O Apocalipse do Sangue | Dramione
7 Eᴄᴏs ᴅᴀs Tʀᴇᴠᴀs
Notas iniciais

O subsolo de Borgin & Burkes cheirava a poeira de séculos e magia estagnada. Entre armários sumidouros quebrados e crânios de criaturas extintas, Hermione e Draco finalmente encontraram o que procuravam: um tomo encadernado em pele de testrálio, cujas páginas de pergaminho escuro pareciam pulsar com uma energia fraca.
O Livro da Putrefação da Alma.
De volta ao laboratório do Ministério, as engrenagens da mente de Hermione trabalhavam a uma velocidade vertiginosa. Ela passou as últimas horas cruzando os dados do feitiço necromântico com as análises químicas do vírus mágico. Eles estavam praticamente sem dormir, sustentados por poções revigorantes e pura adrenalina.
Theo ajudava como podia, decifrando notas de rodapé do tomo e organizando os frascos de teste antes que o cansaço o vencesse. Harry, por sua vez, mal pisava ali; estava trancado na sala de coordenação com os membros remanescentes do Ministério, tentando manter uma linha de comunicação mágica instável com Hogwarts, que agora servia de principal refúgio para os sobreviventes. A escola deixou de ser uma instituição e passou a ser o único santuário seguro para todo o sul da Grã-Bretanha.
No fim, Theo precisou ir para junto de Harry, pois tinha de explicar o que tinham descoberto até o presente momento sobre o surto para os membros do Ministério, um parecer mais técnico. Sobraram apenas Hermione e Draco no laboratório.
A exaustão pesava em seus ombros, mas a presença constante de Draco no canto da sala, movendo-se em silêncio para ajustar os queimadores ou trazer novos pergaminhos sem que ela precisasse pedir, criava um ritmo novo entre eles. Não havia mais a barreira ácida da adolescência; em seu lugar, ergueu-se uma dinâmica de absoluto respeito e apoio mútuo que Hermione, secretamente, começara a valorizar mais do que imaginava.
Ele foi até o canto do laboratório, onde um pequeno feitiço de aquecimento mantinha uma chaleira improvisada, despejou o líquido escuro em uma caneca e caminhou até a mesa dela, deixando-a ao lado dos pergaminhos.
— Beba — ele ordenou baixinho. — Suas mãos estão tremendo tanto que a caligrafia está parecendo runas antigas deformadas — comentou de forma sarcástica para disfarçar outro sentimento que nenhum dos dois queria nomear.
Hermione olhou para a caneca e depois para ele. Havia um cuidado naquela ação que não vinha com segundas intenções, apenas com a pura e sólida preocupação de um parceiro que se recusava a deixá-la desabar. Ela segurou a caneca, sentindo o calor invadir seus dedos gelados.
— Obrigada — ela disse, sincera.
Ele apenas assentiu, encostando-se na beirada da mesa. Hermione tomou um gole, observando-o de relance. A mente dela, anestesiada pelo sono atrasado, finalmente processou o homem que ele se tornara. O garoto pálido e de traços pontiagudos que ela conhecera em Hogwarts havia desaparecido por completo. Em seu lugar, diante dela, estava um homem imponente, cuja beleza aristocrática parecia ter sido esculpida pela própria gravidade dos anos de isolamento. O maxilar era marcado, a pele alva contrastava com a sombra clara da barba por fazer, e os olhos cinzentos carregavam uma profundidade magnética, quase hipnótica.
Ele se tornara um homem extraordinariamente bonito, uma constatação que fez o estômago dela revirar.
Afastando os pensamentos sobre a aparência dele, Hermione limpou a garganta, pousou a caneca quente de volta na mesa, deixando que o calor residual do metal continuasse a contrastar com o arrepio que subia por sua espinha, e puxou o pergaminho para o centro da mesa, focando sua atenção nas equações mágicas estruturadas. Nos últimos dias, o pragmatismo dele havia sido a única parede firme contra o colapso de sua própria sanidade. Hermione se pegou admirando a resiliência dele. O senso de proteção que ele dedicava inconscientemente a ela a fazia se sentir segura, mesmo em meio àquele apocalipse.
Ele não tentava poupá-la do trabalho; ele trabalhava com ela, uma parceria legítima, construída no limiar do fim do mundo.
Desde que a busca começara, Draco saíra apenas uma vez para a linha de frente, convocado às pressas para conter uma brecha de criaturas que ameaçava o nível inferior. Hermione passou cada um daqueles minutos com o estômago contraído de ansiedade, incapaz de focar. Quando a porta do laboratório finalmente se abriu, o alívio quase a fez desabar. Ele retornou de banho tomado, os cabelos loiros ainda ligeiramente úmidos e vestindo roupas limpas, um cuidado silencioso e deliberado para não trazer o cheiro de sangue e morte para perto dela.
