismrf_author