O Apocalipse do Sangue | Dramione
4 O Cᴀʀʀᴀsᴄᴏ ᴅᴏ Mɪɴɪsᴛéʀɪᴏ
Notas iniciais

O antigo Departamento de Mistérios havia se transformado no necrotério mais avançado que o mundo bruxo já vira.
O laboratório improvisado tinha a atmosfera de um mausoléu que se recusava a permanecer silencioso. Ali, as paredes de pedra escura absorviam a luz das poucas tochas enfeitiçadas, projetando sombras longas que pareciam se contorcer a cada movimento. Toda a estrutura estava coberta por tabelas de isolamento rúnico, diagramas mágicos.
Nas extremidades da sala, mesas secundárias de metal escuro exibiam bisturis trouxas alinhados ao lado de frascos de poções estabilizadoras, evidenciando uma fusão desesperada entre ciência e magia para conter uma crise que o mundo bruxo não sabia como enfrentar.
Hermione não dormia há trinta e seis horas.
O luto recente por seus pais operava nos bastidores de sua mente como uma corrente de ar frio, mas ela empurrava a dor para o canto mais escuro de sua consciência toda vez que focava no trabalho. No centro da sala, sobre uma mesa de mármore maciço, o espécime que Malfoy trouxera estava contido por faixas de couro de dragão embebidas em prata líquida e runas de contenção. A criatura não sangrava mais; seus vasos sanguíneos haviam colapsado em linhas escuras e salientes sob a pele acinzentada.
O cheiro era uma presença física. Não era a podridão avançada de um cadáver antigo, mas o odor adocicado e corrosivo de tecido vivo que apodrecia de dentro para fora, acelerado por uma magia que havia desandado. Hermione sentiu o estômago revirar e precisou pressionar discretamente um lenço embebido em essência de hortelã contra o nariz, lutando para que a náusea e a exaustão extrema não nublassem seu raciocínio.
Draco terminou de prender os pulsos e os tornozelos da criatura com movimentos mecânicos, desprovidos de qualquer hesitação. Quando concluiu, deu um passo atrás, limpando o suor e os salpicos de sangue da testa, deixando um rastro escuro na pele alva.
— Ela era uma boticária em Nottingham — disse Draco, sem olhar para Hermione, sua voz surgindo como um sussurro áspero que cortava o silêncio lúgubre do laboratório. — Foi mordida antes de entrar em casa, ficou terrivelmente doente, e o marido trouxe-a para o St. Mungus. Aconteceu uma confusão do caralho e eu tive que quebrar o crânio dele e de outros curandeiros antes que virassem essa porra também.
Theodore Nott, sentado em um banco alto com uma pena flutuante anotando suas observações, franziu o cenho e ajustou os óculos de leitura.
Hermione aproximou-se da mesa, com a varinha empunhada. Seus olhos médicos e analíticos examinaram o corpo. A pele da mulher estava acinzentada, e as veias ao redor do pescoço e dos braços sobressaíam como linhas negras, pulsando com um fluido escuro. A boca se abria e fechava em espasmos, os dentes estalando na tentativa desesperada de morder o vazio.
— Não há atividade cerebral complexa — Hermione murmurou, conjurando um feitiço de diagnóstico que flutuou sobre o corpo como uma névoa azulada. As linhas de luz mágica começaram a se distorcer, quebrando-se em fragmentos caóticos. — Mas olhem o núcleo mágico. Ele não está morto. Está superaquecido, como uma caldeira prestes a explodir.
— A necrose não é biológica — Hermione continuou, apontando para a lâmina de vidro onde uma gota de fluido espinhal da criatura reagia a uma gota de essência de arruda.
— É uma entropia mágica ativa. O vírus, ou o feitiço, o que quer que seja isso, não destrói as células primeiro; ele ataca o núcleo mágico do indivíduo. É como uma descarga elétrica contínua que queima os canais de vazão da magia até que eles entupam. Quando o fluxo de magia para, o corpo morre, e então o resíduo da própria magia estagnada começa a agir como um motor artificial.
— Um motor que só consome, Granger — Theo rebateu. — Se a magia deles foi esvaziada, por que a fome de carne viva? Por que atacar outros bruxos?
— Porque eles buscam uma fonte externa de magia ativa — Harry argumentou.
— Eu estava no perímetro sul de Hogsmeade esta manhã — Draco interveio, afastando-se do canto oposto da sala. Ele deu um passo à frente, com os braços cruzados sobre o peito. Suas mangas estavam dobradas até os cotovelos, revelando a Marca Negra curiosamente opaca e acinzentada.
