O Apocalipse do Sangue | Dramione

17 Pʀᴏᴍᴇssᴀ ᴅᴇ ᴜᴍ Rᴇᴄᴏᴍᴇçᴏ


Notas iniciais
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Uma semana se passou desde aquele dia, o mundo bruxo avançava a passos lentos, claudicante, como um paciente que acabara de despertar.

O Ministério da Magia, sob a liderança de Kingsley Shacklebolt e com a ajuda de Harry e Theo, começou a limpar os escombros de Londres e a restabelecer as redes de comunicação com o resto do mundo, que felizmente foi poupado do surto devido ao isolamento geográfico imediato.

Hogwarts, porém, permanecia sendo o centro da cura. O castelo, agora um santuário de convalescença, respirava um ar de exaustão, mas também de um alívio quase palpável.

Draco estava sentado em um banco de pedra no pátio interno, com os músculos tensos como os de um cão de guarda em alerta constante. Seus olhos cinzentos não vagavam pelo pátio; eles rastreavam, com uma obsessão quase doentia, cada movimento de Hermione, que se recusava a ficar parada. Mesmo visivelmente debilitada pelo esforço que quase lhe custou a vida, ela insistia em ajudar a estabilizar os feridos mais graves, sua natureza Grifinória ignorando o próprio bem-estar.

A cada passo dela, Draco acompanhava a cadência, sua própria respiração oscilando em um reflexo invisível da dela.

Pansy aproximou-se, e parou ao lado dele. Ela acompanhou o olhar do amigo e, ao olhar a cena, compreendeu tudo: não era a proximidade física que os unia, mas o fio invisível. O cuidado com que ele vigiava cada gesto dela, a forma como ele parecia respirar apenas quando ela respirava, revelava uma reverência que ele jamais mostrou por pessoa alguma. Longe de sentir qualquer traço do antigo apego, um brilho de felicidade genuína surgiu no olhar de Pansy. Ela estava genuinamente feliz por vê-lo finalmente se dando uma chance, um reflexo do caminho que ela mesma decidiu trilhar.

Ela o observou por um breve instante, lembrando-se dos anos de silêncio que se seguiram à queda de Voldemort. Draco não apenas se afastou; ele se isolou do mundo. Não visitava os amigos, não respondia às cartas, e a demolição da Mansão fora, na verdade, o desmoronamento de qualquer traço de humanidade que ainda lhe restava. Pansy sabia que ele aceitou ser a lâmina do Ministério não por dever ou busca de glória, mas por uma autopunição silenciosa. Ele buscava a morte no campo de batalha porque, em sua mente, não tinha sequer o direito de escolher o próprio fim; acreditava que o sofrimento perpétuo era a única sentença justa para os seus pecados.

Ele não podia morrer; ele precisava pagar.

Ver aquele Draco, que antes ansiava por ser consumido por sua própria escuridão, agora atrelado à vida por uma escolha própria, era mais do que um alívio; era um milagre que ela nunca esperou testemunhar.

Era bom vê-lo finalmente em paz.

Nesse momento, seu olhar desviou-se por um segundo para o outro lado do pátio, onde Longbottom auxiliava um grupo de alunos a mover caixas. Neville parou, trocou um sorriso rápido e cúmplice com ela, e Pansy sentiu o rosto esquentar.

Draco bufou, um meio sorriso sarcástico brincando em seus lábios, mantendo os olhos fixos na figura de Hermione, mesmo sem poder tocá-la.

— Ela é o meu recomeço, Pansy. Tentei me esconder no meu próprio vazio por tanto tempo, mas ela se recusou a me deixar lá. Ela é a única razão pela qual eu ainda consigo olhar para o amanhã sem sentir que vou me afogar

Pansy riu, um som seco, e disse:

— Você merece um recomeço, Draco. E não se atreva a sumir; eu exijo ser a madrinha do seu casamento. E, quando me casar, você entrará comigo na cerimônia. Theo, Blaise e você são a família que eu realmente escolhi.

Eles se abraçaram com força, um gesto que selou o passado, um adeus silencioso às sombras que ficaram para trás, antes de Pansy seguir seu caminho.

