O Apocalipse do Sangue | Dramione
16 Pʀᴇçᴏ ᴅᴏ Sᴀɴɢᴜᴇ
Notas iniciais

Ele se jogou no chão, deslizando sobre os joelhos pelas poças de água até alcançá-la. Puxou-a violentamente para os braços, mas a cabeça dela pendeu para trás, assustadoramente frouxa. O círculo rúnico apagou-se de vez, transformando-se em pó escuro. Draco pressionou dois dedos trêmulos contra o pescoço pálido e suado dela. Seus olhos cinzentos se arregalaram em pânico puro.
Não havia pulso.
O núcleo mágico de Hermione, levado muito além de qualquer limite humano para sustentar a barreira e curar a infecção de uma nação inteira, parecia ter se extinguido por completo.
A poucos metros, Harry soltou um som sufocado, despencando de joelhos contra a parede. A varinha de Theo escorregou de seus dedos, caindo no chão com um tilintar metálico e oco. Blaise congelou, o rosto perdendo toda a cor.
A ironia o sufocava como veneno: a chuva lavava o mundo lá fora, encerrando a guerra, mas nos braços de Draco o universo inteiro desmoronava. A velha e sombria certeza de que fora amaldiçoado retornou com força total, esmagando seus pulmões; ele percebeu que aquele era o seu castigo definitivo pelos crimes incontáveis de sua família: sobreviver sem ter o direito de viver.
Ele merecia.
Merecia apenas retornar às ruínas da Mansão e apodrecer naqueles corredores frios como um maldito fantasma vivo, vagando pela eternidade, assombrando aqueles salões sem nunca poder seguir em frente, pagando pelo passado com a própria sanidade.
Ele é quem deveria estar deitado ali no chão, sem pulso. Teria morrido de bom grado, teria abraçado a escuridão sorrindo, se isso significasse que ela continuaria a respirar.
De repente, a ficha caiu com a crueldade de um feitiço imperdoável: naquelas semanas de convívio forçado, ele se viu hipnotizado pela mulher que se autoexilou, recusando-se a agir como a Grifinória clichê que ele tanto desprezava. Sentiu-se representado por aquela rebeldia e encantado pela forma como ela, mesmo em meio aos escombros e luto, encontrou um caminho para sobreviver quando ele já havia desistido de tudo.
Para Draco, ocluir a mente era como respirar, mas ela o obrigou a sair daquela inércia. Ele a protegeu por dever, até perceber que não a salvava apenas por ser a esperança do mundo; ele a salvava porque ela se tornou a única esperança dele.
Estava perdidamente apaixonado.
Tinham jurado criar um lar, um lugar que fosse apenas deles. Agora, com o peito dela imóvel sob suas mãos, o futuro desmoronava. Ele já era uma carcaça vazia antes de encontrá-la, um homem que aprendera a habitar o próprio vazio como um lar. Mas ela lhe devolveu o propósito, o direito de desejar o amanhã. Ele a encontrara e, na mesma medida, encontrou a si mesmo.
Agora, perdê-la era mais do que uma derrota; era ser arrancado de volta para a escuridão que ele acreditava ter superado. O que sobra de um homem que teve o mundo devolvido, apenas para vê-lo morrer em seus braços pela segunda vez?
— Não, não, não, não. Você não! — Draco implorou, o desespero absoluto estilhaçando os últimos resquícios de sanidade. Ele apertou o corpo dela contra o peito, balançando-a freneticamente, a testa colada à dela. — Volte para mim, meu amor. Você não vai me deixar aqui! É uma ordem! Você me prometeu.
O silêncio do corpo em seus braços era esmagador. O peito de Draco arfava, lágrimas quentes e desesperadas misturando-se à chuva em seu rosto. Sem pensar, ele espalmou a mão livre sobre o coração dela, forçando a própria magia bruta contra o peito dela, tentando religar a faísca que ela havia perdido.
— Rennervate! Respira, maldição! Respira! Por favor!
Nada aconteceu.
Theo caiu ao lado do marido, cego pelas lágrimas, incapaz de olhar para o corpo inerte.
