O Apocalipse do Sangue | Dramione
14 Pʀᴇʟúᴅɪᴏ ᴅᴀ Tᴇᴍᴘᴇsᴛᴀᴅᴇ
Notas iniciais

O amanhecer em Hogwarts não trouxe luz, apenas uma claridade amarelada que tornou visível a extensão do perigo. As barreiras mágicas do castelo piscavam, linhas douradas que se rompiam e se refaziam a cada segundo. Os mortos-vivos haviam começado a empilhar-se uns sobre os outros nos portões de ferro, criando uma rampa de carne e osso que ameaçava transbordar para dentro do terreno.
No pátio interno, Pansy Parkinson e Neville Longbottom coordenavam a última linha de defesa com os alunos mais velhos e os refugiados que sabiam lutar. Pansy, cujas roupas de seda Sonserina haviam sido substituídas por calças de couro de dragão e uma jaqueta gasta da Ordem, mantinha a varinha em punho com frieza. Ao seu lado, Neville segurava a espada de Gryffindor, a lâmina de prata brilhando com o sangue escuro das criaturas que tinham conseguido romper pequenas frestas na barreira.
Um infectado, com as vestes rasgadas de um antigo auror, conseguiu passar por uma brecha na barreira, lançando-se com as garras estendidas na direção de Neville. Antes que o Grifinório pudesse girar a pesada espada, Pansy estalou o pulso.
— Confringo! — A criatura explodiu em cinzas negras e sangue coagulado a centímetros de tocá-lo.
Neville ofegou, limpando o respingo escuro do rosto antes de olhar para ela.
— Bela mira, Parkinson.
— Eles estão quebrando o portão norte! — um aluno do sétimo ano gritou, correndo em direção a eles com o braço sangrando.
— Neville, pegue os Grifinórios e cubra a estufa! Se eles entrarem por lá, vão direto para o Salão Principal! — Pansy comandou, a voz cortante e pragmática. — Eu vou segurar o pátio com os Sonserinos. Ninguém recua, nessa porra!
Neville assentiu com firmeza, erguendo a espada manchada com renovada determinação. — Não ouse morrer antes de mim, Parkinson — ele rebateu, antes de dar as costas e correr, liderando os alunos em direção ao infectados.
No alto da Torre de Astronomia, a atmosfera era uma mistura caótica de ciência arcana, exaustão física e provocações que serviam como o único escudo contra o pânico absoluto. Hermione terminava de traçar o círculo rúnico ao redor do caldeirão, com os dedos sujos de pó de grafite e essência de ditamno. O fluido azul-turquesa, agora misturado com os catalisadores, fervia de forma violenta, emitindo uma fumaça densa e prateada que flutuava em direção ao céu aberto.
— Está pronto — ela anunciou, a voz rouca pela fumaça e pela falta de sono. — Theo, acione a linha de energia da torre agora!
As runas pintadas no chão brilharam em um vermelho incandescente, exigindo uma quantidade absurda de magia para estabilizarem. Hermione cambaleou para trás, a cabeça girando pela súbita queda de pressão mágica. Em um piscar de olhos, a mão de Draco estava na base de sua espinha, sustentando-a com firmeza inabalável.
— Devagar, bruxinha. Respire — ele instruiu em um tom tenso, os olhos esquadrinhando o rosto dela em busca de qualquer sinal de colapso.
— Eu estou bem, só preciso de um segundo — ela murmurou, permitindo-se apoiar no peito dele por um instante precioso, ouvindo as batidas aceleradas e constantes do coração dele antes de se endireitar.
Theodore Nott canalizava a magia residual do castelo para os símbolos gravados no chão. O mármore começou a vibrar sob seus pés, e a fumaça prateada do caldeirão foi subitamente puxada para cima por um redemoinho de vento mágico, erguendo-se em direção às nuvens como um pilar de luz reversa. Theo cambaleou levemente pelo esforço, mas antes que seus joelhos vacilassem, a mão de Harry firmou-se em sua cintura.