— Um deles conseguiu encurralar um dos Aurores novatos. Antes que pudéssemos intervir, a coisa o mordeu no pescoço. Eu assisti, Granger. Não foi apenas uma mordida física para arrancar carne; no momento em que os dentes cravaram, o núcleo do garoto acendeu como um estopim de pólvora. Toda a magia dele foi sugada para dentro do cadáver em segundos, e a criatura pareceu revigorada. Mais rápida, mais forte.
Hermione falou em voz baixa, como se falasse com si mesma:
— Isso explicaria a velocidade da transmissão. Se o cadáver absorve a magia viva, ele a processa e expele o resíduo necrótico de volta para a vítima através do fluido salivar, acelerando o colapso do hospedeiro.
Harry soltou um suspiro pesado, o rosto marcado pela exaustão.
— É por isso que os feitiços de contenção comuns não funcionam por muito tempo — disse Harry. — A magia deles corrói as barreiras. Theo tentou criar uma runa de paralisia, e a própria estrutura da runa derreteu.
— Porque vocês estão tentando tratar isso como um feitiço — Hermione insistiu, os olhos brilhando com a intensidade da descoberta. — Isso não é uma maldição, Harry. É uma patologia, um vírus ou uma toxina que usa a magia do hospedeiro como combustível. Quanto mais forte o bruxo era em vida, mais violento ele se torna na morte.
Draco soltou um riso anasalado, seco e cortante, cruzando os braços novamente.
— Uma doença. Que caralho de consolo, Granger. Então estamos sendo comidos vivos por uma gripe mágica?
Hermione virou-se para ele com os olhos semicerrados. A crueza das palavras dele a irritava, mas havia algo na postura do Malfoy que a impedia de revidar com o antigo desdém. Havia uma exaustão nele que espelhava a sua própria: duas pessoas que haviam esquecido como era dormir sem serem engolidos por pesadelos.
— Se for uma doença, Malfoy, significa que pode ser curada, ou pelo menos contida de forma biológica — ela rebateu, dando um passo na direção dele. — Mas preciso de amostras limpas. Necessito do fluido cefalorraquidiano e de sangue antes que a necrose tome conta do sistema nervoso central.
— Os Comensais remanescentes tinham núcleos mágicos instáveis, desgastados por anos de magia das trevas de alta intensidade e marcas de submissão — Draco explicou, inclinando-se ligeiramente na direção de Hermione. O cheiro de tabaco e algo amadeirado envolveu-a sutilmente.
— Se você quisesse cultivar uma praga que se alimenta de magia, os remanescentes de Voldemort seriam o adubo perfeito. Alguém colheu os núcleos deles, Granger, e o que sobrou virou isso.
Ao ouvir a revelação, Harry travou o maxilar, e ele trocou um olhar sombrio com Malfoy. A implicação era catastrófica: se alguém estava violando túmulos e extraindo núcleos de ex-Comensais para manufaturar uma arma biológica, o Ministério não enfrentava apenas uma epidemia espontânea, mas uma declaração de guerra silenciosa.
— Quem teria o conhecimento necessário para fazer uma colheita de núcleos em larga escala? — Theo perguntou, olhando de um para o outro. — Esse tipo de magia experimental foi banido no século XIV. Nem mesmo o Lorde das Trevas tocava nisso, porque corrompia a pureza do próprio sangue.
— Alguém que não se importa com a pureza do sangue, mas sim com o poder bruto — Hermione sussurrou, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Ela voltou-se para a mesa de exames, pegando uma pinça longa de prata. Com cuidado, ela abriu a boca do espécime contido. Os dentes estavam alongados, mas não como os de um vampiro; as gengivas estavam enegrecidas.
— Eu preciso de uma amostra de um núcleo que esteja no processo de transição, não um cadáver que já completou o ciclo. Preciso de alguém que tenha sido mordido recentemente — há poucas horas —, alguém cujo núcleo ainda esteja lutando contra a necrose. Só assim posso isolar a assinatura mágica do feitiço original que desencadeou a mutação.
Theo negou com a cabeça, recuando um passo.
— Granger, o Ministério decretou que qualquer um mordido deve ser executado imediatamente. Ninguém entra no estágio de transição dentro das muralhas. É perigoso demais.
— Então mudamos os protocolos — ela rebateu, a teimosia grifinória endurecendo sua voz. — Se queremos uma cura, ou pelo menos um contrafeitiço de contenção, precisamos arriscar. O Harry me trouxe aqui para resolver isso, e eu vou resolver.
— Certo. O Theo e eu vamos nos reunir com o que sobrou dos membros do Ministério e vamos compartilhar o que já descobrimos — falou Harry ao se dirigir à saída, mas parou, olhou para Draco e disse: — Malfoy, ajude a Hermione.