Pouco depois, Zabini aproximou-se com uma garrafa de uísque de fogo que, claramente, não estava autorizada pela ala hospitalar. Ele se jogou ao lado de Draco, os olhos percorrendo a cicatriz fina e pálida que cruzava o rosto do amigo; uma marca antiga, de um tempo que parecia pertencer a outra vida.

— "Malfoy, cadelinha"? Está aí algo que eu pensei que nunca veria — Blaise disse, com um toque de sarcasmo. — Queria ter a mesma sorte. A Ginny Weasley, por exemplo, não para de olhar na minha direção, mas não sei se tenho chance; quem sabe uma cicatriz igual à sua me ajude. — Blaise deu um gole na bebida, com um brilho divertido nos olhos.

Draco revirou os olhos, a hostilidade de antigamente substituída por um escárnio mais leve, quase amigável.

— Vá se ferrar, Zabini. Se quer tanto uma cicatriz, por que não tenta duelar com um trasgo? Vai ser doloroso, mas garante o visual que você tanto inveja.

Blaise soltou uma gargalhada, mas seu rosto tornou-se repentinamente sério ao buscar algo nos bolsos internos de seu manto.

— Você ainda tem aqueles cigarros trouxas? Preciso de algo forte, minha cabeça não para.

— Não fumo há um bom tempo, Blaise. Perdi o interesse.

— Ah, é? — Blaise arqueou a sobrancelha, gesticulando para a bruxa que cuidava dos feridos ao longe. — Mudou a dieta, Malfoy?

— Encontrei outra droga — ele murmurou, a voz baixa, despida de qualquer rastro de sarcasmo. — E essa, ao contrário do tabaco, não me mata. Ela é o único motivo pelo qual eu ainda não enlouqueci.

Blaise observou o amigo em silêncio. O Draco que conhecia ainda estava lá, o sarcasmo de sempre, mas o brilho vazio que ele carregou por anos fora substituído por algo que não via nele desde antes da queda de Voldemort: a paz de quem, pela primeira vez, não sentia a necessidade de se punir pelos erros de um passado que ele, finalmente, conseguira deixar para trás.

— É bom ver você assim, cara — Blaise disse, dando um tapinha no ombro dele. — Mesmo sendo um pouco patético.

Draco apenas sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto, e voltou a observar Hermione, pronto para enfrentar o que viesse depois, contanto que ela estivesse ao seu lado.

Com o avançar dos dias, os terrenos de Hogwarts foram finalmente limpos. Os corpos daqueles que haviam caído na defesa tinham sido enterrados com as devidas honras no cemitério do castelo; os outros, os cadáveres limpos pela contra-maldição, haviam recebido o descanso final que a necromancia lhes negara.

Mais tarde, Hermione Granger estava sentada, observando o lago que refletia um céu azul, sem a névoa doentia do surto. Ela usava um suéter trouxa simples e calças jeans. Suas mãos carregavam pequenas cicatrizes lineares da extração mágica, marcas que ela exibia com uma espécie de orgulho.

Passos familiares ecoaram nas pedras. Ela não precisou se virar para saber quem era, o perfume de couro e menta do Sonserina sempre o anunciavam.

Malfoy sentou-se ao lado dela, estendendo as pernas longas. Ele não usava mais a farda de auror; vestia uma camisa de linho escura com as mangas dobradas até o cotovelo, exibindo a cicatriz da Marca Negra, que agora parecia nada mais do que uma linha prateada e inofensiva na pele alva.

— O Potter me disse que você recusou o cargo de Diretora do Departamento de Pesquisa Neuro-Mágica do St. Mungus — Draco comentou. — Um cargo criado especialmente para você. Ele parecia prestes a chorar, disse que o Ministério precisa da sua mente para a reconstrução.

Hermione sorriu, inclinando a cabeça para apoiar-se no ombro dele, Draco acomodou-a em seu braço de forma natural, os dedos longos acariciando o ombro dela.