— Você foi brilhante — Harry sussurrou contra a pele dele.
— Claro que fui, baby. Sou um Sonserino — Theo respondeu com um sorriso fraco, mas genuíno, inclinando a cabeça para roubar um selinho rápido de Harry antes de se recompor. — Agora vá salvar o mundo de novo para eu poder cobrar os créditos.
A poucos passos dali, Blaise Zabini monitorava os níveis de dispersão com um espelho de diagnóstico, mas sua atenção real estava dividida. Ele olhou de soslaio para Ginny Weasley, que revisava os feitiços de barreira com uma postura impecável, os cabelos ruivos reluzindo mesmo sob a luz. Blaise ajeitou os punhos de sua jaqueta, mantendo sua pose imperturbável.
— Sabe, Weasley — Blaise comentou, com um sorriso de canto cínico, porém charmoso —, se nós sobrevivermos, e considerando que o mundo está fodido, eu tenho um vilarejo inteiro na Itália que ainda deve estar de pé. Você daria uma excelente governanta para as minhas terras. Ou algo mais dinâmico.
Ginny nem sequer olhou para ele. Apenas girou a varinha entre os dedos, fazendo uma faísca vermelha estalar perigosamente perto das botas de Blaise.
— Zabini, se você não calar a merda da boca nos próximos três segundos, eu garanto que a única coisa que vai colonizar a Itália serão os seus pedaços transfigurados em repolhos — ela disparou, embora o canto de seus lábios tivesse subido um milímetro.
— Uma mulher de fibra. Gosto de desafios — Blaise murmurou para si mesmo, piscando para ela antes de voltar ao espelho. Ele então olhou para Draco, que andava de um lado para o outro como um leopardo enjaulado, os olhos fixos em Hermione a cada dois segundos. — Malfoy, por favor, pare de morder o próprio lábio. A Hermione sabe o que está fazendo. E, a propósito, você ainda me deve uma explicação detalhada sobre quando foi que o protocolo de 'irritar a Grifinória' virou 'protegê-la com o próprio corpo'.
Draco parou e lançou a Blaise um olhar que poderia ter congelado o Lago Negro.
— Cala a porra da boca, Blaise, ou o próximo ingrediente jogado nesse caldeirão será a sua língua.
— Quanta agressividade, meu caro. É o amor, eu presumo. Deixa a gente meio primitivo — Blaise provocou, soltando uma risada baixa.
Enquanto os amigos trocavam farpas, Ginny aproximou-se de Hermione, ela empurrou de leve o ombro da amiga, com um sorriso conspiratório que quebrou a rigidez do momento.
— Então 'Hermione', é? — Ginny sussurrou, arqueando as sobrancelhas. — O furão aprendeu a conjurar sentimentos humanos. Quem diria.
Hermione sentiu o rosto queimar, as bochechas adquirindo um tom rosado.
— Ginny, não comece. Nós passamos por muita coisa em Londres. Ele salvou pessoas. Ele me salvou. Ele mudou, de verdade.
— Eu sei, Mione — Ginny respondeu, sua expressão ganhando um ar profundamente acolhedor. Ela segurou a mão de Hermione por um segundo.
Ela sentia-se genuinamente feliz e em paz. Ver a amiga finalmente seguindo em frente e se abrindo para o mundo novamente trazia um alívio imenso ao seu coração. Por muito tempo, a ruiva carregou uma culpa silenciosa, sentindo-se em dívida por não ter conseguido ficar perto de Hermione nos momentos mais sombrios após a guerra. Mas Ginny também precisava ser gentil consigo mesma; ela entendia que não tinha escolha.
A perda do irmão havia estilhaçado os Weasley.
A família, outrora o maior símbolo de irmandade e união do mundo bruxo, ficou em frangalhos, ruindo sob o peso insuportável do luto. Alguns deles haviam partido para a Europa sob o subterfúgio de auxiliar a comunidade internacional na reconstrução pós-Voldemort, mas no fundo, todos sabiam que era uma fuga. Eles precisavam daquela distância para conseguir respirar de novo, enquanto os que ficaram para trás tentavam desesperadamente juntar os próprios pedaços, travando uma luta solitária para aprender a recomeçar.