Draco descruzou os braços lentamente. Ele era consideravelmente mais alto que ela, e a proximidade permitiu que Hermione notasse os detalhes que a penumbra do corredor havia ocultado: as linhas finas de tensão ao redor de sua boca, os olhos frios como a noite e uma beleza que não fora diminuída pela fina cicatriz do rosto.
— Você continua a mesma irritante de sempre, não é? — ele disse, embora não houvesse malícia real em seu tom, apenas um cansaço profundo. — Acha que pode dobrar as regras do Ministério com um discurso bonito e um olhar zangado? Você quer que eu traga um novo monstro que ainda não tenha voltado e que eu segure a cabeça dele enquanto você enfia uma agulha na coluna? É isso que a grande mente da Grifinória planejou para o primeiro dia?
— Exatamente isso, Malfoy — Hermione respondeu, sem desviar o olhar. A tensão entre eles era uma corda que se esticava a cada palavra pronunciada. — A menos que o príncipe da Sonserina esteja com medo de um pouco de fluido contaminado.
Os cantos da boca de Draco se moveram levemente para cima, no que poderia ser um sorriso ou uma careta de desprezo. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela de forma deliberada. O aroma dele a envolveu novamente, cortando o odor de decomposição da sala.
— Eu já limpei coisa pior do que essa no Ministério, Granger. Só não morra no meu turno. Seria um tédio ter que dar explicações. Há um posto avançado improvisado na orla de Kent; recebemos um chamado, um grupo de bruxos foi encurralado em um galpão por essas coisas. Se houver sobreviventes mordidos que ainda não viraram, eles estarão lá.
— Eu vou com você — ela disse imediatamente.
— Não, você não vai — Draco cortou, a voz endurecendo como aço. — Você é a mente, lembra? Se você morrer lá fora ou for mordida, o Nott e o Potter não vão saber ler esses seus garranchos. Eu vou trazer o seu espécime vivo, mas se ele tentar morder a minha equipe no caminho de volta, eu vou estourar a cabeça dele, Granger. Entendido? Agora, vou te ajudar a tirar o fluido desta antes de ir.
Ele se moveu para a cabeceira da mesa, segurando o crânio da criatura com as duas mãos, aplicando uma força brutal para imobilizar a mandíbula estalante. Seus olhos fixaram-se nos de Hermione, desafiando-a a começar.
Hermione respirou fundo, ela preparou os frascos trouxas de coleta e a longa agulha de prata que trouxera da Austrália, instrumentos que combinavam a precisão cirúrgica com a retenção mágica. Ao se posicionar ao lado do corpo, por um breve segundo, os dedos de Draco roçaram os seus ao ajustar a posição da cabeça da criatura.
O toque foi rápido, mas foi como um choque elétrico de alta voltagem. A pele de Draco, estava fria como o gelo, mas o impacto emocional fez o estômago de Hermione se contrair. Ele não desviou o olhar; seus olhos se estreitaram, registrando a reação dela com uma intensidade que a fez esquecer, por um segundo, onde estavam.
Havia um fio invisível puxando-os um para o outro, um reconhecimento silencioso que ela ainda não decifrara.
— Agora, Granger — ele ordenou entre dentes, a voz baixa, quase um comando íntimo. — Antes que essa filha da puta quebre as correntes.
Hermione empurrou a agulha.
Enquanto o fluido escuro e luminescente começava a preencher o frasco de prata, um alarme ecoou vindo dos níveis superiores, interrompendo o silêncio do Departamento de Mistérios. Malfoy soltou a criatura abruptamente, os olhos faiscando ao encontrar os dela. Aquele som significava que a orla de Kent ou o perímetro sul haviam colapsado, e eles estavam prestes a descobrir que o tempo estava se esgotando rapidamente.
Draco recuou, mas parou antes de alcançar a porta, olhando de soslaio para a mesa onde o pergaminho de anotações de Hermione repousava.
— Coma algo, Granger — ele disse, sem olhar diretamente para ela, a rigidez de sua voz vacilando. — Você parece um fantasma, e eu já tenho fantasmas demais me assombrando.
Sem esperar por uma resposta, Malfoy cruzou a soleira e desapareceu na escuridão dos corredores, seus passos rápidos ecoavam com urgência.
Hermione deixou os ombros caírem, segurando a borda da mesa. Pensou nos pais. O mundo trouxa os havia levado em um piscar de olhos, e agora, o mundo mágico ameaçava ruir sob o peso de uma abominação que subvertia a própria vida.
Ela guardou o frasco recém-coletado, olhou para o espécime preso à maca, o que antes era uma bruxa, uma pessoa, reduzido a um monstro, e notou que não estava pronta.
Mas precisava estar quando o horror engolisse o mundo.
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