— Você demorou — ela murmurou, a voz entregando a tensão acumulada enquanto inspecionava o corpo dele em busca de ferimentos ocultos.
— Tive que garantir que nenhuma daquelas coisas seguisse meu rastro até aqui — Draco respondeu, a voz arrastada pelo cansaço extremo, mas com um tom sutilmente mais suave ao notar o olhar dela. Ele se aproximou da mesa, verificando a pilha de pergaminhos ao lado dela.
— Estou inteiro, Granger. Volte a respirar.
Hermione soltou o ar que nem sabia que prendia, assentindo sutilmente antes de voltar sua atenção para o trabalho. Enquanto o silêncio se assentava entre os dois, vozes abafadas começaram a ecoar da sala ao lado. A porta estava entreaberta, e Hermione e Draco reconheceram o tom grave de Harry e a exaustão na voz de Theo.
— ...no último relatório de Minerva — a voz de Harry flutuou pelo corredor —, diz que as barreiras antigas de Hogwarts foram reforçadas com magia de sangue dos professores.
— E as defesas estão aguentando os infectados? — Theo perguntou.
— Por enquanto, sim. O castelo está isolado por uma cúpula de proteção — Harry explicou. — É o lugar mais seguro que nos resta. Mas eles não vão conseguir conter as hordas na Floresta Proibida para sempre. Precisamos de uma luz, da cura, e precisamos agora.
No laboratório, Hermione trocou um olhar cúmplice e carregado de urgência com Draco. Ela sabia que Harry não a estava pressionando, mas o peso do mundo parecia ter dobrado de tamanho sobre os ombros dela. Ela voltou a focar nos pergaminhos com uma determinação renovada.
A revelação veio com a primeira luz do amanhecer. Não era apenas uma infecção; o feitiço original exigia um catalisador biológico para se espalhar: o sangue de um bruxo que tivesse morrido em estado de negação absoluta da própria morte, um receptáculo de ódio eterno, alguém cuja magia tivesse entrado em colapso no momento exato da morte.
Voldemort.
O surto não era um acidente; era o eco tardio da guerra, uma semente maldita deixada para trás nos locais onde o sangue dos Comensais da Morte havia tocado a terra.
Hermione largou a pena, com as mãos tremendo. Ela olhou para as anotações na mesa. Para neutralizar a necrose, precisava de um antígeno, uma amostra de sangue de alguém que tivesse sido exposto diretamente à magia de Voldemort, que tivesse sobrevivido à Marca Negra, mas cujo núcleo mágico tivesse se regenerado através de um arrependimento verdadeiro. O arrependimento, na magia antiga, era o único processo capaz de reverter a putrefação da alma.
Ela precisava de Draco, pois percebeu, com esses dias de convivência, que ele se arrependia de suas ações. Não houve necessidade de pedidos de desculpas pelos anos de bullying na escola ou por seu papel na guerra, na qual fora obrigado a fazer parte.
Ele se tornou a arma do Ministério como penitência, uma forma de expiação. Agora ela conseguia ver, sob as nuances que ele apresentava para o mundo, que ele, assim como ela, nunca fizera parte do lado vencedor. Ambos estavam no limiar, ansiando por descanso, por paz.
A voz de Draco cortou o silêncio do laboratório, trazendo-a de volta ao presente.
— Você descobriu — ele disse, não como uma pergunta, mas como uma constatação.
— É o seu sangue, Draco — ela disse, usando o primeiro nome dele pela primeira vez na vida. O som do nome dele na voz dela fez o Sonserino travar instantaneamente, cortando a própria respiração enquanto as pupilas se dilatavam, fixando-se nela com intensidade.
— A Marca Negra na sua pele foi o ponto de ancoragem para a magia dele, mas você sobreviveu, você mudou. Seu núcleo mágico foi reestruturado; o seu sangue tem os anticorpos mágicos que podem neutralizar a infecção.
Ele não parecia surpreso, nem assustado. Havia apenas uma aceitação sombria em seu rosto.
— Quanto você precisa? — ele perguntou, começando a desabotoar a manga da túnica, revelando o antebraço esquerdo onde a Marca Negra residia, agora uma cicatriz acinzentada e sem vida.
— Muito — Hermione sussurrou, aproximando-se. — Vai doer. O processo de purificação vai exigir que eu ligue o meu núcleo mágico ao seu para estabilizar a extração. Se eu falhar, a necrose da Marca pode se espalhar para mim e...
Antes que ela pudesse terminar a frase, ele olhou para o rosto dela, com os olhos profundos e cheios de um fervor que parecia queimar a distância entre eles. Ele estendeu a mão e segurou o pulso dela, puxando-a para perto, com firmeza, mas sem um pingo de brutalidade, até que seus corpos quase se tocassem.