Harry engasgou em um soluço alto, mas o instinto cego de salvar quem amava o forçou a sair de seu estupor. Ele tropeçou para a frente, caindo de joelhos, com as mãos tremendo violentamente, o Grifinório apontou a varinha para o peito imóvel da melhor amiga.
— Vulnera Sanentur! — Harry gritou, a voz falhando em um chiado agonizante. — Rennervate! Por favor, Hermione, por favor…
A luz dos feitiços de Harry mergulhou no peito dela, mas dissipou-se no vazio, como luz engolida pela escuridão. Não havia um núcleo mágico ali para o qual a cura pudesse se ancorar. Desesperado, ele largou a varinha e tentou a reanimação trouxa, mas não deu em nada.
O corpo de Hermione permanecia terrivelmente flácido e imóvel.
Harry desabou para a frente, apoiando a testa no chão enquanto um choro alto e rasgado escapava de sua garganta. Ele nunca tinha se sentido tão inútil; não havia inimigo para duelar, apenas o silêncio irremediável da morte.
Draco afastou Harry com um solavanco brusco, impulsionado pelo instinto visceral que se recusa a aceitar aquela perda. Ele não aceitaria aquele fim.
— Você me fez uma promessa — Draco implorou, o rosto próximo do dela, as lágrimas quentes e desesperadas lavando a pele fria da Grifinória em uma prece quebrada. — Você disse que nós construiríamos um futuro. Não ouse me deixar aqui sozinho, Hermione. Volta pra mim, linda. Volta, eu imploro.
Em um último ato de pura recusa em deixá-la ir, Draco selou seus lábios nos dela.
Não havia o calor da vida, mas a intenção de sua alma era absoluta. E no instante em que seus lábios se tocaram, a memória latente da magia que haviam compartilhado no último beijo, quando a energia de ambos fluiu em uma sintonia mansa, profunda e conectada, ressoou. O vínculo poderoso forjado entre o sangue purificado dele e o sacrifício dela pulsou no ar, agindo como um ímã invisível no coração do feitiço.
Então, uma rajada de vento soprou a chuva curativa com mais força para dentro da torre. A água prateada, carregada com a expansão da magia ancestral que ela mesma havia cultivado, banhou o rosto de Draco e escorreu diretamente para os lábios entreabertos e pálidos de Hermione.
O efeito foi como um choque elétrico.
O peito da Grifinória deu um solavanco violento. Ela arqueou as costas nos braços de Draco e puxou o ar com um engasgo agudo e ruidoso, como alguém rompendo a superfície de um oceano profundo depois de quase se afogar.
Draco soltou um som indescritível, metade soluço, metade um rugido descontrolado de puro alívio. Ele a segurou contra o peito ainda com mais força, enterrando o rosto na curvatura do pescoço dela enquanto a chuva prateada os molhava por inteiro, limpando o sangue, a sujeira e o horror de suas peles.
— Nunca mais ouse fazer isso comigo — ele sussurrou, a voz trêmula, embargada, os dedos longos perdendo-se nos cabelos molhados e emaranhados dela. Ele a apertava contra o peito com uma força quase brutal, os músculos tensos, recusando-se a afrouxar o aperto sequer um pouco. Era como se ele temesse que, se a soltasse, a morte voltaria para reivindicá-la.
Ele não a soltaria por nada neste mundo.
— Você conseguiu. Esse maldito inferno acabou de verdade, querida. Nós estamos vivos.
Hermione abraçou-o de volta com toda a força que conseguiu reunir, escondendo o rosto no tecido molhado do peito dele.
— Eu senti o vazio, Draco, mas a sua voz me puxou de volta — ela murmurou, a voz rouca, soando como um sussurro vindo de muito longe, enquanto seus dedos trêmulos buscavam o rosto dele para confirmar que ele era real.
— Nós conseguimos, Draco — ela disse, a voz suave, um acalento no meio da tempestade que começava a acalmar, transformando-se em uma garoa mansa de prata.