— Dá para ver o jeito que ele olha para você — Ginny retomou, a voz suave e cheia de carinho. — Como se o mundo pudesse explodir, desde que você continue respirando. Fico feliz por você. Só não deixe ele esquecer que eu ainda sei o feitiço do Bicho-Papão se ele pisar na bola.
Do outro lado da torre, Draco caminhou até Harry, parando ao lado do antigo rival para observar o caos lá embaixo. O vento agitava as capas de ambos.
— As barreiras do flanco oeste estão finas demais, Potter — Draco observou, a voz assumindo uma frieza tática e puramente militar.
— Eu sei. Os professores Flitwick e McGonagall estão lá. Vão segurar o máximo que puderem — Harry respondeu, apertando o cabo da varinha.
Draco virou o rosto para encará-lo, a expressão ilegível, mas os olhos cinzentos demonstravam uma cumplicidade há muito forjada no sangue e na urgência. Eram mais de cinco anos atuando lado a lado como aurores, dividindo o peso das missões de campo mais sombrias e mortais. A antiga rivalidade de escola havia sido completamente extinta, substituída por uma irmandade construída nas trincheiras. Malfoy sempre fora o parceiro silencioso, mantendo-se recluso e na dele, mas era a sombra letal que vigiava constantemente os pontos cegos de Harry. Ele nunca precisou de discursos ou palavras de encorajamento; bastava um aceno para que erguesse um escudo intransponível ou disparasse uma maldição imperdoável.
— Se a torre for invadida antes da névoa subir por completo, você pega o Theo e a Granger e aparata para o ponto seguro em Hogsmeade. Eu cubro a retaguarda e travo as escadas.
— Nós não vamos deixar você para trás para morrer sozinho, Malfoy. Já passamos dessa fase — Harry retrucou, o tom obstinado.
O fantasma de um sorriso cruzou os lábios de Draco, misturado a um suspiro de conformismo exasperado. — Grifinórios, burros e teimosos até o fim.
— Vai demorar cerca de duas horas para a névoa se espalhar por todo o perímetro e começar a precipitar em forma de chuva — Blaise explicou, voltando ao tom profissional ao ler os gráficos no espelho. — Mas nós não temos duas horas. Olhem lá embaixo — alertou, chamando a atenção de todos.
Uma explosão de magia, violenta e ensurdecedora, ecoou do pátio inferior. A barreira principal dos portões de Hogwarts havia colapsado.
O exército de mortos inundou o terreno do castelo como uma onda negra de destruição. O som dos gritos, dos feitiços de impacto e do rugido desumano das criaturas preencheu o ar, subindo até o topo da torre com a violência de uma avalanche.
Draco moveu-se imediatamente. A postura quase relaxada desapareceu em um microssegundo, substituída por uma frieza implacável. Ele verificou o coldre da varinha e ajustou as luvas de couro com um puxão seco.
— Potter, Zabini, vamos descer — ele disse, a voz assumindo aquela autoridade gélida que usava nos perímetros de Londres. — Precisamos segurar as escadas da torre e o pátio central até a chuva começar. Se eles subirem aqui e quebrarem o caldeirão, tudo isso terá ido para a casa do caralho.
Harry assentiu, a varinha já faiscando com uma luz vermelha, trocando um último olhar determinado com Theo, que concordou com um aceno, assumindo a posição de guarda ao lado de Ginny perto das escadas internas.
Draco, no entanto, não desceu imediatamente. Ele virou-se para Hermione. Em dois passos largos, ele quebrou a distância entre eles e a puxou pelo braço, trazendo-a para si de forma deliberada, colando o corpo dela ao seu. Seus olhos queimavam com uma intensidade emocional tão avassaladora que fez o estômago dela dar um nó.