— Eu já dei a este mundo tudo o que eu tinha, Draco — ela disse, a voz suave, cheia de uma paz que não sentia desde antes de apagar a memória de seus pais. — Eu ajudei a vencer duas guerras. Acho que ganhei o direito de viver uma vida comum por um tempo. Uma vida trouxa, talvez. Longe de relatórios, cargos, Ministérios e heróis.

Draco olhou para ela, havia um brilho claro nos olhos dele.

— Eu comprei uma casa — ele disse de repente. — Em uma vila em Malta. É um arquipélago no coração do Mediterrâneo, entre a Sicília e o norte da África. Fica bem perto da praia. Não tem lareiras de Flu, não tem elfos domésticos, e a biblioteca da cidade é cheia de livros trouxas idiotas sobre medicina, história, romance e tudo mais.

Hermione ergueu a cabeça rapidamente, olhando nos olhos dele com uma surpresa.

— Você comprou uma casa?

— Eu fiz uma promessa na torre, não fiz? — ele moveu os cantos da boca no seu antigo sorriso sarcástico, mas os dedos que tocaram o rosto dela estavam cheios de uma ternura profunda. — Eu disse que te levaria para um lugar onde o céu fosse azul de verdade. Eu sou a porra de Malfoy, afinal, mesmo que este sobrenome não seja motivo de orgulho. Eu cumpro as minhas promessas. Principalmente as que faço para você.

Ela segurou o rosto dele com as duas mãos e o puxou para um beijo longo, calmo e profundo, um beijo que não tinha mais o gosto do medo ou da urgência da sobrevivência, mas o gosto do tempo.

O tempo que agora pertencia a eles para construir, errar e recomeçar.

Quando se afastaram, os olhos cinzentos de Draco mergulharam nos dela, mas a névoa de culpa e medo antigo obscureceu seu olhar. Ele baixou a cabeça.

— Às vezes eu olho para você, para tudo o que você sacrificou e tudo o que você é — ele começou, a voz caindo para um tom áspero e quebrado. — E eu sinto que não te mereço, Hermione. Eu sou o cara que carregou a marca de um monstro no braço. O covarde que facilitou a queda do castelo anos atrás. No fim do mundo, foi o meu sangue que serviu de catalisador para a cura, mas este ato não me redime. Sinto que estou apenas adiando o inevitável, esperando que, em algum momento, você perceba que não há conserto possível para meus pecados. Estar aqui, planejar um futuro ao seu lado, parece um roubo do destino. Os Malfoy quebram as coisas. Eu não sei construir um lar.

Hermione sentiu o coração apertar com a vulnerabilidade dele. Sem hesitar, ela segurou o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a encará-la.

Draco Lucius Malfoy, escute bem o que vou te dizer — ela declarou, a voz suave, mas carregada de uma autoridade inquestionável. — Os erros do passado não te definem. Você sangrou por este castelo e pelo mundo mágico; ofereceu sua própria magia, seu sangue e seu corpo para que o mundo pudesse ter uma chance. Eu não me importo com linhagens ou sobrenomes. Eu amo você, o homem que se manteve de pé naquela escadaria para que eu pudesse terminar o feitiço. Você merece ser feliz.

Draco engoliu em seco, um suspiro trêmulo escapou de seus lábios e ele desabou contra ela, enterrando o rosto em seu pescoço, suas mãos subiram para os cabelos cacheados dela.

— Se for assim, se você realmente me quer desse jeito — ele murmurou, a voz abafada contra a pele dela. Ele se afastou o suficiente apenas para enfiar a mão no bolso da camisa de linho. Quando puxou os dedos, trazia um anel de platina delicado, coroado por uma opala que brilhava em tons de vermelho e verde sob o sol da manhã. Não era uma jóia espalhafatosa; era algo simples, escolhido por ele. — Ainda não é um pedido de casamento, mas eu quero que seja para sempre. Quero recomeçar a nossa história do zero.

Hermione sorriu entre as lágrimas quentes e cheias de alívio. Ela estendeu a mão direita.

— Sim — ela sussurrou, a voz firme e doce. — Sim, Draco. Nós vamos construir nosso futuro juntos.