Draco afastou o rosto de seu pescoço, segurando as bochechas dela com as duas mãos molhadas. Seus olhos cinzentos estavam limpos, sem a sombra do passado que o assombrava na barreira da torre. Ele olhou para os lábios dela e, sem pedir permissão, cobriu-os com os seus em um beijo profundo, lento e avassalador.
Desta vez, não era um beijo de despedida ou de desespero. Era um beijo de posse, de alívio e de recomeço. A boca dele era quente contra o frio da chuva, e Hermione abriu os lábios para ele, entregando-se ao toque com uma intensidade. Draco a puxou ainda mais para o seu colo, querendo extinguir qualquer distância, enquanto os dedos dela se prendiam na nuca dele, gravando aquele momento na eternidade de suas memórias.
O som de um soluço engasgado quebrou a bolha ao redor deles. Harry, que havia ficado paralisado pelo terror absoluto, tinha os ombros tremendo enquanto ele cobria o rosto sujo de sangue com as mãos. Ginny, igualmente tomada pela emoção, correu até eles e despencou ao lado de Harry. Ela estendeu a mão, ainda trêmula, tocando o ombro de Hermione, apenas para sentir a respiração constante e o calor.
— Pelas barbas de Merlin, nunca mais faça isso conosco, Hermione — Ginny sussurrou, rindo em meio às lágrimas copiosas, a voz espremida pelo alívio de saber que ela respirava.
Hermione abriu os olhos, separando-se apenas centímetros dos lábios de Draco, e sorriu fracamente para eles.
Atrás dos Grifinórios, a tensão sufocante também abandonava o corpo dos Sonserinos. Theo apoiou as mãos nos próprios joelhos, curvando-se para frente ao soltar todo o ar dos pulmões em um suspiro longo e trêmulo. Um sorriso torto, mas carregado de uma afeição profunda, despontou em seu rosto ao ver a bruxa viva. Blaise, permitiu-se fechar os olhos e inclinar a cabeça para trás; uma expressão de pura e genuína felicidade cruzou suas feições exaustas.
Respeitando a urgência que Draco tinha de mantê-la inteiramente em seus braços, os amigos recuaram lentamente, deixando que a realidade da vitória e o peso das próprias emoções cobrassem seu preço.
Cheio de alívio, Harry deixando-se cair exausto contra a pilastra. Nott deu dois passos em sua direção e desabou sentado ao lado dele, encostando a cabeça no ombro do marido.
— Eu estou aqui — Harry finalmente sussurrou contra a pele de Theo. — Nós conseguimos, Theo. Acabou.
Theo encurtou a distância e colou seus lábios aos de Harry. Foi um beijo calmo, profundo. Era um beijo que celebrava o direito de respirar. Harry apertou a cintura de Theo, puxando-o para mais perto, enquanto o Sonserino relaxou por completo em seus braços.
Blaise guardou a varinha, ele olhou para Ginny.
— Sabe, Weasley... — Blaise começou. — A oferta da Itália ainda está de pé. E considerando que acabei de ajudar a salvar o mundo, acho que mereço pelo menos um jantar de agradecimento.
Ginny olhou para ele, os cabelos ruivos colados ao rosto, e soltou uma risada limpa e alta, a primeira em muito tempo.
— Um jantar, Zabini. Mas você paga, e eu escolho o vinho — ela respondeu, estendendo a mão para ajudá-lo a limpar o sangue da túnica, um gesto que fez o Sonserino sorrir de forma genuína.
Aos poucos, a adrenalina da batalha começou a abandonar seus corpos, dando lugar a uma exaustão densa e à realidade palpável de que haviam vencido. Naquele momento, não eram mais Grifinórios ou Sonserinos, apenas os rostos que restaram para contar a história.
O mundo bruxo estava quebrado, precisaria de anos para ser reconstruído a partir das cinzas e da necrose que devastaram o continente, mas ali, na chuva lavava as pedras milenares de Hogwarts, o cerne emocional daquela história brilhava com a promessa de um futuro que finalmente, por direito, pertencia aos vivos.
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