Ele não se importou com a presença de Harry, de Blaise, de Ginny ou de quem quer que estivesse assistindo. Ele parou diante dela, a respiração pesada. O Sonserino ergueu a mão, traçando a linha do maxilar de Hermione com o polegar, removendo uma mancha de fuligem com uma delicadeza que beirava a devoção absoluta.
— Eu esperei uma vida inteira para ter algo pelo qual valesse a pena lutar de verdade, bruxinha — ele sussurrou, a voz embargada pela urgência. — Não vou deixar que esses monstros filhos da puta tirem isso de mim. Não vou deixar que me tirem você.
Com a respiração entrecortada, Draco segurou o rosto de Hermione com as duas mãos, os dedos enterrando-se em seus cachos com uma força possessiva, e a beijou.
Foi um beijo de uma crueza desesperada, sem delicadeza ou hesitação ali; era um impacto de lábios, línguas e respirações curtas que tinha o gosto amargo da despedida que ele se recusava veementemente a aceitar. Hermione soltou um arquejo contra a boca dele, mas imediatamente envolveu o pescoço de Draco com os braços, puxando-o para si com a mesma urgência, sentindo a eletricidade da magia dele estalar contra a sua. Era o pavor da perda transformado em puro fogo.
Quando ele se afastou o suficiente apenas para falar, suas respirações estavam misturadas, quentes contra o frio da manhã.
— Fique aqui atrás das runas de proteção, querida — ele sussurrou contra os lábios dela, a voz trêmula, mas carregada de uma promessa inquebrável, suas mãos ainda moldando o rosto dela. — Não saia deste círculo por nada neste mundo. Entendeu? Eu vou voltar para você. Eu sempre volto.
— Volte inteiro, Draco — ela respondeu, as lágrimas finalmente escorrendo pelo rosto, deixando rastros nas suas bochechas enquanto segurava firmemente os pulsos dele, sentindo o pulsar de seu sangue. — Por favor, volte inteiro. Eu não vou a lugar nenhum sem você.
Draco fixou os olhos nos dela por mais um segundo, memorizando suas feições. Então, com um aperto final no queixo dela, ele deu as costas e disparou em direção às escadas de pedra, seguido de perto por Blaise.
Harry hesitou por um segundo antes de segui-los. Ele segurou o ombro de Hermione com firmeza, os olhos verdes transmitindo uma garantia inabalável no meio daquele caos.
— Eu trago ele de volta, Hermione — Harry prometeu de forma grave, antes de dar as costas e mergulhar na escuridão dos degraus.
Hermione ficou para trás no centro do círculo rúnico, encarando o vazio com o peito esmagado por uma constatação aterrorizante. Por anos, a obsessão em recuperar a memória de seus pais fora o que a mantivera funcional; após perdê-los, ela canalizou sua energia em encontrar a cura, uma forma de não sucumbir ao luto. Mas Draco havia se tornado a sua promessa de recomeço. Sem ele, ela sabia que simplesmente não teria forças para continuar existindo.
Theo aproximou-se dela, postando-se como uma sentinela leal ao seu lado, enquanto Ginny erguia a varinha em direção à entrada da torre.
— Mantenham as varinhas firmes — Ginny disse, a voz livre de tremores, assumindo uma postura defensiva. — Se algum deles passar pelos meninos lá embaixo, nós somos a última linha.
Os olhos de Hermione e Theo estavam fixos nos degraus de onde os primeiros ecos de batalha começavam a subir. A fumaça prateada da cura continuava seu curso ascendente, rasgando o céu cinzento de Hogwarts, enquanto lá embaixo, na lama e no sangue, o destino do mundo bruxo começava a ser decidido.
De repente, um estrondo surdo e um clarão de luz escarlate ofuscante irromperam do andar de baixo, seguidos pelo som terrível de corpos colidindo e pedras rachando. Draco havia disparado o primeiro feitiço.
A guerra começou.
Fale com o autor