Mais ao longe, perto dos portões principais de Hogwarts, Harry e Theo caminhavam de mãos dadas, aproveitando os últimos momentos antes de aparatarem de volta ao Ministério. Tinham retornado à escola naquela manhã para coordenar a logística final com os curandeiros e, agora, o peso da missão parecia um pouco mais leve. Harry parou por um instante e olhou por cima do ombro, vendo o abraço de Draco e Hermione no pátio iluminado. Um sorriso genuíno cruzou seu rosto ao constatar que, finalmente, a paz havia encontrado um lugar ali.

Theo acompanhou o olhar do marido, puxando-o para mais perto pela cintura e deixando um beijo carinhoso na têmpora de Harry.

— Quem diria, baby — Theo comentou, o tom provocador, mas os olhos brilhando de afeição. — O Malfoy finalmente encontrou alguém que consegue mantê-lo na linha. Acho que o mundo está mesmo salvo.

— Nós todos encontramos o nosso lugar, Theo — Harry respondeu, virando-se para selar seus lábios nos dele em um beijo calmo e terno. Eles se viraram juntos e, com um estalo suave, aparataram para a Londres.

Perto das estufas de Herbologia, Neville organizava algumas caixas de mudas trazidas da Floresta Proibida. Pansy estava sentada na mureta de pedra logo acima dele, balançando as pernas e fingindo limpar as unhas. Quando Neville parou para secar o suor da testa com o braço, Pansy estendeu uma garrafa de água.

— Você precisa descansar, Longbottom. As plantas não vão fugir — Pansy disse, com sua habitual arrogância fingida, embora seus olhos estivessem cheios de carinho.

— Alguém tem que fazer o trabalho pesado por aqui, Parkinson — Neville brincou, segurando a mão dela com firmeza e entrelaçando seus dedos.

Um novo capítulo se estendia diante deles.

Perto das carruagens que transportavam os últimos órfãos e refugiados para os vilarejos vizinhos, Ginny e Blaise conferiam os pergaminhos. Blaise mantinha sua postura aristocrática, mas o olhar cansado agora dava lugar a um brilho de expectativa.

— Bem, Weasley — Blaise começou, enrolando o pergaminho e ajeitando os punhos da jaqueta. — O trabalho por aqui terminou. Eu vou para Londres resolver os negócios da família, mas espero que você não tenha esquecido a nossa promessa. O jantar na Itália ainda está de pé. Minha mãe já liberou a casa de praia.

Ginny jogou os cabelos ruivos para trás, ajustando a alça de sua bolsa com um sorriso desafiador e divertido.

— É bom que a comida seja fantástica, Zabini, e que o vinho seja do melhor. Se você tentar me impressionar com superficialidades de puro-sangue, eu te transfiguro em um sapo e te deixo nas estufas do Neville.

— Eu não esperaria nada menos do que uma Weasley.

Blaise soltou uma risada limpa, ajeitando a gola do casaco antes de se virar para partir. Com um aceno de cabeça displicente, porém carregado de expectativa, ele lançou um último olhar para ela.

O pátio interno de Hogwarts voltou ao seu silêncio majestoso, quebrado apenas pelo som suave da brisa que vinha do lago. O mundo bruxo estava mudando, curado da necrose, deixando o inverno sombrio para trás.

Finalmente, o tempo não era mais um inimigo a ser combatido, mas uma promessa a ser vivida.

Notas finais
Calma, corações! Sei que esse capítulo teve toda uma vibe de encerramento, mas segura a ansiedade porque ainda faltam 5 capítulos para o final oficial da fic! Sim, nós vamos acompanhar Dramione vivendo em Malta, casando, tendo filhos e construindo o lar que eles tanto merecem! 🥹🏠❤️ Se está com vontade de ler mais, não se esqueça de favoritar, comentar e acompanhar a fanfic! São essas pequenas ações que ajudam a plataforma a recomendar a história para novos leitores. Nos vemos no próximo capítulo! 🐍🦁 ─── ❖ ── ✦ ── ❖ ─── Ainda não quer sair desse universo? Me acompanhe no TikTok para ver a estética dos personagens, spoilers e descobrir quando sai o próximo capítulo! Siga: https://www.tiktok.com/@ismrf_author