— Você entendeu o que eu disse lá no beco, Granger? — A voz dele era um sussurro rouco, carregado de todo o subtexto que vinha se acumulando entre eles.
— Eu não dou a mínima para este mundo, não dou a mínima para o Ministério ou para a Ordem. Mas eu dou a mínima para você. Se você se infectar por minha causa, eu juro por Merlin que deixo esse lixo de cidade queimar até as cinzas.
Hermione sentiu as lágrimas que guardou desde a morte de seus pais — ou mesmo antes, quando eles não lembravam de que tinham uma filha — finalmente ameaçarem cair. Mas elas não eram de tristeza; eram de uma avassaladora compreensão. Ela olhou para os detalhes do rosto dele, tão perto, e percebeu que o sentimento que vinha cultivando silenciosamente, o carinho quase assustado que surgiu na convivência, a amizade sólida e crua que se formara diante da desgraça, havia quebrado as últimas barreiras de sua racionalidade.
Ela gostava dele.
Precisava dele, não apenas como o doador da cura, mas como o aliado e companheiro que entendia suas cicatrizes sem que ela precisasse dizer uma única palavra. Era um porto seguro que ela nunca imaginou encontrar logo nele.
Mas no instante exato em que essa verdade cristalizou em seu peito, um pânico gelado e antigo a sufocou. Uma voz cruel em sua mente a lembrou de que ela sempre perdia tudo o que ousava gostar: perdera a infância, perdera os pais para o esquecimento forçado, depois para sempre, perdeu amigos na guerra e agora via o mundo desmoronar. Gostar e amar, para ela, haviam se tornado sinônimo de condenação. Assustada, ela empurrou o sentimento à força para o fundo de sua mente, recusando-se a pensar ou dar nome àquela linha que acabara de cruzar.
— Eu não vou falhar, Draco — ela respondeu, com a voz firme. Seus dedos subiram timidamente pela gola da túnica dele, tocando-o em um gesto de aceitação mútua e apoio inabalável. — Porque eu preciso que você continue vivo. Comigo. Para vencermos isso, como os parceiros que nos tornamos.
Draco soltou um suspiro, com a rigidez que mantivera por anos cedendo sob a sinceridade e o toque dela. Ele inclinou a cabeça para a frente, a respiração misturando-se à dela no espaço ínfimo entre seus rostos. Ao encarar as pupilas castanhas dela e ver o reflexo de sua própria fragilidade ali, a mente dele oscilou, ele admirava cada traço de teimosia e genialidade daquela bruxa de uma forma que nunca sentiu por nenhum outro amigo ou aliado antes.
Ela havia se transformado no único ponto fixo de sua existência caótica.
A urgência de protegê-la não vinha mais do dever ou do remorso; era um impulso visceral que desafiava toda a sua criação. Era uma devoção protetora tão cega que, no calor daquele momento, um pensamento estranho e totalmente inédito cruzou sua mente: a vontade súbita de puxá-la ainda mais para perto e quebrar a distância restante em um beijo, apenas para ter a certeza absoluta de que ela continuaria ali, viva e real, sob sua guarda, e que pertencia àquele espaço seguro que criaram juntos.
O pensamento o assustou.
De onde caralhos veio isso?
Ele se questionou internamente, com a lógica Sonserina agindo rápido para enterrar o impulso. Ele não estava apaixonado, convenceu-se disso imediatamente. Era apenas o cansaço extremo sabotando seus filtros, a adrenalina se misturando à profunda gratidão que sentia por ela acreditar que ele era uma pessoa melhor, por não ter desistido dele. Eles eram companheiros agora, talvez amigos, uma dupla improvável que funcionava perfeitamente no caos.
Ele não macularia isso.
Hermione também sentiu o peso daquele silêncio. Os olhos de Draco haviam descido por um breve instante para os lábios dela e, em resposta, a respiração dela falhou por completo, seus próprios olhos traindo seu controle ao caírem fixos na boca dele, ela estava completamente dividida entre o susto da proximidade e uma curiosidade que começou a brotar em seu peito sobre o que aquela tensão significava.
Draco limpou a garganta discretamente e deu um meio passo para trás, quebrando o feitiço do momento e recuperando o controle de sua postura. Um sorriso legítimo, embora tingido por seu habitual sarcasmo defensivo, surgiu em seus lábios pela primeira vez em dias. Ele relaxou os ombros, oferecendo o braço com a Marca de forma definitiva.
— Então tire o sangue, Granger — ele sussurrou, a voz recuperando a velha rigidez, mas com um brilho de cumplicidade inédito nos olhos cinzentos. — Vamos salvar essa porra de mundo primeiro para que, quando tudo isso acabar, eu possa te levar para jantar em um lugar decente. Um que não cheire a cadáver e onde os garçons não nos veem como refeição. Acho que eu te devo pelo menos isso.
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